CAIS DO OLHAR
quarta-feira, 28 de janeiro de 2026
À LUPA
O debate de ontem nas televisões ajudou a concluir que o presidente «daquela coisa» não é flor que se cheire e que não basta António José Seguro vencer a 2ª volta das presidenciais, é muito importante que ninguém fique em casa e demonstre nas urnas que «aquela coisa» não pode continuar a ofender, a criar cenas de ódio, a desestabilizar um país, já em si tão frágil.
É importante reconhecer, apesar de tudo, a importância do momento que vivemos, representa a necessidade de lutar para que as a esperança em tempos melhores não morra de vez.
Tal como se pode ler na Antologia do Esquecimento:
«Ventura
acha que está no caminho certo porque estão todos contra ele. Na verdade, não
estão todos contra ele. Mais de 1 milhão de palermas votaram nele. Ele próprio,
nas eleições anteriores em que foi candidato, todas e mais algumas, tem vindo a
gabar-se de arrasar com este e com aquele porque os portugueses estão do seu
lado. Ora, há nesta lógica propagandística uma contradição que não é de
admirar. Ventura diz e desdiz a cada hora que passa. O que me parece
interessante, desde já, sublinhar é a importância de estarmos todos contra as
pragas de ratos, independentemente do caminho que elas sigam. O discurso dos
estão todos contra mim é ainda interessante por vir de um bully que
passa a vida a estar contra tudo e todos, nomeadamente o PSD e PS, que ele faz
equivaler em cartazes sobre corrupção, ou os ciganos, assim generalizados como
se no interior da comunidade não houvesse tanta gente diferente. Ventura está
constantemente a pôr-se no centro do mundo, as televisões ajudam. Também por
isto é tão importante ir votar contra ele, para que finalmente ele perceba que
os que estão com ele não são assim tantos como ele apregoa. O que está em causa
nas próximas eleições não é a direita versus a esquerda, é indecência versus a
decência, não é o socialismo versus as democracias liberais, é o respeito pela
Constituição da República versus o desrespeito por uma Constituição que se
pretende mudar para favorecer elites contra os direitos de todos, o que está em
causa não é 52 anos de corrupção versus três Salazares para acabar com a mama,
é a possibilidade de o país continuar a progredir versus um cheque em branco
aos pardais das mamadas.»
O SOL DO MENDIGO
Olhai o vagabundo que
nada tem
e leva o Sol na algibeira!
Quando a noite vem
pendura o Sol na beira dum valado
e dorme toda a noite à soalheira...
Pela manhã acorda tonto de luz.
Vai ao povoado
e grita:
- Quem me roubou o Sol que vai tão alto?
E uns senhores muito sérios
rosnam:
- Que grande bebedeira!
E só à noite se cala o pobre.
Atira-se para o lado,
dorme, dorme...
Manuel da Fonseca em Poemas Completos
terça-feira, 27 de janeiro de 2026
POSTAIS SEM SELO
Aqueles que passam por
nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de
nós.
Antoine de Saint-Exupéry
Legenda:
fotografia de Vivian Maier
OLHAR AS CAPAS
As Ideias de Eça de Queiroz
António José Saraiva
Centro
Bibliográfico, Lisboa 1946
Há várias maneiras de estudar as ideias num artista porque nem sempre da mesma maneira se articulam as ideias e as artes.
VELHOS RECORTES
Uma
crónica encontrada no República de 6 de Julho de 1973.
Ainda não tinha acontecido um tal 25 de Abril, que originaria, entre outras coisas, o Serviço Nacional de Saúde.
SÍTIOS POR ELES ANDARAM
Tempos.
O
Tejo visto de uma janela virada para o mar.
O lembrar de um poema para crianças contado pelo Mário Castrim.
Tenho uma janela
que dá para o mar
barcos a sair
barcos a entrar
tenho uma janela
que dá para o mar
sonhos a partir
sonhos a chegar
tenho uma janela
que dá para o mar
um fio de fumo
uma sombra além
uma história antiga
um cantar de vela
um azul de mar
tenho uma janela
que dá para o mar
tenho uma janela
que seria bela
seria mais bela
que qualquer janela
janela fosse ela
de Lua ou de estrelas
ou qualquer janela
de qualquer escola
se não fosse aquele
pescador já velho
que anda pela praia
a pedir esmola
barcos a sair
barcos a entrar
chego-me à janela
e não vejo o mar.
