quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

VELHOS RECORTES


 Recorte do República de 29 de Junho de 1973.

À LUPA


 O debate de ontem nas televisões ajudou a concluir que o presidente «daquela coisa» não é flor que se cheire e que não basta António José Seguro vencer a 2ª volta das presidenciais, é muito importante que ninguém fique em casa e demonstre nas urnas que «aquela coisa» não pode continuar a ofender, a criar cenas de ódio, a desestabilizar um país, já em si tão frágil.

É importante reconhecer, apesar de tudo, a importância do momento que vivemos, representa a necessidade de lutar para que as a esperança em tempos melhores não morra de vez.

Tal como se pode ler na Antologia do Esquecimento:

«Ventura acha que está no caminho certo porque estão todos contra ele. Na verdade, não estão todos contra ele. Mais de 1 milhão de palermas votaram nele. Ele próprio, nas eleições anteriores em que foi candidato, todas e mais algumas, tem vindo a gabar-se de arrasar com este e com aquele porque os portugueses estão do seu lado. Ora, há nesta lógica propagandística uma contradição que não é de admirar. Ventura diz e desdiz a cada hora que passa. O que me parece interessante, desde já, sublinhar é a importância de estarmos todos contra as pragas de ratos, independentemente do caminho que elas sigam. O discurso dos estão todos contra mim é ainda interessante por vir de um bully que passa a vida a estar contra tudo e todos, nomeadamente o PSD e PS, que ele faz equivaler em cartazes sobre corrupção, ou os ciganos, assim generalizados como se no interior da comunidade não houvesse tanta gente diferente. Ventura está constantemente a pôr-se no centro do mundo, as televisões ajudam. Também por isto é tão importante ir votar contra ele, para que finalmente ele perceba que os que estão com ele não são assim tantos como ele apregoa. O que está em causa nas próximas eleições não é a direita versus a esquerda, é indecência versus a decência, não é o socialismo versus as democracias liberais, é o respeito pela Constituição da República versus o desrespeito por uma Constituição que se pretende mudar para favorecer elites contra os direitos de todos, o que está em causa não é 52 anos de corrupção versus três Salazares para acabar com a mama, é a possibilidade de o país continuar a progredir versus um cheque em branco aos pardais das mamadas.»

O SOL DO MENDIGO

Olhai o vagabundo que nada tem
e leva o Sol na algibeira!
Quando a noite vem
pendura o Sol na beira dum valado
e dorme toda a noite à soalheira...
Pela manhã acorda tonto de luz.
Vai ao povoado
e grita:
- Quem me roubou o Sol que vai tão alto?
E uns senhores muito sérios
rosnam:
- Que grande bebedeira!

E só à noite se cala o pobre.
Atira-se para o lado,
dorme, dorme...

Manuel da Fonseca em Poemas Completos

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

POSTAIS SEM SELO

Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.

Antoine de Saint-Exupéry

Legenda: fotografia de Vivian Maier

OLHAR AS CAPAS

As Ideias de Eça de Queiroz

António José Saraiva

Centro Bibliográfico, Lisboa 1946

Há várias maneiras de estudar as ideias num artista porque nem sempre da mesma maneira se articulam as ideias e as artes.

VELHOS RECORTES

Uma crónica encontrada no República de 6 de Julho de 1973.

Ainda não tinha acontecido um tal 25 de Abril, que originaria, entre outras coisas, o Serviço Nacional de Saúde.

SÍTIOS POR ELES ANDARAM

Tempos.

O Tejo visto de uma janela virada para o mar.

O lembrar de um poema para crianças contado pelo Mário Castrim.

Tenho uma janela
que dá para o mar
barcos a sair
barcos a entrar
tenho uma janela
que dá para o mar
sonhos a partir
sonhos a chegar
tenho uma janela
que dá para o mar
um fio de fumo
uma sombra além
uma história antiga
um cantar de vela
um azul de mar
tenho uma janela
que dá para o mar
tenho uma janela
que seria bela
seria mais bela
que qualquer janela
janela fosse ela
de Lua ou de estrelas
ou qualquer janela
de qualquer escola
se não fosse aquele
pescador já velho
que anda pela praia
a pedir esmola
barcos a sair
barcos a entrar
chego-me à janela
e não vejo o mar.

