Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura,
a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado,
não sei:
De nada me serviria
sabê-lo,
Pois o cansaço fica na
mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da
causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só
isto —
Uma vontade de sono no
corpo,
Um desejo de não pensar
na alma,
E por cima de tudo uma
transparência lúcida
Do entendimento
retrospectivo...
E a luxúria única de
não ter já esperanças?
Sou inteligente: eis
tudo.
Tenho visto muito e
entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer
até no cansaço que isto me dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.
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