Também uma frase solta do Patxi Andion encontrada pelo tempo em que se (des)arrumam caixas com papéis, em busca de espaço para os livros que se amontoam por aqui, por ali:
«Uma cidade sem mar é como uma casa sem janelas».
NOTÍCIAS DO CIRCO
Luís Montenegro colocou a pata na poça quando escolheu Luís Marques Mendes para candidato do PSD à presidência da República.
Após
o miserável resultado de Marques Mendes, e sem consultar o partido,
entendeu que não devia apoiar, para a 2ª volta, nenhum candidato.
Reafirmou
esta segunda-feira que não vai apoiar nenhum dos dois candidatos da segunda
volta das eleições presidenciais porque o seu foco é governar o país.
“Eu não estou em
silêncio, o que eu estou é focado na minha tarefa e na minha missão que é governar
o país”, afirmou à saída da apresentação da Carteira Digital da Empresa no
Palácio da Bolsa, no Porto.
Montenegro
está entalado e nenhuma daquelas asas políticas que o acompanham, lhe fazem ver
que, para além de (não) governar, continua a disparatar.
OS DIAS SEM SURPRESA
Os dias mais
silenciosos são dias magros
como a diet coke, dias em que nem sequer notamos
os navios doentes, navios de quarentena onde,
felizmente, nunca poderíamos ter chegado a entrar,
nunca teríamos chegado a chegar
por não sermos capazes da primeira partida.
Os dias mais silenciosos não são tristes:
são de rejeitar cruzeiros fixos, pasteleiros de máscara
de ferro a fazerem bolos doentes para hóspedes doentes.
O mundo, Drummond, o vasto mundo está horrível
e tudo o que consigo é pedir um copo de branco,
Dona Ermelinda de Freitas, o mais barato na esplanada
cheia de gente espantada com ainda haver sol.
Os dias mais
silenciosos têm uma bandeira vertical,
caída de não haver vento, e muita gente
a andar de bicicleta.
Aos 40 anos, tudo o que desejo são estes dias
sem surpresa: chegar ao céu, sentar-me,
efectuar o pagamento no acto da entrega.
Filipa Leal
segunda-feira, 26 de janeiro de 2026
SOLTAS
Ovelho recorte que há dias publicámos sobre o encerramento da Editora/Livraria Cotovia, revelava que o seu proprietário apenas publicava os livros de que
gostava. O dinheiro era dele, a editora era dele, a escolha era dele e não
estava para cedências, fossem elas quais fossem.
Nunca
encontrei o livro, especificamente não sabia da sua existência, mas fiquei a
saber que João André editou um livro sobre os começos dos poemas de Jorge de
Sena e isso é tão importante quando se sabe que muitos poemas não têm título e
apenas funciona o começo de cada poema.
Apesar
de saber que os livros de Poesia do Jorge de Sena têm um Índice dos Primeiros
Versos, achei a edição do João André uma coisa maravilhosa.
1.
Portugal foi em 2025 o quinto país do mundo que mais milionários recebeu, ao mesmo tempo que se vai sabendo que o risco de pobreza ou exclusão social ameaça 2,1 milhões de pessoas.
2.
Por
vezes vem-me à memória os tempos do confinamento provocado do Covid desce até nós.
As
horas em que não sabíamos nada uns dos outros.
Há um Diário por aqui.
«Sexta-feira 13.
Dia de azar.
Feitiços. Bruxas. Gatos
pretos. Não passes por debaixo de escadas. Não abras o chapéu-de-chuva dentro
de casa. Não tenhas relógios parados dentro de casa.
Em tempo de pandemia
valerá a pena falar de sextas-feiras 13?
Bluff absolutamente
inútil?
O papel todo branco à espera, ninguém sabe bem de quê!...»
3.
Dom
Quixote de Miguel Cervantes.
Está
lá tudo.
Um
livro impar que não é tão lido como se apregoa por aí.
