domingo, 21 de agosto de 2016

POSTAIS SEM SELO


O passado é um sítio muito perigoso.

Dulce Maria Cardoso

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Há mais cinema nas séries de televisão americanas do que nas salas. Grandes histórias, grandes argumentistas, grandes actores. Muitos adultos não estão interessados em ir a um filme onde se come, onde há barulho de pipocas e o sorver do fim da Coca-Cola, mensagens de telemóvel, e-mails... Não estão para isso! Portanto, não vão, ficam em casa. O cinema passou a ser um entretenimento. Deixou de ser uma sala escura, quase uma missa onde se celebrava, apagavam-se as luzes, as pessoas ficavam todas muito caladinhas. No teatro desliga-se o telemóvel e não se come. Por que hão de comer no cinema? E tudo porque o cinema é um negócio. Num bilhete de cinema, uma distribuidora ganha dois euros, o exibidor ganha um ou dois. Mas ganham na pipoca e na Coca-Cola! Querem filmes onde se possa comer e beber. E eu não sei fazer isso.

João Botelho

SEGUNDA «POESIA DE PAREDE»


Em Maio de 1967 o poeta soviético Evtuchenko esteve em Portugal.

Aquiaqui e aqui, há pormenores sobre essa historieta.

Muitos de nós embarcámos no canto de sereia.

José Gomes Ferreira foi um dos que não foi em cantigas.

Exactamente em 1967, José Gomes Ferreira entendeu escrever poemas no quarto do filho Alexandre.

Escreveu apenas duas poesias incluídas em A Poesia Continua.

E anotou:

A segunda criticava um bom poeta soviético, então de visista a Portugal – Ievtuchenko – que caíra, por inadvertência ou ignorância dos truques fascistas, na armadilha de se deixar fotografar por debaixo de um galo, espécie de brasão do S.N.I. Não pôde com certeza evitá-lo, o poeta.

É este o poema:

Meu filho, queres saber
porque recusei fazer o papel de paisagem
e não entrei no elenco
da farsa que houve aí de homenagem
a Ievtuchenko?

Primeiro: porque já estou velho para pagem.
Depois, porque quase chorei quando vi
que foram fotografá-lo
debaixo do galo
do S.N.I.

Ah! Ievtuchenko,
que pensarão das tuas fotografias
e desse galo torto
(que tão bem te define)
as raivas do coração fundo
dos presos de Caxias!

E Lenine?

Que pensará o camarada Lenine
que - sabias? -
até depois de morto
fez a revolução no outro mundo?

Conclusão, meu rapaz:
nunca queiras ser cartaz.

DO BAÚ DOS POSTAIS


Lisboa.
Largo do Carmo em outros tempos.

sábado, 20 de agosto de 2016

POSTAIS SEM SELO


Ah, como dói viver quando falta a esperança.

Manuel Bandeira em Obras Poéticas


Legenda: fotografia de Herbert Maeder

QUOTIDIANOS


Passagem dos concorrentes da 29ª Volta a Portugal em Bicicleta na Ponte, recém inaugurada.
Cumpria-se a 15ª etapa entre Lisboa e Estremoz que veio a ser ganha por Leonel Miranda do Sporting.
Esta 29ª Volta teve um percurso total de 2.341 quilómetros divididos por 21 etapas.
A Volta seria ganha por Francisco Valada do Benfica com 64 horas, 38 minutos e 36 segundos.
O Benfica também ganhou por equipas, seguido do Porto, do Tavira, do Sporting, da Cedemi, da Flandria e do Sangalhos.
Sérgio Páscoa do Tavira foi o vencedor do Prémio da Montanha.
Estes eram os tempos em que a Volta a Portugal era um acontecimento nacional.
Hoje, não passa de travesti de volta.

