segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

OLHARES


Gosto de tascas.

Fujo a sete pés de restaurantes a armar ao pingarelho.

Gosto de comida a saber a comida e não essas paneleirices a que chamam nouvelle cuisine.

Por exemplo:

O que é um caldo verde com esfericação de chouriço e couve frita?

É gozar com o pagode.

Mas há pagode que dá o rabinho por estes disparates.

Há dias fechou uma das boas tascas de Lisboa, o Palmeira.

Nas Escadinhas do Duque havia a Casa Transmontana.

Penso que ainda tem portas abertas mas, segundo me disseram há tempos idos, com outras comidas e outras frequências.
A Transmontana era poiso de escritores e jornalistas.

Entrava-se e podíamos encontrar o Afonso Praça, o Fernando Assis Pacheco que, então,  trabalhavam no República, o Eduardo Guerra Carneiro que ia lá pelas alheiras e as batatas às rodelas.

Também o José Cardoso Pires.

Tudo gente morta.

A última vez que o vi por lá, o José Cardoso Pires comia uma morcela com grelos, acompanhada de meia garrafinha de Dão, que não acabou porque entretanto desceu o whisquinho da ordem.

Não sei em que tempo esta fotografia foi tirada, mas terá sido o tempo-hiato entre o que tinha sido e o que a seguir veio e que não sei dizer o que é.


Talvez as pernas, quando umas lágrimas de sol romperem os dias cinzentos, se encaminhem até lá.



E, nas Escadinhas do Duque, ainda existirá o Solar dos Galegos, onde bebia, com os tipógrafos do República, penaltis de vinho tinto a acompanhar rodelas de chouriço.

E aquela maravilhosa tasca esquina da Rua da Trindade com o Largo do mesmo nome, antes da Livraria e do Expreso-Bar e de que, nesta fotografia se vislumbra a porta?


E aquela capelista-vende-tudo na esquina antes de se descer as ditas escadinhas por onde passava o Duque de Cadaval?

Fotografias tiradas no mesmo dia-sem-data da Casa Transmontana.

Passos velhos de uma certa Lisboa.

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