No devagar depressa dos tempos.
Guimarães Rosa
Habitamos aqui
há tão pouco tempo
e já a memória
nos serve de almofada.
Soubemos construir
os nossos móveis
da madeira melhor
que em nós guardávamos.
A chave roda
nos dedos da ternura.
Poupamos a manhã
que fecha a cicatriz.
Este lugar é nosso. Aqui
estudaremos lentamente
o que nos cerca e liga:
as próprias saliências do silêncio.
Egito
Gonçalves em O Fósforo na Palha
JOÃO CÉSAR
MONTEIRO
et alii
org. João Nicolau
grafismo de Rita Azevedo Gomes
Lisboa, 2005
Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema
1.ª edição [única]
248 mm x 180 mm
640 págs.
profusamente ilustrado a negro e a cor
exemplar como novo
70,00 eur (IVA e portes incluídos)
pedidos para:
pcd.frenesi@gmail.com
telemóvel: 919 746 089 [chamada para rede móvel
nacional]
Nota do Editor:
Segundo
informação da Cinemateca, o catálogo do João César Monteiro encontra-se
esgotado.
«Cin.Portugués / Realizadores JOÃO CÉSAR MONTEIRO 1ª Ed., Abr. 639 p. 460 fotos p/b e cor. Preço de Capa € 40,00. A personalidade e obra do cineasta. Estudos, depoimentos, análises de filmes, textos inéditos, recortes de imprensa e críticas. Filmografi a e fotografias. Entrevistas de João César Monteiro por Alexandra Carita, Adelino Tavares da Silva, António-Pedro Vasconcelos, Diogo Lopes, Emmanuel Burdeau, Jean A. Gili, Lauro António, Pierre Hodgson, Rodrigues da Silva. Organização João Nicolau. Textos Adriano Aprà, Ana Jotta, Bruno Roberti, Cláudia Teixeira, Dominique Païni, Edoardo Bruno, Fernando Cabral Martins, Fernando Lopes, Francisco Oliveira, Helena Domingos, Jean-Marie Straub e Danièle Huillet, João Bénard da Costa, João César Monteiro, João Mário Grilo, João Nicolau, Joaquim Pinto, Jorge Silva Melo, Luís Miguel Cintra, Luís Miguel Oliveira, Manoel de Oliveira, Manuel Gusmão, Manuel Mozos, Manuela de Freitas, Margarida Gil, Mário Barroso, Maria Andresen de Sousa, Maria Velho da Costa, Miguel Gomes, Otar Iosseliani, Paulo Branco, Philip Spinneli, Rita Azevedo Gomes, Rita Durão, Sérgio Antunes, Sidónio Paes, Thierry Jousse, Tonino de Bernardi, Vasco Pimentel, Victor Erice, Vítor Silva Tavares. Direcção Gráfica Rita Azevedo Gomes, Jorge Magalhães. »
Colocar o
isco no anzol, lançar a linha e ficar à espera, olhando o horizonte, há-de
sentir um puxão na cana, e talvez aconteça peixe.
Por vezes
arriscam mais um passo e a tragédia acontece.
A Fernanda senta-se atrás no Seat Ibiza,
com o menino e a Dona Cinda, o senhor Borges ocupa o lugar ao meu lado, de
Record no sovaco, fato completo, gravata de flores prateadas e chapéu tirolês,
ajuda-me no estacionamento das Amoreiras a tirar o carrinho da mala e todos os
automóveis do parque são Seat Ibiza, todos têm mantas alentejanas nos bancos,
todos apresentam um autocolante no vidro que diz Não Me Siga Que Eu Ando
Perdido, todos possuem uma rodela Vida Curta na guarda-lamas direito e uma
rodela Vida Longa no guarda-lamas esquerdo, de todos os espelhos retrovisores
se pendura o mesmo boneco de peluche, todos exibem junto à matrícula com o
círculo de estrelinhas da Europa a mesma rapariga de Stetson e cabelo comprido,
todos trouxeram o Record, os sogros e o filho, todos devem habitar em Alverca e
todos circulam a tarde inteira no Centro de forma idêntica à nossa: adiante a
Fernanda e a Dona Cinda, de
raposas acrílicas, a coxear por causa de
uma unha encravada, empurrando o Roberto Carlos que esperneia, desfeito num
berreiro, com a chupeta pendurada da nuca por uma corrente e o Senhor Borges e
eu vinte metros atrás, preocupados com a carreira do Olivais e Moscavide que
perdeu em Alhandra apesar de ter comprado um avançado cabo-verdiano ao
Arrentela e que em vez de jogar à bola leva as noites a mariscar tremoços na
cervejaria, de brinco na orelha, no meio dos amigos pretos, com o tampo da mesa
coberto de canecas vazias.
Como a Fernanda e a Dona Cinda param em
todas as montras de móveis e boutiques a bisbilhotarem quinanes e kispos,
acontece enganar-me e trocá-las por outra sogra acrílica, outra mulher roxa e
verde e outra criança de laço, e sucede-me passar horas num banco, sem dar pela
diferença, com uma Fátima e uma Dona Deta, a planear as prestações de um
microondas e de um frigorífico novo, seguir para Alverca, jantar o frango da
Casa de Pasto e a garrafa de Sagres do costume, e só na terça-feira, quando vou
a sair para a Junta, a minha esposa informa, envergonhada, que mora em Loures
ou na Bobadela, o Roberto Carlos se chama Bruno Miguel, e deu pelo engano, há
cinco minutos, porque a minha Última Ceia é de estanho e a dela de bronze.
