segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

COMEÇOS


Não é só o ano que começa. Qualquer que seja a nossa ideia ou a estação em que nos encontremos a viver, a verdade é que somos, até ao fim, uma coisa no seu começo, a verdade é que habitamos unicamente começos. Nada mais. Não vimos outra coisa enquanto estivemos aqui. A nossa estirpe é a dos recém-nascidos, portanto. Uma das mais belas frases que conheço pertence a uma página bíblica, a Primeira carta de Pedro. E a frase diz (ou ordena) o seguinte: “Como crianças recém-nascidas, desejai” (IPe2,2). Somos, mesmo com dezenas, com centenas de anos e séculos em cima, “crianças recém-nascidas”. E devemos muito à fragilidade dos recém-nascidos que, no fundo, ainda é nossa, que, sabemos, será sempre nossa.

José Tolentino Mendonça no Expresso, 5 de Janeiro de 2018 

Sem comentários: