sexta-feira, 21 de junho de 2013

OLHAR AS CAPAS


Canções
Volume I (1962-1973)

Bob Dylan
Tradução: Angelina Barbosa e Pedro Serrano
Capa: Carlos César
Relógio D’Água Editores, Lisboa Setembro de 2006

Vagueando para lá do Oeste selvagem
Abandonando as cidades que mais amo
Pensava ter visto alguns altos e baixos
Até chegar à cidade de Nova Iorque
Pessoas descendo para a aterra
Prédios subindo par o céu

É Inverno em Nova Iorque
O vento faz rodopiar a neve
Ando sem destino
Podia-se enregelar até aos ossos
Enregelei mesmo até aos ossos
O New York Times dizia que era o Inverno mais frio em dezassete anos.
Eu não sentia tanto frio então

Ginguei para a minha velha guitarra
Agarrei-me a uma carruagem do metro
E após uma viagem a oscilar, cambalear e rolar
Aterrei na baixa da cidade
Greenwich Village

Caminhei por ali abaixo e acabei
Num daqueles cafés de quarteirão
Subi ao palco para cantar e tocar
O homem lá de cima disse «Volta noutro dia qualquer
Soas como um parolo
Aqui queremos cantores de folk»

Bem, arranjei um trabalho com harmónica, comecei a tocar
Esgotando os pulmões por um dólar ao dia
Soprava de dentro para fora e de cima para baixo
O homem lá de cima disse que adorava o meu som
Ele estava tão delirante por adornar o meu som
No valor dum dólar por dia

Depois de semanas e semana por ali
Por fim arranjei emprego na cidade de Nova Iorque
Num lugar maior, mais dinheiro também
Até me sindicalizei e paguei as quotas.

Ora, um homem muito nobre disse uma vez
Que algumas pessoas nos roubam com uma caneta (1)
Não levou muito tempo a descobrir
Do que ele estava mesmo a falar
Muita gente não tem muita comida na mesa
Mas tem muitos garfos e facas
E tem de cortar alguma coisa.

Então uma manhã quando o sol já aquecia
Saí da cidade de Nova Iorque
Puxei o boné para os olhos
E dirigi-me para os céus ocidentais
Adeus, Nova Iorque
Ora viva, East Orange (2)


(1) – Referência à canção «Pretty Boy Floyd» de Woodie Guthrie, em que este canta: «Yes it’s through this world I’ve seen lots of funny men. Some will rob you with a six-gun and some with a fountain pen»
(2) East Orange – Localidade em New Jersey, perto de Morrisstown, onde Woody Guthrie esteve internado no Greystone Hospital. A primeira vez que procurou e visitou Guthrie foi em East Orange.
(Notas dos tradutores).

OS CROMOS DO BOTECO


POSTAIS SEM SELO


Quando chegou a casa eram quase sete horas. Tinha-se demorado um bom bocado no Terreiro do Paço, sentado num banco, a olhar os cacilheiros que iam para a outra margem do Tejo. Estava um belo fim de tarde, e Pereira quis ficar a gozá-lo. Acendeu um charuto e aspirou o fumo avidamente. Estava sentado num banco em frente ao rio e junto dele veio sentar-se um mendigo com um acordeão que começou a tocar velhas canções de Coimbra.

Antonio Tabucchi em Afirma Pereira, Quetzal Editores, Lisboa 1995.

Legenda: fotografia de Gérard Castello Lopes.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

JAMES GANDOLFINI (1961-2013)


Morreu, ontem, em Roma o actor James Gandolfini que contava 51 anos.
Gandolfini estava de férias com a família, antes de participar, este fim-de-semana, num festival de cinema.
Todo o elenco de Os Sopranos era de primeira linha, mas Gandolfini terá nascido para a personagem de Tony Soprano.

MARCADORES DE LIVROS


quarta-feira, 19 de junho de 2013

VOU-ME VER SEM DINHEIRO

Nesta data, no ano de 1959, vivendo em Faro, António Ramos Rosa escrevia a Jorge Sena que vivia exilado em Santa Bárbara, Califórnia.
Ramos Rosa dá conta das dificuldades que estava a atravessar e pedia ajuda  a Sena.
O curioso da história é que Sena vivia as mesmas dificuldades de Ramos Rosa, mais difíceis ainda dada a sua condição de exilado.
Mas o que transparece é uma sensação de solidariedade que os opositores à ditadura de Salazar mantiveram entre si ao longo desses trágicos tempos.
Os editores também viviam dificuldades, umas monetárias outras políticas, mas muitos deles não se portaram nada bem com os seus escritores, principalmente pagando tardiamente o dinheiro que lhes era devido, por vezes, nem tardiamente.
Estas relações difíceis e dramáticas entre editores e escritores, principalmente os que viviam exilados, irá, aos poucos, merecendo a devida atenção.
O livro da Correspondência entre Jorge de Sena e António Ramos Rosa, foi publicada no ano passado pelas Edições Guimarães.
A reprodução desta carta é retirada da edição  de 20 de Dezembro de 2012 do JL.

terça-feira, 18 de junho de 2013

POSTAIS SEM SELO


O verdadeiro lar de um homem não é a sua casa, mas a estrada.