OLHAR AS CAPAS


A Fenda Erótica

Hélia Correia
Capa: João Segurado
Edições O Jornal, Lisboa, Março de 1988

Eu era rapazinho quando Maruja entrou na minha vida. Apareceu a morar com os avós num andar do meu prédio. E era ruiva, via-se que ninguém conseguia domar aquela imensa rama de cabelos que chispava, feroz, em torno da pele melada e dos olhos muito azuis. Usava golas brancas, quadradas sobre as costas, de modo a por assim exibir prova das suas ascendências marinheiras. O pai, contava ela, morrera num naufrágio, deixara-se afundar com o navio. E ela própria já dera a volta ao mundo. Sobre a mãe não falava e, como tinha o dom tão raro nas crianças de inspirar confiança e esfriar tentativas de mais intimidade, nunca nenhum de nós lhe perguntou por ela. À Maruja, as perguntas que podiam fazer-se eram sobre piratas ou ruelas chinesas – jamais sobre a família ou hábitos domésticos.

O FAROL CHAPMAN


O Sol pôs-se; o crepúsculo desceu sobre as águas e surgiram luzes ao longo das margens. O farol Chapman, uma engenhoca de três pernas erguida num baixio lamacento, brilhava intensamente. Luzes de navios moviam-se no passo navegável – um grande vaivém de luzes para cima e para baixo. E para oeste, a montante, o local da cidade monstruosa continuava sinistramente assinalado no céu: uma caligem ensimesmada à luz do Sol, um clarão lívido sob as estrelas.


Legenda: pintura de Harry Russell

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

POSTAIS SEM SELO


O tempo, neste caso, não é uma medida. Um ano não conta, dez anos não são nada. Ser artista é não contar, é crescer como a árvore que não apressa a sua seiva, que resiste, confiante, aos grandes ventos da Primavera, sem temer que o Verão possa não vir. O Verão vem. Mas só vem para aqueles que sabem esperar, tão calmos como se tivessem na frente a eternidade. Aprendo-o todos os dias à custa de sofrimentos que bendigo: a paciência é tudo.

Rainer Maria Rilke em Cartas a um Poeta

O HOMEM QUE SEMPRE CALÇOU BOTAS


Primeira página do Notícias de Portugal, 20 de Agosto de 1966, boletim semanal de propaganda da ditadura.

A fotografia mostra o general França Borges, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, a entregar a Salazar a medalha de gratidão da cidade.

A história regista que Salazar nunca foi um entusiasta da construção da Ponte Sobre o Tejo.
Nota-se-lhe o ar de frete a receber a benesse.

Mas o regime entendeu que teria de existir mais uma vassalagem ao ditador.

A medalha foi entregue no Forte de Santo António da Barra, em S. João do Estoril, local que Salazar sempre escolheu para passar alguns dias de férias.

Foi neste forte que Salazar, no dia 3 de Agosto de 1968, caiu de uma cadeira, bateu com a cabeça no chão e a ditadura encetava os primeiros dias do resto da sua tenebrosa existência.

UMA MISSA NEGRA


Tirado da badana de Missa in Albis de Maria Velho da Costa

OLHAR AS CAPAS


Missa in Albis

Maria Velho da Costa
Círculo de Leitores, Lisboa s/d

Sabes tu, Ir-me em Guarda, o que é viver dez anios agarrado ao gargalo da Glenfiddich? Todas as mulheres se me lembram fermento de aveia, nem uma pouca de louro para a testa. Caçadoiras caçantes. E dizia eu, no posfácio de Z., que, matar-me: nem aos poucos, nem aos muitos.
É meio-dia e meia Jack Daniels. O esmalte foi-se. Fiquem os dedos. Maria S.: Você tem pouca paciência com os meus lutos. Qual Imogen:
«Perder duas misses escrevedoiras é azar; três é desleixo, Aleixo.» Parafraseava; simile modo me pôs a escavadoira Royal ladeada de cravos verdes. Eu? de Óscar Selvagem? A ideia há-de haver de ter vindo de mano Salvador: - Aleixo, tanta força para rimar com desfecho. «Quem não pode arreia», disse-lhe eu como se nele isso não fosse um hábito; professor monge, o sacana: ter tudo. ‘Pera aí, Belinha. Pois «Quem não tem competência não se estabelece», dixit chulo à puta-atraso-vida.
Aprendi, tarde. Lisboa esmaga quando não esborrata.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

POSTAIS SEM SELO


Um imenso fastio de tudo.
Basta de palavras. Um gesto. Não escreverei mais.

