quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

À LUPA

Carlos Moedas já tinha sido um mau presidente da Câmara de Lisboa contudo, nas últimas eleições, voltou a ganhar a Câmara, mas não conseguindo atingir a maioria.

O jornalista Samuel Alemão informa-nos, hoje, no Público que Carlos Moedas chegou a acordo, atribuindo-lhe pelouros, na área da saúde, desperdício alimentar, com Ana Simões Marques, ex-vereadora do Chega, que, em Janeiro, invocando “incompatibilidades políticas intransponíveis” com o chefe camarário «daquela coisa», disse não querer ser vereadora “meramente decorativa” e tornou-se vereadora independente.

Com um despudorado oportunismo, Carlos Moedas declarou à cidade que, com Ana Simões Marques, atingiu a ansiada maioria estável na Câmara.

Perente a notícia comentário de um leitor do Público: 

« E pronto, foi isto que Lisboa ganhou quando a vereadora da CDU não foi eleita por um voto. Perdeu-se a Ana Jara, alguém com uma reconhecida capacidade de trabalho e conhecimento dos problemas da cidade e capaz de confrontar Moedas, para eleger um capacho do presidente.»

O escritor Mário de Carvalho tem toda a razão: o povo não é sábio, ao contrário do que políticos de última gaveta, bastante medíocres, por aí dizem.

  


NOTÍCIAS DO CIRCO

Maria Lúcia Amaral demite-se de ministra da Administração Interna.

Marcelo Rebelo de Sousa aceitou o pedido de demissão.

A ex-ministra disse a Luís Montenegro «já não ter as condições pessoais e políticas indispensáveis ao exercício do cargo».

Diga-se que nunca deveria ter aceite o cargo para o qual não tinha condições nenhumas.

Não existindo substituto, Montenegro assume a pasta.

O primeiro-ministro não tem condições para continuar a governar o país. 

Pela política neo-liberal, ou o que lhe quiserem chamar, pelos ministros que escolheu para o governo, pelo candidato a Presidente da República que entendeu apontar.

Um verdadeiro desastre.

É lamentável, mas teremos que ir novamente a eleições.

Talvez de pouco sirva, mas não se avista outra qualquer solução.

CASTELO DO BODE

Naquele verão fomos uma espécie de tribo.
À tarde, quando o sol ardia, a barragem era
o mundo inteiro feito de água, havia uma
jangada que avançava, lenta, por entre os
limos e nós éramos náufragos. Naquele verão
fizemos equipas e gincanas, bebi 12 colheres
de óleo de fígado de bacalhau – umas atrás
das outras – e apaixonei-me secretamente
por uma monitora que lia romances de
espionagem e passava tardes na esplanada a
beber ginger ale. Naquele verão as raparigas
ficaram belas e enigmáticas, assim de repente.
Dormiam nas tendas delas e nós, nas nossas,
adivinhávamos histórias para os sons da noite.
Naquele verão as coisas ficaram mais nítidas
E aprendemos que a adolescência é um território
confuso, um país a atravessas sem mapa de estradas.

 

José Mário Silva

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

POSTAIS SEM SELO


 Quando havia antes um antigamente havia uma esperança.

António Ramos Rosa

Legenda: pintura de Cipriano Dourado

OLHAR AS CAPAS


Visão

Vários jornalistas em luta pelo direito a informar

Nº 1718

5/2 a 11/2/2026

Capa: André Carrilho

«O primeiro-ministro não se tem dado bem com as comunicações em tempos de tragédia e acaba por dizer as coisas erradas na hora errada. No mês passado, quando várias pessoas morrerem à espera de ambulância, chamou-lhe “percepção de caos”. Agora, depois de dar as condolências às “famílias daqueles que não evitaram a trágica consequência de perder a vida” – como aquelas pessoas que se enganam e dão os parabéns num funeral -, acabou por dizer que “foi feito aquilo que era possível fazer para prevenir e colocar todas as forças em prontidão atempadamente para enfrentar uma adversidade que não era antecipável por ninguém”. Mas foi antecipada, sim, a protecção civil até enviou SMS aos cidadãos. Talvez Leitão Amaro. Ministro da presidência, possa esclarecer melhor, ele que esteve de mangas arregaçadas num gabinete de crise a deixar-se filmar para as redes sociais.»

O OUTRO LADO DAS ESTANTES


A minha primeira Gramática,  dita Elementar

1º Ciclo do Ensino Liceal

Autores: Felisberto Martins e José Gomes Branco

Aprovado oficialmente como livro único pelo «Ministério da Educação Nacional (Diário do Governo II Série, de 9-X-1953)

Preço: 12$50

A Livraria Sá da Costa tem à venda 1 exemplar desta Gramática 1.ª Edição Empresa Literária Fluminense. Lisboa, 1963 pelo preço de 20,00 euros.

Acabou de se imprimir nas Oficinas Gráficas de Livraria Cruz – Rua D. Diogo de Sousa, 127-133 em Braga no ano de 1956.

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...

É uma constante dos dias, ouvirmos  que os jornais vão acabar.

Os tempos estão muito difíceis: quase ninguém compra, lê jornais. Está tudo na net.

No sábado, o tempo estava tempestuoso, e nos poucos quiosques que conseguir atingir, o Público já não havia.

- Eles mandam cada vez menos jornais…

Foi o que ouvi no último quiosque a que cheguei.

O recorte é do Diário de Notícias de 21 de Abril de 2018 e dava conta do fim de ciclo do Jornal do Fundão, um excelente jornal de província.