QUOTIDIANOS


O desespero de uma mulher esgravatando no lixo.
Imagem de ontem em Lisboa, imagem de todos os dias.

Palavras do Papa Francisco:

A comida deitada fora é alimento roubado aos pobres, aos que passam fome. A cultura do lixo do desperdício é uma mentalidade que tornou as pessoas insensíveis até ao desaproveitamento alimentar, que é mais censurável quando, em todas as partes do mundo, muitas pessoas sofrem de fome e má nutrição.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

NOTÍCIAS DO CIRCO


A arrogância, a incompetência, a má-fé, do Ministro da Educação, ficaram largamente comprovadas nos últimos dias.

Não conseguiu acertar uma.

É este o espelho do governo que destrói o país.

Podem inventar o que quiserem, mas uma coisa é certa: averbaram uma derrota.

Não é a primeira, não será a última.

Contudo, para memória futura, é conveniente reter que o secretário-geral do Partido Socialista, que, a todo o momento, proclama que está em condições de substituir Pedro Passos Coelho, não conseguiu articular uma simples opinião sobre a greve dos professores.

Já essa redonda figura que dá pelo nome de Francisco Assis, com lugar marcado no tal futuro-governo-de-Seguro, considerou ignóbil a convocação de uma greve de professores para o primeiro dia de exames nacionais.

Como diz o cego: não lhes vejo as trombas, mas cheira-me à mesma merda!



Legenda: imagem do Público.

OLHAR AS CAPAS


Selvagens e Sentimentais

Javier Marías
Tradução: Salvato Telles de Menezes
Publicações Dom Quixote, Lisboa Junho de 2002

Vásquez Montalbán comentou há anos certeiramente que os indivíduos mudam de tudo menos de uma coisa. A ideologia, a religião, a mulher ou o marido, o partido político, o voto, as amizades, as inimizades, a casa, o carro, os gostos literários, cinematográficos ou gastronómicos, os costumes, as paixões, os horários, tudo está sujeito a mudança e mesmo a várias, que se sucedem com rapidez nos nossos tempos acelerados. A única coisa que não parece ser negociável é a equipa de futebol por que se tifa – como dizem em italiano – desde a infância. Tirando alguns vira-casacas impertinentes que na realidade não gostam desse desporto – já sabemos quem são, aqueles que se põem diante da televisão no dia da final do Mundial, para não ficarem arredados das conversas -, ninguém substitui por outro o clube dos seus calafrios. Pode ter-se maior ou menos simpatia secundária ou momentânea por esta ou aquela equipa, é possível admirara alguns jogadores alheios e cobiça-los; mas no que se refere a vibrar, sofrer e saltar de alegria, não há suplantação possível.

domingo, 16 de junho de 2013

AVISO À NAVEGAÇÃO


O blogue entrou em panne cardíaca.
Temos andado a remendar, evitar, a todo o custo, um KO técnico.
De modo que, se de repente não aparecer ninguém à porta, não se assustem: não fomos de férias (como seria possível?), não estamos doentes.
É provável que, entretanto, apareçam textos desconexos, desactualizados.

Pedimos desculpa.

OLHAR AS CAPAS


Diário Volúvel

Enrique Vila-Matas
Tradução de Jorge Fallorca
Capa: Maria Manuel Lacerda
Editorial Teorema, Lisboa s/d

Tenho uma táctica para qualquer inimigo que me possa surgir: quando ataca, não me dou por achado, recorro à indiferença e podem passar-se anos; não alimento o adversário, respondendo-lhe e fazendo-lhe propaganda, deixo que continue a roer-se de inveja, que continue no seu lamaçal aspirando ocupara o meu lugar, esse patamar inalcançável.
Quando o inimigo se retira persigo-o. Quando está fatigado ou vejo que o imbecil já se esqueceu das suas bocas, ataco. Sem dó nem piedade.

