terça-feira, 13 de outubro de 2020

PARLE FRANÇAIS...! PARLE FRANÇAIS…!!!


Aí por volta dos meus 18 anos, não só por motivos académicos mas também por gosto pessoal, interessei-me bastante pela América Latina e procurei ler o que tinha ao alcance da mão acerca de toda essa apaixonante região.

 Para um jovem dessa idade que se dizia “de esquerda”, Cuba não poderia deixar de ter uma mística e um encanto muito especiais.

Li bastante sobre Cuba, nesses tempos, e ainda me lembro que o primeiro livro que li foi um relato de viagem escrito pelo ator Rogério Paulo e publicado, se não me engano, pela Seara Nova, que se chamava, precisamente, “Um Actor em Viagem”.

 Depois disso, acabei por ter de estudar um pouco mais em profundidade a História de Cuba e da sua Revolução, já que, enquanto estudante universitário de Sociologia, também me propus elaborar alguns pequenos trabalhos académicos sobre esse tema, nomeadamente para essa extraordinária cadeira que se chamava “Movimentos Revolucionários do Séc. XX”…!

 Sabia muito bem, por isso, quem era Nicolás Guillén, quando ele passou por Lisboa em Junho de 1975, andava eu, então, pelos meus 21 anos.

 Como ele iria estar presente na Feira do Livro para assinar autógrafos, apressei-me a ir buscar uma velha antologia brasileira que tinha comprado na livraria “Boa Leitura”, ali para as bandas do Areeiro, e na hora exata aí estava eu na pequena bicha que aguardava o tão desejado contacto com o Poeta.

 Enquanto esperava, deu para perceber que de simpático Nicolás Guillén não me parecia ter nada e levava a cabo a sua missão de rabiscar páginas com um ar que na altura me pareceu ser de indisfarçável frete. Nunca o vi sorrir nem trocar qualquer palavra mais amistosa com quem lhe solicitava o autógrafo, a não ser para lhe perguntar qual o nome a registar…

 Eu tive um pouco mais de sorte, como perceberão…

Chegada a minha vez, entreguei-lhe o livro e disse-lhe que me chamava Luís Miguel.

 O Poeta mirou e remirou o livro, folheou-o com atenção e, no final, perguntou-me onde o tinha comprado.

 Manifestamente, Nicolás Guillén não sabia da existência dessa edição e teria, certamente, gostado de ficar com o meu exemplar se eu, naquele momento, tivesse tido a gentileza de o oferecer, coisa que, lamentavelmente, não fiz… Desculpei-me, depois, para mim próprio, dizendo que, mais tarde ou mais cedo, o livro iria acabar perdido nas enormes estantes da Casa de las Américas, instituição cultural cubana da qual Guillén era o Diretor, mas a verdade é que tão contente fiquei com o meu autografo nesse livro “raro” que quando cai em mim já ia longe e era tarde demais para voltar atrás...

 O pobre do livro já está a cair de velho, mas aqui vos deixo a sua capa e a página com o autógrafo, datado de 28 de Junho de 1975.

 Mas se vos conto tudo isto é apenas para que possam perceber melhor a história que agora vos irei contar.

 Quanto visitei Cuba pela primeira e única vez, em 2015, percebi que a viagem que me tinha sido programada incluiria uma noite em Camaguey, terra natal de Nicolás Guillén, o que me permitiria dar um salto à casa onde o Poeta nasceu, a qual - pensei eu - não poderia deixar de estar transformada num museu em sua honra.

 Uma vez no centro da cidade, não me foi difícil encontrar a casa, mas o maior espanto foi vê-la encerrada e meio abandonada, sem qualquer outra indicação a não ser um pequeno busto que confirmava ser mesmo esse o local do nascimento do Poeta.

 Fiquei absolutamente incrédulo e escandalizado.

 Então era assim que a Revolução Cubana homenageava a memória do seu grande Poeta Nacional, que só ombreava, em prestígio, com José Marti…?

 O Poeta que a apoiou desde o primeiro dia e a cantou, a Cuba e ao Mundo, através de vários poemas memoráveis, como é o caso deste celebérrimo “Tengo”, de 1964, que não resisto a reproduzir aqui, embora ele nos seja, nos dias de hoje, tão doloroso de se ler por sabermos que, afinal, nem tudo foram só rosas no percurso de Cuba, como nele se deixa entender…

 “Quando me vejo e toco,

eu nunca mais João sem Nada

e hoje João com Tudo,

deito os olhos, vejo.