Mas
muito poucos, mesmo muito poucos admitem que não o leram.
5. Não se pode ser português e assim suave, sem se sentir, primeiro, alguma raiva e, depois, uma melancolia incurável. Disso se morre por vezes. Disso terá morrido o pintor Bernardo Marques, compadre o poeta José Gomes Ferreira
4.
Como
dizia a mulher do tipo que se atirou do Viaduto Duarte Pacheco: a vida tem as
suas compensações.
5.
Existem
4800 médicos estrangeiros inscritos na Ordem dos Médicos mas apenas 976 têm
contrato com o SNS. em 2025 as duas maternidades onde se realizaram mais partos
são de hospitais particulares; seis em cada dez partos em hospitais privados
são feitos com recurso a cesarianas, o dobro do que se verifica no sector
público.
6.
«Sá
de Miranda já falava do desconcerto do mundo, Camões aprofundou o desconcerto
do mundo, Vieira sentiu na pele o desconcerto do mundo, Nicolau Tolentino
denunciou em versos autocomplacentes o desconcerto do mundo, o desconcerto do
mundo persegue-nos. Do renascimento ao barroco, da arcádia lusitana ao
romantismo, do modernismo ao surrealismo, passando pelo neo-realismo e demais
ismos, sempre o desconcerto do mundo, sempre esta sensação de injustiça, de
premiação do mal e desprezo do bem. Ainda hoje, o desconcerto do mundo. Uma
guilhotina suspensa por fios débeis sobre as nossas consciências.»
Hmbf em Antologia do Esquecimento
OLHAR AS CAPAS
Contos Fantásticos
D.H. Lawrence,
Guy de Maupassant, H. G. Wells, Dylan Thomas, Edgar Allan Poe, entre outros
Tradução: Carmo
Vaz
Editorial Nobel,
Coimbra, Novembro de 1943
E estou sozinho, sozinho, completamente só, há três
meses. Sinto-me quase tranquilo. Um único receio me assalta… Se o antiquário
enlouquecesse… e se o trouxessem para este asilo… As próprias prisões não são
seguras…
(Do conto de Guy Maupassant)
HAVIA DE LHES BATER À PORTA
Os
saloios engravatados colocaram o vinho em preços proibitivos.
Os
chefs vampiros – eles comem tudo enão deixam nada - inventaram restaurantes, criaram coisas a que
chamam alta comida.
Agora
nesses restaurantes não se bebe vinho, apenas água, alguma cervegita.
Segundo
há dias revelava o Público, os restaurantes da alta engravatada trabalham, quando trabalham, apenas para
pagar contas, empréstimos ao banco.
Pedro Garcias em crónica no Público:
«O que está a acontecer com a restauração vai repetir-se mais cedo ou mais
tarde com a hotelaria nacional. O boom de novos hotéis e os altos preços
praticados, em particular em regiões com maior procura turística, não vai
acabar bem. Quando ir jantar fora ou dormir num hotel se torna num luxo
inalcançável para a população local, a tempestade futura está garantida.
Para muitos restauradores, como se vê, o futuro já chegou, e a culpa talvez não
seja da economia. Talvez seja mais do deslumbramento que o turismo trouxe ao
país e da tal cultura Michelin. Uma cultura mais ou menos sublimada na ideia de
que um restaurante só poderá aspirar ao estrelato pneumático se apostar no
requinte da comida, do espaço e do serviço. Na busca desesperada por uma
estrela, muitos chefes e empresários fazem investimentos loucos e levam o
serviço a um nível quase ridículo, muitas vezes com mais funcionários na
cozinha e na sala do que clientes. Como é óbvio, os preços dos menus têm que
ser muito altos.»
LAMENTO DE UM PAI DE FAMÍLIA
Como pode um homem carregado de filhos e sem fortuna
alguma
ser poeta neste tempo de filhos só da puta ou só de putas
sem filhos? Neste espernear de canalhas, como pode ser?
Antes ser gigolô para machos e ou fêmeas, ser pederasta
profissional que optou pelo riso enternecido dos virtuosos
que se revêem nele e o decepcionado dos polícias que com ele
não fazem chantage porque não vale a pena. Antes ser denunciante
de amigos e inimigos, para ganhar a estima dos poderosos ou
dos partidos políticos que nos chamarão seus gênios. Antes
ser corneador de maridos mansos com as mulheres deles fáceis.