Também uma frase solta do Patxi Andion encontrada pelo tempo em que se (des)arrumam caixas com papéis, em busca de espaço para  os livros que se amontoam  por aqui, por ali:

«Uma cidade sem mar é como uma casa sem janelas».

NOTÍCIAS DO CIRCO

 Luís Montenegro colocou a pata na poça quando escolheu Luís Marques Mendes para candidato do PSD à presidência da República.

Após o miserável resultado de Marques Mendes, e sem consultar o partido, entendeu que não devia apoiar, para a 2ª volta, nenhum candidato.

Reafirmou esta segunda-feira que não vai apoiar nenhum dos dois candidatos da segunda volta das eleições presidenciais porque o seu foco é governar o país.

“Eu não estou em silêncio, o que eu estou é focado na minha tarefa e na minha missão que é governar o país”, afirmou à saída da apresentação da Carteira Digital da Empresa no Palácio da Bolsa, no Porto.

Montenegro está entalado e nenhuma daquelas asas políticas que o acompanham, lhe fazem ver que, para além de (não) governar, continua a disparatar.

OS DIAS SEM SURPRESA

Os dias mais silenciosos são dias magros
como a diet coke, dias em que nem sequer notamos
os navios doentes, navios de quarentena onde,
felizmente, nunca poderíamos ter chegado a entrar,
nunca teríamos chegado a chegar
por não sermos capazes da primeira partida.

Os dias mais silenciosos não são tristes:
são de rejeitar cruzeiros fixos, pasteleiros de máscara
de ferro a fazerem bolos doentes para hóspedes doentes.

O mundo, Drummond, o vasto mundo está horrível
e tudo o que consigo é pedir um copo de branco,
Dona Ermelinda de Freitas, o mais barato na esplanada
cheia de gente espantada com ainda haver sol.

Os dias mais silenciosos têm uma bandeira vertical,
caída de não haver vento, e muita gente 
a andar de bicicleta.

Aos 40 anos, tudo o que desejo são estes dias 
sem surpresa: chegar ao céu, sentar-me,
efectuar o pagamento no acto da entrega.
 


Filipa Leal

 

 

 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

SOLTAS


Ovelho recorte que há dias publicámos sobre o encerramento da Editora/Livraria Cotovia, revelava que o seu proprietário apenas publicava os livros de que gostava. O dinheiro era dele, a editora era dele, a escolha era dele e não estava para cedências, fossem elas quais fossem.

Nunca encontrei o livro, especificamente não sabia da sua existência, mas fiquei a saber que João André editou um livro sobre os começos dos poemas de Jorge de Sena e isso é tão importante quando se sabe que muitos poemas não têm título e apenas funciona o começo de cada poema.

Apesar de saber que os livros de Poesia do Jorge de Sena têm um Índice dos Primeiros Versos, achei a edição do João André uma coisa maravilhosa.

1.

Portugal foi em 2025 o quinto país do mundo que mais milionários recebeu, ao mesmo tempo que se vai sabendo que o risco de pobreza ou exclusão social  ameaça 2,1 milhões de pessoas.

2.

Por vezes vem-me à memória os tempos do confinamento provocado  do Covid desce até nós.

As horas em que não sabíamos nada uns dos outros.

Há um Diário por aqui.

«Sexta-feira 13.

Dia de azar.

Feitiços. Bruxas. Gatos pretos. Não passes por debaixo de escadas. Não abras o chapéu-de-chuva dentro de casa. Não tenhas relógios parados dentro de casa.

Em tempo de pandemia valerá a pena falar de sextas-feiras 13?

Bluff absolutamente inútil?

O papel todo branco à espera, ninguém sabe bem de quê!...»

3.

Dom Quixote de Miguel Cervantes.

Está lá tudo.

Um livro impar que não é tão lido como se apregoa por aí.

Mas muito poucos, mesmo muito poucos admitem que não o leram.