Vejo-me e toco-me

e pergunto como pôde ser.

 

Tenho: - vamos a ver,

tenho o gosto de ir pelo meu país,

dono de quanto nele existe,

vendo bem de perto o que antes

não tive nem podia ter.

Posso dizer: colheita,

Posso dizer: monte,

Posso dizer: cidade,

Posso dizer: exército,

exército, posso dizer,

agora meus para sempre, e teus, nossos,

amplo esplendor

de raio, estrela, flor.

 

Tenho: - vamos a ver,

tenho o gosto de ir

eu, camponês, operário, gente simples.

Tenho o gosto de ir (é um exemplo)

a um banco e falar com o administrador,

não em inglês,

não em senhor,

mas dizer-lhe compañero, como se diz em espanhol.

 

Tenho: - vamos a ver,

que sendo um negro

ninguém me pode proibir

à porta de um dancing ou de um bar.

Ou na receção de um hotel,

gritar-me que não há quarto,

um pequeno quarto e não um quarto colossal,

um pequeno quarto onde possa descansar.

Tenho: - vamos a ver,

que um guarda rural

não m’agarra e fecha na prisão,

nem m’arranca e me expulsa da minha terra

no meio do caminho real.

 

Tenho que, como tenho a terra, tenho o mar,

no country

no high-life,

no tennis, e no yatch,

de praia em praia e costa a costa

gigante azul aberto democrático:

enfim, o mar.

 

Tenho: - vamos a ver,

que já aprendi a ler,

a contar,

tenho que já aprendi a escrever

e a pensar

e a rir.

 

Tenho que já tenho

onde trabalhar

e ganhar

o que preciso para comer.

 

Tenho: - vamos a ver

Tenho o que tinha de ter.”

 Noutros tempos a linguagem poética de Guillén fora mais elaborada e floreada, mas estes eram novos tempos de combate e esta poética mais crua e mais direta era, na altura, a Poesia necessária…

 E ao Poeta que lhe dera, devotadamente, todo este apoio, agradecia o Governo de Cuba mantendo quase ao abandono casa onde nascera…

 Eu nem queria acreditar...

 Desolado, retomei o caminho de regresso ao hotel, na companhia da minha filha Matilde que me acompanhara nesse passeio, imaginando, para mim próprio, teorias da conspiração… Será que, sem que eu o soubesse, Guillen teria caído em desgraça e agora a sua memória pagaria as consequências…? Custava-me muito a acreditar, mas a verdade é que em Cuba escritores caídos em desgraça pareciam ser o pão nosso de cada dia...

 E vinha eu a pensar nisto quando, num pequeno largo, deparo com um casa apalaçada que, como quase tudo em Cuba, aparentava já ter tido melhores dias e reparei que, agora, era uma espécie de Centro Cultural que, à sua porta, anunciava um ciclo de cinema. Li melhor e percebi que estava na delegação local da UNEAC, a União de Escritores e Artistas de Cuba que, por ironia do destino, havia sido criada em 1961 por Nicolás Guillén com o objetivo de unir os intelectuais cubanos em torno dos ideais da Revolução Cubana.

Que aquela nobre instituição se preparasse para organizar um ciclo sobre “O Erostismo no Cinema”, com “O Último Tango em Paris”, “O Império dos Sentidos” e muitos outros não me pareceu nada estranho porque é sabido que para muitos, desde o divino Marquês até George Bataille, o sexo é libertário, e o erotismo “a aprovação da vida até na morte”, na célebre expressão deste último.

 Entrei para bisbilhotar, é claro, tanto mais que me apercebi que algures no interior havia um pequeno bar e já estava na hora da minha cerveja de fim de tarde.

 Não tive sorte nenhuma porque não havia cerveja disponível e só me poderiam oferecer rum, se assim o desejasse. Agradeci, disse-lhes que estava com muita sede e substitui tudo por uma garrafa de água fresca.

 Entretanto, uma das muitas pessoas que se encontravam à conversa numa mesa grande ao fundo da sala levantou-se e aproximou-se de mim, perguntando-me, com um ar simpático e acolhedor, quem eu era e ao que vinha.

