sexta-feira, 4 de abril de 2025

O MAESTRO SACODE A BATUTA

O maestro sacode a batuta,

E lânguida e triste a música rompe...

Lembra-me a minha infância, aquele dia

Em que eu brincava ao pé dum muro de quintal

Atirando-lhe com uma bola que tinha dum lado

O deslizar dum cão verde, e do outro lado

Um cavalo azul a correr com um jockey amarelo,

Prossegue a música, e eis na minha infância

De repente entre mim e o maestro, muro branco,

Vai e vem a bola, ora um cão verde,

Ora um cavalo azul com um jockey amarelo...

Todo o teatro é o meu quintal, a minha infância

Está em todos os lugares, e a bola vem a tocar música,

Uma música triste e vaga que passeia no meu quintal

Vestida de cão verde tornando-se jockey amarelo...

(Tão rápida gira a bola entre mim e os músicos...)

Atiro-a de encontro à minha infância e ela

Atravessa o teatro todo que está aos meus pés

A brincar com um jockey amarelo e um cão verde

E um cavalo azul que aparece por cima do muro

Do meu quintal... E a música atira com bolas

À minha infância... E o muro do quintal é feito de gestos

De batuta e rotações confusas de cães verdes

E cavalos azuis e jockeys amarelos..,

Todo o teatro é um muro branco de música

Por onde um cão verde corre atrás da minha saudade

Da minha infância, cavalo azul com um jockey amarelo...

E dum lado para o outro, da direita para a esquerda,

Donde há árvores e entre os ramos ao pé da copa

Com orquestras a tocar música,

Para onde há filas de bolas na loja onde a comprei

E o homem da loja sorri entre as memórias da minha infância...

E a música cessa como um muro que desaba,

A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos,

E do alto dum cavalo azul, o maestro, jockey amarelo tornando-se preto,

Agradece, pousando a batuta em cima da fuga dum muro,

E curva-se sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça,

Bola branca que lhe desaparece pelas costas abaixo...

 

Fernando Pessoa

quinta-feira, 3 de abril de 2025

POSTAIS SEM SELO


As minhas personagens verdadeiramente fortes, verdadeiramente sólidas são sempre as figuras femininas. Não é porque eu tenha decidido, é porque sai-me assim. Não há nada de premeditado. Provavelmente isso resulta de que a parte da humanidade em que eu ainda tenho esperança é a mulher.

José Saramago

Legenda: Rosa Parks

OLHAR AS CAPAS


Inquérito Póstumo

Horácio Tavares de Carvalho

Capa: Antunes

Círculo de Leitores, Lisboa, Março de 1981

O Echevarria é que tinha razão. A Costa é para gozar no Inverno. A única diferença reside na temperatura da água, Mas que importa isso, afinal? O prazer do mar, como dizia o Luís, é poder vê-lo, sentir-lhe o cheiro e apanhar-lhe a brisa. É poder sonhar com ele no Inverno. Para manter o calor, temos o chuveiro… É diferente, eu sei, mas, ponderados os pós e os contras, continuo a preferir a Costa fora da estação. Poder pelas ruas quase vazias, poder escolher o restaurante que no Verão está sempre apinhado de gente, poder tudo observar calmamente, sem a presa de só poder ver e desandar, não ter as estradas congestionadas por uma Babel de línguas e não ver a paisagem estragada pelos restos das refeições enlatadas. Cada um tem o direito de fazer turismo onde lhe der na gana. Como cada um tem o direito de fugir ao turismo para se refugiar num buraco onde ninguém ponha os pés. Dizia o Echevarria, esse oráculo da sabedoria popular.

NOTÍCIAS DO CIRCO

As sondagens são o que são, cada cor, seu paladar.

Uma sondagem da Universidade Católica para o Público, RTP e Antena 1 mostra que as eleições, com ligeiras alterações, vão deixar o país na mesma, ou seja: ingovernável.

