terça-feira, 10 de agosto de 2010

AINDA A MORAL...OS BONS COSTUMES...

Corria o ano de 1953, quando a Camara Municipal de Lisboa, fez publicar a Portaria nº 69.035, destinada a aumentar o policiamento em zonas, então, consideradas “quentes”.
Assim:
“Verificando-se o aumento de actos atentórios à moral e aos bons costumes, que dia a dia se vêm verificando nos logradouros públicos e jardins e, em especial, nas zonas florestais de Montes Claros, Parque Silva Porto, Mata da Trafaria, Jardim Botânico, Tapada da Ajuda e outros, determina-se à Polícia e Guardas Florestais, uma permanente vigilância sobre as pessoas que procuram frondosas vegetações para a prática de actos que aventem contra a moral e os bons costumes. Assim, e em aditamento àquela Portaria nº 69.035, estabelece-se e determina-se que o artº 48 tenha o cumprimento seguinte:

1º) – Mão na mão: 2$50
2º) – Mão naquilo: 15$00
3º) – Aquilo na mão: 30$00
4º) – Aquilo naquilo: 50$00
5º) – Aquilo atrás daquilo: 100$00
6º) – Com a língua naquilo: 150$00 de multa, preso e fotografado.”

Foi este o Portugal em que muitos nasceram e cresceram: um repressão de idade média, uma perseguição “àquilo” e “naquilo”.
As escolas, mesmo na instrução primária, eram separadas. Entre rapazes e raparigas uma distinção, uma separação absoluta. Os rapazes na rua, as raparigas olhando através das cortinas das janelas.
O Portugal retratado naquele poema de Alexandre O’ Neill:

“Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!


Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há "papo-de-anjo" que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...”

Já agora por que não continuar, um pouco mais, com O’Neill:

“Você tem-me cavalgado
seu safado!
Você tem-me cavalgado,
mas nem por isso me pôs
a pensar como você.

Que uma coisa pensa o cavalo;
outra quem está a montá-lo.”

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