sexta-feira, 4 de setembro de 2020

THE FAMOUS AND INFAMOUS SLOPPY JOE'BAR - KEY WEST


Como vos contei no último texto, Ernest Hemingway transformou em escritório uma velha cocheira existente nas traseiras da sua casa, e era aí que trabalhava quando se encontrava em Key West.

Junto-vos uma fotografia desse escritório, visto do exterior.


O interior é este que aqui vos mostro em três outras fotografias. O acesso é vedado ao visitante, pelo que as fotografias têm de ser feitas da porta de entrada mas, entre outras coisas, dá para ver a sua máquina de escrever “Royal”, da qual nunca se separava.




A mesa deveria ser um mero apoio, porque Hemingway escrevia quase sempre de pé.

Por norma começava a trabalhar às seis da manhã e ia de enfiada até ao meio-dia.

Se a escrita lhe estivesse a sair bem poderia prolongar o trabalho até às duas da tarde, mas não mais do que isso…

Após uma refeição, a parte da tarde era destinada às pescarias, na companhia dos seus amigos locais.

Depois regressava a casa e, se fosse caso disso, gostava de amanhar o peixe e de deitar as sobras aos seus gatos.

A noite era reservada ao Sloppy Joe’s Bar, cujo proprietário era Joe Russel, o piloto preferido de Hemingway para o seu barco e, por isso, um dos que mais o acompanhavam nas pescarias.


Durante os tempos da “Lei Seca” Joe Russel manteve um “Speakeasy” em Front Street, e foi aí que Hemingway o conheceu, quando lá ia comprar as suas garrafas de “whisky” às escondidas. Entre ambos nasceu uma forte amizade, que duraria até à morte de Russel por ataque cardíaco, em 1941, com apenas 53 anos.

No próprio dia em que a “Proibição” terminou, a 5 de Dezembro de 1933, Joe Russel abriu um novo bar, devidamente legalizado, no nº 428 de Greene Street, que começou por se chamar “The Blind Pig”, e mais tarde “Silver Sleeper”, quando foram realizadas obras de ampliação que incluíram a instalação de um palco.

Por insistência de Hemingway o nome do bar acabou por ser mudado para “Sloppy Joe’s”, inspirado num outro bar com o mesmo nome existente em Cuba.


Como o próprio nome indica, o bar era meio abandalhado, com uma fauna característica que misturava escritores como Hemingwau e Dos Passos, pintores como Waldo Pierce e Henry Strater e velhos marinheiros, pescadores e gente humilde, mas muito, muito bem disposta, segundo consta…

Bebia-se, filosofava-se, evocavam-se epopeias gloriosas em mares longínquos, discutia-se quem pescou o maior peixe, jogava-se, cantava-se e não raras vezes lá surgia uma sempre bem recebida pequena zaragata, com alguns copos e cadeiras pelos ares…

Todos os amigos tinham alcunhas, e foi aqui que Hemingway ganhou a sua de “Papa”. A Joe pôs-lhe a alcunha de “Josie Grunts”, talvez por estar sempre a resmungar...


Gente desta não poderia escapar à sensibilidade de um escritor. Se Joe Russel foi, assumidamente, a inspiração para o personagem de Freddy, o proprietário do bar de “Ter e Não Ter”, outros tê-lo-ão sido também, muito provavelmente, como aquele adorável velho marinheiro interpretado por Walter Brennan que no filme do Hawks anda sempre a perguntar às pessoas se nunca foram mordidas por uma abelha morta...

Hemingway também nem sempre saia muito a direito dessas noitadas…

Uma noite levou consigo um urinol do bar e ofereceu-o à sua mulher, Pauline, como prova do seu grande amor por ela. Pauline não terá achado muita graça mas manteve o urinol no jardim, embora tendo-o transformado numa fonte para os seus gatos. Ainda lá está...

O “Sloppy Joe’s Bar” manteve-se apenas quatro anos na Greene Street.

Em 1937 o proprietário do edifício pediu um aumento da renda semanal, passando-a de 3 para 4 dólares.

Joe Russel entendeu que um aumento de 25% era demasiado e mudou o seu bar umas poucas centenas de metros, para a esquina da Duval Street - hoje a principal rua da cidade – com a Green Street. Pagou 2.500 dólares pelas novas instalações, e nunca mais se preocupou com senhorios…


Mas com a passagem dos anos Key West ganhara fama e começava a atrair novos residentes e visitantes. Chegavam escritores como Tennessee Williams e Truman Capote e políticos como Truman e Eisenhower, e a cidade ganhava outra respeitabilidade.

O novo bar do Joe dificilmente poderia manter as características do anterior e ser tão “desleixado” como ele era, tanto mais que o espaço era maior e deixara de ser tudo ao molhe… Havia uma sala própria para jogo e até uma nova sala de bilhar.


Russel morreu em 1941, como vos disse, e a gestão do bar foi inicialmente assumida pelo seu filho, passando, depois, por diversas mãos até ser vendido em 1978 aos atuais proprietários.

Hoje o “Sloppy Joe’s Bar” está completamente descaraterizado e é uma instituição turística de Key West, com a confusão e a algazarra habituais neste tipo de bares essencialmente turísticos, como poderão perceber através da fotografia que vos envio. Mais do que isso, começa a ser uma verdadeira instituição da Florida, já que dois outros bares com o mesmo nome foram abertos em Treasure Island e em Daytona Beach.


Está aberto 365 dias por ano das 9h00 às 04H00, tem três sessões diárias de música ao vivo, vende todo o tipo de “merchandise” acerca de Hemingway que possam imaginar e todos os anos organiza um concurso para eleger o seu sósia mais perfeito. Estão a ver o estilo…

Para mim estava fora de questão homenagear Hemingway num lugar destes...

Dei comigo a pensar que se Russel mudou o seu bar para o 201 da Duval Street em 1937, altura em que Hemingway andaria por terras de Espanha, e se a partir dessa altura este andou sempre a saltar entre Espanha e Key West, certamente que não teve oportunidade de visitar essas novas instalações com a frequência com que frequentara as anteriores.

No lugar onde inicialmente se encontrava o velho “Sloppy Joe’s Bar”, o mais castiço e o mais frequentado por Hemingway, continuou a existir um bar que desde 1958, data em que foi comprado por um capitão de pesqueiro chamado Tony Torracino, se passou a chamar “Captain Tony’s Saloon”.


Para evocar a memória do autor de “Adeus às Armas” faria muito mais sentido ir beber um copo a este bar do que ir ao barulhento e incaracterístico “Sloppy Joe’s”.

Foi o que decidi fazer, tanto mais que se diz ser este o estabelecimento de bebidas mais antigo da Florida, já que terá sido aberto em 1852.

Mas a sala é muito escura e fotografias de jeito só sentado ao balcão, pelo que vos poupo terem de ver a minha cara...

Tal como tantos outros sítios que já vos mostrei, o “Sloppy Joe’s Bar” integra também, desde 2006, o “National Register of Historical Places”.

PS:

As informações acerca da história do “Sloppy Joe’s Bar” foram obtidas no seu próprio “site”, que por sua vez as recolheu do livro “Sloppy Joe’s – The Tradition Continues”, da autoria de Carol Shauhnessy, a quem roubei a expressão “famous and infamous” do título deste texto.

Texto e fotografias de Luís Miguel Mira..

1 comentário:

Seve disse...

Uma maravilha estes textos sobre escritores!

Obrigado Luís Mira.