 Ele apresentou-se, por seu lado, dizendo-me que se chamava José (esqueci-me do apelido…), era artista tocador de guitarra clássica, e que todos os companheiros que estavam com ele à volta da mesa eram também artistas locais, porque, como eu já tinha percebido, aquela era a delegação local da UNEAC. “Aquele ali mais alto” – apontava ele para o homem que estava à cabeceira da mesa – “é o nosso Presidente”.

 No grupo, segundo me informava José, havia outros músicos, como ele, pintores, escultores, críticos de cinema e escritores, como era o caso do Presidente.3

José disse-me que tinha vivido e trabalhado durante alguns anos em Paris, tendo optado por regressar, há relativamente pouco tempo, ao seu país natal. E brincou comigo com algumas frases em francês, quando eu lhe respondi que trabalhara durante muitos anos numa empresa francesa e que falava quase tão bem francês como português (o que é um manifesto exagero, diga-se em abono da verdade…!)

 Aproveitando o rumo cultural que a conversa tomara, contei-lhe a minha aventura da busca da casa de Nicolas Guillen, manifestando-lhe a minha estupefação por ver assim quase devotada ao abandono e ao esquecimento a casa natal do Poeta de “Buenos dias Fidel!”...

 Falei alto para que ele percebesse bem a minha indignação e para que os outros lá no canto também me ouvissem…

 Enquanto eu falava, José pegava-me no braço e pedia-me para falar francês, dando-me a entender que lhe daria muito prazer recordar essa língua.

 E eu dizia-lhe uma ou duas frases em francês, e depois retomava o espanhol, falando-lhe da quantidade de casas de escritores e outros artistas que já havia visitado por esse Mundo fora, cujo excelente estado de conservação contrastava com o abandono a que havia sido deixada a casa do grande Poeta cubano.

A força com que o José me apertava o braço e me pedia para falar em francês aumentava de intensidade e apercebi-me que a sua expressão facial começava a denotar ares de algum transtorno e de alguma inquietação, que aumentava à medida que outros companheiros se levantavam da mesa e se aproximavam de nós, provavelmente alertados por tantas vezes eu estar a evocar o nome de Nicolás Guillén.

 Parle français!”“parle français!!!”, quase que me gritava ele...

 E só então caí em mim e pensei que esta insistência do José poderia não ter a ver apenas com o seu simples desejo de voltar a ouvir a língua de Victor Hugo …

 A verdade é que ali estava eu armado em parvo, no meio de um grupo de apparatchiks cubanos, a denegrir não só a política cultural do seu Governo, mas também a das próprias autoridades locais…!

 Sem procurar renegar tudo o que tinha dito até então, fiz um autêntico flique-flaque e menti com quantos dentes tinha…

 Disse-lhes que em Junho de 1975, enquanto membro da juventude do Partido Comunista Português, tinha sido uma das pessoas que tinha tido a honra de acompanhar o Poeta durante a sua visita a Portugal.

Vejam bem…! Militante comunista eu, que nem sequer “compagnon de route” sou, embora tenha tido o prazer de ter ido inúmeras vezes à Festa do “Avante!”…!!!???

 Mas continuei, imparável…

Contei-lhes a história do autógrafo do livro, embora lhe tivesse dado o fim feliz que, na devida altura, não tinha tido classe para o fazer. E acrescentei dizendo-lhes que, com grande orgulho meu, meu o livro faria, hoje, certamente parte do espólio do Poeta ou da biblioteca da Casa de Las Américas…!

E, para verem que não mentia, até me referi à personalidade algo carrancuda do Poeta, coisa que pareceu não ter espantado ninguém...

 Para os impressionar ainda mais e para os levar a compreender que eu estava do lado dos “bons”, arranjei pretexto para debitar, algo forçadamente, alguns conhecimentos que tinha acerca da História de Cuba, da sua Revolução e das suas Artes…!

 De Artes Plásticas cubana nada sei e quanto a escritores calei-me, não me fosse sair boca fora o nome de algum dissidente e lá se borraria a pintura toda…!

Por isso, e para grande espanto do crítico de cinema, vinguei-me naquilo que melhor conhecia: o Cinema, claro está…

 Falei-lhe de Tomás Gutierrez Alea, Humberto Solás, Julio Garcia Espinosa, e de filmes cubanos “clássicos” como “Memórias do Subdesenvolvimento”, “Lúcia” ou “Aventuras de Juan Quinquin”. Dos documentários de Santiago Alvarez, Manuel Octavio Gomez, José Massip ou Sara Gómez, tudo coisas que tinha na minha coleção privada e das quais poderia falar com algum conforto.

