terça-feira, 12 de maio de 2026

POSTAIS SEM SELO


Tudo em nosso redor são destroços e, contudo, avançamos pé ante pé para não pisarmos uma silhueta minguante, a nossa pele primordial.

Patti Smith em Pão de Anjos

2 comentários:

Luis Eme disse...

Estou a acabar de ler esta boa literatura, de memória, da Patti, com muito gosto e por adorar a sua liberdade de ser e de escrever.

Sammy, o paquete disse...

Os meus filhos ouviam Patti Smith mas, como se costuma dizer, não era a «minha praia».
Um dia li uma entrevista de Patti Smith e gostei do que disse.
Quando saiu «Apenas Miúdos» não hesitei e começou o encantamento.
Como amiúde me acontece, há coisas que não sei explicar.
Ou como se pode ler em «Devoção»:
«Porque escrevemos?, pergunta em uníssono o grande coro de quem escreve.
Porque não nos podemos limitar a viver.
Porque choras? – pergunta uma voz.
- Não sei – respondo. – Certamente é porque me sinto feliz.
No comboio, continuo a escrever febrilmente, como se tivesse ressuscitado de um mar de recordações. O Alain desvia os olhos do livro e olha pela janela. O tempo contrai-se. Quase sem nos darmos conta, estamos a chegar a Paris. O Aurélien dorme.
Ocorre-me a ideia de que os jovens parecem belos quando estão a dormir, ao passo que os velhos, como eu, parecem já mortos.»
Ou o que se pode ler em «M Tain»:
«As coisas que perdemos choram por nós? As ovelhas elétricas sonham com Roy Batty? Será que o meu casaco cheio de buracos se vai lembrar dos momentos maravilhosos que passámos juntos? Dormir em autocarros de Viena a Praga, noites na ópera, passeios junto ao mar, o túmulo de Swinburne na Ilha de Wight, as arcadas de Paris, as cavernas de Luray, os cafés de Buenos Aires. Uma experiência humana entrelaçada nos seus fios. Quantos poemas sangram das suas mangas esfarrapadas? Distraí-me dele por um momento, atraída por outro casaco mais quente e mais macio, mas de que eu não gostava muito. Porque perdemos as coisas que amamos e coisas que nos são indiferentes se agarram a nós, podendo tornar-se, depois de morrermos, símbolos de valor que tivemos.»
Ou a frase de Antoine Artaud que colocou, como epígrafe em «O Ano do Macaco»
«Abate-se sobre o mundo uma loucura fatal.»
Um velho vício: perguntam-me as horas, começo a dizer como se fazem os relógios na Suiça.
Abraço.