quarta-feira, 26 de agosto de 2015

OLHAR AS CAPAS


O Banqueiro Anarquista

Fernando Pessoa
Capa: José Manuel Figueiredo
Colecção Mínima nº 1
Ulmeiro, Lisboa, Abril de 1994

Pois foi este o pro­cesso que eu segui. Meti ombros à empresa de sub­ju­gar a fic­ção dinheiro, enri­que­cendo. Con­se­gui. Levou um certo tempo, por­que a luta foi grande, mas con­se­gui. Escuso de lhe con­tar o que foi e o que tem sido a minha vida comer­cial e ban­cá­ria. Podia ser inte­res­sante, em cer­tos pon­tos sobre­tudo, mas já não per­tence ao assunto. Tra­ba­lhei, lutei, ganhei dinheiro; tra­ba­lhei mais, lutei mais, ganhei mais dinheiro; ganhei muito dinheiro por fim. Não olhei o pro­cesso — confesso-lhe, meu amigo, que não olhei o pro­cesso; empre­guei tudo quanto há — o açam­bar­ca­mento, o sofisma finan­ceiro, a pró­pria con­cor­rên­cia des­leal. O quê?! Eu com­ba­tia as fic­ções soci­ais, imo­rais e anti­na­tu­rais por exce­lên­cia, e havia de olhar a pro­ces­sos?! Eu tra­ba­lhava pela liber­dade, e havia de olhar as armas com que com­ba­tia a tira­nia?! O anar­quista estú­pido, que atira bom­bas e dá tiros, bem sabe que mata, e bem sabe que as suas dou­tri­nas não incluem a pena de morte. Ataca uma imo­ra­li­dade com um crime, por­que acha que essa imo­ra­li­dade pede um crime para se des­truir. Ele é estú­pido quanto ao pro­cesso, por­que, como já lhe mos­trei, esse pro­cesso é errado e con­tra­pro­du­cente como pro­cesso anar­quista; agora quanto à moral do pro­cesso ele é inte­li­gente. Ora o meu pro­cesso estava certo, e eu servia-me legi­ti­ma­mente, como anar­quista, de todos os meios para enri­que­cer. Hoje rea­li­zei o meu limi­tado sonho de anar­quista prá­tico e lúcido. Sou livre. Faço o que quero, den­tro, é claro, do que é pos­sí­vel fazer. O meu lema de anar­quista era a liber­dade; pois bem, tenho a liber­dade, a liber­dade que, por enquanto, na nossa soci­e­dade imper­feita, é pos­sí­vel ter. Quis com­ba­ter as for­ças soci­ais; combati-as, e, o que é mais, venci-as.

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