5. Não se pode ser português e assim suave, sem se sentir, primeiro, alguma raiva e, depois, uma melancolia incurável. Disso se morre por vezes. Disso terá morrido o pintor Bernardo Marques, compadre o poeta José Gomes Ferreira

4.

Como dizia a mulher do tipo que se atirou do Viaduto Duarte Pacheco: a vida tem as suas compensações.

 5.

Existem 4800 médicos estrangeiros inscritos na Ordem dos Médicos mas apenas 976 têm contrato com o SNS. em 2025 as duas maternidades onde se realizaram mais partos são de hospitais particulares; seis em cada dez partos em hospitais privados são feitos com recurso a cesarianas, o dobro do que se verifica no sector público.

6.

«Sá de Miranda já falava do desconcerto do mundo, Camões aprofundou o desconcerto do mundo, Vieira sentiu na pele o desconcerto do mundo, Nicolau Tolentino denunciou em versos autocomplacentes o desconcerto do mundo, o desconcerto do mundo persegue-nos. Do renascimento ao barroco, da arcádia lusitana ao romantismo, do modernismo ao surrealismo, passando pelo neo-realismo e demais ismos, sempre o desconcerto do mundo, sempre esta sensação de injustiça, de premiação do mal e desprezo do bem. Ainda hoje, o desconcerto do mundo. Uma guilhotina suspensa por fios débeis sobre as nossas consciências.»

Hmbf  em Antologia do Esquecimento 

OLHAR AS CAPAS


Contos Fantásticos

D.H. Lawrence, Guy de Maupassant, H. G. Wells, Dylan Thomas, Edgar Allan Poe, entre outros

Tradução: Carmo Vaz

Editorial Nobel, Coimbra, Novembro de 1943

E estou sozinho, sozinho, completamente só, há três meses. Sinto-me quase tranquilo. Um único receio me assalta… Se o antiquário enlouquecesse… e se o trouxessem para este asilo… As próprias prisões não são seguras…

(Do conto de Guy Maupassant)

HAVIA DE LHES BATER À PORTA


Os saloios engravatados colocaram o vinho em preços proibitivos.

Os chefs vampiros – eles comem tudo enão deixam nada -  inventaram restaurantes, criaram coisas a que chamam alta comida.

Agora nesses restaurantes não se bebe vinho, apenas água, alguma cervegita.

Segundo há dias revelava o Público, os restaurantes da alta engravatada  trabalham, quando trabalham, apenas para pagar contas, empréstimos ao banco.

Pedro Garcias em crónica no Público:

«O que está a acontecer com a restauração vai repetir-se mais cedo ou mais tarde com a hotelaria nacional. O boom de novos hotéis e os altos preços praticados, em particular em regiões com maior procura turística, não vai acabar bem. Quando ir jantar fora ou dormir num hotel se torna num luxo inalcançável para a população local, a tempestade futura está garantida.
Para muitos restauradores, como se vê, o futuro já chegou, e a culpa talvez não seja da economia. Talvez seja mais do deslumbramento que o turismo trouxe ao país e da tal cultura Michelin. Uma cultura mais ou menos sublimada na ideia de que um restaurante só poderá aspirar ao estrelato pneumático se apostar no requinte da comida, do espaço e do serviço. Na busca desesperada por uma estrela, muitos chefes e empresários fazem investimentos loucos e levam o serviço a um nível quase ridículo, muitas vezes com mais funcionários na cozinha e na sala do que clientes. Como é óbvio, os preços dos menus têm que ser muito altos.»

LAMENTO DE UM PAI DE FAMÍLIA

Como pode um homem carregado de filhos e sem fortuna alguma
ser poeta neste tempo de filhos só da puta ou só de putas
sem filhos? Neste espernear de canalhas, como pode ser?
Antes ser gigolô para machos e ou fêmeas, ser pederasta
profissional que optou pelo riso enternecido dos virtuosos
que se revêem nele e o decepcionado dos polícias que com ele
não fazem chantage porque não vale a pena. Antes ser denunciante
de amigos e inimigos, para ganhar a estima dos poderosos ou
dos partidos políticos que nos chamarão seus gênios. Antes
ser corneador de maridos mansos com as mulheres deles fáceis.
Antes reunir conferências de São Vicente de Paula, para roçar
o cu da virtude pelas distracções das sacristias escuras e
ter o prazer de acudir com camisolinhas aos pobres entre os quais
às vezes aparece um ou uma que dá gosto ver assim tão pobre por
se lhe verem os pêlos pelos rasgões da camisa ou algo de mais
impressionante para o subconsciente que sempre está nos olhos
que docemente se comovem com a miséria. Antes ir para as guerras
da civilização cristã ou da outra, matar os inimigos da conta corrente
e das fábricas de celofânicas bombas. Antes ser militar.
Ou marafona de circo. Ou santo, Ou demônio doméstico
torcendo as orelhas dos filhos à falta de torcê-los aos filhos
da puta. Ou gato. Ou cão. Ou piolho. Antes correr os riscos do
DDT, das carroças que os municípios têm para os cães suspeitos
de raivosos como todos os cães que se vê não lamberem as partes
das donas ou mesmo dos donos. Antes tudo isso que assistir a tudo,
sofrer de tudo e tudo, e ainda por cima ter de aturar o amor
paterno e os sorrisos displicentes dos homens de juízo
que deram pílulas às esposas, ou as mandaram à parteira secreta e
elas quiseram ir. Antes morrer.
Mas que adianta morrer? Quem nos garante que a morte
não existe só para os filhos da puta? Quem me garante que
não fico lá, assistindo a tudo, e sem sequer poder chamar-lhes
filhos da puta, com o devido respeito a essas senhoras que precisamente
se distinguem das outras por não terem filhos, nem desses nem dos outros?
Mas mesmo isto não consola nada. A quantidade, a variedade,
gastaram a força dos insultos. E não se pode passar a vida,
esta miséria que me dão e querem dar a meus filhos, a chamar nomes
feios a sujeitos mais feios do que os nomes. Como pode um homem
sequer estar vivo no meio disto, sem que o matem?
E o pior é que matam, sim, e sem saberem primeiro a quem,
para não se inquietarem com o problema de terem morto por engano
um irmão, desfalcando assim a família humana de algum ornamento
que a tornava menos humana e mais puta.

15/6/64

Jorge de Sena em 40 Anos de Servidão

domingo, 25 de janeiro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Gosto do mar desesperado, a bramir e a lutar e gosto de um barco ainda mais ousado sobre esta rebeldia a navegar.

Miguel Torga

OLHAR FRIGIDEIRAS, TACHOS, PANELAS


 Leia-se a newsletter que a jornalista Bárbara Reis publicou no Público de 14 de Janeiro:

«Os 12 jornalistas que estão há seis meses a fazer a revista Visão a partir de casa querem comprar o título, que vai ser vendido em leilão, e precisam de 200 mil euros. Em sete dias, conseguiram 55% do objectivo.
Liguei ao Fernando Alves, rei da palavra e que no início dos anos 1980 ajudou a fundar a TSF como cooperativa de jornalistas, e disse-lhe o nome da campanha de angariação de fundos da Visão: MIL.

– Mil?

– Movimento Imprensa Livre.

– Belo nome. Eles são uns heróis. Estes 12 são mais de mil.»

Lembrando esse trabalho dificílimo que os resistentes jornalistas da Visão estão a realizar, para não deixarem morrer a revista, comprei-a no dia 8 de Janeiro.

Em homenagem ao trabalho dos jornalistas, recortei o trabalho do chefe Luís de Jesus e adianto a minha «receita», mesmo minha, para Camarões à Brás.

Ingredientes

Azeite

Cebolas

Alhos

Pimento vermelho

Camarões Cozidos

Farinheira

Ovos

Batatas

Queijo picado

Coentros

Azeitonas

Refogo em azeite cebolas , em boa quantidade,  até ficarem translúcidas, juntamente com alhos picados.

Junto pimento vermelho cortado aos bocadinhos, 1 farinheira sem pele e desfeita, as gambas , não muito grandes, já cozidas, que se vendem em qualquer grande superfície, batatas, cortadas em palha, fritas e envolvo tudo em ovos mexidos com queijo ralado, deixando-os cremosos, nunca secos.

Finalizo com folhas de coentros espalhadas pelo petisco e azeitonas.

Dicas:

Nunca uso batatas fritas palha de pacote.

Não menciono quantidades, deixo o assunto à vontade do freguês.

A TRANSFORMAÇÃO DE MONTENEGRO EM RÃ


 «Nessa altura, André Ventura ainda não tinha nascido e Luís Montenegro estava a entrar para a escola primária. Duas décadas e meia depois, o primeiro faz o que quer do segundo — goza-o, insulta-o, humilha-o, age como Trump com os seus críticos —, e, mesmo assim, o segundo anui e baixa a cabeça. Colocar o líder do Chega no mesmo plano de António José Seguro diz tudo sobre Montenegro. Nem sabe o que aí vem. Um dia, muito em breve, acorda, olha-se ao espelho e vê uma rã, acabada de ser engolida e cuspida por um Ventura de peito feito com a honrosa derrota que o espera na segunda volta das eleições presidenciais. Nem o PS lhe valerá, porque o líder socialista também acredita que o partido acaba de ressuscitar. Os passistas, esses, assistem de camarote, como escorpiões em pedra bolideira. Quando atacarem, depois de darem corda ao bicho, talvez já seja tarde até para eles.»

Pedro Garcias na crónica do Público de 24 de Janeiro

OS ITINERÁRIOS DO EDUARDO


O Eduardo foi  poeta e um homem de jornais. 

Sempre. 

Em 1975 esteve na Guiné-Bissau a escrever, a ensinar, experiência que deixou, Outubro de 1975,  em artigos publicados na Vida Mundial. Ele que já antes dissera que tinha muito para aprender neste negócio dos jornais:

«Por entre sorrisos de acolhimento e de chalaça alinhavo a prosa jornalística, obviamente sintética. Entrego-me receptivo,  à espera das notícias. Rápidas e maduras escorregam-me das mão se, às tantas, com medo que se quebrem,  os meus joelhos unem-se e as amparo. Grávido pareço. Presunção? Talvez não. De água benta nem sei. Apenas águas das cheias em telex. Ah!, prosa, prosa! Danada me  saíste por essas linhas fora. Não sei que te fazer para sacudir de ti tanto lirismo que em ganga se move entre os linguados. O solo lusitano tinge as mãos e o sol inexistente do solstício violenta-me de turismo. Levanto me simpático. Rabisco umas ternuras. O Ribatejo inteiro é um oceano! Que tirada, ó poeta! E as notícias? Mobilizo recursos que nem sei onde metê-los. Encaixa poeta, encaixa! Tens muito que aprender neste negócio.»

MÚSICA PELA MANHÃ

As gentes «daquela coisa, perigosamente, entraram num caminho que pretende fazer o regresso do país aos terríveis e negros tempos que vivemos antes do 25 de Abril.

«Na Assembleia Municipal de Lisboa de 13 de Janeiro de 2026, a deputada municipal do Chega, Margarida Bentes Penedo, demonstrou ter muitas, mesmo muitas, dúvidas sobre a linha artística do Teatro do Bairro Alto (TBA). Demonstrou também simpatizar com apenas um artista em Portugal, (o fadista João Braga), que gostaria de ver integrado na agenda cultural da cidade.»

Pedro Adão e Silva, hoje no Público, escreve que estas gentes, para além de outros atropelos, pretendem «Para defender a cultura diabolicamente nova
A premissa de que há uma "cultura de esquerda" que deve ser substituída por uma "cultura de direita" é perigosa. As políticas culturais devem garantir a variedade da oferta, sem interferência política nos conteúdos da programação; assegurar que há espaço para tudo e criar oportunidades para os artistas e as propostas emergentes. A cultura é um espaço de representação, mas também o lugar onde devemos esperar inovação. Sem essa margem para transgredir, as nossas sociedades ficam condenadas ao imobilismo.»

Uma sondagem da Universidade Católica mostra que, no próximo dia 8 e Fevereiro, António José Seguro obtém 70% de votos contra 30% do presidente «daquela coisa».

