quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ


Se viram um amável filme do norte-americano Rob Reiner, com Meg Ryan e Billy Cristal, «When Harry Meet Sally», que, parvamente, em português se chamou, Um Amor Inevitável, o tal filme em que a Meg Ryan simula um orgasmo em pleno snack e, finda a performance, a cliente da mesa ao lado, que esperava para fazer o seu pedido, volta-se para o empregado e diz: «quero o mesmo que aquela senhora», e certamente lembrar-se-ão que quase no final do filme, quando, numa festa de fim de ano, Harry reencontra Sally, começam a ouvir-se os acordes de Auld Lang Syne, e Henry diz que nunca entendeu o significado da canção pois diz que os velhos conhecidos devem ser esquecidos ou que se os esquecemos devemos recordá-los mas como recordar se já os esquecemos? Sally não tem resposta mas, sorrindo, acaba por lhe dizer: “seja o que for é uma canção sobre velhas amizades”.

Chegamos a bom porto: velhas amizades, lembrar os que já não estão connosco, com os que estão, os que ainda fazem do Natal a festa dos amigos, celebrar a amizade, sempre, enquanto não chega a hora do adeus.

É isso!

Ao mesmo tempo lembrar a velha tia, que repetia sempre os mesmos votos de Ano Novo: «não se pede grande coisa: trabalho e saúde...» e sabendo que o meu cachimbo está apagado, o meu copo vazio, ouvir aquela canção celta:

«Que a estrada se abra à tua frente,
Que o vento sopre levemente nas tuas costas,
Que o sol brilhe morno e suave na tua face,
Que a chuva caia de mansinho nos teus campos.

Ou aqueles versos de um poema do Jorge de Sena:

 «Já tudo escureceu;

contudo ainda resta algum dia
suspenso de onde veio a noite que chegou primeiro.

É de sempre este resto de dia
e acompanha-a pelo céu em busca das estrelas frágeis.

A noite, uma vez,
compreenderá que ele vem do mesmo lado que ela.» 



SÍTIOS POR ONDE ELES ANDARAM

Sim, quantas vezes eles andaram naquele Elevador, mais subidas que descidas.

Não conseguem, agora, saber a data em que a fotografia do Elevador da Glória, com o assador das castanhas em fundo, foi tirada.

Dado o fumo das castanhas, talvez um tempo outonal/invernoso.

Mas foi a 3 de Setembro que a tragédia se abateu sobre o velho Elevador da Glória.

«Foi numa quarta-feira, a 3 de Setembro, com o país regressado de férias, mas com Lisboa ainda repleta de veraneantes, que o elevador da Glória salta para as páginas dos jornais de todo o mundo. Aquilo que era para ser mais uma das 87 viagens diárias de rotina do elevador mais conhecido de Lisboa, acaba em tragédia quando um dos dois veículos se desliga do cabo que o sustentava (e rebocava) e corre desgovernado pela Calçada da Glória abaixo embatendo numa esquina e em dois postes de electricidade, provocando a morte de 16 pessoas.

As ondas de choque deste acidente dominariam as notícias e a vida política do país durante semanas. O elevador da Glória transportava 3 milhões de passageiros por ano, na sua maioria estrangeiros e era um ícone da capital portuguesa. Num país europeu, considerado seguro, não era suposto que o cabo de um equipamento tão importante se desligasse do veículo e o deixasse à solta, fora dos carris, sem outra redundância eficaz para o fazer parar.»

Quanto às indemnizações, a que todas as vítimas da tragédia têm direito, deverão decorrer ainda muitos anos para que isso venha a acontecer, uma lonjura de tempo em que as companhias de seguros são exímios mestres.


A GATA E BEETHOVEN

Entrada a noite,

a gata Electra

esquece vinganças

se senta-se

ao meu lado.

Ouvimos os trios de cordas.

eu bebo whisky,

a bem da morte sóbria

ou, pelo menos,

de um sono conforme;

a vida patece suave,

a pulsação

quase perfeita

e gata pensa

que não há direito

que alguém sofra.

 

José Alberto Oliveira

ELEVADOR DA GLÓRIA

Na mais profunda das confusões
Nas vozes alteradas dos turistas
A pedirem desculpa dos empurrões
Aos vulgares passageiros, aos jornalistas

A quem todos os dias te percorre
Quase sem dar pelo ângulo da subida
E em cada viagem também morre
Ou (pelo menos) deixa um pouco de vida

Às crianças com três anos de idade
Na voz hesitante dos seus pais
Perdida entre o apelo da verdade
E os gostos da poupança, naturais

A todos que comigo viajaram
E posso ter como testemunhas
E este fado comigo cantaram
Numa guitarra velha como as unhas

A todos direi; tomem nota por favor:
não há lugares sentados neste elevador.