 O golpe de misericórdia para o critico foi quando chamei Guttierrez Alea pela sua própria alcunha cubana, que, por sorte, conhecia: Titón…

 A reação que ele teve foi idêntica à que eu teria se um dia um chinês chegasse ao pé de mim e chamasse o Vasco Santana de “Zéquinha”…

 O pobre abriu a boca de espanto e terá pensado para consigo: “Ora aparece-me agora aqui, vindo do outro lado do Mundo capitalista, um tipo de calçõezinhos, sandálias de pele, chapéuzinho de palha e óculos escuros a chamar Titón por Titón….!!! Está tudo doido…!

Notem bem que, embora me tenha esforçado bastante por isso, o meu objetivo último não era o de botar boa figura a debitar conhecimentos… Eu queria é que eles percebessem que eu era amigo de Cuba, que não tinha nada contra a política cultural do seu Governo e que os meus comentários acerca da casa de Guillén eram autênticos e não tinham segundas intenções...

 Por sorte, a minha estratégia resultou em pleno.

 O ambiente desanuviou-se e tornou-se, claramente, mais amistoso.

 Por essa altura já eu tinha sido pessoalmente apresentado a todos, incluindo ao Presidente, cujo nome, Sergio Morales Vera, é o único que sei, por motivos que mais à frente perceberão.

Puxaram-se as cadeiras, formou-se um pequeno circulo e falámos.

 José pegou na sua guitarra e tocou-nos uma peça clássica cubana, cujo nome me disse mas esqueci.

 O crítico de cinema aconselhou-me dois livros acerca da História do Cinema Cubano que estava à venda na Delegação e pelos quais paguei um preço simbólico.

 Um dos escultores guiou-me numa exposição de obras suas que estavam abertas ao público, naquele mesmo local.

 Para além de José e do crítico, o Presidente foi aquele que mais falou comigo.

 Disse-me que conhecera Nicolas Guillén há muito tempo e que, de facto, a impressão que me deixara não lhe era estranha, embora me confessasse que, na intimidade, o Poeta era uma pessoa muito mais aberta e divertida do que aparentava à primeira vista.

E explicou-me, igualmente, que havia, desde há muito, um projeto para reabilitação da sua casa, que seria retomado logo que possível, dando-me a entender que naqueles últimos anos as prioridades em Cuba tinham sido outras.

Para conclusão da minha visita ofereceu-me este pequeno livrinho fotocopiado que aqui vos mostro, um livro de contos fantásticos chamado “El Descifrador y Otros Relatos”, muito na linha de Juan Rulfo.

 E, para culminar, fizemos um brinde com rum, tendo eu percebido, pelo sinal que fez em direção ao bar, que não era o da garrafa que estava exposta, mas o da “garrafa especial”…

 Um memorável fim de tarde de convívio que, por estupidez minha, poderia ter corrido mal.

 Despedi-me do José dizendo-lhe que naquela noite iríamos jantar mesmo ali ao lado, na “Casa de la Trova” e perguntando-lhe se aceitaria ser nosso convidado.

Agradeceu muito, mas não apareceu…

 E deixou-me a pensar no seu insistente “parle français!”...

 Quisesse eu dizer mal do Governo cubano, diria que naquele desesperado pedido estava o grito de todo um povo amordaçado…

 Mas nada disso me passava pela cabeça…

 Aconteceu-me estar em Palma Soriano, uma pequena cidade no interior de Cuba, no dia 13 de Agosto, dia em que Fidel Castro fez 89 anos, e houve festa rija no largo. Não me apercebi que alguém lá estivesse a festejar forçado.

 Vi em Cuba gente muito humilde com a felicidade estampada no rosto.

 Mas é claro que também vi gente feliz, com lágrimas…

 Interpreto o alerta do bom do José como o de um intelectual que sabe muito bem que em Cuba há coisas que se podem dizer à vontade, e outras que o bom senso aconselha a que sejam ditas com maior cautela...

 E aprendi a lição.

 A partir daí, bico calado e não mais ninguém ouviu de minha boca qualquer pergunta ou comentário mais inconveniente…!

 PS:

A tradução portuguesa de “Tengo” é de Carlos Pereira e faz parte da Introdução ao livro “O Grande Zoo”, editado em 1973 pela editora Centelha.

 

Texto e fotografias de Luís Miguel Mira

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