O perigo destes números é a existência de eleitores que poderão pensar que o vencedor está encontrado e já não será necessário ir votar.

Lembrar que a abstenção é uma atitude que, poderá não lhe dar a vitória, mas favorece os desígnios do presidente «daquela coisa».

Por isso, a música da manhã de hoje, leva-nos para o poema de  António Gedeão que deu uma canção de Manuel Freire.

sábado, 24 de janeiro de 2026

VELHOS RECORTES


Naquele edifício existiu a Livraria Opinião.

Na sua edição de 1 de Setembro de 2020, em artigo de Luís Miguel Queirós, o Público trazia-nos a notícia, que já era há algum tempo um rumor, de que a Editora Cotovia, projecto editorial de André Jorge, iria fechar portas.

«Numa conversa com o Público em 2017, quando regressou à Cotovia para relançar a editora, após a morte de André Jorge, Fernanda Mira Barros já avisava: “Tenho o privilégio de poder abdicar de um salário, e estou a dar-me dois ou três anos para pôr isto bem, mas sei que é muito difícil viver no sector dos livros tal como ele é hoje, e não sou o André, não vou vender o património que herdei dos meus pais para sustentar a editora.”

Com cerca de 1500 títulos publicados, a Cotovia foi lançada em 1988 por André Jorge e pelo seu irmão, o poeta João Miguel Fernandes Jorge, que se desentenderiam pouco depois, ficando o primeiro a conduzir o barco sozinho.»

A editora publicou a revista literária As Escadas Não Têm Degraus, projectos de duvidosos retorno financeiro como o lançamento, em 1990, de um volume autónomo com os índices da poesia de Jorge de Sena.

André Jorge só publicava os livros de que gostava como se recusava a publicar livros de que não gostava, também não estava disposto a pactuar com situações que considerava injustas apara assegurar a distribuição dos livros. Ficou conhecida a decisão que a dada altura tomou de deixar de vender os seus livros nas lojas Bertrand. “Custa-me tanto pôr uma gravata como aturar um idiota que do alto da sua função tenta esmagar – “Este vem aqui porque precisa de vender, então vou impor as regras.»

Quando uma editora acaba, os amantes de livros morrem um bocado, principalmente quando esses tubarões que abocanharam pequenas editoras e não foi por amor aos livros , nem sequer sabem do negócio, mas meramente pelo metal sonante!

 

MÚSICA PELA MANHÃ


Voltamos à pergunta de Mário de Carvalho:

Não perceberão as pessoas que atravessamos um momento perigosíssimo?

Pelo que se dirá, citando o músico Miguel Guedes, que a 2ª volta da Eleição Presidencial «não é uma escolha, é uma obrigação. Não há negociação ou transigência. A estabilidade e a decência não podem pecar por omissão, muito menos por parte de cada um dos candidatos que não passaram à segunda volta, sendo grotesco que qualquer deles, à Direita, não venha a admitir endereçar o seu voto a António José Seguro.»

A nossa Música Pela Manhã deste sábado, atravessa uma das mais importantes canções de Sérgio Godinho.

É a faixa de abertura do álbum «À Queima Roupa» de 1974:


LIBERDADE

 

Viemos com o peso do passado e da semente

Esperar tantos anos torna tudo mais urgente

e a sede de uma espera só se estanca na torrente

e a sede de uma espera só se estanca na torrente

 

Vivemos tantos anos a falar pela calada

Só se pode querer tudo quando não se teve nada

Só quer a vida cheia quem teve a vida parada

Só quer a vida cheia quem teve a vida parada

 

Só há liberdade a sério quando houver

A paz, o pão

habitação

saúde, educação

 

Só há liberdade a sério quando houver

Liberdade de mudar e decidir

quando pertencer ao povo o que o povo produzir

quando pertencer ao povo o que o povo produzir

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 Galego com raízes portuguesas, Pepe Carvalho, gastrónomo como Nero Wolf, neste livro, faz um pato guisado e, às 2 da manhã, não quer comer sozinho, e convida o seu administrador Fuster. 

