sábado, 16 de julho de 2016

OLHAR AS CAPAS


Coração das Trevas e No Extremo Limite
Joseph Conrad

Tradução: Margarida Periquito
Capa: Carlos César Vasconcelos
Relógio d’Água Editores, Lisboa, Janeiro de 2012


Todavia, como estão a ver, não fui fazer companhia a Kurtz nessa hora. Pois não. Fiquei cá, para sonhar o pesadelo até ao fim e para mostrar a minha lealdade a Kurtz uma vez mais. Era o destino! O meu destino! Que coisa engraçada é a vida, essa misteriosa trama de lógica implacável para se alcançar um objectivo vão. O mais que se pode esperar dela é um certo conhecimento de nós próprios – que chega demasiado tarde -, e uma safra de inesgotáveis desilusões. Lutei com a  morte. É a batalha menos empolgante que se possa imaginar. Desenrola-se numa atmosfera cinzenta impalpável, sem nada debaixo dos pés e nada à nossa volta, sem espectadores, sem clamor, sem glória, sem o grande desejo de vencer, sem o grande receio da derrota, num clima doentio de tíbio ceticismo, sem grande convicção na nossa razão e ainda menos da do nosso adversário. Se é dessa forma que o derradeiro ato de introspecção ocorre, então a vida é um enigma maior do que alguns pensam. A última oportunidade de me pronunciar esteve por um fio, e concluí, humilhado, que provavelmente não teria nada para dizer. É por isso que afirmo que Kurtz era um homem notável. Ele tinha alguma coisa para dizer. E disse-a.

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