domingo, 6 de janeiro de 2019

NÃO HÁ DISTÂNCIA


Daqui a pouco vou entrar e comer pão de milho e queijo na cozinha, beber um sumo de toranja, gravemente, aprendi com ele que comer é um acto solene, sagrado, em que meninos bebíamos sumos, nos últimos anos por vezes a meio da tarde um de nós fazia chá de laranja-lima, e sentávamo-nos aqui, nos degraus, solenes e concentrados, com as canecas azuis na mão, ouvindo os pássaros e o mar, e o momento era sagrado, íntimo, e não precisávamos de dizer nada, sempre gostei tantos dos nossos silêncios. Também isso aprendi contigo, meu amor, o silêncio, gosto de ver-te aí, sentado no muro, com o azul por detrás, o som do mar, sempre foi o teu lugar preferido, sentado no muro, olhando o mar. Respiro fundo o ar impregnado do perfume dos lilases, e a minha mão acaricia o meu braço, e por momentos apetece-me chamar-te… mas não podes, podes ficar aí, gosto de estar sozinha contigo, e ter-te aí é como ter-te no degrau abaixo do meu, entre nós não há distância, só a distância dos anjos, feita de asas e penas, de um pouco de vento.

Ana Teresa Pereira em A Linguagem dos Pássaros

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