José do Carmo Francisco em Transporte Sentimental

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

REOLHARES


QUOTIDIANOS


Pedro Neves pôs o candeeiro de petróleo em cima duma cadeira poeirenta. Emagrecer, o rosto parecia alongar-se na sombra projectada na parede branca. Reprimiu um gesto, talvez uma palavra.

- Comprendo. Exponha-se o menos possível, peço-lhe. Se ninguém vem aqui…

- Não, ninguém. Só eu.

- … o esconderijo parece seguro. Mas são só dois dias, o máximo três.

Apertaram as mãos com muita força. Antes de fechar a porta, Judite voltou-se para ele.

- Que cigarros fuma?

-  Unic.

- Tem graça, são os do meu pai, Trago-os amanhã.

E sorriu.

 

Álvaro Guerra em Café República

O meu pai também fumava cigarros Unic, tabaco negro. Três maços por dia, cigarros que o ajudaram a viver e acabaram por o matar.

Legenda: imagem tirada de Tododcoleccion

 

Texto publicado em 11 de Junho de 2018

MÚSICA PELA MANHÃ

Se ainda andasse por aqui, a bebericar litradas de Whisky Johnny Walker, rótulo preto, a unicar três maços de tabaco negro por dia, o meu pai faria 113 anos.

Era miúdo, teria uns 8 anos, lembro-me de ele ter chegado a casa com um disco de 78rpm do trompetista Eddie Calvert a tocar uma velha canção «Oh, My Papa». 

Ele adorava esta canção e quando fazia anos, gostava de a por a tocar. 

O disco partiu-se e, alguns anos antes de nos deixar, consegui encontrar na Feira da Ladra, um EP do Eddie Calvert. O disco terá pertencido a alguém chamado Ilda, que lhe terá sido oferecido em 21 de Fevereiro de 1964, mas as coisas não terão corrido bem, riscou a dedicatória e, por tuta e meia, vendeu o disco.

O meu pai, o melhor ouvinte e conversador que tive, e lembro as noites de Verão-de-micro-clima, em Almoçageme, numa velha casa alugada, sentados no alpendre a ouvir o silêncio, ao longe a ronca do Cabo da Roca, ele a beber o seu whisky, eu a beber o meu gin-tonic.



BUCÓLICA

A vida é feita de nadas:

De grandes serras paradas

À espera de movimento;

De searas onduladas

Pelo vento;


De casas de moradia

Caídas e com sinais

De ninhos que outrora havia

Nos beirais;


De poeira;

De sombra de uma figueira;

De ver esta maravilha:

Meu Pai a erguer uma videira

Como uma Mãe que faz a trança à filha.


Miguel Torga

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

POSTAIS SEM SELO

«Sempre tinham dormido juntos. Em quartos de hotel, em cabanas perto do mar, em comboios que atravessavam noites sem fim.»

Ana Teresa Pereira 

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Poderiam os livros, um dia, terem bola vermelha como alguns filmes que passam na televisão?

Claro que não!

Mas, se assim fosse, é o que aconteceria a este livro de Jorge de Sena.

É um livro extraordinário, como extraordinária é toda a obra de Jorge de Sena.

Tal como avisa Mécia de Sena na Nota Prévia sobre o livro:

«Decidi que não desvendaria o nome das pessoas que os poemas não mencionam. Aqueles que viveram esses tempos sabem muito bem quem o maltratou e como e onde; os outros que busquem nos jornais, nas revistas, nas cartas, nas publicações que organizou, está lá tudo e fácil de deduzir.»

A justiça de se dizer que Mécia de Sena, durante toda a sua vida, exerceu um trabalho extraordinário para que a obra de Jorge de Sena fosse conhecida em todo o seu esplendor.

Para além das Dedicácias, este livro inclui o Discurso que Sena escreveu para as comemorações, em 1975, do Dia de Camões, o mais notável discurso de todos os que, até agora, foram feitos para assinalar a data.

Copio da badana do livro:

«Portugal não soube conceder-lhe em vida a consagração que a sua obra merecia.»

OLHAR AS CAPAS


 Dedicácias

Seguido de Discurso da Guarda

Jorge de Sena

Nota Prévia de Mécia de Sena

Guerra e Paz Editores, Lisboa, Março de 2010

 

A César o que é e César

 

Se se tem génio, quanto a gente diga

é pretexto para ser-se desprezado:

que mau é tudo (embora sirva sempre

para todos fazerem disso o melhor de si mesmos).

Se se é medíocre e para mais dotado

de partes baixas de que os outros possam servir-se

por procuração (e em Portugal toda a gente sonha

com dar o cu dos outros como se fora o próprio),

tudo é pretexto para ser-se admirado,

respeitado, amado em poluções nocturnas,

e quanto se diga – ou mesmo se não diga –

é maravilhoso até por não dar sombra.

Nem vale a pena pensar duas vezes

e acabar este poema que sei – sem dúvida –

ai muito mau, não é verdade, amigos?

 

                  LONDRES, 5 de Fevereiro de 1973

PÓLO OPOSTO

Surda languidez ao pé das palmeiras


Hoje seria Natal exactamente Natal

A ramagem e o fruto graxo sobre o galho

verdejam

exércitos de insectos zunem em círculos eternos

 

Surda languidez ao pé das palmeiras

o leque de sombras da floresta

assusta a ave-do-paraíso

 

Penso na pátria e pensativo fito o chão

se a terra fosse transparente

daqui poderia enxergar debaixo de todas as saias da Europa

 

Pés brilham e deslizam entre babados

como as dançarinas

de Paris em passos rápidos sobre folhas de espelho

 

Penso em seus ombros nos ombros apenas

nos olhos nos lábios nos cabelos

e nos seios principalmente nos seios

 

Quantas amei quantas belas e brancas

chuva de rosas dos meus pés à cabeça

Uma única mulher negra me pertenceu


Surda languidez ao pé das palmeiras

Caminho aqui de cabeça para baixo

como se andasse sobre o tecto


Abaixo de mim profundeza brilha a voragem celeste

caminho feito Cristo vergado debaixo do Cruzeiro do Sul


Do outro lado do mundo os homens

correm correm ao avesso

Só fico pensando em seus sapatos de sola furada


Seus pequenos passos de criança

em jardins furta-cor

lançam folhagem sangrenta para baixo


A terra dos checos estende-se na outra parte do mundo

terra exótica e estranha

com rios profundos e fabulosos

pode-se atravessá-los de pés secos no dia onomástico de Jesus

temos outono inverno verão e primavera


As pessoas usam sobretudo gravatas

e bengalas

talvez esteja nevando agora

talvez a cerejeira esteja em flor


Amoras abundantes estão crescendo

E há água potável fresca

 

Konstantin Biebl em Rosa do Mundo

domingo, 28 de dezembro de 2025

POSTAIS SEM SELO


Dizem que os tempos mudam… dizem…

Avenida da Liberdade em Lisboa.

Por acaso perto de uma empresa chamada "Feelslikehome" (sinto-me em casa) que se dedica ao chamado "Alojamento Local"

Texto e fotografia de Rui Ornelas

DISTO, DAQUILO E DAQUELOUTRO



 Carlos Moedas garantiu que, após as últimas eleições autárquicas, tinha todas as condições de, neste novo mandato, produzir um excelente trabalho, um trabalho diferente.

Como não tinha a maioria, pediu ajuda à rapaziada «daquela coisa».

Tempo de Natal.

O lixo da cidade não foi recolhido.

Amontuou-se por todos os passeios, por todos os cantos das ruas de Lisboa.

No pequeno passeio que dei pelo bairro, em busca dos panos vermelhos estampados de Meninos Jesus, encontrei montanhas de lixo encontradas na Rua Carvalho Araújo.

Foi muito mau o trabalho de Carlos Moedas nos últimos quatro anos de mandato, pela amostra junta, promete ser muito pior nos anos que se vão seguir.

Terá que se agradecer aos votantes no Carlos Moedas.

É o destino dos povos: não saberem aprender com experiências vividas!

1.

Comboio regional atropelou e matou 100 ovelhas em Montemor-o-Velho
Um comboio regional de ligação entre Coimbra-B e as Caldas da Rainha atropelou um rebanho de ovelhas e matou cerca de 100 animais neste domingo de manhã. O incidente ocorreu no ramal de Alfarelos, em Montemor-o-Velho, disse fonte dos bombeiros.

Não é conhecido o montante dos prejuízos.

2.

Equipa presidida por Cristina Tomé no Metro de Lisboa passa a ter vencimentos alinhados com os do primeiro-ministro e da CP, e não com o Metro do Porto, após reclassificação feita pelo Governo.

3.

O número de pessoas sem-abrigo em Portugal já ultrapassa os 14 mil, o que significa um crescimento de 10% num ano e a maioria são homens, de nacionalidade portuguesa, entre os 45 e 64 anos.

4.

«Vivemos num tempo curioso: nunca tivemos tanto e, ainda assim, raramente celebramos o que temos. Pelo contrário, habituámo-nos a um discurso permanente de queixa, a uma espécie de vórtice negativo onde tudo é insuficiente, tudo falha, tudo decepciona. Diminuímos conquistas, relativizamos direitos, desvalorizamos o que foi ganho com esforço colectivo. A insatisfação tornou-se um hábito, quase uma identidade e, ao contrário de outros estados de alma, não parece ter cura, porque se alimenta de si própria.

Queixar-se passou a ser um gesto automático, socialmente aceite, até incentivado. É mais fácil denunciar do que reconhecer, mais cómodo destruir do que cuidar, mais sofisticado parecer desencantado do que assumir alegria. Mas este estado permanente de mal-estar tem custos: corrói relações, normaliza ambientes de trabalho indignos, legitima pressões que ultrapassam a decência e cria uma toxicidade quotidiana que se infiltra em tudo.

Talvez esteja na altura de mudarmos o foco. Não por ingenuidade, não por negação da realidade, mas por lucidez. Celebrar o que temos não é desistir de exigir mais; é reconhecer o caminho feito para poder avançar com mais força. Celebrar a vida, o trabalho digno, os afectos, o espaço comum, é um acto de responsabilidade cívica.»

Patrícia Reis no Diário de Notícias

5.

Segundo o Banco de Portugal a entrada de trabalhadores imigrantes em Portugal caiu 40% na segunda metade de 2024,  depois dos máximos atingidos em 2023, as inscrições na Segurança Social passaram de cerca de 20 mil por mês para 12 mil e entre janeiro e outubro deste ano os imigrantes em Portugal pagaram 3,1 mil milhões à Segurança Social, o quíntuplo do que receberam em apoios.

6.

«No espaço de um ano, apenas no dia do apagão geral da Península Ibérica, a 28 de Abril, e na véspera de Natal de há um ano, a 24 de Dezembro de 2024, Portugal experienciou quebras da actividade económica mais relevantes do que a sentida a 11 de Dezembro de 2025, dia da greve geral que uniu centrais intersindicais contra a reforma do pacote laboral e que o Governo considerou ter tido uma adesão “inexpressiva” nos sectores privado e social.

Público, 19 de Dezembro de 2025.

BRIGITTE BARDOT (1934-2025)


Morreu Brigitte Bardot.

Tinha 95 anos.

Um leitor do Público, ao ler o óbito que Vasco da Câmara fez para o jornal, indignou-se:

«Esta sim, é uma verdadeira notícia falsa. A fake new completa, acabada e indecente. Não posso deixar de manifestar a minha indignação a quem ande a espalhar estas notícias, sem a mínima aderência à realidade. BRIGITTE BARDOT não morreu pela simples razão que "a mulher" nunca morrerá, que "a beleza" é eterna e o sonho do homem não tem fim.».

Ainda no dia 29 de Julho A Lupa lembrava a moça e também uma canção do Zeca Baleiro que diz:

«A saudade

É brigitte bardot

Acenando com a mão

Num filme muito antigo.»

MÚSICA PELA MANHÃ


Os perto de quarenta anos que trabalhou em shipping, deu-lhe para conhecer centenas de agentes, principalmente na Europa. Quando visitavam Lisboa levava-os aos locais obrigatórios e caprichava por outros, os que não estão nos roteiros. Quando os visitava, eles faziam o mesmo, só que não caprichavam.

Dzintra Vilane, responsável pelo Departamento de Contentores da Latvian Shipping Company, dizia-lhe que quase conhecia meio mundo, mas que Lisboa se lhe afigurava das cidades mais difíceis de catalogar. Um gosto estranho que não sabia explicar, uma paixão de envolvimento fácil. 

Quando o visitava dizia-lhe: poupa-me pormenores e leva-me ao British Bar.

O British Bar foi um local em que ele caprichara. Conhecia alguns bares mas o British era aquele bar, tempo de longas conversas com quem ia aparecendo.

Certa vez Dzintra disse-lhe, que se ela mandasse colocava Strangers In the Night como audição obrigatória, e consequente aprendizagem e estudo em todas as escolas.

Achou a ideia bizarra, um exagero, mas a tarde corria mansa, relaxante, o gin estava a saber-lhe às mil maravilhas, e não quis estragar tudo isso com uma discussão que, inevitavelmente, conduziria a nada. Até porque Strangers in the night, diga-se it’s not your cup of tea, gosta de Sinatra mas prefere-o noutras canções, e de imediato trauteia Love’s been good to me, canção mesmo canção, mas que poucos referem, ou então aquelas canções, de início de carreira, cheias de swing, quando Sinatra era solista de big bands , como a de Tommy Dorsey, um Sinatra com cara de miúdo e de lacinho.

Lembrou-se de tudo isto porque há dias, leu o pedaço de uma muito antiga entrevista de Gore Vidal, em que a determinada altura ele dizia que metade da actual população norte-americana deve ter sido concebida com um disco de Frank Sinatra a fazer de música de fundo.

Possivelmente quando mandar à Dzintra as saudações do Ano Novo, ela não quer saber do Natal para nada, mas o começo do novo ano, sim, é mesmo uma grande festa, dir-lhe-á desta ideia do Gore Vidal, lembrar-lhe-á a conversa sobre Strangers in The Night e enquanto escreve o postal beberá um grande gin e irá verificar que o tempo andou terrível e inexorável- mente muito depressa.

Saudades?

Não, antes recordações, um mar enorme, onde cada sussurro tem a beleza de um silêncio que se repete até mais não o ouvir.


sábado, 27 de dezembro de 2025

POSTAIS SEM SELO

Por este andar, não tardará muito que já nem se saberá por que razão celebramos o Natal. Teremos as ruas iluminadas e o corpo de Deus às escuras.

Frei Bento Domingues 

Legenda: imagem tirada do site da Câmara Municipal de Lisboa.

OLHAR AS CAPAS

Para os Caminhantes Tudo é Caminho

José Tolentino Mendonça

Capa: Rui Rodrigues

Quetzal Editores, Lisboa, Novembro de 2025

Chegará o momento em que compreenderemos que sabedoria é amar tudo. É saudar os dias sem esquecer a importância das horas; contemplar as grandes torrentes sem deixar de agradecer cada gota de orvalho; estimar o pão sem, no entanto, esquecer o sabor das migalhas. Chegará a ocasião de compreender que o importante não é só contar a viagem, mas testemunhar também o contributo dos passos; elogiar não só a meta, mas a lição de cada etapa, sobretudo quando chegámos a duvidar que o caminho conduzisse a alguma parte. Chegará o tempo em que nos reconheceremos saciados tanto pela frescura da fonte, como pela sede; iluminados pela experiência dos encontros, mas também pelo ensurdecedor vazio de certas esperas; maravilhados, de igual maneira, com o alforge repleto e as mãos sem nada. Chegará a altura de recomendarmos ao nosso coração que abrace, com idêntico amor, as estações prometedoras e as dececionantes; a clarividência do discernimento e a prévia confusão dos nossos impasses; a beleza inaugural da aurora e as feridas sem resposta que nos rasgam ao aço do crepúsculo. Chegará a idade em que escutaremos com a mesma naturalidade a passagem de Deus no ondeado da palavra e no atonal silêncio; em que O reconheceremos com nitidez na inteireza e na vida dispersa que se quebra; em que sentiremos a Sua vizinhança no máximo da consolação e no extremo da nudez; no abrigo do jardim e nos desamparos onde nos perdemos.
 

OLHARES

Há uns anos, assistimos  à quase loucura, de pais natal de plástico a treparem janelas e varandas.

Generalizaram-se e constituíram um belo negócio para os chineses.

Por cansaço, o que quer que seja, já quase desapareceram.

Depois apareceu uma ideia, importada de Espanha, estandartes de pano vermelho com um Menino Jesus desenhado, objectivo maior para devolver, aos católicos, o verdadeiro espírito natalício combate árduo contra o pagão e barbudo Pai Natal que tem a péssima mania, de, por outros vícios, publicitar a Coca-Cola.

A Igreja Católica despertava para uma realidade que lhe passou ao lado, como, aliás, quase tudo o que vai acontecendo no mundo novo. Desesperadamente, tentaram combater as renas, os trenós, um certo paganismo, dizem, que se apropriou do Natal. E tentaram recuperar os símbolos cristãos do espírito natalício.

Não chegaram a tempo.

Um breve passeio pelas ruas do bairro, e o bairro é grandinho, deu para encontrar um único desses católicos panos de menino exposto e que se vê no topo do texto.

Sim, o Pai Natal é de um outro campeonato!

MÚSICA PELA MANHÃ


Pode uma canção que se chama First of May ser uma canção de Natal?

Pode e deve.

Mas não perguntem o porquê.

É uma canção dos Bee-Gees que faz parte do duplo álbum Odessa de 1969.

Quando eram pequenos e as árvores de Natal eram altas, foram-se amando, o tempo a passar até ao tempo em que eles eram altos e as árvores de Natal pequenas.

Falando de amores e canções de Natal, lembrar que Mário-Henrique Leiria gostava do Natal, mas um dia deu-lhe a louca de casar com uma alemã que o tratou pessimamente.

Divórcio em trânsito e Mário escreve:

«Falando de discos, vão para um teatro para crianças que se está organizando, segundo penso. E também empréstimo. Comigo, levo apenas quatro ou cinco de música russa e os dois de jazz que a Dietlinde me ofereceu uma vez… (Sou tão romântico que até gosto de conservar recordações. Que bom!) Deixo cá todos os que suponho que ela gostava: Bach, Mozart, Beethoven, canções de Natal, canções alemãs e, evidentemente os discos de música brasileira que caí na arara de comprar.».

Mário Henrique-Leiria escreve a Maria Isabel, advogada da mulher alemã que pretendia o divórcio. As cartas constam de Depoimentos Escritos, um livro apaixonante, apaixonado desse louco genial que, para além do mais, me entranhou, ainda mais, o gosto pelo gin, ao ponto de, num tempo longínquo, já não saber a quantas andava… quem era...
Pois, a Dietlinde acabou por ficar com os discos de Natal do Mário. Muitas outras coisas. Algumas irreversíveis. O que depois se sabe, pela leitura do livro, é que o Mário-Henrique Leiria apaixona-se, loucamente, pela advogada da mulher. Outro grande amor das muitas suas vidas que acabarão por contribuir para o fim da sua atormentada, mas bem gozada, vida.
«Agora tenho que sair. A carta acaba aqui. Vou tentar angariar subsistência, que eu, às vezes, até tenho o vício de comer… calcula, vícios burgueses…
Abraço grande, saudade enorme de tudo que tu és.
Mário-Henrique
Merry Xmas and Very, very Happy New Year for both.»

O Mário gostava do Natal, de canções de Natal.

Eu também.

Gosto também deste First of May dos Bee-Gees que, digam lá o que disserem, pode ser uma canção de Natal. Outra canção de Natal.


sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

SEGUIMOS NOS SEU CARRIS


«Alguém sai numa estação de comboio enquanto os passageiros continuam a sua viagem: esta pode ser uma imagem da morte. O temo como o vivemos, não permite outras dimensões, seguimos nos seus carris, no seu caminho-de-ferro, até a morte nos deixar num apeadeiro qualquer.»

Afonso Cruz em O Que a Chama Iluminou.

NOTÍCIAS DO CIRCO


É impossível, mesmo impossível aceitar que o primeiro-ministro do reino, a falar aos portugueses, na sua mensagem de Natal, lhes diga que teremos de ter a «mentalidade de Cristiano Ronaldo» para mudarmos o país.

Isto é mesmo verdade? Mas já chegámos à Madeira?

LIVROS AUTOGRAFADOS


 

Os livros autografados da Biblioteca da Casa, comprados em 2ª mão, não têm só dedicatórias de gente ilustre para outra gente ilustre.

Por 50 Cêntimos, num desses vãos de escada que ainda se podem encontrar nos velhos bairros de Lisboa, vendendo de tudo um pouco, comprei este livro do Carlos Pinhão.

Comprei-o, principalmente, pelo que um avô sportinguista, corria o dia 16 de Maio de 1991, num bonito gesto de ternura, escreveu para o seu neto benfiquista:

«Para o João com um grande “viva ao Benfica campeão”».

Não sabemos se o João leu o livro, pela capa, pelo miolo, podemos concluir que não tem o mínimo sinal de ter sido lido, mas sabemos que o «despachou» e ter-lhe-ão dado uma ridicularia.

Serviu para quê, esse pouco dinheiro?

Nem para uma caixa de «chiclets» terá dado.

E aquele gesto de ternura do avô que tanto me agradara, passou a tristeza, reflexo da insensibilidade do João face ao gosto do avô lhe ter comprado o livro do Carlos Pinhão e que acabou num vão de escada de compra e venda de livros em 2ª mão.

Se o lesse teria reparado no que o Carlos Pinhão, a dado passo escreveu:

«Jogar é bom, faz bem, mas não é tudo, os jovens devem criar outros hábitos que contribuam para um desenvolvimento harmoniosos do corpo e do espírito… Por exemplo, ler…»

Mas os jovens não lêem.

Lembrar aquela história do petiz a quem o Raul Solnado perguntou se gostava de ler e que lhe respondeu: «Evito!»

José Tolentino Mendonça:

«Conversava com uns amigos preocupados com o filho que anda agora pelos 17 anos. São ambos professores, os corredores de casa parecem uma biblioteca, mas o filho não lê um livro. Às vezes, dão por si a olhá-lo como se olha um estranho cuja língua e hábitos se ignoram. Não sabem como se formou o muro cultural que os separa. Veem-no horas e horas retido no ecrã do telemóvel, obsidiado por aquele retângulo brilhante, aos olhos deles fazendo nada. Lamentam o que lhes parece ser uma dependência, mas sentem-se impotentes. Quando tentam explicar-lhe que o ecrã é uma gaiola de vidro onde se deixa aprisionar, o filho levanta a cabeça, olha-os também sem entendê-los, mas sem intenção de substituir o que o ocupa por um livro qualquer. A primeira coisa de que me recordei — e que lhes disse — foi uma frase do escritor Gianni Rodari: “O verbo ler não suporta o imperativo.” Ler é uma atividade indissociável da curiosidade e do desejo. É preciso aprender a senti-la como uma necessidade interior, um gosto, uma alegria que pode até ser frívola e profunda ao mesmo tempo, um encontro a que nos dispomos sem porquê. Não basta uma ordem ou um conselho repetido. Falta uma iniciação que seja digna desse nome. E, a esse propósito, lembrei-lhes o que dizia Rubem Alves: que era pela cozinha que deveríamos sempre entrar numa sala de aulas, pois ensinar é a arte de despertar a fome em alguém.»

Carlos Pinhão era uma pessoa amável, um competente jornalista desportivo  de A Bola e autor de histórias infanto-juvenis.

Devo ao jornal A Bola ter-me dado a conhecer o poeta Ruy Belo.

MAIS LÚCIDO O METAL

Mais lúcido o metal
das espadas coroa
a divina pessoa
que em ti, serena e igual,

espera desde criança,
no país ocupado,
o som claro e doirado
da trombeta da esperança.


Daniel Filipe de Balada Para a Trégua Possível em A Invenção doAmor

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

NATAL MINHOTO


«Não, a vida não é uma festa permanente e imóvel, é uma evolução constante e rude. O Natal é a festa das lágrimas para todos aqueles para quem ele não é a festa da inexperiência. E, todavia, pensavam alguns que era útil não deixar de a celebrar. Que importa que o número ou que o nome dos convivas varie em cada ano? Que importa que alguns amados velhos faltem ao banquete? Que importa que nós mesmos faltemos para o ano que vem na festa dos mais novos?

Esta noite de alegria para as crianças será sempre de alguma saudade para os adultos. Assim teremos a esperança terna de sobreviver, por algum tempo, na lembrança dos que amamos — uma boa vez ao menos, de ano a ano.»

Ramalho Ortigão as Farpas Vol. I

Legenda: presépio do Palácio de Queluz 

MÚSICA PELA MANHÃ

Por diversas vezes, neste Cais, pode ler-se que não há Natal sem música de Bach.

A frase é do meu pai, respondendo à pergunta que, amiúde, lhe faziam de que canção de Natal gostava mais.

Dando asas à ideia, fui buscar a cantata Jesus Alegria dos Homens. BWV 147.



REVISITAÇÃO DE POEMAS DE NATAL


 

Herodes

                       Para Miguel Viqueira

 

Gritam, mijam, cheiram a leite

azedo. Andam por aí

pelos colos das mães, montados

em burros poeirentos. E há um

que aqueles pretos dizem que há-de um dia

sentar no meu coxim o cu borrado.

Não sabem nada, uns e outros,

soltam vagidos que ninguém entende.

Dou-lhes na mona a uns

e os outros que passeiem.

Detesto gente parva.

 

Pedro Tamén em Natal… Natais

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ


Silent Night: o clássico dos clássicos das Canções de Natal.
Colaboração de Aida Santos.
 


 

LADAÍNHA DOS PRÓXIMOS NATAIS


 Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que o Nada retome a cor do Infinito

David Mourão-Ferreira de Cancioneiro de Natal em Obra Poética

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


 

José Saramago não gostava do Natal. Tão pouco de festas de aniversário.

Talvez reflexo de uma infância e de uma adolescência muito difíceis o Natal, para Saramago, não foi um toque de mágica. 

Deixou escrito numa crónica; para incréus empedernidos como eu, o caso não tem assim tanta importância: é mais uma das trezentas mil datas assinaladas de que se servem inteligentemente as religiões para aferventar crenças que no passar do tempo se tornariam letra morta e água chilra

De uma maneira seca, quase definitiva, finalizou um poema: É dia de Natal. Nada acontece.

Podia ser Natal e não ser farsa, como escreveu António Manuel Ribeiro numa canção dos “UHF”.

Na obra lida de José Saramago, encontrei três abordagens ao Natal.

O poema Natal em Os Poemas Possíveis,  a crónica A Neve Preta em Deste Mundo e do Outro e outra crónica em A Bagagem do Viajante que, precisamente, intitulou Natalmente crónica.

Tenho conhecimento que na revista “Colóquio/Letras” nº 151/152, Fevereiro 2000, totalmente dedicada a José Saramago, está publicado um conto inédito: Natal.

Fica aqui o excerto de A Neve Preta que consta do livro de crónicas Deste Mundo e do Outro:

«Estes pequenos filhos dos homens têm andado pelas minhas crónicas. Mas de crianças tenho falado como quem as conhece bem, só porque também por lá passou. E agora pergunto: que são as crianças? Dez mil pedagogos se preparam para me responder. Afasto de antemão as respostas, umas que já conheço, outras que adivinho, e torno a perguntar: que são crianças?

