segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

CAMÕES E A TENÇA

        Irás ao paço. Irás pedir que a tença

     Seja paga na data combinada

     Este país te mata lentamente

     País que tu chamaste e não responde

     País que tu nomeias e não nasce

 

     Em tua perdição se conjuraram

     Calúnia desamor inveja ardente

     E sempre os inimigos sobejaram

     A quem ousou mais ser que a outra gente

 

     E aqueles que invocaste não te viram

     Porque estavam curvados e dobrados

     Pela paciência cuja mão de cinza

     Tinha apagado os olhos no seu rosto

 

     Irás ao paço irás pacientemente

     pois não te pedem canto mas paciência

 

     Este país te mata lentamente

 

Sophia de Mello Breyner Andresen de Grades em Poesia 70

domingo, 12 de fevereiro de 2023

DITOS & REDITOS



 

O valor das pequenas coisas.

Quem se deita sem ceia, toda a noite rabeia.

Há muitas formas de "engulhar" o caminho…

Escorregar da caixa é melhor do que estar sempre lá dentro.

Na superfície das coisas vê-se a essência das coisas.

A repetição é apanágio da velhice.

Não decidir é uma forma de decidir.

Um comboio pode esconder outro.

VELHOS RECORTES


Tanto quanto possa saber, as crónicas que o Fernando Assis Pacheco escreveu nos anos 60 no Diário de Lisboa. Por esse tempo nesse jornal todos os redactores , na página 3, escreviam  uma crónica, crónicas lindíssimas de um quotidiano cinzento e triste.

A editora Prelo, em 1968, publicou O Homem Na Cidade, com um prefácio de Mário Sacramento, que reúne algumas crónicas do Diário de Lisboa escritas pelo Pedro Alvim, Manuel de Azevedo, Manuel Beça,  Mário Castrim, Félix Correia, Joaquim Letria, Torquato da Luz, Luís d’Oliveira Nunes, Fernando Assis Pacheco, José Carlos de Vasconcelos.

Esta do Assis Pacheco, que encontrei num velho e desconjuntado dossier, não está em O Homem Na Cidade.

Mas é bonita de ternurenta, daqueles quotidianos cinzentos e tristes. 

sábado, 11 de fevereiro de 2023

NOTÍCIAS DO CIRCO

Segundo o Público de ontem, o social-democrata Dias Loureiro, ex-ministro de Cavaco Silva  - «Pai, sou ministro!» -  e o socialista António Vitorino  - «Não há festa nem festança onde não entre a Dona Constança», estão a braços com a justiça espanhola.

Por cá, a rapaziada de «bons tons», como estes dois marmanjos, tem passeado pelo pedaço, vivendo à grande e rindo do pagode.

MÚSICA PELA MANHÃ


Jorge Silva Melo tinha um jeito único para escrever obituários, jeito seu, principalmente de artistas com quem tinha trabalhado, envolvendo-os numa beleza que não sei bem definir.

Muitos desses lindíssimos obituários encontram-se nos seus livros Século Passado e A Mesa Está Posta

Sobre a morte do actor Henrique Canto e Castro, em Século Passado - «…e eu sempre gostei dele, da pessoa, e do actor» - Silva Melo vai buscar uma tarde quentíssima de Verão, saídos do São Jorge, onde viram Touro Enraivecido, em que desataram a andar, conversando sobre tudo e mais alguma coisa.

«E a certa altura, o Henrique falou-me do pai, devíamos já estar nos Restauradores, pai médico que não tinha ousado profissionalizar-se como músico, toda a vida hesitante, talvez arrependido, dizia-me o Henrique, mas que toda a vida tocou, e o Henrique e o irmão cresceram com ele a tocar-lhes o Kreisler, o Paganini, mas sobretudo, contava ele, a “Meditação” da Thais de Massenet.

