quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

ÀS VEZES

Às vezes sentimos que o tempo chegou ao fim, que

as portas se estão a fechar por trás de nós, que já nenhum ruído 

de passos nos segue; e temos medo de nos voltar, de dar

de frente com essa sombra que não sabíamos que nos

perseguia, como se ela não andasse sempre atrás de nós,

e não fosse a nossa mais fiel companheira. Às vezes,

em tudo o que nos rodeia, encontramos essa impressão de

que não sabemos onde estamos, como se o caminho para

aqui não tivesse sido o mesmo, desde sempre, e tudo

devesse ser-nos, pelo menos, familiar. A solução é pegar 

no fim e metê-lo à boca, como se fosse uma pastilha

elástica, derreter o sabor que o envolve, por amargo

que seja, e no fim pegar nesse resto que ficou e, tal 

como se faz à pastilha elástica, deitá-lo fora. Para

que queremos nós o nosso próprio fim? Já bastou

tê-lo saboreado, derretido na boca, sentido o seu

amargo sabor. Então, libertos do nosso fim, veremos

que as portas se voltarão a abrir, que a gente continua

a andar à nossa volta, que a sombra já não nos mete medo,

e que se nos voltarmos teremos pela frente o rosto

desejado, o amor, a vida de que o fim nos queria ter privado.


Nuno Júdice 

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