Foi isto que o primeiro-ministro espinhense, acolitado por aqueles jotas laranjas, quis. Uma chico-espertice-de-vendedor-de-banha-da-cobra, que ontem atingiu um parvo e saloio climax, como referia o editorial do Público - Cuidado com as Confusões:

«O Governo juntou-se nesta quarta-feira, em peso, no Porto, para fazer o balanço do seu primeiro (e único) ano de governação. A reunião de ministros realizou-se numa sala do icónico Mercado do Bolhão e a conferência de imprensa acabou por acontecer no piso das bancas.

Cuidado com as confusões!
De passagem pelo mercado, Luís Montenegro cumprimentou os vendedores, distribuiu beijos, tirou selfies, e o executivo seguiu a pé para o almoço no Café Majestic, na Rua de Santa Catarina — por onde passarão tantas campanhas partidárias até ao dia 18 de Maio.»

TAREFA

Morder o fruto amargo e não cuspir
mas avisar aos outros quanto é amargo,
cumprir o trato injusto e não falhar
mas avisar aos outros quanto é injusto,
sofrer o esquema falso e não ceder
mas avisar aos outros quanto é falso;
dizer também que são coisas mutáveis...
E quando em muitos a noção pulsar
— do amargo e injusto e falso por mudar —
então confiar à gente exausta o plano
de um mundo novo e muito mais humano.

Geir Campos

quarta-feira, 2 de abril de 2025

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Esta é a capa do 1º e restantes 7 volumes da História de Portugal de Alexandre Herculano.

Era comum, há algum longo tempo, as editoras encadernarem obras dos seus autores mais representativos e promoverem a sua venda em volumes encadernados, que vendiam a preços razoáveis, e em suaves prestações mensais. Neste campo, a Biblioteca da Casa regista estas obras de Alexandre Herculano, bem como a obra de JúlioDinis.

Para além dos 8 volumes que compõem a História de Portugal a «oferta» da Bertrand completava-se com:

Cartas – 2 volumes

Poesias

Estudos Sobre o Casamento Civil

Cenas de Um Ano da Minha Vida e Apontamentos de Viagem

Composições Várias

Segundo a História da Literatura Portuguesa de António José Saraiva e Óscar Lopes, o 1º Volume da História de Portugal aparece em 1846, no ano da Maria da Fonte.

«Algumas das razões que levaram Herculano a interessar-se pelo romance histórico estão na origem do seu interesse pela história científica. Mas este último não pode ser compreendido se o não ligarmos às condições do ambiente, mais especificamente, aos problemas sociais e políticos levantados pela instauração do Liberalismo em Portugal.»

As etapas dos 8 volumes da História de Portugal:

1º volume: Introdução

2º volume: 1907-1185

3º volume: 1185-1211

4º volume: 1211-1223

5º volume: 1223-1247

6º volume: A Sociedade – Primeira Epocha - Origens da População/Classes                                     

                   Inferiores

7º volume: A Sociedade – Os Concelhos

8º volume: Indice geral e Analytico

OLHAR AS CAPAS


História de Portugal

Alexandre Herculano

1º Volume

Desde o Começo da Monarquia até o Fim do Reinado de Afonso III

Livraria Bertrand, Lisboa s/d

Commettendo uma empresa, cuja importancia, grande ou pequena, deixarei que outros avaliem, talvez seria o melhor abster-me de quaisquer reflexões preliminares. 

A ÉTICA NADA CONTA PARA OS ELEITORES

«Este à vontade de Montenegro, caricato em quem vai a votos sob maior escrutínio ético, resulta da convicção de que o bom momento económico e orçamental (distribuição de dinheiro) garante benevolência e a multiplicação de notícias oferece o cansaço. A notícia sobre uma investigação judicial que o envolve, num processo onde uma empresa com relação com a sua casa parece ter sido beneficiada na obra mais cara de Espinho pelos pareceres do seu escritório (que tinha a autarquia como cliente), já não teve o impacto da avença. E, no entanto, estão ali vários indícios sobre as relações “empresariais” e partidárias que ligam Espinho, Braga, câmaras do PSD, construtoras e Montenegro. Todas as pistas indicam o mesmo perfil. Mas há um instinto de negação coletiva que não parece querer voltar a lidar com gente assim.