Antes reunir conferências de São Vicente de Paula, para roçar
o cu da virtude pelas distracções das sacristias escuras e
ter o prazer de acudir com camisolinhas aos pobres entre os quais
às vezes aparece um ou uma que dá gosto ver assim tão pobre por
se lhe verem os pêlos pelos rasgões da camisa ou algo de mais
impressionante para o subconsciente que sempre está nos olhos
que docemente se comovem com a miséria. Antes ir para as guerras
da civilização cristã ou da outra, matar os inimigos da conta corrente
e das fábricas de celofânicas bombas. Antes ser militar.
Ou marafona de circo. Ou santo, Ou demônio doméstico
torcendo as orelhas dos filhos à falta de torcê-los aos filhos
da puta. Ou gato. Ou cão. Ou piolho. Antes correr os riscos do
DDT, das carroças que os municípios têm para os cães suspeitos
de raivosos como todos os cães que se vê não lamberem as partes
das donas ou mesmo dos donos. Antes tudo isso que assistir a tudo,
sofrer de tudo e tudo, e ainda por cima ter de aturar o amor
paterno e os sorrisos displicentes dos homens de juízo
que deram pílulas às esposas, ou as mandaram à parteira secreta e
elas quiseram ir. Antes morrer.
Mas que adianta morrer? Quem nos garante que a morte
não existe só para os filhos da puta? Quem me garante que
não fico lá, assistindo a tudo, e sem sequer poder chamar-lhes
filhos da puta, com o devido respeito a essas senhoras que precisamente
se distinguem das outras por não terem filhos, nem desses nem dos outros?
Mas mesmo isto não consola nada. A quantidade, a variedade,
gastaram a força dos insultos. E não se pode passar a vida,
esta miséria que me dão e querem dar a meus filhos, a chamar nomes
feios a sujeitos mais feios do que os nomes. Como pode um homem
sequer estar vivo no meio disto, sem que o matem?
E o pior é que matam, sim, e sem saberem primeiro a quem,
para não se inquietarem com o problema de terem morto por engano
um irmão, desfalcando assim a família humana de algum ornamento
que a tornava menos humana e mais puta.
15/6/64
Jorge de Sena em 40 Anos de Servidão
domingo, 25 de janeiro de 2026
POSTAIS SEM SELO
Gosto do mar desesperado, a bramir e a lutar e gosto de um barco ainda mais ousado sobre esta rebeldia a navegar.
Miguel
Torga
OLHAR FRIGIDEIRAS, TACHOS, PANELAS
Leia-se a newsletter que a jornalista Bárbara Reis publicou no Público de 14 de Janeiro:
«Os
12 jornalistas que estão há seis meses a fazer a revista Visão a
partir de casa querem comprar o título, que vai ser vendido em leilão, e
precisam de 200 mil euros. Em sete dias, conseguiram 55% do objectivo.
Liguei ao Fernando Alves, rei da palavra e que no início dos anos 1980 ajudou a
fundar a TSF como cooperativa de jornalistas, e disse-lhe o nome da campanha de
angariação de fundos da Visão: MIL.
– Mil?
–
Movimento Imprensa Livre.
–
Belo nome. Eles são uns heróis. Estes 12 são mais de mil.»
Lembrando
esse trabalho dificílimo que os resistentes jornalistas da Visão estão a
realizar, para não deixarem morrer a revista, comprei-a no dia 8 de Janeiro.
Em
homenagem ao trabalho dos jornalistas, recortei o trabalho do chefe Luís de
Jesus e adianto a minha «receita», mesmo minha, para Camarões à Brás.
Ingredientes
Azeite
Cebolas
Alhos
Pimento
vermelho
Camarões
Cozidos
Farinheira
Ovos
Batatas
Queijo
picado
Coentros
Azeitonas
Refogo
em azeite cebolas , em boa quantidade, até ficarem translúcidas, juntamente com alhos picados.