Fui com o Henrique até aos barcos, ele já morava em Almada. E lembro-me que estava de sandálias. E agora que morreu, veio-me logo à memória aquele pai, médico e amador, republicano e culto, hesitante que, num terceiro andar, aos fins de tarde ou aos domingos, tocava a “Meditação”. Podem dizer que é música, sentimental, kitsch, fácil, truque, o que quiserem, que é música que defende o passado, que é música indolentemente reacionária, que é uma piroseira. Mas eu gosto da “Meditação” da Thais de Massenet.. Porque gosto de ti, Henrique Canto e Castro, actor dilacerado num tempo que o não mereceu, gosto desse pai que não ousou ser artista e toda a vida hesitou entre a família e a arte, gosto desses domingos republicanos em que o pai tocava Massenet para os filhos. E gosto de artistas que sabem mais do que os seus botões, e me falam de boxe, violino, pintura ou edições. Não há muitos,»

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

BLOGUEANDO POR AÍ

Bicho Ruim é um blogue de Cristina Fernandes e Rui Manuel Amaral.

Passando por lá, roubei este delicioso pedacinho da autoria do Rui

«Dantes, nos transportes públicos, os tímidos sentavam-se a um canto e abriam um livro para não atraírem as atenções. Agora, abrir um livro no metro é motivo para a carruagem em peso levantar os olhos dos telemóveis e pasmar. Agora, é coisa de pavões.»

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


 Voltar aos Sublinhados Saramaguianos, voltar aos Cadernos de Lanzarote que, apesar de algumas escritas datadas, continua a ser um sítio bom para conhecer facetas diversas de Saramago.

No 2º volume, a páginas 194, um episódio que revela bem as agruras de Saramago face aos críticos, sempre interessados em pormenores cujo único interesse não é a crítica ao autor, antes a sua depreciação literária/política.

O episódio passa-se com o Torcato Sepúlveda controverso, mera opinião pessoal, jornalista do Público:

«Começando por reclamar a reedição de Os Come­diantes de Graham Greene (por causa do Haiti) e de Três Tristes Tigres de Cabrera Infante (por causa de Cuba), Torcato Sepúlveda, da sua tribuna do Público, invectiva os intelectuais portugueses, em particular os escritores, acusando-os de se manterem calados perante os atropelos, erros e crimes das ditaduras de todas as cores, especialmente as que se definiram ou definem ainda pelo uso político-ideológico do vermelho. Depois de assim ter tomado distância para caberem todos no retrato, chega-se à frente e passa a um grande plano: a cara, o nome e o feitio de quem estes Cadernos escre­ve. Diz Torcato Sepúlveda: «Uma ditadura é uma di­tadura, seja ela de esquerda ou de direita. Disso deve convencer-se gente como José Saramago, que tanto cri­tica a Comunidade Europeia, às vezes com carradas de razão. Mas a independência moral exigir-lhe-ia que não poupasse igualmente os amores revolucionários da sua juventude, quando eles se transformaram em burocra­cias estalinistas abjectas. As imbecilidades diplomáticas dos EUA, que atiraram os "barbudos" da Sierra Maestra para os braços de Moscovo, não desculpam conivências com um bolchevismo "caribefío" que cala qualquer voz opositora e arrasta os cubanos, em nome de uma ideo­logia enlouquecida, para a degradação física e mental.»

Lisonjear-me-ia muito pensar que Torcato Sepúlve­da escreveu o seu artigo expressamente para mim (uma vez que não menciona qualquer outro escritor portu­guês), mas, tendo em conta o longe que vivo e o facto de o Público não se vender no aeroporto de Arrecife, sou obrigado a acreditar que o único propósito de Sepúl­veda, além de apelar à mobilização geral da intelectua­lidade portuguesa, foi enfiar-me no pescoço um letreiro com a palavra «desertor». Ora bem, a Torcato Sepúl­veda tenho de informar que, escrevendo ou de viva voz, disse sempre o que pensava dos atropelos, erros e crimes das ditaduras (castanhas, verdes ou vennelhas) e das de­mocracias (brancas, pardas ou azuis) deste mundo. Se ele não deu por isso, azar meu. Mas, uma vez que vem agora falar-me de Cuba (outras vezes foi a União So­viética, outras vezes foi o Diário de Notícias...), dir-lhe­-ei que, apesar dos crimes, dos erros e dos atropelos do que chamam «castrismo», continuarei a defender Fidel Castro contra Clinton, por muito «democrata» que pa­reça um e muito «tirano» que outro pareça. «Por causa da moral», precisamente, como me exige o mesmo Torcato Sepúlveda no princípio e no fim do seu artigo.»

