Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela encantarei a noite.
Herberto Helder
Legenda: «A Young Lady Playing the Harp» pintura de James Northcote.
e seu arbusto de sangue. Com ela encantarei a noite.
Herberto Helder
Legenda: «A Young Lady Playing the Harp» pintura de James Northcote.
Pelo monte abaixo, à chuva, entrei num esplendoroso restaurante da Rue de Clignancourt e comi a imbatível sopa de puré francesa e uma boa refeição com um cestinho de pão francês e o meu vinho e os copos de pé alto e fino com que sonhara. – Olho através do restaurante para as coxas tímidas de uma jovem recém-casada que come o grande jantar de lua-de-mel com o noivo lavrador, sem que nenhum deles fale. – Levarão cinquenta anos a fazer o mesmo nalguma cozinha ou sala de janatar provinciana. – O sol brilhou de novo e, de barriga cheia, vagueei por entre as galerias de tiro e os carrocéis de Montmartre e vi uma jovem mãe abraçando a filinha que segurava uma boneca, fazendo-a saltar no colo e rindo e abraçando-a porque se divertiam tanto no cavalinho de pau e vi o amor divino de Dostoievski nos olhos dela ( e lá em cima no monte sobranceiro a Montmartre Ele estendeu os Seus braços).
Jack Kerouac em Viajante Solitário
Este não é o dia seguinte do dia que
foi ontem.
João Bénard da Costa
Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.
Mais uma evocação do 25 de Abril, pulicada
no semanário Sete, de que não se sabe, nem o autor, nem a data da
publicação.
Uma muito interessante colecção com o
intuito de proporcionar a leitura de grandes textos dramáticos, clássicos que constituem
a história do teatro.
O editores completavam o trabalho fazendo
publicar material que permitisse fornecer informações sobre as peças a
publicar.
Neste 1º volume, no final, é publicada uma entrevista de Jean-Paul Sartre
concedida a Bernard Pingaud.
Sartre:
«A peça acaba,
pois, no niilismo total. O que os gregos sentiam como uma contradição subtil – a
contradição do mundo em que se é obrigado a viver -, constitui para nós, que
vemos a peça de fora, uma negação, uma recusa. Quis sublinhar este regresso ao
ponto de partida: o desespero final de Hécuba, que acentuei mais fortemente,
repercute a palavra terrível de Poséidon. Os deuses aniquilarão os homens, e
esta morte comum é a lição da tragédia.»
Eurípedes
Adaptação: Jean-Paul Sartre
Tradução: Helena Cidade Moura
Capa: Mário-Henrique Leiria
Colecção Teatro Vivo nº 1
Plátano Editora, Lisboa, 1973
Poséidon
Pobre Hécuba, não! Não morrerás nas mãos dos teus inimigos. Dentro em pouco,
quando te embarcarem, cairás no meu reino, o mar, onde só eu mando, e farei de
ti rochedo, junto da tua pátria. As vagas se quebrarão contra ti e toda a noite
ecoarão o eu lamento infinito.
Agora ides pagar.
Fazei a guerra, mortais imbecis, devastai os campos e as cidade, violai os
templos e os túmulos, torturai os vencidos. Rebentareis também. Todos.
Júlio Conrado
Capa: Armando de Melo
Parceria A.M. Pereira, Lda, Lisboa, Setembro
de 1976
Na sua corrida alucinante
a cento e vinte quilómetros horários rumo à fronteira, António e Sebastião passaram
por uma coluna de blindados que se dirigia para Lisboa.
Passaram por ela
com o coração muito apertado e respiraram fundo, aliviados, quando a deixaram
bem para trás.
Não sabiam que
essa era a madrugada de 25 de Abril de 1974.
Manuel António Pina foi colega de Sérgio Godinho no 6º e 7º Anos do liceu.
Estavam em áreas diferentes, mas tínham cadeiras comuns.
Foi o Pina que lhe mostrou Pela Estrada Fora do Kerouac. Foi também ele que lhe mostrou as Odes Elementares de Pablo Neruda - «Deu-me um baque!»
João Bénard da Costa
Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.
Registamos hoje o depoimento do jornalista Rodrigues da Silva, que nos deixou em Janeiro de 2009.