Junto
pimento vermelho cortado aos bocadinhos, 1 farinheira sem pele e desfeita, as gambas , não
muito grandes, já cozidas, que se vendem em qualquer grande superfície, batatas, cortadas em palha, fritas e envolvo tudo em ovos mexidos com queijo ralado,
deixando-os cremosos, nunca secos.
Finalizo com folhas de coentros espalhadas pelo petisco e azeitonas.
Dicas:
Nunca
uso batatas fritas palha de pacote.
Não menciono quantidades, deixo o assunto à vontade do freguês.
A TRANSFORMAÇÃO DE MONTENEGRO EM RÃ
«Nessa altura, André Ventura ainda não tinha nascido e Luís Montenegro estava a entrar para a escola primária. Duas décadas e meia depois, o primeiro faz o que quer do segundo — goza-o, insulta-o, humilha-o, age como Trump com os seus críticos —, e, mesmo assim, o segundo anui e baixa a cabeça. Colocar o líder do Chega no mesmo plano de António José Seguro diz tudo sobre Montenegro. Nem sabe o que aí vem. Um dia, muito em breve, acorda, olha-se ao espelho e vê uma rã, acabada de ser engolida e cuspida por um Ventura de peito feito com a honrosa derrota que o espera na segunda volta das eleições presidenciais. Nem o PS lhe valerá, porque o líder socialista também acredita que o partido acaba de ressuscitar. Os passistas, esses, assistem de camarote, como escorpiões em pedra bolideira. Quando atacarem, depois de darem corda ao bicho, talvez já seja tarde até para eles.» Pedro Garcias na crónica do Público de 24 de Janeiro
OS ITINERÁRIOS DO EDUARDO
O Eduardo foi poeta e um homem de jornais.
Sempre.
Em 1975 esteve na Guiné-Bissau a escrever, a ensinar, experiência que deixou, Outubro de 1975, em artigos publicados na Vida Mundial. Ele que já antes dissera que tinha muito para aprender neste negócio dos jornais:
«Por entre sorrisos de
acolhimento e de chalaça alinhavo a prosa jornalística, obviamente
sintética. Entrego-me receptivo, à espera
das notícias. Rápidas e maduras escorregam-me das mão se, às tantas, com medo que
se quebrem, os meus joelhos unem-se e as
amparo. Grávido pareço. Presunção? Talvez não. De água benta nem sei. Apenas águas
das cheias em telex. Ah!, prosa, prosa! Danada me saíste por essas linhas fora. Não sei que te fazer
para sacudir de ti tanto lirismo que em ganga se move entre os linguados. O solo
lusitano tinge as mãos e o sol inexistente do solstício violenta-me de turismo.
Levanto me simpático. Rabisco umas ternuras. O Ribatejo inteiro é um oceano! Que
tirada, ó poeta! E as notícias? Mobilizo recursos que nem sei onde metê-los. Encaixa
poeta, encaixa! Tens muito que aprender neste negócio.»
MÚSICA PELA MANHÃ
As gentes «daquela coisa, perigosamente, entraram num caminho que pretende fazer o regresso do país aos terríveis e negros tempos que vivemos antes do 25 de Abril.
Pedro Adão e Silva, hoje no Público, escreve que estas gentes, para além de outros atropelos, pretendem «Para defender a cultura diabolicamente nova
A premissa de que há uma "cultura de esquerda" que deve ser substituída por uma "cultura de direita" é perigosa. As políticas culturais devem garantir a variedade da oferta, sem interferência política nos conteúdos da programação; assegurar que há espaço para tudo e criar oportunidades para os artistas e as propostas emergentes. A cultura é um espaço de representação, mas também o lugar onde devemos esperar inovação. Sem essa margem para transgredir, as nossas sociedades ficam condenadas ao imobilismo.»
Uma sondagem da Universidade Católica mostra que, no próximo
dia 8 e Fevereiro, António José Seguro obtém 70% de votos contra 30% do
presidente «daquela coisa».
O perigo destes números é a existência de eleitores
que poderão pensar que o vencedor está encontrado e já não será necessário ir
votar.
Lembrar que a abstenção é uma atitude que, poderá não
lhe dar a vitória, mas favorece os desígnios do presidente «daquela coisa».