Legenda: paisagem de Lanzarote

PRIMEIRO POEMA DE DESVERSOS

Trinta anos depois continuo revoltadíssimo
Vª Exª foi de uma grande falta de chá
nem eu precsava de Angola - nunca!
nem Angola de mim - o que hoje parece claro

Vª Exª argumentava nos corredores
que eram ordens do dr. Salazar
ora adeus mandasse-o mas é a ele
tinha bom corpo para apanhar porrada

e mesmo Vª Exª podia ter feito
uma perninha como eu fiz em Zala
não sou de rancores nem pouco mais ou menos~
mas aquela merda estava mesmo parada

sabe Vª Exª o pasmo e a aflição
quando se caía em alguma emboscada?
umas vezes olhava pelo rabo do olho
outras fingia de morto e mijava-me

depois voltava-se ao acampamento
para a ternura dos cães e a tarimba rasa
um duche ao ar livre um cigarro infeliz
o gole de cerveja a atirar para o amargo

houve um fim de dia entre todos cinzento
que eu me senti o maior dos miseráveis
funesta ideia - e fui a correr esconder
a arma de serviço por sinal uma Walther

a esta hora já enterraram Vª Exª
com as competentes honras militares
mas a verdade é sempre para se dizer
trinta anos passados não me esqueço de nada

 

                                          Lisboa, 24/25-X-94

Fernando Assis Pacheco em Respiração Assistida

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

POSTAIS SEM SELO


 Viver é sobreviver ser gota de água nas mãos do mar, é saber morrer a seus pés sob o olhar dum deus que atravessa absoluto a palavra do espaço.

Armando Silva Carvalho em O Que Foi Passado a Limpo.

OS COMBOIOS NÃO DEIXARIAM DE PASSAR

«Talvez eu pudesse ouvir passos à porta do quarto, passos ligeiros que estacariam, enquanto a minha vida, e toda a vida, se suspenderia. Eu existiria então vagamente, alimentado pela violência de uma esperança, preso à respiração obscura respiração dessa pessoa parada. Os comboios não deixariam de passar. Estaria a pensar nas palavras do amor, naquilo que se pode dizer quando a extrema solidão nos dá um talento inconcebível. O meu talento na verdade seria o máximo talento do homem e devia reter, só pela sua força silenciosa, essa pessoa que estava em frente da porta, a poucos centímetros, à distância de um simples movimento caloroso. Mas, nesse instante, ser-me-ia revelada a verdadeira crueldade do espírito humano. É que eu penso que não desejaria nada mais do que a presença incógnita e solitária dessa pessoa atrás da porta.»


Herberto Helder em Os Passos em Volta

NOTÍCIAS DO CIRCO

Quando era miúdo - ao tempo que isso foi! -  falava-se de algo, aplicado a muitas e variadas coisas, como «negócios da China».

Qualquer coisa como saber hoje, notícia do jornal Público, que terá sido a própria TAP, com capital público, e não o consórcio privado formado por David Neeleman e por Humberto Pedrosa quem suportou o custo da capitalização da companhia no âmbito da privatização, nomontante de 226,75 milhões de dólares (211,15 milhões de euros ao câmbio actual), e que constituíram o pilar do negócio.

Que fazem os conselhos de gerência da TAP?

Que fazem os delegados, ou o que lhes chamam, que o governo coloca na TAP?

É tão triste, tão desesperante (re)confirmar que isto é um país de lorpas, de oportunistas, de corruptos, gente que não se lava todos os dias.

