quinta-feira, 25 de agosto de 2011

IDÍLIO EM BICICLETA



“Procurei o abrigo de duas paredes, montei a tenda e cozinhei a dose de massa com o resto do segundo litro de água…desta vez iria dormir com a inquietação de não saber se estava na rota certa e onde estaria Cerrillos…
O interior da tenda repousava na escuridão da madrugada, ainda noite, quando os meus ouvidos despertaram com a ilusão de um ténue som musical… acordei de mansinho, incrédulo com a alucinação auditiva e, duvidando da minha sanidade, procurei readormecer. Mas ou a loucura aumentava dentro da tenda, ou o som crescia lá fora. E poucos segundos depois o som era perfeitamente audível, ainda que não muito nítido, parecendo estar muito próximo da tenda. Levantei-me, abri a porta interior e espreitei, de esguelha, pela pequena janela da “parede” exterior da tenda. Especado a menos de um metro, estava um homem totalmente enroupado, só se vislumbrando os olhos castanhos. Debaixo do braço transportava o roufenho rádio, de onde brotava um ruído musical. Abri a tenda, estiquei o pescoço e dei-lhe os bons dias. Ele olhava em redor, com ar curioso, para os meus apetrechos. Pelo meu lado, fui explicando que estava a caminho de Cerrilhos, o dia chegou ao fim e, como necessitava de um abrigo, decidi montar ali a tenda. Ele acrescentou que morava perto, por detrás daquele pequeno cerro, indo a caminho de casa… Antes de desaparecer e me devolver o silêncio da manhã, acrescentou, fazendo um gesto largo com o braço livre, que Cerrilhos era logo adiante, podendo seguir por aquele caminho. Despedimo-nos e a música foi-se diluindo na distância dos passos, que se afastavam.
Fiquei uns minutos a matutar naquele encontro irreal… Na profundeza do deserto, no centro do nada, num casebre totalmente fechado e abandonado, mas onde uma pele de ovelha, a respectiva cabeça e garganta, ainda gotejam sangue fresco, a música difusa de um rádio a pilhas entra de mansinho pela tenda, quebrando a penumbra da madrugada ainda escura. De onde vem e para onde vai aquele homem, invisível no gelo do alvorecer? Apareceu apenas para me dizer que Cerrilhos “é já ali”, atrás do cerro e que posso seguir “por aquele caminho”…”

Texto e imagem de Idílio Freire

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