Por isso, a música da manhã de hoje, leva-nos para o
poema de António Gedeão que deu uma
canção de Manuel Freire.
sábado, 24 de janeiro de 2026
VELHOS RECORTES
Naquele edifício existiu a Livraria Opinião.
Na
sua edição de 1 de Setembro de 2020, em artigo de Luís Miguel Queirós, o Público
trazia-nos a notícia, que já era há algum tempo um rumor, de que a Editora Cotovia,
projecto editorial de André Jorge, iria fechar portas.
«Numa conversa com o
Público em 2017, quando regressou à Cotovia para relançar a editora, após a
morte de André Jorge, Fernanda Mira Barros já avisava: “Tenho o privilégio de
poder abdicar de um salário, e estou a dar-me dois ou três anos para pôr isto
bem, mas sei que é muito difícil viver no sector dos livros tal como ele é
hoje, e não sou o André, não vou vender o património que herdei dos meus pais
para sustentar a editora.”
Com cerca de 1500
títulos publicados, a Cotovia foi lançada em 1988 por André Jorge e pelo seu
irmão, o poeta João Miguel Fernandes Jorge, que se desentenderiam pouco depois,
ficando o primeiro a conduzir o barco sozinho.»
A editora publicou a
revista literária As Escadas Não Têm Degraus, projectos de duvidosos retorno financeiro
como o lançamento, em 1990, de um volume autónomo com os índices da poesia de
Jorge de Sena.
André Jorge só
publicava os livros de que gostava como se recusava a publicar livros de que
não gostava, também não estava disposto a pactuar com situações que considerava
injustas apara assegurar a distribuição dos livros. Ficou conhecida a decisão
que a dada altura tomou de deixar de vender os seus livros nas lojas Bertrand. “Custa-me
tanto pôr uma gravata como aturar um idiota que do alto da sua função tenta
esmagar – “Este vem aqui porque precisa de vender, então vou impor as regras.»
Quando uma editora acaba, os amantes de livros morrem um bocado, principalmente quando esses tubarões que abocanharam pequenas editoras e não foi por amor aos livros , nem sequer sabem do negócio, mas meramente pelo metal sonante!
MÚSICA PELA MANHÃ
Voltamos
à pergunta de Mário de Carvalho:
Não perceberão as
pessoas que atravessamos um momento perigosíssimo?
Pelo
que se dirá, citando o músico Miguel Guedes, que a 2ª volta da Eleição
Presidencial «não é uma escolha, é uma obrigação. Não há negociação ou
transigência. A estabilidade e a decência não podem pecar por omissão, muito
menos por parte de cada um dos candidatos que não passaram à segunda volta,
sendo grotesco que qualquer deles, à Direita, não venha a admitir endereçar o
seu voto a António José Seguro.»
A
nossa Música Pela Manhã deste sábado, atravessa uma das mais importantes
canções de Sérgio Godinho.
É
a faixa de abertura do álbum «À Queima Roupa» de 1974:
LIBERDADE
Viemos com o peso do
passado e da semente
Esperar tantos anos
torna tudo mais urgente
e a sede de uma espera
só se estanca na torrente
e a sede de uma espera
só se estanca na torrente
Vivemos tantos anos a
falar pela calada
Só se pode querer tudo
quando não se teve nada
Só quer a vida cheia
quem teve a vida parada
Só quer a vida cheia
quem teve a vida parada
Só há liberdade a sério
quando houver
A paz, o pão
habitação
saúde, educação
Só há liberdade a sério
quando houver
Liberdade de mudar e
decidir
quando pertencer ao
povo o que o povo produzir
quando pertencer ao
povo o que o povo produzir
sexta-feira, 23 de janeiro de 2026
O OUTRO LADO DAS CAPAS
Galego com raízes portuguesas, Pepe Carvalho, gastrónomo como Nero Wolf, neste livro, faz um pato guisado e, às 2 da manhã, não quer comer sozinho, e convida o seu administrador Fuster.