Como ele escreveu, numa
dobra do tempo houve alguém que enganou…
Aki Kaurismäki realizador finlandês, numa
entrevista, ao Público. conduzida por Vasco Câmara:
«Não gosto dos tempos modernos, a não ser os do Chaplin. Está cada vez pior
a realidade do dia-a-dia, a arquitectura, a tecnologia. Não tenho intenção
alguma de descrever isso nos meus filmes.»
«— Estou
deprimido.
— Porquê?
— Porque bebo muito.
— Porque é que bebes muito?
— Porque estou deprimido.
— Círculo vicioso...»
Álvaro, personagem de Baptista-Bastos em O Secreto Adeus:
«Então, porque bebo?
«É o contrário de estar lúcido.» »Estar lúcido custa assim tanto?» «Custa tanto
que é preciso beber,»
Para terminar:
«Então porque bebo?» «É o medo de estar lúcido».
1.
São maioritariamente mulheres que vivem
sozinhas, com rendimentos abaixo de mil euros, que mais recorrem ao
aconselhamento gratuito prestado pelos balcões espalhados pelo país da Rede
Extrajudicial de Apoio ao Cliente Bancário (RACE) que existe deste janeiro de
2013.
2.
«… é como aqueles
que nunca quiseram saber dos sindicatos, até os desprezavam, mas que quando são
despedidos vão lá bater à porta, para ter um advogado que defenda os seus
direitos.O que digo é que é importante defender o que temos, antes de ir bater
a uma porta que pode até já não existir.»
José Pacheco Pereira no Público
3.
«Como bom líder
mobilizador da direita, o dr. Luís Montenegro montou uma coligação pujante,
forte, jovem, e tão fácil de entender como de dizer três tristes tigues. E diz
que é simbólica. Ora, a pergunta que naturalmente se segue é --
mas simbólica para quem?»
Maria Castelo Branco no Diário de
Notícias
4.
As insolvências em Portugal aumentaram 18%
em 2023, face ao ano anterior, com 1.917 empresas a entrarem em processo de
insolvência e o sector das indústrias foi o mais afetado, sendo responsável por
mais de metade do aumento total registado no último ano.
5.
Em
2023 foram inaugurados 60 novos hotéis em Portugal e haverá quase mais 100 a
caminho até 2026.
6.
A riqueza média líquida das famílias
portuguesas é a sexta mais baixa da Zona Euro, segundo os dados do Banco
Central Europeu, está 30% abaixo da média da zona Euro.
7.
São mais de 10 mil homens e mulheres que
dormem na rua, segundo as reportagens que o Diário de Notícias tem trazido nas
suas páginas. São a face mais visível da miséria de uma sociedade nas ruas das
cidades, gente sem casa, muitos com uma vida torturada. A estes somam-se muitos
sem trabalho e milhões à beira da pobreza em Portugal. Estamos na época natalícia
dos bons sentimentos e olhamos para ela para não vermos as razões da miséria e
à espera que alguma caridade alivie a nossa má consciência.
8.
Numa Assembleia da República, quase a
encerrar portas até novas eleições, cerca de 50 deputados portugueses acumulam
funções com outros cargos remunerados, como a advocacia e a docência, de acordo
com a Integrity Watch Portugal.
De acordo com a legislação, os titulares de cargos políticos e de altos cargos públicos, como os deputados da Assembleia da República, devem exercer as suas funções em regime de exclusividade.
Margarida Magalhães Ramalho
Colecção Livros com Fotografias nº 18
Assírio & Alvim, Lisboa, Dezembro 2000
Como nas cartas de
amor de uma velha canção, quem não tem recordações de uma viagem de comboio?
Não me venham
dizer que as estrelas são mundos:
elas são dos meus versos e dos meus sonhos...
Não posso acreditar que é do sol êste luar:
êle é para a minha saudade e para a minha esperança...
Não quero saber a origem deste vento manso:
sabe a carícia da vida na minha face...
Que me importa saber o que sou, donde venho, aonde vou?
Neste silêncio anda a voz das sereiras que me chamam do mar...