Ou como diria  a Alexandra Alpha:

«Isto não é um país, é um sítio mal frequentado» 

POEMA

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado


nem na polpa

dos meus dedos
se ter formado o afago


sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras


sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado


minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda


Maria Teresa Horta em Poesia 70

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

DOS REBOTALHOS E COISAS ASSIM


A ministra Ana Catarina Mendes, referindo-se ao incêndio que ocorreu num prédio na Mouraria em que morreram dois imigrantes asiáticos, 14 feridos e 22 ficaram desalojados, disse:

«As medidas do Governo para evitar que acontecimentos como este passam por um reforço na política de integração, que tem a ver com as dimensões da habitação e da inclusão no mercado de trabalho. Estas questões estão contempladas na nova lei de estrangeiros que foi aprovada no início desta legislatura, para facilitar os vistos e para garantir que a imigração é legal e segura, combatendo também o tráfico de seres humanos».

Palavras, palavras e apenas palavras.

O governo nada tem feito, que se veja, pela protecção aos trabalhadores imigrantes que acolhe. Não podemos esquecer o que se passa nas explorações agrícolas um pouco por todo o país.

O SEF- Serviço de Estrangeiros e Fonteiras existe? Ou ainda está em reestruturação?

O governo consegue encontrar e perseguir as máfias que controlam este tráfico de seres humanos, em completo desrespeito pela dignidade dos que procuram outros países para tentarem um possível futuro?

Os serviços de emigração não conseguem – ou não querem! – desburocratizar,  agilizar, a obtenção de autorização de residência e trabalho dos imigrantes. A corrupção espreita em cada secretária das respectivas repartições.

Quando Fernando Assis Pacheco, em pleno cavaquismo, foi mandatário da candidatura do PSR, declarou:

«Às vezes os jornais trazem histórias de um país fabuloso, onde se viveria no melhor dos mundos, tendo um bondoso Governo por guia. São histórias para camelos.»

É isso. 

Os discursos dos governantes, dos autarcas são mera propaganda, meras histórias para Camelos!

1.

O Presidente visitou nepaleses em Olhão e pede-lhes desculpa pelas agressões de que foram vítimas.

«Como é que nós não compreendemos o que os outros sentem cá?» 

2.

Na Mouraria, alugam-se colchões para dormir a 150 euros por mês. Dezenas de migrantes vivem em beliches em quartos sobrelotados nesta zona de Lisboa.

3.

2,6 milhões de portugueses vivem com menos de 660 euros por mês. 

4.

O BNP Paribas revelou hoje que teve um lucro recorde de 10 196 milhões de euros em 2022, mais 7,5% face ao ano anterior, que já tinha sido o melhor ano da história do banco francês.

5.

Marcelo de Rebelo de Sousa:

«O que queremos é uma maioria absoluta que não esteja morta. 

6.

Pelo menos 1.901 migrantes morreram a tentar alcançar a costa sul de Espanha a partir de África no ano passado, revelou a organização não-governamental  Associação Pró Direitos Humanos da Andaluzia.

7.

Rescaldo, de hoje, do intenso sismo - e réplicas - que abanaram o sul da Turquia e a Síria:

11.700 mortos.

POEMA

Uma pomba atravessa Piccadilly Circus
em direcção ao rio

em baixo
grandes extensões desérticas de pernas
ressoam como forças paralelas
nos tubos do grande órgão

o homem
é o mar
e o mar “é em cima como nas gravuras”

no dilúvio da luz
um braço pica-se numa seringa
que hoje faz vinte anos de amor bárbaro
todos os lábios falam português por baixo das palavras selvagens que dizem
e mesmo os pensamentos de olhos muito azuis
ideando quem sou no subterrâneo alado
este onde o homem redescobriu o sol e o cobre de cabelos de liberdade
e o submerge no ouro das palavras
e o devasta de corpos e de auroras
Piccadilly Circus
Lugar geométrico da terra
disco rodando o espantosíssimo número
do casamento
do metal com a carne

Vicente Huidobro sobre a torre Eiffel em 1917
é aqui que estás hoje
com sacos de pop-corn
e gestos de quatro a quatro
na noite de cabelos mais alta que todas as luas

Sobre os dois seios de Trafalgar Square
a água sobe branca
aos olhos de Lord Nelson

eu entro sigo saio torno desapareço
caminho muito acima dos meus ombros
sou quem vejo num espelho que vai de autocarro
para um hoje de cidades sem fissura
sou o bombeiro que volta do incêndio
com nos dedos o riso do fogo extinto
a salamandra assistindo ao futuro
e ajeitando ainda
ainda um pouco
o colo

Mário Cesariny

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

POSTAIS SEM SELO


 Foi como ter ouvido um silêncio de morte no tumulto das vozes.