Últimas palavras de Cesare Pavese em Ofício de Viver.
Palavras escritas no dia 18 de Agosto de 1950.
No dia 27, suicidou-se.

OLHAR AS CAPAS


Buridan

José-Augusto França
Capa: Paulo Sousa sobre óleo de Vespeira
Quetzal Editores, Lisboa, 2002

- O Sebastião está como aquele burro da fábula, do Buridan, sabe? (o Mota não entendeu sequer o nome), que tinha fome e sede e não foi capaz de se decidir pela comida ou pela água que lhe ofereciam. E morreu à míngua…

A DEFESA DAS ESPÉCIES


Tal como ficou prometido em AH!... AS ABÓBORAS!...

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

NOTÍCIAS DO CIRCO


AS UTOPIAS TAMBÉM SE REALIZAM


As entrevistas que Baptista- Bastos publicou no semanário O Ponto, fizeram um tempo.
O autor entendeu, muito bem, seleccionar algumas e reuni-las em livro, publicado em Abril de 1984.
São notáveis entrevistas, provavelmente datadas, mas mesmo assim importantes para se ficar a conhecer algumas das personagens que fizeram esse tempo.
São intérpretes: Otelo, Manuel da Fonseca, António Victorino d’Almeida, João Camossa. Fernando Lopes-Graça, Artur Correia. Lucas Pires. António Arnaut, Maria João Seixas, Manuel Alegre, Guilherme de Melo, Lena d’Água, Almeida Santos Davis Mourão Ferreira, Helena Roseta, Fernando Lopes, Ary dos Santos, Alexandre O’Neill, Lídia Jorge, José Mário Branco.

Reproduzo a abertura da entrevista a Fernando Lopes Graça,  a que Baptista-Bastos chamou As Utopias Também se Realizam, feita na sua casa, um modesto segundo andar de uma vivenda, na Parede:


OS CROMOS DO BOTECO


Encontrar no Boteco os violinos fantásticos de Felix Slatkin que tocam  Bonanza, Exodus, The Magnificent Seven, Tha Song of Delilah.
Um tempo em que as orquestras estavam na moda: Helmut Zacharias, Mantovani, Frank Pourcel, Percy Faith, James Last, tantas outras
Há muitos e variados exemplos cá pela casa.
Bonanza, foi uma série, a preto e branco, que fez as delícias da minha adolescência. 
As aventuras no rancho Ponderosa com Ben Cartwright e os filhos: Adam, Little Joe e o gordo Hoss.
Sair de casa para ir ao café da esquina ver o Bonanza.
Poucos tinham televisão, e eram os cafés de bairro que cumpriam a missão de serviço público.


terça-feira, 16 de agosto de 2016

POSTAIS SEM SELO


Primeiro vão-se as memórias, depois as ligações. Ou vice-versa. É assim que se morre.
Luís Januário


Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da imagem.

PAPÉIS DATADOS



O Luiz Pacheco acaba de publicar um livro a que chamou Exercícios de Estilo.

Reúne alguma parte dos seus textos que andam para aí espalhados em folhetos e pedaços de papel, o que só meia dúzia de felizardos consegue apanhar. Esses papeluchos que o Pacheco faz de vez em quando para, como ele diz, dar p’ra bucha. Custam cinco ou dez paus mas a gente dá sempre vintes porque é para o Pacheco. E, por favor não chamem a isto piedade ou caridade.