Alberto de Serpa
João Martins Pereira
Capa: Fernando Felgueiras
Colecção Diálogo nº 12
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Janeiro de
1971
A resposta em
termos institucionais aos interesses dos que hoje controlam o poder económico –
eis o significado real da «revolução» a que assistimos com o governo de Marcelo
Caetano. A grande burguesia portuguesa, que nunca terá siso liberal, também
hoje já não o pode ser. Ela encaminha-se para as formas modernas do neocapitalismo,
em que ao Estado cabe uma intervenção que, curiosamente, nos países de tradição
liberal tem uma aparência de autoritarismo, enquanto no nosso toma o aspecto de
«liberalismo»… Há que assinalar, aliás, que desse intervencionismo se espera um
decisivo impulso à iniciativa privada, e não, como alguns não deixam de temer, um alargamento do sector
público a domínios habitualmente fora do seu campo de acção.
Havia no meu tempo um rio chamado Tejo
que se estendia ao
Sol na linha do horizonte.
Ia de ponta a
ponta, e aos seus olhos parecia
exactamente um
espelho
porque, do que
sabia,
só um espelho com
isso se parecia.
De joelhos no
banco, o busto inteiriçado,
só tinha olhos
para o rio distante,
os olhos do animal
embalsamado
mas vivo
na vítrea fixidez
dos olhos penetrantes.
Diria o rio que
havia no seu tempo
um recorte
quadrado, ao longe, na linha do horizonte,
onde dois grandes
olhos,
grandes e ávidos,
fixos e pasmados,
o fitavam sem
tréguas nem cansaço.
Eram dois olhos
grandes,
olhos de bicho
atento
que espera apenas
por amor de esperar.
E por que não
galgar sobre os telhados,
os telhados
vermelhos
das casas baixas
com varandas verdes
e nas varandas
verdes, sardinheiras?
Ai se fosse o da
história que voava
com asas grandes,
grandes, flutuantes,
e poisava onde bem
lhe apetecia,
e espreitava pelos
vidros das janelas
das casas baixas
com varandas verdes!
Ai que bom seria!
Espreitar não, que
é feio,
mas ir até ao
longe e tocar nele,
e nele ver os seus
olhos repetidos,
grandes e húmidos,
vorazes e inocentes.
Como seria bom!
Descaem-se-me as
pálpebras e, com isso,
(tão simples isso)
não há olhos, nem
rio, nem varandas, nem nada.
António Gedeão de Poemas Póstumos em Obra Completa
A ex-múmia de Belém volta a tacar.
Num artigo publicado numa folheca, nada
higiénica, que aparece pela net, a que a Lusa teve acesso, compara os seus dois
últimos anos de Governo nos anos de 1990 com os últimos oito de António.
«Com a falta de humildade e a vaidade que me são
atribuídas digo que estou absolutamente convencido de que, nessa década, por
ação dos meus governos, o desenvolvimento de Portugal, em todas as suas
dimensões, deu um salto em frente que muito surpreendeu a União Europeia e que,
depois, em nenhuma outra década foi alcançado resultado semelhante.»
Este não é o dia seguinte do dia que
foi ontem.
João Bénard da Costa
Não está muito bem feito porque encaixotou
tudo e mais alguma, ao sabor já não lembro de quê.
A maior parte dos recortes estão identificados,
outra parte fugiu ao imprescindível e importante critério da sua identificação.
Hoje, são publicados alguns recortes isentos de identificação.
A imprensa privada
portuguesa, por falta de capital, não consegue, neste momento, garantir uma
cobertura noticiosa permanente, nobre e diversificada de todo o país, não
trabalha para a coesão do território. Limita-se, quando o faz, a acompanhar
matérias de crimes, acidentes, tragédias e alguns fait-divers.
A imprensa privada portuguesa, por falta de capital, não consegue noticiar consistentemente a atividade de vários parceiros sociais: das universidades, dos sindicatos, das associações patronais, das instituições de solidariedade social, das igrejas, dos movimentos ecologistas, antirracistas, de proteção dos direitos dos deficientes, das coletividades de cultura e recreio, das associações desportivas e das modalidades desportivas que estão fora do futebol, de muitas outras áreas de atividade que mobilizam inúmeros portugueses e são ignoradas na esmagadora maioria dos jornais e nos respetivos sites.
A imprensa privada portuguesa, por falta de capital, quase só notícia a atividade e o conflito político autárquicos quando o Ministério Público faz o favor de anunciar a abertura de um inquérito judicial a um presidente de Câmara.
O Portugal da imprensa privada acompanha bem a atividade palaciana do grande poder político-económico e dos seus satélites, das maiores instituições públicas e privadas, das vedetas e dos VIP, do que está em voga nas elites, mas não noticia o Portugal dos portugueses comuns.
