domingo, 21 de julho de 2019

OLHAR AS CAPAS


Escritos de Juventude

Albert Camus
Prefácio: Paul Viallaneix
Tradução: José Carlos Gonzalez
Capa: Infante do Carmo
Livros do Brasil, Lisboa s/d

Os homens constroem as suas vidas sobre a velhice. A essa velhice eivada de coisas irremediáveis querem proporcionar a ociosidade que os deixa indefesos. Querem chegar a contramestres para se reformarem num chalezinho. Mas uma vez atingida a idade sabem que isso é falso. Precisam dos outros homens para se protegerem.
É nos homens que o homem se refugia. E aquele que se proclama o mais solitário, o mais anarquista, é precisamente aquele que mais arde por se mostrar aos olhos do mundo. O que conta são os homens. As gerações sucedem-se, começam e acabam umas nas outras, nascem para morrer e renascer. Um dia, uma velha sofreu. E daí? O seu destino não apresenta senão um interesse restrito. Ela própria não confia senão no homem. Deus de nada lhe serve, a não ser para afastar dos homens e para a deixar sozinha. Ela não quer isso. Ela chora.
Um homem, uma velha, outras mulheres falaram, e as suas vozes apagam-se lentamente, progressivamente, abafadas pelo clamor universal dos homens, que bate com força. Como um coração presente em toda a parte.

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