A Quetzal está a (re)publicar a obra de Montalbán e este A Solidão do Manager, nunca traduzido por aqui, conta-nos:

«Um homem é encontrado com umas cuecas femininas no bolso. A investigação é confiada a Pepe Carvalho, antigo militante comunistas, ex-agente da CIA, ex-professor de Filosofia e excêntrico gastrónomo. O que parecia ser um ajuste de contas sexual transforma-se num ajuste de contas político, com histórias de sexo, vida empresarial, política e vinganças pessoais. A Solidão do Manager é uma investigação sobre o mundo das empresas, dos gestores, da solidão, e da Espanha em transição para a democracia.»

Dedicatória do livro:

«Em certa ocasião, o agora deputado Solé Barberà disse-me: »Vamos ver quando escreves outro romance de polícias e ladrões.» Tomei isso como uma ordem e quero dedicar-lhe este livro.»

Quase a terminar o livro: «Mil novecentos e sessenta e seis foi um grande vinho para o vinho de Borgonha.»

OLHAR AS CAPAS


A Solidão do Manager

Manuel Vásquez Montalbán

Tradução: António José Massano

Capa: Rui Rodrigues

Quetzal Editores, Lisboa, Outubro de 2025

- A estas horas! Algum incêndio?

- Um pato guisado.

- O quê?

- Fiz um pato guisado.

O bicho não é muito grande,

Mas não vou comê-lo sozinho.

- São duas da manhã!

- Um pato guisado

- Um pato de pouca idade?

- Um patinho.

- De confiança?

- De absoluta confiança.

- Vai abrindo as garrafas de vinho que eu já lá vou ter.

Ou Carvalho regressou a sua casa com excessiva lentidão, ou o gestor correu empurrado pelo fresco húmido e pela ressurreição do apetite, a verdade é que, quando se juntaram, Carvalho não tinha tido tempo de abrir a garrafa de Montecillo. Fuster deixou em cima da mesa da cozinha um cestinho de que era portador, cheio de frutos secos de Villores, de mel por refinar de Villores e de uns estranhos biscoitos pertencentes à família cultural dos biscoitos secos populares em cuja composição entram necessariamente o ovo e a amêndoa.

- Estes biscoitos foram feitos pela minha cunhada. São de Villores.

-Era o que eu termia.

- Depois do pato, nada melhor que umas avelãs com mel e um biscoito para acbar de empapar o guisado no estômago.

PARA SEMPRE

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.

Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
– mistério profundo –
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

Carlos Drummond de Andrade de Lição de Coisas em Antologia Poética

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

À LUPA

A Greve Geral de Dezembro, não foi suficiente para quebrar a teimosia da ministra do trabalho e de Luís Montenegro, para arrepiarem caminho e desistirem da proposta de lei que o governo quer impor aos trabalhadores.

Rosário Palma Ramalho diz que a proposta de lei será submetida ao Parlamento "no momento oportuno" e garante que o Governo irá negociar "com todos os partidos que queiram, efetivamente, negociar".

A ministra do Trabalho disse ainda que não se pode "comprometer" com um prazo para levar as alterações à lei laboral ao parlamento, sublinhando que tudo dependerá da "dinâmica" da Concertação Social.

NOTÍCIAS DO CIRCO

 Segundo o jornal  Público o «Grupo 1143, classificado pela Polícia Judiciária como uma associação criminosa neonazi, terá realizado pelo menos um “treino de combate” no ano passado e um exercício no ano anterior em que os membros terão marchado com escudos antimotim. A cúpula do grupo, liderado por Mário Machado, teria a intenção de transformar a organização numa “milícia”.».

A frase de Mário de Carvalho, ontem, escolhida para o Postal Sem Selo: Não perceberão as pessoas que atravessamos um momento perigosíssimo?», tinha o propósito de vincar o perigo que a democracia portuguesa atravessa.

Mais ainda quando o presidente «daquela coisa», numa entrevista à RTP, não quis, não conseguiu, demarcar-se do apoio que os grupos neo-nazis lhe prestam: afirmou não os conhecer e disse ter afastado apenas os que "tinha de afastar".

Mais se adensa a ideia de que foi um enorme erro (?) o Tribunal Constitucional ter permitido a existência «desta coisa».