Se, resultado de umas eleições provocadas por estes casos, Montenegro reforçar a sua votação, concluindo-se que a ética nada conta para os eleitores, o à vontade passará a ser à vontadinha. E preparamos um caldo perigoso para o fim do ciclo que começa em maio. Se assim for, até já tenho a frase para o próximo outdoor da AD, com a cara de Luís Montenegro: “Se falhei muito, dêem-me maioria, para falhar melhor”.»

Daniel Oliveira no Expresso

«Era aceitável que Luís Montenegro continuasse em funções se fosse ministro de um outro qualquer primeiro-ministro? Não.

Se o primeiro-ministro fosse, por exemplo, Jorge Moreira da Silva ou Miguel Morgado, já o teriam demitido da pasta que ocupasse desde as primeiras notícias sobre a empresa.

Agora, quando o Expresso revela que o escritório de Luís Montenegro, que trabalhava para a Câmara de Espinho, fez pareceres a defender a empresa de construção ABB contra a própria câmara, o caso sobe um patamar. O próprio Luís Montenegro terá assinado um dos pareceres favoráveis ao empreiteiro que depois lhe forneceu o betão para a sua casa de luxo em Espinho. Isto são coisas normais?»

Ana Sá Lopes no Público

ESTE NINISTRO É UM MENTIROSO

Este ministro é um mentiroso

que agonia quando ele discursa

e se fosse só isso: bale sem jeito

às meias horas seguidas – e não pára!

 

bem-aventurados os duros de ouvido

a quem o céu abrirá as portas

desliguem p.f. o microfone

ou então tirem o país da ficha


Fernando Assis Pacheco  de Desversos em RespiraçãoAssistida

terça-feira, 1 de abril de 2025

POSTAIS SEM SELO

Uma vez que uma coisa está prestes a acontecer, tudo o que podes fazer é esperar que isso não aconteça. Ou não, se depender da vontade. Enquanto viveres, haverá sempre algo à espera, e mesmo que seja mau e saibas que é mau, o que podes fazer? Não podes parar de viver.

Truman Capote

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia


BLOGUEANDO POR AÍ

Já quase não há blogues.

Ainda frequento alguns, velhos conhecidos que têm ficado imunes à javardice que por aí campeia.

A Antologia do Esquecimento, do Henrique Manuel Bento Fialho é um desses blogues a que me chego.

 Este texto, está datado de 19 de Março de 2024:

EU CONHEÇO-OS

«Eu conheço-os, sei quem são, sentei-me à mesa com eles, vimos a bola juntos, frequentamos os mesmos cafés, cruzamo-nos na rua, sim, eu sei, são primos, gente chegada, até amigos, de outrora, de agora, cheios de raiva, consumidos pelas frustrações pessoais, explorados em empregos de merda, na loja do shopping, sim, onde foram parar com currículos medíocres depois de uma vida inteira a cuspir nos livros, ler para quê, estudar para quê, pois se até os professores são infelizes, sim, têm irmãos que queimaram as pestanas para acabarem como caixas de supermercados, parvalhões, mais valia terem emigrado, arranjavam um trabalho de merda na Suíça a ganharem o dobro ou o triplo do que ganham cá, a limpar a merda dos outros, a servir à mesa, a apanhar batatas, a fazer camas nos ferries, a ladrilhar o chão que alguém há-de pisar, cá não, isso é para os monhés, que o trabalho é bom para o preto e eu sou filho de boa gente, até fui baptizado, cá a gente arranja amigos, mete uma cunha, dedica-se à sucata, constrói uma vivenda a fugir aos impostos e faz uma piscina com os fundos sacados ao Estado, que Deus Nosso Senhor mandou-nos ser bons mas não mandou ser parvos, cá a gente glorifica os carvalhos e os vieiras e os berardos, frequentamos as quintas de uns e as sextas dos outros, arranjamos um bom partido e adoramos o senhor doutor, o senhor engenheiro, até que caiam na desgraça e se afundem para nosso espanto, quem diria, tão boas pessoas, amigos de seus amigos, isto, enfim, uma pessoa já nem sabe com o que pode contar, e siga, um Mercedes para exibir na aldeia, uma moto quatro para entreter os fins-de-semana, férias no Algarve, mariscadas, bola e toiros e Quim Barreiros, tasquinhas, feiras medievais e passadiços, uma paisagem deslumbrante no miradouro com balancé panorâmico e faz-se a festa, que à noite temos novo episódio do Quem quer casar com o agricultor?, e temos a Cristina e o Goucha e a CMTV com um desfile de crimes para entreter as horas a destilar o ódio aos pretos, aos ciganos, que isto já não se pode andar na rua, não fossem os bombeiros e a polícia o que seria de nós, de nós e da Mónica Silva, desaparecida para encher noticiários, a nossa telenovela da vida real, sim, eu sei, isto aqui está tudo bem, são vidas, ai que gente, e ele é o macaco, golo, ele é o Pinto da Costa, um senhor, até diz poemas de cor, ele são 25 mulheres assassinadas, enfim, algumas, eh pá, eu não sou machista, mas algumas estavam a pedi-las, eu não sou racista, até tenho amigos, pronto, assim pretos, não é, que isto cada um é como cada qual, entre marido e mulher não metas a colher, vai para a tua terra, a minha terra é aqui, é isto, eu sei, tanto Abril, tanta educação, somos os melhores na bola, o Mourinho já deu o que tinha a dar, o Ronaldo já deu o que tinha a dar, venha daí um novo Salazar, um em cada esquina, que este país está a precisar é de um novo 25 de Abril com um Salazar em cada esquina, para acabar com os corruptos, os outros, não eu, que eu sou bom tipo, não faço mal nem a uma mosca, não me meto em esquemas nem conheço quem meta, não sei, não vi, não ouvi, isso não é comigo, não tenho nada que ver com isso, deixem-me em paz, deixem-me em paz antes que parta esta merda toda, agora nem casa tenho, vou comer pizza, vou para fora, vou para fora cá dentro, vou ver o RAP, vou, sei lá, comer uma bifana e arrotar postas de pescada.»

EM BUSCA DE FLORES AZUIS NO DESERTO

As Nações Unidas acusaram Israel de ter morto 15 paramédicos e socorristas “um a um” e de os ter enterrado numa vala comum, noticiou o diário britânico The Guardian.
As notícias sobre o que aconteceu a um grupo de paramédicos e socorristas no Sul da Faixa de Gaza têm surgido aos poucos, com Israel a ter, no fim-de-semana, admitido, numa “avaliação inicial”, que disparou contra veículos que dirigiam-se em direcção às suas forças de modo suspeito, e ter depois verificado que entre estes veículos estavam ambulâncias e veículos de bombeiros.»

Texto e fotografia do Público

CORAÇÃO

1

Tosca e rude poesia:

meus versos plebeus

são corações fechados,

trágico peso de palavras

como um descer da noite

aos descampados.

 

Ó noite ocidental,

que outra voz nos consente

a solidão?

Cingidos de desprezo,

somos os humilhados

cristos desta paixão.

 

E quanto mais nos gelar a frialdade

dos teus inúteis astros,

mortos de marfim,

mais e mais, génio do povo,

cantarás em mim!

 

Carlos de Oliveira de Mãe Pobre em Poesias