À LUPA

«Ventura ganhou nos países onde a emigração “é menos qualificada”, Seguro nos novos destinos

Tirando o caso da Alemanha, Ventura ganha nos destinos mais tradicionais, como França, Luxemburgo ou Suíça, que são os países onde a emigração portuguesa continua a ser menos qualificada.»

Rui Pena Pires, investigador, no Público 10 de Fevereiro

NOCTÍVAGA

Não esperem dos poetas mensagens a horas  
Não esperem dos poetas pedidos de desculpa   
Que não sejam, ao mesmo tempo, declarações de amor  
Com mais anexos do que a declaração de IRS  

Não esperem dos poetas sumo de fruta cortada na hora,   
com bastante gelo, e um relvado bem cortado,  
e umas unhas bem cortadas,   
e um coração bem cortado  

Para escrever poemas, é preciso ter o punhal de Caravaggio  
Encostado à língua: «Nem esperança, nem medo»  

Não esperem de um poeta que vos corte a língua   
O poeta quer ouvir tudo, apesar de tudo, e até de manhã   
Não esperem de um poeta que vos corte o coração  
Não sabe, não foi o poeta que cortou o dele   

Não calem o poeta, nunca calem o poeta   
Não há nada pior do que cortar a língua a um poeta     
Ele não se cala, fica tudo nos livros    

Quando não quiserem mais o poeta, devolvam-no    
Numa caixa forrada a alcatifa dos anos 70    
O poeta gosta da palavra alcatifa, apesar das alergias,    
e tem queda para se magoar a sério    
Cortem-lhe as unhas com os próprios dentes  
e, se não se importam, tirem-lhe o punhal     

Sejam amigos dos poetas     
Mesmo que a coisa fique difícil,     
mesmo que dê vontade de os encher de murros, ou de beijos       

Não esperem de um poeta uma amiga imaginária       

Esperem de um poeta uma cadela imaginária       
a que os vizinhos, por hábito, chamam            
noctívaga.

Filipa Leal

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

O DIA SEGUINTE


Dias negros.

Continuam as intempérie provocadas pelas depressões Ingrid, Joseph, Kristin, Leonardo, Marta.

Quem se seguirá?

Quase impossível trabalhar nas regiões que foram afectadas pelas depressões.

Dois dias sem olhar as pedras do Cais.

Apenas inquietação.

Somos o que somos, o que aceitamos ser, pouco ou nada do que deveríamos querer ser.

Que outras inquietações?

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

POSTAIS SEM SELO


A memória é outro mundo, com outras criaturas.

Teixeira de Pascoaes.

NOTÍCIAS DO CIRCO


Foi necessário o país ser confrontado com a tragédia provocada pelas depressões que ainda não deixaram de aparecer, para se abrir a porta de entrada a trabalhadores imigrantes.

«A zona centro do país ficou devastada com a tempestade e não há trabalhadores suficientes sequer para ajudar a colocar lonas nos telhados. O pouco que se faz deve-se muito à entreajuda de vizinhos e à boa vontade de voluntários.»

É sobre esse problema que se debruça o editorial do Público de hoje, da autoria de  Helena Pereira e cujas palavras finais são estas:

«O país tem efectivamente um problema que só pode ser resolvido permitindo a entrada de mais cidadãos estrangeiros, por muito que custe ao Governo e à sua convivência política com o Chega. E nem sequer é um problema de difícil resolução. O Governo não pode ficar de braços cruzados.»

É um gravíssimo problema governar um país baseado em percepções! 

ALI ONDE SEM NOME A PÁTRIA

Ali onde sem nome a pátria escura

me repete onde nasce a Primavera,

ao silêncio do dia que não espera

eu dou a voz subitamente pura.

 

Horror que foge sempre e que perdura,

muro imortal amando a própria hera,

assim eu oiço o anjo além da fera,

suave luz queimando a noite dura.

 

Surge um fogo sem espanto, negro e alvo.

Dissolve‑se a montanha. Totalmente.

Alguém que me seguia já está salvo.

 

E fico só. E canto. E sigo em frente.

Ao fim da minha voz encontro o alvo

onde os deuses a ferem mortalmente.

 

20.2.1954

 

Alberto de Lacerda

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

AS TRAGÉDIAS QUE NOS ATINGEM

1.

Quando é que este mau tempo finalmente acaba?
Primeiro veio a depressão Ingrid, depois vieram as tempestades Joseph e a Kristin e, agora, estamos a braços com a chuva copiosa trazida pela Leonardo e já se anuncia a Marta – mas afinal quando é que este mau tempo vai ter fim em Portugal?

Prevê-se que melhoras de tempo que se vejam, apenas se verifiquem após o Carnaval, ou seja na última semana do mês de Fevereiro.

2.

Amanda Lima para o Diário de Notícias percorreu, após as tempestades, o interior da região de Leiria, e verificou que os habitantes continuam a sentir-se “esquecidos”: «Se falta energia elétrica, sinal de telefone e água, sobra solidariedade. Doações e voluntários chegam de todos os lados, mas a reconstrução ainda é longa».

3.

«Após a passagem da depressão Kristin, houve centros de saúde de Leiria que tiveram de fechar, não só pelos danos materiais, falta de energia e de água, mas também pela falta de profissionais, que tiveram também as suas casas destruídas, que tiveram de ficar com os filhos em casa, por não terem outra alternativa, as escolas fecharam, ou porque pura e simplesmente não conseguiam passar para chegar ao local de trabalho pelas estradas cortadas. Foi assim em Leiria como em outros locais da região centro e do oeste.