A Quetzal está a (re)publicar a obra de Montalbán e este A Solidão do Manager, nunca traduzido por aqui, conta-nos:
«Um homem é encontrado com umas cuecas femininas no bolso. A investigação é confiada a Pepe Carvalho, antigo militante comunistas, ex-agente da CIA, ex-professor de Filosofia e excêntrico gastrónomo. O que parecia ser um ajuste de contas sexual transforma-se num ajuste de contas político, com histórias de sexo, vida empresarial, política e vinganças pessoais. A Solidão do Manager é uma investigação sobre o mundo das empresas, dos gestores, da solidão, e da Espanha em transição para a democracia.»
«Em certa ocasião, o agora deputado Solé Barberà disse-me: »Vamos ver quando escreves outro romance de polícias e ladrões.» Tomei isso como uma ordem e quero dedicar-lhe este livro.»
Quase a terminar o livro: «Mil novecentos e sessenta e seis foi um grande vinho para o vinho de Borgonha.»
OLHAR AS CAPAS
A Solidão do Manager
Manuel Vásquez
Montalbán
Tradução:
António José Massano
Capa: Rui
Rodrigues
Quetzal
Editores, Lisboa, Outubro de 2025
- A estas horas! Algum incêndio?
- Um pato guisado.
- O quê?
- Fiz um pato guisado.
O bicho não é muito grande,
Mas não vou comê-lo sozinho.
- São duas da manhã!
- Um pato guisado
- Um pato de pouca idade?
- Um patinho.
- De confiança?
- De absoluta confiança.
- Vai abrindo as garrafas de vinho que eu já lá vou
ter.
Ou Carvalho regressou a sua casa com excessiva
lentidão, ou o gestor correu empurrado pelo fresco húmido e pela ressurreição
do apetite, a verdade é que, quando se juntaram, Carvalho não tinha tido tempo
de abrir a garrafa de Montecillo. Fuster deixou em cima da mesa da cozinha um
cestinho de que era portador, cheio de frutos secos de Villores, de mel por
refinar de Villores e de uns estranhos biscoitos pertencentes à família cultural
dos biscoitos secos populares em cuja composição entram necessariamente o ovo e
a amêndoa.
- Estes biscoitos foram feitos pela minha cunhada. São
de Villores.
-Era o que eu termia.
- Depois do pato, nada melhor que umas avelãs com mel
e um biscoito para acbar de empapar o guisado no estômago.
PARA SEMPRE
Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
– mistério profundo –
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.
Carlos Drummond de Andrade de Lição de Coisas em Antologia Poética
quinta-feira, 22 de janeiro de 2026
À LUPA
A Greve Geral de Dezembro, não foi suficiente para quebrar a teimosia da ministra do trabalho e de Luís Montenegro, para arrepiarem caminho e desistirem da proposta de lei que o governo quer impor aos trabalhadores.
Rosário Palma Ramalho diz que a proposta de lei será submetida ao Parlamento
"no momento oportuno" e garante que o Governo irá negociar "com
todos os partidos que queiram, efetivamente, negociar".
A
ministra do Trabalho disse ainda que não se pode
"comprometer" com um prazo para levar as alterações à lei laboral ao
parlamento, sublinhando que tudo dependerá da "dinâmica" da
Concertação Social.
NOTÍCIAS DO CIRCO
Segundo o jornal Público o «Grupo 1143, classificado pela Polícia Judiciária como uma associação criminosa neonazi, terá realizado pelo menos um “treino de combate” no ano passado e um exercício no ano anterior em que os membros terão marchado com escudos antimotim. A cúpula do grupo, liderado por Mário Machado, teria a intenção de transformar a organização numa “milícia”.».
A
frase de Mário de Carvalho, ontem, escolhida para o Postal Sem Selo: Não
perceberão as pessoas que atravessamos um momento perigosíssimo?», tinha o
propósito de vincar o perigo que a democracia portuguesa atravessa.
Mais
ainda quando o presidente «daquela coisa», numa entrevista à RTP, não quis, não
conseguiu, demarcar-se do apoio que os grupos neo-nazis lhe prestam: afirmou
não os conhecer e disse ter afastado apenas os que "tinha de
afastar".
Mais
se adensa a ideia de que foi um enorme erro (?) o Tribunal Constitucional ter
permitido a existência «desta coisa».



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