A imprensa privada portuguesa, por falta de capital, não consegue acompanhar o ritmo da atividade, por todo o país, protagonizada por milhares de artistas e intelectuais, em milhares de produções de espetáculos, de exposições, de eventos, de lançamentos de livros, de edições musicais, de conferências, omitindo múltiplas tendências culturais e cívicas da sociedade. Mas acompanha bem fenómenos mediáticos transnacionais, nomeadamente de origem anglo-saxónica.
A imprensa privada
portuguesa não consegue garantir, de forma crónica, apesar do esforço das suas
redações e de algumas iniciativas editoriais inovadoras, uma participação
própria nas redes sociais que seja um mecanismo eficaz contra a proliferação do
boato, das campanhas de ódio e da desinformação.
A imprensa privada portuguesa, quase toda, por falta de capital, não cobre com qualidade, persistência e profundidade o noticiário de um grande número de países de língua portuguesa, nem das comunidades portuguesas radicadas no estrangeiro.
A imprensa privada portuguesa não tem um papel central na defesa e na promoção da nossa língua.
A imprensa privada portuguesa não cobre diária e sistematicamente o noticiário interno de cada um dos países da União Europeia. Reproduz sem contraditório as decisões das cúpulas institucionais da União Europeia, nem fiscaliza o seu imenso poder. Acaba por dar mais noticiário norte-americano do que de países europeus.
A imprensa privada, quase toda, não consegue libertar-se da dependência da banca, do setor financeiro, dos anunciantes das grandes empresas, o que limita a sua independência editorial.
A imprensa privada portuguesa, por falta de capital, não consegue, há já muitos anos, garantir postos de trabalho e contratos equilibrados entre as várias profissões e as várias funções envolvidas no jornalismo, com muitos contratos a prazo, muitos salários degradados, alguns exageradamente inflacionados, múltiplos despedimentos coletivos e muitos outros seletivos. E, agora, já nem consegue pagar ordenados a tempo e horas...Se, por milagre, a imprensa privada portuguesa, toda ela, arranjasse depressa o capital que lhe falta, garantiria o seu futuro, mas a viabilidade económica desses projetos implicará sempre recusar fazer muitas das missões informativas que, por imperativo financeiro, foram abandonadas há já vários anos...
Neste momento, a propósito da crise no Global Media Group e da realização do Congresso dos Jornalistas, que começa amanhã, volta a discutir-se a possibilidade de haver jornais de serviço público ou de propriedade do Estado. Mas o debate está envenenado por se focar nas mesmas questões que se discutiam em 1991, quando o DN, onde escrevo, voltou a ser privado.
A realidade é completamente diferente, as necessidades da sociedade atual são outras e, simplesmente, a imprensa privada não consegue, nem nunca conseguirá, cumprir plenamente a missão que antigamente se esperava dela. Tem outro papel, fulcral, importante e necessário, mas deixa uma lacuna no país. É por isso que a ideia de um jornal de serviço público, que faça o que privado não pode fazer, deveria ser discutida sem preconceitos anacrónicos.
Pedro Tadeu no Diário de Notícias de hoje
Erico Veríssimo
Desenhos do Texto: Erico Veríssimo
Capa: Bernardo Marques
Colecção Dois Mundos nº 33
Livros do Brasil, Lisboa s/d
- Vamos ao México?
Atirei a pergunta
ao chegar a casa naquele anoitecer de Abril. Era em Washington e as cerejeiras
estavam floridas à beira do Potomac. Minha mulher, que lia o Evening Star, ergueu a cabeça e pousou em
mim os olhos azuis.
- México? –
repetiu ela com ar vago. E tornou a baixar a cabeça, o olhar e a atenção para o
jornal.
Tirei o casaco e
larguei sobre uma poltrona todo o peso do cansaço somado ao do corpo. Aos
poucos os ruídos familiares me foram envolvendo. No andar superior a filha
recitava um trecho do Macbeth,
preparando a lição para o dia seguinte, na escola dramática da Universidade. No
rés-do-chão, o rapaz mamava no bocal do saxofone, apojando dele o grosso e
morno leite de um blue. Da cozinha chegava-me aos ouvidos o miúdo chiar
do assado de carneiro. Cerrei os olhos.