Alberto de Lacerda

PROVÉRBIO

Se os teus projectos forem para um ano, semeia o grão.

Se forem para dez anos, planta uma árvore.

Se forem para cem, instrui o povo.

Semeando o grão uma vez, colherás uma vez.

Plantando uma árvore, colherás dez vezes.

Instruindo o povo colherás dez vezes.

Provérbio chinês

O ACASO DE UNS VERSINHOS DO ASSIS PACHECO

Estes versos do Fernando Assis Pacheco, reencontrados no poema Bah! Da Respiração Assistida, poderiam ter sido escritos por mim se acaso o talento passeasse por aqui:

                               Fora os livros não vejo

                               muita outra coisa

                               que possa chamar

                               minha propriedade

Tanto o meu avô, como depois o meu pai, poderiam ter escrito estes mesmos versos.

Uma família sem nada de seu, sem um pontinho que seja de  simpatia pelos capitalismos.

Livros e mais livros. 

Como escreveu o Jorge Silva Melo:

«E é isso mesmo esta biblioteca simples, tanto livro onde ainda vejo as mãos ansiosas folheando, os olhos ávidos, as vozes contando. E não há nada mais lindo do que sentir as sombras da vida sobre as páginas amarelecidas, sombras de vida, de dor e luz.» 

A MAGNÓLIA

A exaltação do mínimo,

e o magnífico relâmpago

do acontecimento mestre

restituem a forma

o meu resplendor.



Um diminuto berço me acolhe

onde a palavra se elide

na matéria — na metáfora —

necessária, e leve, a cada um

onde se ecoa e resvala.



A magnólia,

o som que se desenvolve nela

quando pronunciada,

é um exaltado aroma

perdido na tempestade,



um mínimo ente magnífico

desfolhando relâmpagos

sobre mim.

Luiza Neto Jorge

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

POSTAIS SEM SELO


 Quem é que disse que a isto se chama vida? Eu retiro-me para outros tons de azul.

Rolf Dieter Brinkmann

O OUTRO LADO DAS ESTANTES


 No Olhar as Capas já foram apresentados estes dois volumes que fazem parte da Biblioteca da Casa.

Por essa altura, Setembro de 2017, por aqui, escreveu-se:

«Em tempo de ditadura, apesar de tudo, faziam-se coisas muito interessantes.

Estes dois volumes, Poesia 70 e Poesia 71, reflectem esse interesse.

Iniciativa do poeta e editor Egito Gonçalves que, para o primeiro volume teve a colaboração de Manuel Alberto Valente, e para o segundo a colaboração de Fiama Hasse Pais Brandão.

No primeiro volume publica-se uma espécie de prefácio a que os autores chamaram «Alguma palavras para dar uma ideia…» e em que dizem ao que vêm e falam  sobretudo de uma «amostragem» da poesia publicada em língua portuguesa, na Metrópole, no ano a que se refere.

Não foi planeada exclusivamente como uma antologia de poemas, mas sim como uma panorâmica.

Os poemas foram procurados em livros que se publicaram durante esses anos, em suplementos literários e juvenis de jornais que se publicavam nas cidades e na província.

Um trabalho interessante mas repleto de dificuldades, problemas diversos e algumas rasteiras, próprias deste país de poetas, ou como diziam algumas más-línguas, de escrevinhadores de versos.

Não tenho conhecimento que tivessem sido editados volumes referentes a anos seguintes.»

A Loja Frenesi tem à venda estes dois volumes pelo preço de 55 euros. 

Como por aqui se tem dito os meus livros não têm miolo limpo e os que vieram da Biblioteca do Meu Avô também não, idem para os livros que vieram da Biblioteca do Meu Pais.

Todos constituem a Biblioteca da Casa.

É este o texto de apresentação da Loja Frenesi:


«EGITO GONÇALVES, org.

MANUEL ALBERTO VALENTE, org.

FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO, org.

aa.vv.

capa e grafismo de Armando Alves

ilust. Ângelo

Porto, 1971 e 1972

Editorial Inova Limitada

1.ª edição

2 volumes (completo)

195 mm x 140 mm

248 págs. + 256 págs.

exemplares estimados; miolo limpo, as páginas finais do segundo volume apresentam um erro tipográfico de impressão designado por repintagem
assinaturas de posse nos ante-rostos

55,00 eur (IVA e portes incluídos)

Alguns autores coligidos foram, à época, uma revelação entre alguns outros basto conhecidos. É assim que deve ser feita uma antologia: transportar o vinho novo dentro de selhas velhas. Alguns exemplos: Fallorca ao lado de José Gomes Ferreira, ou Eduardo Guerra Carneiro ao lado de Saramago, ou Nuno Guimarães ao lado de Cesariny, ou José Agostinho Baptista ao lado de Couto Viana; ou mesmo Idalécio Cação de par com João Miguel Fernandes Jorge, ou Licastro na companhia de Herberto Helder, de Jorge de Sena, de Régio, de Sophia, de Maria Teresa Horta (que vai muito bem com Torquato da Luz e Fernando Grade), etc., etc., etc.»

QUOTIDIANOS


 Noite de sábado, incêndio num prédio na Mouraria.

 Duas mortes e 14 feridos naquele rez-do-chão onde viviam 22 imigrantes asiáticos, um espaço limitadíssimo, quartos improvisados, colchões em cima de paletes.

 É assim que se «vive» nesta cidade onde a respectiva Câmara anda preocupada com o Festival da Juventude, a visita do Papa, porque isso é dá «glamour».

São arrepiantes as fotografias que o Público apresenta, como arrepiantes e trágicas são as palavras dos moradores, seguindo as venturistas pisadas falatórias:

 «Isso é o que há mais por aí, espaços como este. O sítio onde comprei o meu carro, ali ao fundo da rua, foi todo esvaziado e encheram aquilo de colchões para meter lá essa malta».

 «Isto está cada vez pior. E as autoridades fecham os olhos», critica, falando sobre o que diz ser uma situação comum naquela zona da cidade, antes de lamentar que os poderes públicos não encontrem soluções de habitação para «quem é daqui»

 «Casos como o do prédio que ardeu são o que não falta aqui. Normalmente, primeiro vem uma pessoa, aluga uma casa e, atrás dela, começam a vir outras», relata. Habituado a identificar a proveniência do lixo, garante que “existem restaurantes ilegais a funcionar dentro dos prédios”.

 «Isto são esquemas para trazer pessoas, que se servem destes sítios para darem o salto para outros lugares. Isto funciona como a porta da Europa para eles. Vêm sem ter casa ou trabalho. É uma porcaria»

Observa o repórter do Público:

 «É impossível não reparar num discurso com uma linha comum, quase como se em coro, sob o mote “nós e eles”, os estrangeiros.

Arrepiante também o que se lê na caixa de comentários da reportagem do Público.

 Paulo Baldaia no Diário de Notícias:

«Qualquer pesquisa num motor de busca com apenas duas palavras (Chega e imigrantes) nos revela de imediato de que é feito este partido. Não é o que foi dito uma ou outra vez, é um discurso que se repete como estratégia para ganhar votos pelo medo, promovendo um discurso de ódio que pode terminar, como aconteceu agora em Olhão, em violência física. Sem surpresa nenhuma, porque a violência é a marca de água da extrema-direita.»

 Novamente as palavras da Maria Velho da Costa:

 «É o ar do tempo.  Sabemos que este país está cheio de gente de outras  partes e que a maioria vive em estado de alto risco.»