QUOTIDIANOS


Na primavera de 1689, o poeta Matsuo Bashô partiu para a sua viagem mais longa.. Teria 45 anos de idade, não era propriamente um rapaz a testar-se no Inter-Rail. Calcula-se que tenha percorrido, a pé, mais de 2.500 quilómetros, durante os dois anos e meio que durou essa peregrinação. No prólogo do diário que o acompanhou, deixou escrito: “os meses e os dias são viajantes da eternidade. Assim como o ano que passa e o ano que vem. Para aqueles que se deixam flutuar a bordo de barcos ou envelhecem conduzindo cavalos, todos os dias são viagem e a sua casa é o espaço sem fim. Dos homens do passado, muitos morreram em plena rota. A mim mesmo, desde há anos, me perseguem pensamentos de vagabundo mal vejo uma nuvem arrastada pelo vento.


POSTAIS SEM SELO


Se não podes ajudar-me a viver, ajuda-me a morrer.

sábado, 15 de junho de 2013

VIVER E MORRER COM DIGNIDADE


Um homem deve viver digno e morrer digno.

Nelson Mandela continua hospitalizado num estado considerado grave.

Num espectacúlo deplorável, encenado grotescamente, pela família, por altos dirigentes do ANC, Mandela surgiu, há dias, em imagens que mostravam o seu enfraquecimento e apatia.

Andrew Mlangeni, um velho companheiro de luta de Nelson Mandela disse: é tempo de o deixar partir. A sua família deve deixá-lo para que Deus possa fazer à sua maneira.

Percy Bridgaman, prémio Nobel da Física, ao suicidar-se em plena fase terminal de um cancro, deixou escrito:

Quando o fim de um indivíduo lhe pareça inevitável deve dar-se o direito de recorrer à medicina para que lho resolva civilizadamente.

OLHAR AS CAPAS


British Bar

João Isidro
Capa: Catarina Amaro da Costa
Edição da Câmara Municipal de Lisboa, Março de 2001

A tradição da casa ultrapassou discriminações bem mais patuscas do que as que torciam o nariz à entrada de mulheres. Igualmente datadas foram as que ditaram a manutenção dos vidros foscos para o exterior, ou a divisória lata de madeira, um biombo opaco que desapareceu com as obras mais recentes. Na origem dos vidros foscos esteve a distribuição dos frequentadores quotidianos dos três bares da zona, Todos se conheciam, concorriam entre si, mas não raramente davam uma ajuda ao escritório do lado. Todos eram vizinhos, todos sabiam do seu negócio e do negócio do vizinho. Ainda hoje, os profissionais que restam dos negócios portuários se encontram no British-Bar às mais variadas horas, desde as sete e meia da manhã até ao fim da tarde.
O espírito de boa vizinhança sempre imperou, se bem que, em tempos que já lá vão, se impusesse a distinção entre os estatutos de cada frequentador dos botequins da área. Os patrões reuniam-se no Bar Americano, patrões e chefes confraternizavam no English e todos podiam conviver no British.
O canto do balcão, à esquerda de quem entra, servia de ponto de correio entre os que faziam do British-Bar o respectivo escritório. Ali se deixavam correspondências para que parceiros do negócio levantassem documentação ou mensagens de serviço. Mesmo durante a II Guerra Mundial, quando se espiavam as cargas dos navios que faziam escala ou carregavam no neutral porto de Lisboa, era na mesa desse cantinho que se encontravam para animados jogos de damas dois responsáveis navais das potências beligerantes, o inglês e o alemão. Reza a lenda do British-Bar que nunca se terão zangado. A clientela habitual torcia pelos aliados e no edifício do British-Bar içaram-se as bandeiras britânica e norte-americana quando a Alemanha se rendeu, em Maio de 1945. A fotografia deste evento é exibida com destaque atrás do balcão, e já faz parte da iconografia da casa.

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


sexta-feira, 14 de junho de 2013

À CONVERSA...


 Perguntaram-lhe:

Sinónimo de felicidade?

Respondeu:

Trabalho.

Perguntaram-lhe ainda:

E de infelicidade?

Respondeu:

Desemprego.

Jorge Silva Melo, entrevista ao JL 6 de Setembro de 2000.

NEM CAIXA DE CORREIO HÁ...


Neste dia, talvez no ano de 1937, o poeta Afonso Duarte, escreveu esta carta à escritora, e sua amiga, Irene Lisboa.

Carta inédita, publicada no JL de 27 de Janeiro de 2009.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

NOTÍCIAS DO CIRCO


O que está em causa para o governo na greve dos professores  é mostrar ao conjunto dos funcionários públicos, e por extensão a todos os portugueses que ainda têm trabalho, que não vale a pena resistir às medidas de corte de salários, aumentos de horários e despedimentos colectivos sem direitos nem justificações, a aplicar ao sector. É um conflito de poder, que nada tem a ver com a preocupação pelos alunos ou as suas famílias.