Luiz José Machado, Gomes Guerreiro Pacheco, nasceu em 7 de Maio de 1925 e espera morrer no ano 2000. Está bem disposto, porque está desempregado. Publicou muitos livros de outros autores. Não se lembra de publicar nada (dele) que prestasse. Escreveu muitas obras e perdeu quase todas. Teve três mulheres, nove filhos e netos, nem conta. Folhetos de sua autoria: Os Doutores, e o Menino e a Salvação, Carta Sincera a José Gomes Ferreira, O Teodolito, Os Namorados, o Cachecol do Artista. Teve 18 valores na admissão. O Urbano teve 12.

É altura de muito boa gente inclinar-se sobre a prosa livre, louca e viva do Pacheco. Tomarão contacto com um dos homens mais interessantes destes dias que aqui se vivem.

Não sei nada. Duvido de tudo. Desci ao fundo dos fundos, lá, onde se confunde a lama com o sangue, as fezes, o pus, o vómito; fui às entranhas da Besta e não me arrependo. Nada sei do futuro, e o passado quase esqueci.

O livro custa setenta paus. O Pacheco também já vende caro. Mas esqueçam isso pois vale bem a pena o dinheiro gasto. Temos andado todos a (fazer por) esquecer o Pacheco. É altura de o descobrirmos (?) e ao seu humor louco e rebelde – isto de adjectivos no Pacheco até parece heresia – para que daqui a uns anos não se ter remorsos  e raiva por ignorarmos este tipo que é gente grande e dá pelo nome de Luiz Pacheco.

Mas Pacheco é principalmente, para muita gente, um péssimo exemplo de se ser escritor!... escreveu Serafim Ferreira

A gente vê no Pacheco aquilo que não pode ser: por vergonha, ou falta de coragem. Porque há quem não goste do Pacheco. Não por aquilo que ele faz, ou pela maneira como anda vestido, mas sim por aquilo que ele representa.

Perdi os meus livros todos! Perdi muito tempo já. Se querem saber tudo, perdi a honra. Roubei. Sou o que se chama, na mais profunda baixeza da palavra um desgraçado. Sou, e sei que sou.
Mas alto lá! Sou um tipo livre, intensamente livre até ser libertino (que é uma forma real e corporal de liberdade, livre até à abjecção, que é o resultado de querer ser livre em português.

Pacheco está, agora, repleto de malandrice, a espreitar-nos das montras das livrarias.

É proibido não o ler!


(12 de Agosto de 1971)

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

OLHAR AS CAPAS


Histórias, Memórias, Imagens e Mitos Duma Geração Curiosa

Eduarda Dionísio
Círculo de Leitores, Lisboa, Novembro de 1981

Um homem não nasce, nem para ser espezinhado, nem para matar. Um homem não nasce para ser castigado sem razão. Um homem é um homem. Um homem nasce para amar e para lutar, pela justiça, por todos os homens. Um homem vice com outros homens. Um homem que luta, ama. Um homem que luta, ama, ama a lutar. Ir para a guerra colonial não tem nada que ver com a luta nem com o amor, nem sequer com ódio. Carlos assustou-se com o que dizia. A quem dizia? O quê?
Foi chamado à reitoria: - Padre, tenho muita consideração pelo seu valor intelectual, pelas suas qualidades pedagógicas. Penso que os seus serviços aqui deixaram-nos de ser úteis, Padre. Chegou-me aos ouvidos que o Padre apelava à deserção. Aconselho-o a pedir ao Patriarcado mudança de liceu. Se não o fizer, eu faço-o. Penso que seria pior para si, É um conselho de amigo, Padre. Nunca pensei que chegássemos a esta situação.
Em 1966, Carlos partia para França.

domingo, 14 de agosto de 2016

POSTAIS SEM SELO


A gente sente-se não sei como quando sai e vê as mulheres com vestidos de Verão.

