terça-feira, 11 de outubro de 2022

BERNARDO SOARES

Nenhuma fotografia fará subir a chama

da paisagem para lá da janela do terceiro

andar deste prédio. O real é uma abstracção

inútil, uma eternidade a que tivessem

 

cortando a sua face de sonho, um coração

onde nada pesa que não seja o peso

leve dos sentidos. A vida toda é este mover

das coisas mais próximas, os ombros

 

a bússola de viagem o desenho a tinta-da-china

de pequenos barcos coloridos

algumas vozes longínquas que logo fazem

viver as suas formas substantivas: pobre

 

de quem vê o que seus olhos vêem. Às vezes

é como se tudo tivesse uma alma um

destino superior às vogais do seu nome

um espaço onde a eternidade vem para morrer.


José Carlos Barros

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