Uma gargalhada do meu filho
rouba-me um verso. Era,
se não erro, um verso largo,
enxuto e musical. Era bom
e certeiro, acreditem, esse verso
arisco e difícil, que se soltara
dentro de mim. Mas meu filho
riu e o verso despenhou-se no cristal
ingénuo e fresco desse riso. Meu Deus,
troco todos os meus versos
mais perfeitos pelo riso antigo
e verdadeiro de meu filho.
Rui Knopfli tirado da Antologia Em Nome do Pai
Este não é o dia seguinte do dia que
foi ontem.
João Bénard da Costa
Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.
A viagem de hoje, situa-se num depoimento de Mário Dionísio sobre o que para ele foi o 25 de Abril.
Um depoimento comovente, com a conclusão firme de que para se compreender o que foi aquele dia, e o que ele nos trouxe, houve que viver o «tempo do desprezo», os dias que o salazarismo e o marcelismo nos impuseram.
Ele estava a ler-lhe Rilke, um poeta que admirava, quando ela adormeceu com a cabeça no travesseiro dele. Gostava de ler em voz alta e lia bem, numa voz confiante e sonora, ora baixa e grave, ora retumbante, ora excitante. Enquanto lia nunca desviava os olhos da página e apenas interrompia para estender o braço para a mesinha-de-cabeceira e pegar num cigarro. Era uma voz que a transportava até um sonho povoado de caravanas que iniciavam uma viagem a partir das cidades rodeadas de ameias, com homens barbudos vestidos com túnicas. Tinha-o escutado durante alguns minutos, fechara os olhos e adormecera.
Raymond Carver em Queres Fazer o Favor de te Calares?
Graciliano Ramos
Capa: Santa Rosa
Livraria José OIympio
Editora, Rio de Janeiro 1954
Nunca me respondeste, quando te chamei,
E só Deus sabe como era urgente e aflita
A minha voz!
Mas, desgraçadamente sós,
Morrem os que se afogam
No mar da sua própria condição.
O meu, sem margens, é um descampado
Desabrigado.
Vagas e vagas de solidão,
E a tua imagem, litoral sonhado,
Sempre evocada em vão.
Nunca me respondeste, e foi melhor assim.
Um náufrago perpétuo é um pesadelo.
Dizer-me o quê?
Que, de longe, me vias afogar,
Mas que nada podias.
Pois sabias
Que os poetas jurados,
Humanas heresias,
Nascem condenados
A morrer afogados
Todos os dias
No tormentoso mar dos seus pecados.
Miguel Torga em Diário XVI
Miguel Torga em Diário XVI
Este não é o dia seguinte do dia que
foi ontem.
João Bénard da Costa
Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.
Em 2007, possivelmente, Ana Cristina Leonardo ainda não frequentava o Café do Monte, escrevia no Expresso, e em jeito de crónica, perguntava se ainda nos lembrávamos como as vidas eram antes da madrugada por que tantos esperavam.
A pergunta inventou-a o
Baptista-Bastos: «Onde estava no 25 de Abril?»
O Diário de Notícias, através da jornalista Alexandra Tavares-Teles anda a recolher depoimentos de gente diversa sobre as memórias desses dias.
O escritor Carlos Tê, a 10
de Janeiro de 1974, tinha 18 anos.
Recorda-se:
«Ao meio-dia, quando me sentei no Café, o nevoeiro tinha levantado, mas não se pode dizer que havia sol. Por coincidência, li na secção de curiosidades do jornal da casa que o nevoeiro chega a congelar nas regiões altas do país, formando pequenas estalactites nos ramos das árvores. Chama-se sincelo. Aprendi essa palavra hoje, entre a tabela das marés e a lista das farmácias de serviço. Gosto dos dias em que aprendo uma palavra nova. Sincelo.
Noite. O que mais gosto na quadrada de snooker é o choque das bolas, a fumarada dos cigarros, o rumor de fundo, que é vital para me concentrar. Às vezes junta-se uma pequena plateia, entre eles o Silva, tido como bufo. Mas não leva nada do salão de bilhares. Aqui não se fala à tacada, não se gastam apartes. O Silva não tem nada a reportar a não ser o cálculo dos efeitos, a geometria, o giz, a ponteira dos tacos. O bilhar é lugar científico e ao mesmo tempo abismal. Outra palavra nova. Abismal.»