terça-feira, 15 de janeiro de 2019

UMA FLOR DO APRAZÍVEL VALE DO PÓ


16 de Agosto de 1949

Querida, és tua talvez a melhor – a verdadeira. Não tenho, porém, tempo de to dizer, de to comunicar – e depois, mesmo se pudesse fazê-lo, ficará sempre o sinal, o sinal, o fracasso.
Vejo claramente, hoje, que dos vinte anos até agora vivi sempre sob esta sombra – alguns diriam que é um complexo. Que o digam então: é algo muito mais simples.
Tu, tu também és a Primavera harmoniosa, inacreditavelmente suave e flexível, suave, fresca, fugaz – corrompida e boa - «uma flor do aprazível vale do Pó». Diria alguém que conheço.
E no entanto, tu és, tu também, um pretexto apenas. A culpa além de ser minha, é apenas da «inquietação angustiosa, que sorri solitária».

Morrer porquê? Nunca me senti com tanta vida como agora, nunca tão adolescente.

Nada se acrescenta ao que ficou para trás, ao passado. Recomeçamos sempre.

Um prego expulsa outro. Mas quatro pregos fazem uma cruz.

O meu papel no mundo cumpri-o – fiz o que podia. Trabalhei, dei poesia aos homens, tomei parte no sofrimento de muitos seres.

Cesare Pavese em Ofício de Viver

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