Que seres estranhos são esses que viram para nós os seus rostos frescos, que nos perturbam às vezes com um olhar subitamente profundo e sábio, que são irónicos e gentis, débeis e implacáveis, e sempre tão alheios? Temos pressa de os ver crescer, de os admitir no clã dos adultos sem surpresas. Somos impacientes, nervosos, porque estamos diante de uma espécie desconhecida... Quando passam a ser nossos iguais, falamos-lhes da infância que tiveram (a que recordamos, como observadores do lado de fora) e sentimo-nos quase ofendidos porque eles não gostam de ouvir lembrar uma situação em que já não se reconhecem. São adultos, agora: outra espécie humana, portanto.
Nessa infância está, por exemplo, a história que vou contar e que devo a um desses tais encontros de acaso. E depois de eu a reproduzir aqui, dir-me-ão se não tenho razões para insistir: é preciso cuidado com as crianças... Não o cuidado comum, que tende a prevenir acidentes, aqueles que aparecem sob esta rubrica nas notícias dos jornais, mas um outro cuidado, mais melindroso e subtil. Eu explico.
Uma professora mandou um dia aos seus alunos que fizessem uma composição plástica sobre o Natal. Não falou assim, claro. Disse uma frase como esta: «Façam um desenho sobre o Natal. Usem lápis de cores, ou aguarelas, ou papel de lustro, o que quiserem. E tragam na segunda-feira.» Assim ou não assim, os alunos fizeram o trabalho. Apareceu tudo quanto é costume aparecer nestes casos: o presépio, os Reis Magos, os pastores, S. José, a Virgem e o Menino Jesus. Mal feitos, bem feitos, toscos ou apuradinhos, os desenhos caíram na segunda-feira em cima da secretária da professora. Ali mesmo ela os viu e apreciou. Ia marcando «bom», «mau», «suficiente», enfim, os transes por que todos nós passámos. De repente... Ah, mas é preciso muito cuidado com as crianças! A professora segura um desenho nas mãos, e esse desenho não é melhor nem pior que os outros. Mas ela tem os olhos fixos, está perturbada; o desenho mostra o inevitável presépio, a vaca e o burrinho, e toda a restante figuração. Sobre esta cena sem mistério cai a neve, e esta neve é preta. Porquê?
«Porquê?», pergunta a professora, em voz alta, à criança. O rapazinho não responde. Talvez mais nervosa do que quer mostrar, a professora insiste. Há na sala os cruéis risos e murmúrios de rigor nestas situações. A criança está de pé, muito séria, um pouco trémula. E, por fim, responde: «Fiz a neve preta porque foi nesse Natal que a minha mãe morreu...»
Daqui por um mês chegaremos à Lua. Mas quando e como chegaremos nós ao espírito de uma criança que pinta a neve preta porque a mãe lhe morreu?»

José Saramago em Deste Mundo e do Outro, página 189.

MÚSICA PELA MANHÃ

Chris Rea morreu ontem aos 74 anos.

Foi um dos cantores que participou, em 1980, no single de beneficência Do TheyKnow it’s Christmas do super grupo Band Aid.

Como homenagem, é essa a canção desta manhã.



REVISITAÇÃO DE POEMAS DE NATAL


Um Rosto no Natal

Caiu sobre o país uma cortina de silêncio
a voz distingue o homem mas há homens que
não querem que os demais se elevem sobre os animais
e o que aos outros falta têm eles a mais
no dia de natal eu caminhava
e vi que em certo rosto havia a paz que não havia
era na multidão o rosto da justiça
um rosto que chegava até junto de mim de nicarágua
um rosto que me vinha de qualquer das indochinas
num mundo onde o homem é um lobo para o homem
e o brilho dos olhos o embacia a água
Caminhava no dia de natal
e entre muitos ombros eu pensava em quanto homem morreu por um deus que nasceu
A minha oração fora a leitura do jornal
e por ele soubera que o deus que cria
consentia em seu dia o terramoto de manágua
e que sobre os escombros inda havia
as ornamentações da quadra de natal
Olhava aquele rosto e nesse rosto via
a gente do dinheiro que fugia em aviões fretados
e os pés gretados de homens humilhados
de pé sobre os seus pés se ainda tinham pés
ao longo de desertos descampados
Morrera nesse rosto toda uma cidade
talvez pra que às mulheres de ministros e banqueiros
se permita exercitar melhor a caridade
A aparente paz que nesse rosto havia
como que prometia a paz da indochina a paz na alma
Eu caminhava e como que dizia
àquele homem de guerra oculta pela calma:
se cais pela justiça alguém pela justiça
há-se erguer-se no sítio exacto onde caíste
e há-de levar mais longe o incontido lume
visível nesse teu olhar molhado e triste
Não temas nem sequer o não poder falar
porque fala por ti o teu olhar
Olhei mais uma vez aquele rosto era natal
é certo que o silêncio entristecia
mas não fazia mal pensei pois me bastara olhar
tal rosto para ver que alguém nascia.

Ruy Belo em Todos os Poemas