Mas, ao final da tarde de terça-feira, dia 3, os profissionais da Unidade Local de Saúde da Região de Leiria, que integra o Hospital de Santo André e centros de saúde dos concelhos de Leiria, Marinha Grande, Porto de Mós, Pombal e Alcobaça ficaram a saber, através de uma circular informativa do Conselho de Administração, que as faltas teriam de ser justificadas, tendo que usar dias de férias ou horas da bolsa de compensação para não terem perda salarial.

Ana Mafalda Inácio no Diário de Notícias

4.

O especialista em proteção civil Duarte Caldeira considerou esta quinta-feira que a Proteção Civil comete os mesmos erros há 25 anos, estando as falhas "todas identificadas", e defendeu que a responsabilidade pela resposta à tempestade é nacional e local.

"A Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, no meu ponto de vista, falhou naquilo que falha normalmente sempre há 25 anos. Eu recordo-me, faz 25 anos, a queda da ponte Hintze Ribeiro [Entre-os-Rios]. Desde então, os nossos erros no sistema de proteção civil estão todos identificados e são todos decorrentes de uma praga nacional que é a ausência de vocação para o planeamento e para a ação", disse ao à agência Lusa o antigo presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses e dirigente do Centro de Estudos e Intervenção em Proteção Civil.

5.

Alcácer do Sal, Arruda dos Vinhos, Pombal e Golegã avisaram a Comissão Nacional de Eleições que irão adiar a votação para a eleição presidencial, devido à situação de calamidade em que se encontram.

6.

A Autoeuropa interrompeu a produção nos turnos da noite de quarta a sexta-feira devido à falta de componentes por problemas abastecimento causados pelo mau tempo que assola o país.

7.

O ministro da Economia e da Coesão Territorial, Manuel Castro Almeida, adiantou que o Governo admite a entrada de mais imigrantes para garantir mão-de-obra na reconstrução das zonas afectadas pela tempestade Kristin, cujos prejuízos devem ultrapassar os quatro mil milhões de euros. O governante adiantou que as empresas de construção civil e obras públicas “estão disponíveis e interessadas em fazer o recrutamento de mão-de-obra do exterior”.

8.

Luís Montenegro falou ao país.

Puxou dos galões para mostrar o que está a implementar.

Esqueceu o que aconteceu nos primeiros dias da tragédia.

Para além de prolongar o estado de calamidade até 15 de Fevereiro revelou, numa clara cena de propaganda em que é especialista, que o apoio financeiro às famílias que perderam rendimento, no valor de 12.900 euros, vai chegar "no mais tardar até à próxima segunda-feira". Já as linhas de crédito para empresas, de 1.500 euros, "estão operacionais desde ontem", registando-se candidaturas de "825 empresas" para apoios de mais de "204 milhões de euros". E também os apoios aos agricultores estão "acessíveis", existindo agora "1100 candidatos" para ajudas de mais de 84 milhões.

Acentuou que a "rapidez" da resposta do Governo "não tem precedentes", algo que sublinha "para que se tenha dimensão da tarefa diante de nós". "Estamos mesmo a esgotar todas as nossas possibilidades para acorrer às necessidades" e destacou que o Conselho de Ministros aprovou um "regime excepcional para acelerar processos e decisões", que, salienta, "nunca foi experimentado". "São medidas temporárias, excepcionais para uma situação muito excepcional".

“O governo tem feito um esforço enorme para mobilizar todos os recursos.

Nós não vamos deixar ninguém para trás".

9.

Mário de Carvalho no Público

 “É um Governo que nasceu na precariedade e só sabe viver na precariedade.»

 

Fontes:

 

Público

Diário de Notícias

Jornal de Notícias

Correio da Manhã

Lusa

A TRETA MICHELIN


«Por regra, a essência do gosto da saudade está nas comidas de casa e da família. São as memórias dessas comidas que carregamos toda a vida e que vamos tentando passar às gerações seguintes.

Um conjunto de restaurantes pode colocar um país no mapa turístico. Porém não faz uma cozinha. Que receitas já saíram do espaço Michelin para o dia-a-dia dos povos? O melhor é darmos à cultura Michelin a importância merecida e que não é tanta como a que os chefes, críticos, influenciadores e políticos lhe atribuem»

Pedro Garcias de uma crónica no Público.

À LUPA


 

É opinião unânime: o governo de Luís Montenegro chumbou em toda a linha na cobertura de defesa e apoio às depressões que assaltaram Portugal desde 22 de Janeiro e ainda persistem.

Soube-se que o comandante nacional da Protecção Civil foi autorizado a sair para Bruxelas para uma formação.

Esteve fora do país durante os primeiros dias das depressões.

Fez falta? Não fez falta?

As opiniões dividem-se.

Justificou-se que se estivesse no país nada mudava nos trabalhos desenvolvidos.

Dona Alfredina, minha porteira, perguntou:

- Se não fez falta, porque está na Protecção Civil?

PALAVRA

Essa palavra dada com mãos puras

essa oferta de pombas já sem asas

essa que é fonte só de águas futuras

ou esse mar de apenas marés vasas

 

e esse olhar sem olhos nem distância

essa abraçar com braços que não vejo

e o riso que emurchece a minha infância

a chama que emudece no lampejo

 

a voz da escuridão que me cria

tremendo de morrer no abandono

a que se entrega a noite à luz do dia

como ao calor mortal da mão do dono

 

Alexandre Pinheiro Torres em A Terra do Meu Pai

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

POSTAIS SEM SELO

Três paixões, simples mas infinitamente poderosas, têm governado a minha vida: o desejo do amor, a busca do conhecimento, e uma compaixão esmagadora pelos sofrimentos da humanidade. …

Bertrand Russell

Legenda: fotografia de Júlio Amorim

AS TRAGÈDIAS QUE NOS ATINGEM


Abertura a cargo do escritor Gonçalo M. Tavares:

«Nas grandes tragédias o grande problema é sempre a solidão.»

1.

Tudo o que se vai passando com as depressões climáticas acentuam a incompetência do governo de Luís Montenegro.

Não adianta muito a substituição de alguns ministros porque todo o problema está em quem chefia o governo.

Cansados estamos daquela figura quase sinistra de sorriso cínico.

Que saída?

2.

Alguém, enfrentando as cheias em Alcácer do Sal, desabafa na reportagem do Diário de Notícias:

“Nós temos cheias, mas aqueles desgraçados de Leiria nem telhado têm para dormir”

A Avenida dos Aviadores, na baixa de Alcácer do Sal, voltou a ficar inundada, o que obrigou ao corte do trânsito na zona. A chuva continua e há estradas alagadas por este concelho no distrito de Setúbal.

3.

«Depois da destruição causada pela depressão Kristin, Portugal volta a enfrentar mau tempo com a chegada da Leonardo. Com os terrenos já encharcados, a nova sequência de chuva, vento e agitação marítima aumenta a probabilidade de cheias e inundações, sobretudo nas cidades impermeabilizadas: “Parte das nossas cidades está construída sobre leitos de cheia, que naturalmente inundam”», diz ao Diário de Notícias o especialista João Joanaz de Melo.

4.

Centro e Oeste e Vale do Tejo representam 20% da economia. Impacto devastador da Kristin e do clima adverso, que continua sem dar tréguas, vão custar, pelo menos, 2,5 mil milhões de euros. Economia ia crescer cerca de 2,3%, mas deve baixar para 1,3% ou menos.

5.

«Em vez de «aqueles que não evitaram a trágica consequência de perder a vida», o Primeiro-Ministro devia ter dito: «aqueles que falharam em evitar a morte». Assim, percebia-se melhor por que é que devemos estar sempre do lado dos falhados e contra discursos cínicos.»

Cristina Fernandes no Bicho Ruim

6.

«A ministra da Administração Interna é a metáfora mais exposta, fácil e óbvia de um Governo barata tonta, que anda aos círculos neste comboio de tempestades, sem saber o que fazer e para onde vai. É quase compreensível que uma jurista qualificada, de gabinete, opte pela “reflexão” em vez da ação junto da Proteção Civil. E que diga que não saiba o que falhou, ou, ainda, opte pela misericordiosa tese da “aprendizagem coletiva”. Já todos percebemos que Lúcia Amaral é uma carta fora deste baralho. Muito mais perturbador é ver a propaganda ignóbil de Leitão Amaro, na pele de maestro da comunicação governamental, projetando uma realidade alternativa, como dizem noutros lados, quando toda a gente está a ver uma tragédia. Ou a palhaçada ofensiva de Nuno Melo, que leva os soldados para fingir que estão todos no terreno. Muito mau mesmo, também, é constatar que ainda pagamos, com mortes, a trágica decisão, tomada nos Governos de Barroso e Santana Lopes, corrigida, em parte, por António Costa, no Governo de Sócrates, de entregar o SIRESP, com um cheque de 500 milhões de euros, a um consórcio servido por alguns facilitadores desse velho mundo laranja, que vinha do cavaquismo. Essas velhas lógicas clientelares matam. E essa é a “aprendizagem coletiva” sobre como não fazer que ainda está por ser lecionada.» 

Eduardo Dâmaso no Correio da Manhã

7.

"O Conselho de Administração da Fundação Calouste Gulbenkian exprime a sua solidariedade com todas as pessoas afectadas pela tempestade que assolou o país. O Conselho criou um Fundo de Apoio Extraordinário, no valor de cinco milhões de euros, de apoio a essas pessoas. Este apoio de emergência e pós-emergência será articulado com a Estrutura de Missão para a Reconstrução da região Centro do País e com as entidades locais das áreas envolvidas", pode ler-se no comunicado.

8. 

A EDP anunciou um apoio de “mais de 800 mil euros” às comunidades afectadas pela tempestade Kristin, com a suspensão temporária da facturação e apoio a clientes com centrais solares danificadas.

“No total, a EDP vai assumir um custo de mais de 800 mil euros de forma a poder apoiar os seus clientes nas regiões afectadas pelo mau tempo”, anunciou a empresa em comunicado.

Na nota, a eléctrica dá também conta que “suspendeu o envio de facturação aos seus cerca de 700 mil clientes com casas ou empresas nas zonas mais afectadas pela tempestade que atingiu o país”.

“Serão ainda disponibilizados acordos de pagamento ajustados à situação de cada cliente, sem juros”, prossegue a nota.

9.

«Depois de ter apontado baterias aos problemas de comunicação do Governo com as populações, o Presidente da República atirou também responsabilidades para as operadoras de telecomunicações.

 “As comunicações portaram-se mal, portaram-se mal”, declarou Marcelo Rebelo de Sousa numa visita pelas regiões afectadas pela tempestade Kristin, nesta quarta-feira. “A Vodafone aguentou um bocadinho mais, mas depois ficou tudo sem comunicações”, identificou o Chefe de Estado, em declarações transmitidas pela SIC Notícias.

As operadoras estão no terreno a tentar recuperar serviços, havendo ainda populações que não têm acesso, não só porque não há energia, mas também porque há infra-estruturas de comunicações que ficaram danificadas. Mas há um factor de culpa das empresas, segundo o Presidente da República.»

Diogo Cavaleiro no Público de hoje.

Fontes:

Público

Diário de Notícias

Jornal de Notícias

Correio da Manhã

Lusa

Legenda: pormenor da capa do Correio da Manhã de hoje

À LUPA


Segundo as autoridades, existem cerca de 3000 militares disponíveis para prestarem apoio às populações vítimas da depressão Kristin.

O pedido para a requisição dos militares tem de ser feito pelo presidente da Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil, mas esqueceu-se de fazer o pedido de ajuda, ou entendeu que não seria necessário.

Das 11 vítimas mortais da tempestade Kristin, 6 dessas vítimas foram homens que caíram enquanto procediam à tentativa de salvar casas e armazéns, ou repunham telhas nas coberturas que voaram com os ventos porque o desespero é muito e não há operários suficientes para as encomendas, pelo que a presença dos militares talvez evitassem estas mortes. 


CANÇÃO A MEIA VOZ

A minha vida é sempre ontem

E o meu desejo, amanhã.

Hoje é uma coisa parada.

Nada sei nem faço nada.

Certeza é palavra vã.

 

Não sou. Ou fui ou serei.

Se ao menos tivesse fé!

Corro atrás duma quimera.

Ou então fico-me à espera,

Porém à espera de quê?

 

Porque abri as minhas mãos

E deixei fugir o instante

Que havia nelas ainda?

Agora o nada não finda

E o tudo é sempre distante!

 

Virás tu ao meu encontro,

Ou sou eu que devo achar-te?

Quem pudera descansar!

Ver, ouvir e não pensar!

Ser aqui e em toda a parte!

 

Chego tarde ou muito cedo.

Ou paro aquém ou além.

Houvesse algo para mim

Sem ter principio nem fim,

Sem ser o mal nem o bem!

 

Cabral do Nascimento 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

AS TRAGÉDIAS QUE NOS ATINGEM

1.

Como o governo de Luís Montenegro tem o tique de a tudo chegar com atraso, foi anunciado hoje que o governo vai isentar de portagens durante uma semana nas zonas afetadas pela depressão Kristin, no perímetro que abrangerá trechos da A8, A17, A14 e A19.

A isenção começará à meia-noite e vai estender-se até terça-feira, dia 10 de fevereiro, às 24 horas.

“Esta decisão foi tomada por forma a poder apoiar a deslocação de materiais e de voluntários para estas regiões do país, em estrita articulação com as concessionárias e subconcessionárias", diz o comunicado.

O presidente executivo da Brisa, António Pires de Lima, revelou que a concessionária irá comparticipar em 30% o custo de isenção de portagens em zonas afetadas pelo mau tempo e o governo comparticipará com 70%

Bem-vinda solidariedade capitalista!!!...

2.

O governo está debaixo de fogo pela forma como tem gerido a crise causada pelas depressões que atingiram o país.

Tivemos o ministro da presidência António Amaro da Costa a mandar editar um vídeo em que aparecia em mangas de camisa, em trabalho árduo, ao ponto de o vermos a roer as unhas.

Tivemos o ministro Nuno Melo com a tropa atrás para fotografias e um vídeo para que o povo ficasse a saber da ajuda que os militares prestam às populações das zonas destruídas pelas tempestades.  

Para além dos atrasos vários do governo há populações que continuam sem luz, água e comunicações.

Luís Montenegro assegurou que o Governo está concentrado em "resolver problemas e não em responder a críticas", admitindo que é difícil resolver "os problemas todos e ao mesmo tempo".

Para que os disparates ministeriais continuassem, o ministro da Economia e Coesão territorial, Manuel Castro Almeida, em entrevista à SIC, face ao facto de os atrasos que os apoios do governo às populações só se concretizarem no final de Fevereiro, sugeriu que as pessoas utilizem o “ordenado do mês passado” para a recuperação dos prejuízos.

Já tivemos a aprendizagem colectiva da ministra da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral, não saber o que falhou no atraso às populações, e ojustificar a sua ausência no terreno com o ter tem estado a trabalhar "em contexto de invisibilidade, no gabinete".

Este governo é uma verdadeira nódoa e, como dizia o Eça de Queiroz, nódoas destas só saem com benzina!

3.

Montenegro desvia-se das críticas que são feitas à actuação do governo, dos disparates dos ministros:

“Estamos concentrados em resolver problemas e E sabemos que há muita dificuldade em resolver os problemas todos e ao mesmo tempo.”

Já sobre críticas à actuacção, em particular, da ministra da Administração Interna, Montenegro desvia o assunto:

 “Estamos concentrados em olhar para cada pessoa, para cada família e poder dar a solução para o seu problema. E sabemos que há muita dificuldade em resolver os problemas todos e ao mesmo tempo.”

4.

Perto de 1200 militares do Exército e 222 viaturas estão desde esta terça-feira no terreno em operações de apoio às populações na região Centro, afectada pela passagem da depressão Kristin, segundo aquele ramo militar.

Porque demoraram tanto tempo a chegar?

4.

A depressão Leonardo já chegou.

O comandante nacional de Emergência e Protecção Civil alertou para a situação meteorológica “muito complexa” prevista para os próximos dias, que obrigou a elevar o estado de prontidão do dispositivo para o nível mais elevado.

Portugal continental irá começar a sentir os efeitos da depressão Leonardo  prevendo-se que “o período com valores acumulados de precipitação mais elevados e vento mais intenso seja na noite” de quarta para quinta-feira.

Para já chuva persistente e forte ventania.

5.

Marcelo Rebelo de Sousa, regressado hoje após uma visita ao Papa, avisou que “não serve de nada ter medidas no papel” de apoio às populações afectadas pelo mau tempo se não for possível executá-las, pedindo coordenação no terreno e acabou por concluir que explicação do Governo às populações “não correu bem”

Fontes:

Público

Diário de Notícias

Jornal de Notícias

Correio da Manhã

Lusa

GENTE MINHA, MINHA GENTE

O Armindo descobriu o Daniel Filipe quando, aos 39 anos, o poeta morreu.

Não que os jornais tivessem feito um cântico da sua morte, mas porque os amigos do Daniel Filipe desataram a passar os seus poemas de mão em mão.

Um dia subindo a Rua do Carmo, na grande montra da Discoteca Melodia, vi, em destaque, o Lp  A Invenção do Amor de Daniel Filipe.

«Em todas as esquinas da cidade, nas paredes dos bares, um cartaz denuncia o nosso amor.»

Assim começa o belíssimo, o extraordinário poema de Daniel Filipe:

«Um cartaz denuncia que um homem e uma mulher se encontraram num bar de hotel, numa tarde de chuva, e inventaram o amor com carácter de urgência»

Nos tempos cinzentos, trágicos do salazarismo/caetanismo, Daniel Filipe fez parte de uma longa lista de gente que me ajudou a enfrentar esses dias – Gente Minha, Minha Gente.

Daniel Filipe lutou contra o obscurantismo, a opressão, a ignorância, a insensibilidade. A cidade sufocante, a placidez burguesa dos que faziam por não ver, dos que denunciaram, dos que traíram, a angústia, os amigos presos - «não posso amar serenamente com tantos amigos na prisão», escreveu. Fernando Assis Pacheco, cantou Adriano Correia de Oliveira.

Daniel Filipe foi um homem perseguido e torturado pela Pide,

privado de voz durante o período da ditadura.

«Se um homem de repente interromper as pesquisas e perguntar quem é e o que faz ali de armas na mão já sabeis o que tendes a fazer. Matai-o. Amigo Irmão que seja. Matai-o. Foi tudo calculado com rigores matemáticos. Já não podem escapar.»

Levou o tempo que teve de levar, mas escaparam.

Por mais que levantassem os muros.

A censura salazarista proibiu romance de Daniel Filipe O Manuscrito na Garrafa, publicado em 1960.

Proibido por ser considerado “inconveniente, sob os aspectos político, social e moral. As passagens assinaladas nas págs. 11, 36 a 38, 46, 49, 52, to, 73,75, 77, 79, 89, 91, 119 a 121, 123, 125, 126, 133, 134, 141, 149, revelam a sua índole.”

Um tal José de Sousa Chaves, coronel-trambolho da censura, foi implacável e proibiu o livro: «entendo que não deve ser autorizado a circular no país».

Esta gente era de uma ignorância gritante, de uma maldade rasteira, capacho-mor-do-botas-santa-combista, foram os polícias do nosso pensamento, da nossa liberdade.

Quase meio século de obscurantismo, uma luta desigual, porque os que combatiam estes trastes, eram em reduzido número. Cantava-se que não havia machados que cortassem a raiz ao pensamento, mas sabia-se que as cantigas podem ajudar, mas não eram armas e o tempo crescia como um deserto e com ele a dor, o desespero, a cólera.

José Osório de Oliveira, escreveu o prefácio do Discurso Sobre a Cidade, livro de crónicas de Daniel Filipe e esgalhou este maravilhoso, perfeito pedacinho:

 «Possuo uma faculdade que tem sido a minha melhor defesa, senão a única de que disponho para não sofrer: a de matar, no meu espírito, aquilo ou aquelas pessoas que passaram a repugnar-me».

RELENDO DANIEL FILIPE

Desertar do céu deste inverno a andorinha

bem pouco diz talvez não o notar

Mas não a ver nem quando o sol domina

que terra tenho eu para me perdoar?

Ruy Belo em Transporte no Tempo (1973) em Todos os Poemas

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

POSTAIS SEM SELO


O que há num nome? Aquilo a que chamamos rosa com qualquer outro nome teria o mesmo cheiro doce.

William Shakespeare em Romeu e Julieta.

AS TRAGÉDIAS QUE NOS ATINGEM


Ainda  há milhares de portugueses sem electricidade, sem água, sem comunicações, sem telhas, sem lonas, para cobrir  os telhados que a depressão lançou pelos ares.

As gentes, onde a depressão Kristin foi mais feroz, sentem-se abandonadas.

Mais ainda porque sentem que o governo, as diversas autoridades que as deviam proteger, falharam.

Um homem de 63 anos morreu hoje quando caiu de um telhado que reparava no concelho de Porto de Mós.

Não é o primeiro, talvez não seja o último.

Apesar de a Protecção Civil avisar que, dadas as condições meteorológicas, estes trabalhos não podem ser realizados, mas o desespero destes homens ao verem a chuva continuar a entrar-lhes casa dentro, leva-os a arriscar.

Entretanto o que se passa no campo da tragédia, é muito pior do que podemos imaginar, ou que vamos vendo no corrupio das reportagens televisivas.

2.

A tempestade obrigou a libertar, de forma controlada, 500 milhões de metros cúbicos de água em dois dias para evitar cheias, equivalente ao consumo anual de 3 milhões de pessoas.

Em dois dias, foi preciso libertar, de forma controlada, 500 milhões de metros cúbicos de água das albufeiras de todo o país, por causa da tempestade Kristin. É uma quantidade que equivale a três vezes o consumo anual da Área Metropolitana de Lisboa, com três milhões de habitantes.

3.

Com as ajudas monetárias, e outras, às povoações, o Governo parece ter dois objetivos: não comprometer as contas públicas, revelando qual é a sua prioridade, e deixar para o sector financeiro toda a acção, de forma a que este lucre com o desespero das pessoas.

É neste sentido que os principais bancos portugueses Caixa Geral de Depósitos e Novo Banco anunciaram linhas de crédito bonificado no total de 400 milhões de euros para as famílias e empresas afetadas pela tempestade Kristin. Para os particulares, a CGD abriu uma linha de financiamento de 300 milhões de euros com uma taxa de juro de 2.15% (taxa mista a 1 ano). Já o Novo Banco abriu uma linha  de 100 milhões de euros, sendo que a linha de crédito para Famílias será bonificado, ou seja, terá uma taxa de juro correspondendo a 65% da taxa de referência do Banco Central Europeu. 

No caso de ambos os bancos, apesar do spread a 0% e isenção de comissões, com o desastre, os bancos estão a procurar atrair novos clientes e a gerar um fluxo futuro de juros. Importa relembrar que em 2025 os cinco maiores bancos a operar em Portugal lucraram mais de 13 a 14 milhões de euros por dia. Só a CGD alcançou um lucro recorde de 1,4 mil milhões de euros nos primeiros nove meses do ano, mais 2% do que no período homólogo. 

No blogue Abril, Abril

4

«Árvores arrancadas ao chão, troncos partidos, casas destelhadas, cheias, zonas balneares atapetadas de areia, montras quebradas, postes de alta tensão dobrados, publicidade espalhada pelo chão, lixo, muito lixo, campos de cultivo destruídos, um cenário de quilómetros e quilómetros de destruição. Sem água, sem luz, sem telecomunicações, as pessoas lembram-se de que são pessoas. «Sejam férteis e cresçam; encham a terra e dominem-na; dominem sobre os peixes do mar e as aves do céu e sobre todos os animais que andam sobre a terra.» Assim fizemos, esquecendo de que mais do que dominar a terra seria importante preservá-la, prestar-lhe culto, protegê-la, porque, feitas as contas, concluímos que somos parte integrante da terra. Não estamos separados, estamos dentro. Deus que se foda.»

hbmf na Antologia do Esquecimento

5.

A Ministra da Administração Interna deu uma boa ensaboadela à Ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social. É assim, e não de outro modo, que devemos negociar as leis laborais: lutar pelo direito a trabalhar em contexto de invisibilidade.

Cristina Fernandes no Bicho Ruim

6. 

«A depressão Kristin não arrancou só vidas, telhados, árvores, postes de alta tensão, mas deixou também expostas as falhas de um Estado que voltou a não estar à altura num momento crítico. Quando foi ao terreno, Marcelo Rebelo de Sousa quis passar a mensagem de que, desta vez, não se terá tratado de uma falta de prevenção. Permita-me discordar, Sr. Presidente: foi precisamente o que aconteceu. Falhamos, uma e outra vez, por falta de prevenção nas políticas públicas, por falta de escolhas responsáveis ao longo de anos, capazes de preparar o país para fenómenos que já não podem ser tratados como inesperados.»

Rui Frias no Diário de Notícias

7.
 
Outra carruagem do comboio de depressões vem a caminho.

O estado do tempo em Portugal continental vai ser afetado entre a tarde de terça-feira e sábado pela depressão Leonardo, prevendo-se chuva persistente e por vezes forte, queda de neve, vento e agitação marítima forte, indicou  o IPMA.

Fontes:

Público

Diário de Notícias

Jornal de Notícias

Correio da Manhã

Lusa

POSTAIS

 

 Já ninguém escreve cartas, postais.

Noé Cardoso, tripulante de um navio português, a caminho de Buenos Aires, manda saudações - a data não está legível -, para o amigo Raul Ferreira que vivia em Angeja, vila perto de Aveiro.

Curiosamente, em 1965, passei férias em casa da minha avó Brígida no Fontão, uma terreola perto de Angeja.

Colaboração de Aida Santos

POEMAS AUTOGRAFADOS

Alberto de Lacerda e Exílio veio naquela vaga  em que pedi ao meu pai que me ajudasse a encontrar os novos poetas portugueses. O meu pai não era um conhecedor dessa poesia, mas tentou encontrar quem o ajudasse. Disseram-lhe que o melhor caminho era a Colecção Poetas de Hoje, editada pela Portugália Editora.

A vantagem desta colecção única, para além da qualidade dos poetas, residia no facto de a Portugália convidar um poeta para fazer a apresentação do autor.

A Alberto Lacerda calhou o grande poeta e amigo António Ramos Rosa.

Exílio é o nº 13 da Colecção Poetas de Hoje.

Lembro que a poesia de Alberto Lacerda trouxe-me dificuldades, só muito mais tarde debeladas. Nem todas.

Nascido na Ilha de Moçambique, passou pelo Brasil, pelos Estados Unidos e viveu mais de 50 anos em Londres.

O poeta, crítico, e seu grande amigo, Eduardo Pitta, escreveu que Alberto de Lacerda «nunca acertou contas com Portugal que não passou de um intervalo na sua vida.»

Alberto de Lacerda é uma das grandes vozes da poesia portuguesa da segunda metade do século XX.

Poucos repararam. Muitos, oh! tantos, tantos, continuam sem reparar.

Morreu em Londres, tinha 78 anos, a 26 de Agosto de 2007. 

John McEwen, o crítico de arte com quem tinha combinado almoçar nesse domingo, estranhou o atraso e acabou por arrombar a porta.

Escreveu Eduardo Pitta:

«Alberto de Lacerda ainda estava vivo, porém em coma. Morreria horas depois. Conhecendo-o como conheci, sei que teria apreciado o detalhe final.»

O POEMA TRANSGRIDE PELA MANHÃ

O poema transgride pela manhã
e cobre gloriosamente a trepadeira púrpura;
agora, que tudo e todos se odeiam,
na impenetrável aurora
sentem-se melhor.

A precisão maligna de impulsos
à astúcia de um pressuposto de luz
(pedaço a pedaço revelando a morte
e o nojo reprimidos)
declina o Tempo zodiacal:
a violenta partição do fluxo:
da Via Láctea ao vírus;
da epifania à produção em série;
do incesto ao tributo pago;
do continente à subida das ágüas;
da fala à sílaba;
da geografia à Arca; …

A gavinha do poema lambe caliça
num recanto de sombra, re-canta:
as escolhas e permutas na cidade-cluster.

De mão estendida o poema alastra.
Já sem núcleo, uma onomatopeia cindida.

Paulo da Costa Domingos

domingo, 1 de fevereiro de 2026

AS TRAGÉDIAS QUE NOS ATINGEM


Nunca tivemos um Governo tão mau.

Cinco dias depois da passagem da tempestade Kristin, Luís Montenegro, anunciou um conjunto de medidas destinadas às populações e empresas das zonas afectadas, num pacote que ascenderá a 2,5 mil milhões de euros, respondendo de forma indirecta às críticas perante a lentidão da actuação do Estado, mas sem reconhecer falhas na resposta à crise. 

Aumentam para oito as vítimas mortais da passagem da depressão Kristin.

1.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, classificou este domingo, em Roma, como "impressionante" o conjunto de medidas aprovado pelo Governo para apoiar as famílias e empresas fustigadas pela depressão Kristin.

Em declarações aos jornalistas o Chefe de Estado sublinhou a diversidade e a rapidez das intervenções planeadas pelo Executivo de Luís Montenegro.

2.

Joaquim Leitão, que teve cargos de direcção e comando no sector da protecção e socorro, considera que, perante a dimensão das consequências da tempestad Kristin, as Forças Armadas deveriam ter sido mobilizadas mais cedo e requisitadas em bloco.

3.

O parque industrial da Marinha Grande foi severamente afectado pelo mau tempo. Muitos pavilhões ficaram sem tecto e sem paredes, o que obrigou à suspensão da actividade. Sem conseguir produzir e com a maquinaria exposta à chuva e ao vento, empresários enfrentam prejuízos de milhões de euros, mas as contas ainda estão a ser feitas.

4.

"Foi feito tudo aquilo que era possível fazer para prevenir e colocar todas as forças em prontidão", diz Montenegro

Questionado pelos jornalistas sobre as críticas de que a reacção do Governo aos efeitos da depressão Kristin foi tardia, Luís Montenegro disse que "foi feito tudo aquilo que era possível fazer para prevenir e colocar todas as forças em prontidão no terreno. Do ponto de vista daquilo que era possível fazer-se, foi feito".

5.

Situação de calamidade até 8 de fevereiro.

O Governo anunciou ainda que vai apoiar a reconstrução de habitação própria e permanente em intervenções até 10 mil euros "sem necessidade de documentação" para os casos em que não haja cobertura de seguro. As obras de reconstrução dispensarão licenciamento e controlo prévio. O mesmo montante estará disponível para situações relacionadas com agricultura e floresta exatamente no mesmo montante.

6.

Cinco dias depois da Kristin, ainda só há uma rede de telemóvel a funcionar em pleno na Vila Nova de Anços, que se prepara para ser abastecida por água, pelos Bombeiros Voluntários de Soure.

Emília Belém tem 59 anos e uma empresa familiar, com o marido e um dos três filhos, cujo armazém sofreu danos muito significativos, que justificam o fim do negócio. "Ficámos sem nada, temos um prejuízo de mais de 500 mil euros" contou à agência Lusa, adiantando que tinha já material para entregar que "ficou todo desfeito". "Fomos das empresas mais afetadas do concelho", referiu Emília Belém que disse estar "sem forças" para reerguer a empresa Vilagrês.

7.

Fernando Ramos é o proprietário da padaria que neste domingo não conseguiu entregar pão em pelo menos cinco instituições do concelho e que abastece diariamente. A luz só chegou de manhã, mas não havia água. Uma interrupção, porque no próprio dia do temporal, tiveram tudo, menos comunicações e ainda só tem uma rede móvel estável.

8.

Falta de energia agrava perdas das empresas: “Há centenas de empregos em risco”
Ainda se está longe de se poder fazer uma avaliação aproximada dos prejuízos provocados pela tempestade Kristin na região Centro onde, na manhã deste domingo, ainda existiam cerca de 180 mil clientes (empresas e particulares) sem energia eléctrica. Mas a apreensão é muito grande entre os empresários, não só pelos danos provocados pela tempestade da passada quarta-feira, mas também pelos atrasos na reposição de energia — e outras dificuldades de reparação de danos.

Fontes:

Público

Diário de Notícias

Jornal de Notícias

Correio da Manhã

Lusa