Legenda: fotografia tirada do Público.

domingo, 5 de fevereiro de 2023

O SARCASMO FUGAZ DA INUTILIDADE

«Chove. À mesa do restaurante, um homem explica qualquer coisa a uma mulher, qualquer coisa de inexplicável. Ele gostaria de abandonar os ensaios de felicidade que encalham regularmente. Sente-se cansado de ir atrás do prazer pelas falsas estradas das promessas, que não conduzem a lado nenhum. Não é outra mulher, ora essa, nem pensar. A liberdade. Regressar à superfície, sair do turbilhão confuso das relações que se arrastam há anos. Está farto de reconhecer em cada uma das relações as suas próprias insuficiências. Vislumbra uma vida breve, intensa, criativa. A fidelidade, os deveres cumpridos a contragosto alimentam o fogo de uma depressão permanente. Este fogo é frio como o gelo, mas animado por uma grande satisfação. “Was wussten sie, wer er war” – ninguém sabe quem ele é, e deseja que o deixem sozinho com este segredo. O rosto da mulher, que o ouve. Agora, ela deveria levantar-se, endireitar-se orgulhosa, afastar-se com um soluço a custo reprimido. Não se levanta. Então, bem, é ele que se ergue de um salto, terna e furtivamente beija os olhos da mulher, e sai do café. Não, não sai. Acena, paga. Levantam-se ao mesmo tempo. Através do vidro fustigado pela chuva, ver como saem para a rua. O homem abre o guarda-chuva. Dão alguns passos assim, lado a lado; depois, a mulher toma o braço do homem, e, após algum desacerto, corrigem o passo. Vem da porta uma leve corrente de ar que varre a sala, como o sarcasmo fugaz da inutilidade.»

Imre Kertész em Um Outro – Crónica de uma metamorfose, tradução de Ernesto Rodrigues, Editorial Presença, Junho 2009.

Copiado de Nem Sempre a Lápis/Jorge Fallorca

sábado, 4 de fevereiro de 2023

MEDITAÇÃO URSULIANA

Antes de a Rússia começar a guerra, alertámos muito claramente sobre os custos económicos enormes que iríamos impor em caso de invasão, e hoje a Rússia está a pagar um preço elevado, à medida que as nossas sanções estão a asfixiar a sua economia”

Ursula von der Leyen, em Kiev, no dia 2 de Fevereiro de 2023.

CONSULTAS OBSCENAS

O pensamento e a leitura foram substituídos pela consulta obscena do telemóvel, esse objeto de nome errado (porque o que é móvel é o fone e e não o tele). Só a burocracia continua lenta em Portugal. Pior: está mais lenta e kafkiana. Herdámos da ditadura o desejo de complicar a vida a todos para que os videirinhos e donos disto tudo se possam safar.

Jorge Calado em MocidadePortuguesa, página 21

NOTÍCIAS DO CIRCO


 No princípio era a grande festa, revimos, há dias, Marcelo dando palminhas como um qualquer golo da selecção nacional, a Igreja a dar o seu habitual «Amen».

Passaram os dias, os meses, os anos.

Agora ninguém sabe quem paga, quem dá mais, quem dá menos, quem dá NADA!

O presidente da Câmara de Lisboa chegou-se à frente, dá o peito às balas, «eu agora é que coordeno» e não quer nada com o rapaz que o governo colocou a olhar para o (não) andamento dos trabalhos.

Esse tal rapaz, ao Público, imitando as piadolas do  Luís Pedro Nunes, ou do Henrique Monteiro, deixou um só ali anda para tratar das casas de banho, de umas luzes e de um som e, mesmo assim, o vice-presidente da Câmara, Anacoreta Correia, não deixou de lembrar: «Não aceitamos pretensos coordenadores que não fazem nada e que não ajudam a resolver».

No meio desta trágica-confusão, soube-se que a Igreja, no decorrer da Jornada Mundial da Juventude, vai ter um local, será Belém, onde se pode «encontrar a alegria de se sentir amado e perdoado, um  «Parque do Perdão» que  conta com 150 confessionários.

Andarei a ler bem as notícias sobre toda esta trapalhada?

Mas vai-se de Loures a Belém pedir o perdão de quê?

Não haverá ninguém neste país que resolva esta confusão?

Não há ninguém que envie uma mensagem à Igreja Apostólica Romana, sediada no Vaticano, em que com humildade divina, se peça desculpa por certas gentes deste país se terem enfiado num buraco sem fim, e anule todo este Carnaval de vaidades?

E acreditem: a procissão ainda não saiu do adro!

Legenda: imagem roubada de «Meditação na Pastelaria».