Cesare Pavese em Terras do Meu País

sábado, 13 de agosto de 2016

OLHAR AS CAPAS


A História Me Absolverá

Fidel de Castro
Tradução e introdução: Carlos Grifo
Capa: J.C.
Colecção Perspectivas nº 25

Chego agora ao final da minha defesa mas não a acabarei, como os advogados geralmente fazem, pedindo que os acusados sejam libertos. Não posso pedir liberdade para mim enquanto os meus camaradas sofrem na ignominiosa da Ilha dos Pinheiros. Enviai-me para lá, para que me junte a eles e partilhe do seu destino. É compreensível que os homens honestos sejam mortos ou presos numa República em que o Presidente é um criminoso e um ladrão.
Para vós, Meretíssimos Juízes, a minha sincera gratidão por me haverdes permitido exprimir-me, livre de desprezíveis destrições. Não guardo amargura contra vós e reconheço que, em certos aspectos, tendes sido humanos. Sei que o Presidente deste Tribunal. Homem de uma impecável visa privada, não consegue disfarçar a sua repugnância perante o corrente estado de coisas que o obriga a tomar decisões injustas.
Mas um problema mais sério está ainda para resolver nesta sessão: as decisões a tomar quanto ao assassinato de setenta homens, ou seja, quanto ao maior massacre que jamais conhecemos. Os culpados continuam em liberdade e de armas na mão – armas que contìnuamente ameaçam os cidadãos. Se todo o peso da lei não cai sobre os culpados, por causa da cobardia ou do domínio sobre os tribunais, e se, em tal caso, todos os magistrados e juízes se não demitirem, causais-me pena. E lamento a vergonha sem precedentes que recairá sobre o poder jurídico.
Sei que estar na prisão será, para mim, tão duro como alguma vez o foi para alguém, rodeado de ameaças cobardes e perversas torturas. Porém, não temo a prisão, tal como não temo a fúria do miserável tirano que roubou as vidas a setenta dos meus camaradas.
Condenai-me. Isso não importa. A História me absolverá.


Nota do editor: A História Me Absolverá é o texto da alegação dirigida por Fidel de Castro ao Tribunal que o julgou, à porta fechada, após o insucesso da sua primeira insurreição, em 26 de Julho de 1953, contra o regime de Batista.

90 ANOS


Fidel de Castro faz hoje 90 anos.

Recentemente, discursou no encerramento do Congresso do Partido Comunista Cubano:

Em breve, terei 90 anos. Não falta muito para estar como todos os outros. Chega sempre a nossa vez.
Talvez esta seja uma das últimas vezes que falarei nesta sala.,

Os ideais dos comunistas cubanos vão permanecer.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

PALAVRAS EM BUSCA DE MEU PAI, NO ENDEREÇO QUE CALCULO



                                  O meu capital de vida já está gasto e estou a viver
                                   só de crédito. Crédito que o destino me dá por
                                   distracção, por piedade, por curiosidade.

                                                                    Julio Ramón Ribeyro
                                                                     (tradução de Tiago Szabo)

mais dia, menos dia, José,
apareço por aí,
levado, à boleia, pelo alazão da morte.

fiz lista de quase tudo
o que te dará consolo
- um pouco de água azeda,
o cheiro do mar, um rádio pequenino,
laranja de muito sumo e livros do Conrad.

guarda-me um lugar de alma
a dois palmo da tua mão,
por causa do gume da noite
ou do silvo de cada manhã.

e deixa dormir o meu silêncio
com a face pousada no teu ombro,
enquanto, baixinho, a tua voz
chama pelo nome cada lágrima.

por aqui, o que se foi do medo
anda regressado.
coisas de adivinhar, como calculas,
emendas de verso branco no soneto da utopia.

o nosso anjo-da-guarda
está dentro da nossa sombra, disseste-me.
e desenhaste uma asa no molhado da areia.
lembras-te?

Boa noite, meu pai!

Emanuel Jorge Botelho em Resumo: a Poesia em 2011


Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia