A
triste notícia é esta: Milton Nascimento, aos 82 anos, aconteceu-lhe, após
exames médicos, a demência. Não mais escreverá canções, não mais cantará, estende-se
o enorme vazio e irá nos deixando aos poucos…
De
entre os discos de Milton escolhi esta Missa dos Kilombos, gravado ao vivo na
Igreja de Nossa Senhora Mãe dos Homens, Caraça, em Março de 1982.
Não
sendo de igrejas nem latinórios, gosto muito deste disco e sempre que o ouço
sinto arrepios, arrisco a dizer que por ele se pode chegar aos caminhos do tal
Cristo, que, alguns, dizem ter sido o primeiro comunista.
Permito-me citar o começo do texto que Pedro Casaldáliga, arcebispo de São Felix, escreveu para o encarte do disco, e que, juntamente com D. Helder da Camara, arcebispo de Olinda e Recife, D. José Maria Pires Arcebispo de João Pessoa, celebram a missa ao lado dos cantores músicos e dançarinos deste projecto de Milton:
Em nome de um Deus supostamente branco e colonizador, que nações cristãs têm adorado como se fosse o Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, milhões de Negros vem sendo submetidos, durante séculos, à escravidão, ao desespero e a morte. No Brasil, na América, na África mãe, no Mundo.
Deportados, como "peças", da ancestral Aruanda, encheram de mão de obra barato os canaviais e as minas e encheram as senzalas de individuos desaculturados, clandestinos, inviáveis. ( Enchem ainda de sub-gente - para os brancos senhores e as brancas madames e a lei dos brancos - as cozinhas, os cais. os bordéis, as favelas, as baixadas, os xadrezes).
Mas um dia, uma noite, surgiram os Quilombos, e entre todos eles, o Sinai Negro de Palmares, e nasceu, de Palmares, o Moisés Negro, Zumbi. E a liberdade impossível e a identidade proibida floresceram, "em nome de Deus de todos os nomes", "que faz toda carne, a preta e a branca, vermelhas no sangue".
Vindos "do fundo da terra", "da carne do açoite", "do exilío da vida", os Negros resolveram forçar "os novos Albores" e reconquistar Palmares e voltar a Aruanda.
E estão aí, de pé, quebrando muitos grilhões - em casa, na rua, no trabalho na igreja, fulgurantemente negros ao sol da Luta e da Esperança.
Para escândalo de muitos fariseus e para alívio de muitos arrependidos, a Missa dos Quilombos confessa diante de Deus e da História, esta máxima culpa cristã.
Na música do negro mineiro Milton e de seus cantores e tocadores, oferece ao único Senhor "o trabalho, as lutas, o martírio do Povo Negro de todos os tempos e de todos os lugares."

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