quarta-feira, 31 de outubro de 2018

SARAMAGUEANDO


«Em Lisboa, para votar. Encontro alguns amigos preocupados com o resultado das eleições de amanhã. Tudo aponta para uma vitória folgada de Jorge Sampaio, mas eles duvidam, parece-lhes ser bom de mais para poder ser verdade. Apresento um argumento para o qual não há resposta. «É impossível que este país tenha como presidente da República um homem chamado Aníbal Cavaco Silva. Não porque não  fizesse sentido, mas porque o faria de mais…»

José Saramago em Cadernos de Lanzarote IV Volume

O 4º Volume dos Cadernos de Lanzarote cobre o ano de 1996.

A 1 de Abril regista a morte de Mário Viegas:

«Mário Viegas morreu. Era um cómico que levava dentro de si uma tragédia. Não me refiro à implacável doença que o matou, mas um sentimento dramático da existência que só os distraídos e superficiais não eram capazes de perceber, embora ele o deixasse subir à tona da expressão às vezes angustiada do olhar e ao ricto sempre sardónico e amargão da boca. Fazia rir, mas não ria. Pouca gente em Portugal tem valido tanto.»

A 17 de Junho a «morte anunciada» de David Mourão-Ferreira:

«…não era só literariamente que tínhamos ficado mais pobres, que também ficávamos reduzidos espiritualmente. Ainda que a alguns possa parecer o mesmo, não o é.»

A 27 de Setembro dá notícia de que pediu a «Rui Godinho, vereador da Câmara Municipal de Lisboa, velho amigo e camarada», se conseguia descobrir a data do falecimento do seu irmão Francisco de Sousa dado não constar o averbamento do óbito no registo de nascimento e explica: «o que me leva a pedir a tua ajuda tem que ver com O Livro das Tentações, onde inevitavelmente falar desse Francisco de Sousa de quem não me lembro tal como estão as coisas agora, é como se eu tivesse um irmão imortal…»

Este Livro das Tentações será publicado no ano de Outubro de 2006 mas com o título de Pequenas Memórias.

A página final é para nos dizer que o ano entrou em Lanzarote com o acompanhamento de «uma trovoada gigantesca que parecia querer deitar abaixo o céu e afogar a terra num dilúvio.» e para nos fazer ver que «se entra na velhice quando se tem a impressão de ocupar cada vez menos lugar no mundo. Durante a infância e a adolescência cremos que ele é nosso e que para ser nosso existe, na idade madura começamos a suspeitar que afinal não é tanto assim e lutamos por que o pareça, começa-se a ser velho quando percebemos que a nossa existência é indiferente ao mundo. Claro que sempre o tinha sido, mas nós não o sabíamos.»

Legenda: capa de Cadernos de Lanzarote, Volume IV publicado pela Porto Editora. A caligrafia da capa é da autoria da escritora Nélida Piñon. 

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