José Pacheco Pereira, no Abrupto

Legenda: cena do filme O Clube dos Poetas Mortos de Peter Weir, 1989.

MAIS ANTIGO QUE SEI LÁ O QUÊ!...


A mexer no Baú dos Postais, que não tem só postais, encontrei este recorte de uma revista não identificada.

Motivos para não se confiar nos conselhos das mães, de algumas mães, note-se:

Mãe de Luciano Pavarotti:

- Pára de gritar!

Mãe de Bill Gates:

- Deixa de brincar com essas máquinas ou nunca mais terás nada na vida!
Mãe de Pablo Picasso:

- É a última vez que rabiscas as paredes da casa de banho!

Mãe de Samuel Morse:

- Pára de bater na mesa, estou cansada desses ruídos!

Mãe de Fred Astaire:

- Fica quieto duma vez por todas, daqui a pouco vais querer dançar nas paredes!
Mãe de Karl Marz:

- Nada de igualdades, eu sou tua mãe e tu és o meu filho!

Mãe de Pedro Passos Coelho:

Pára de mentir! Tu pensas que estares sempre a mentir te irá ajudar a seres alguém na vida!?

NO 4º ANDAR...


…de um prédio no Largo de São Carlos, nascia Fernando Pessoa.

Em seu nome, mandou Álvaro de Campos dizer que no tempo em que festejavam o dia dos seus anos era feliz e ninguém estava morto.

Em 14 de Março de 1916 escrevia uma carta a Mário Sá-Carneiro, e fechava-a deste modo:

Isto não é a loucura, mas a loucura deve dar um abandono ao que se sofre, não muito diferente destes.
De que cor será sentir?

Num livro saramaguiano apanhamo-lo à conversa com Ricardo Reis, que se assustara quando ouviu bater à porta:

… não me lembrei que pudesse ser você, mas não estava com medo, era a apenas a solidão, Ora, a solidão, ainda vai ter de aprender muito para saber o que isso é, Sempre vivi só, Também eu, mas a solidão não é viver só, a solidão é não sermos capazes de fazer companhia a alguém ou a alguma coisa que está dentro de nós, a solidão não é uma árvore no meio duma planície onde só ela esteja, é a distância entre a seiva profunda e a casca, entre a folha e a raiz, Você está a tresvariar, tudo  quanto menciona está ligado entre si, aí não há nenhuma solidão, Deixemos a árvore, olhe para dentro de si e veja a solidão, Como disse o outro, solitário anda toda a gente, Pior do que isso, solitário andar por entre a agente, solitário estar onde nem nós próprios estamos…

O outro, disse-lhe então que ele estava de péssimo humor e como, realmente, ele tem os seus dias, convocou de novo Álvaro de Campos e pediu-lhe que escrevesse Adiamento:

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjectividade objectiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um eléctrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espectáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espectáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei. Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...


O porvir...
Sim, o porvir...

Legenda: Fernando Pessoa, aos 8 anos, vestido de marinheiro.
Fotografia tirada do livro Fernando Pessoa de António Quadros, Editora Arcádia, Lisboa Novembro de 1960.

UM CRAVEIRO NUMA ÁGUA FURTADA...


Já me referi há tempos a um casal de estrangeiros que veio pela segunda vez a Lisboa e se mostrou espantado ao dar com uma cidade triste. Julgavam-na a cidade mais alegre do mundo porque tinham por cá passado, da primeira vez, em noite de marchas populares.

Maria Judite de carvalho em Este Tempo

Legenda: imagem do Diário de Notícias.

SANTOS POPULARES

Pelos Santos Populares organizavam-se bailes de rua «abrilhantados» (era assim que se dizia) por agrupamentos musicais de corda: banjos e bandolins, violas. Chamavam-lhes «trupes-jazz», e tocavam as canções da época: sambas e boleros, e alguns tangos. Mas começavam sempre por valsas. Eu ficava-me por ali, feito tolo, a observar os dançarinos. Bem gostaria de me recostar a uma rapariga, e sentir o perfume do seu corpo, mas não sabia dançar, e era melhor estar parado do que fazer figura de tolo ainda maior.

Baptista-Bastos em A Bolsa da Avó Palhaça, ilustrações de Mónica Cid, Oficina do Livro, Lisboa Novembro de 2007.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

POSTAIS SEM SELO


Estamos catalogados, estamos empalhados dentro de uma redoma de vidro, mergulhados num frasco com álcool isolados de tudo e com um rótulo debaixo dos pés. O rótulo puseram-nos os outros e canos vivendo com ele.

Augusto Abelaira em A Cidade das Flores, Edições O Jornal, Lisboa s/d.