Claro que corrigimos o erro no domingo seguinte, em que volto para casa com uma
Celeste e um Marco Paulo no Seat, a que juntei (será o meu Seat Ibiza?) um novo
autocolante que deseja Espero Não Te Conhecer Por Acidente.
Esta semana a minha mulher chama-se
Milá, o meu filho Jorge Fernando e ando a pagar um apartamento em Rio de Mouro.
Como esta sempre cozinha melhor do que as outras não faço tenções de voltar às
Amoreiras. Se ela gostar de telenovelas só tornamos a sair daqui a muitos anos,
quando o miúdo usar um fato de treino roxo e verde, eu encontrar no armário do
quarto um casaco de raposas acrílicas e um chapéu tirolês, e escutar lá em
baixo, a seguir ao almoço, a buzina do Seat Ibiza da minha nora. Como nessa
altura devo andar a dieta de sal por causa da tensão qualquer peixe grelhado me
serve.»
António Lobo Antunes em Livro de Crónicas
O velhíssimo EP,
que ainda aqui anda pela casa, juntamente com outros sucessos de Paul, foi
comprado em 1 de Fevereiro de 1960.
Colaboração de Aida Santos
SECA ADEGAS
R. Sra. da
Graça 1, 3500-399 Viseu.
Telefone: 918 618 909
Dizem o pior,
dizem o melhor, eles gostaram bastante e entenderam o aviso:
«Restaurante com segmento de serviço
exclusivo em carnes bovinas Nacionais zona Norte e importadas (Argentina,
Uruguai e Australiana). Não usamos nem servimos qualquer tipo de carne
Maturada.»
Fica-se a
olhar a carne excelentemente grelhada e colocada em pedra, acompanhada com
arroz de feijão e batatas fritas que não eram congeladas, também uma grande
salada mista.
Façam uma
visita e opinem.
Eles, sempre
que por ali passem, voltarão.
Chamam-lhe
restaurante, para eles é mais um tasco.
Legenda: a
bonecada que se passeia por aqui, encontra-se na entrada.
Estação do
metro S. Sebastião.
Uma jovem no
topo da escada, dois pombos na mesma escada, aguardando a abertura do El Corte
Inglês.
Colaboração
de Aida Santos
Se algum dia tivesse de falar da memória, dar-lhe-ia uma cor. Branca, como a tela dos écrans, a margem dos livros, o olhar dos afogados. No seu vai e vem fulgurante, dar-me-ia a posse do território de ausência que é de todos o mais vasto. Aí encontraria de novo rostos, palavras, talvez mesmo nomes.
Pierre Kyria
em A Morte Branca
Houve tempos
em que chegados a estes dias íamos buscar esta canção do Dino Meira.
Agora que
tanto se diz mal dos trabalhadores migrantes de que necessitamos para os trabalhos
duros, que ninguém quer fazer, lembramos os que emigrantes domos nos anos
50/60.
Colaboração de Aida Santos
Manuel de
Freitas
Rex Stout
Tradução: Maria Emília Ferros Moura
Capa: A. Pedro
Colecção Vampiro nº 402
Livros do
Brasil, Lisboa s/d
O telefone
tocou. Voltei-me e atendi.
-
Residência de Nero Wolf…
- Daqui
Saul, Archie. Estou…
- Um
momento. – pouse o auscultador e passei ao hall e de pois à cozinha, só depois
me predispondo a escutar.
-Temos
companhia. Okay. Dispara.
- Vão ter
mais companhia. Fui levado ao tapete. Encontrei a minha adversária. Julie
Jaquette. Daria uma semana de salário para saber se você teria sido capaz de
resolver a situação. O problema reside parcialmente no facto de Nero Wolfe ser
uma celebridade, assim o afirma, mas o problema principal são as orquídea. Se
lhes mostrar as orquídeas, está disposto a contar-lhe a contar-lhe tudo sobre
Isabel Kerr. A mim não me confessa a ponta de um corno. Nada de nada.
- Bom, bom.
Acho que me teria levado uns dez minutos.
- Vá-se
lixar. Falei numa semana de salário. Ela…
- One está?
- Numa
cabine pública em Christopher Street. A do Tem Little Indians estava ocupada.
Está a trabalhar, Fica livre às oito e depois das nove e dez às dez e um
quarto.
- Então é simples.
Traga-a às nove e dez.
- Simples, uma ova! Ouviu-se um estalido e desligou.
Linda, como somente vós sabeis,
forte, como a esperança que em vós
ponho,
alegre, como fostes, sois, sereis,
assim vos penso, assim vos recomponho,
curvada embora à vida e às suas leis
mas nunca libertada do meu sonho.
Fostes a noiva na manhã de Reis,
ainda hoje o sois nos versos que
componho.
Leio Luís de Camões, o nosso poeta,
a suspirar do amor mais desgraçado
e a maldizer o dia em que nasceu.
Sobreponho-me à morte e à dor secreta,
o amor feliz, senhora, é o nosso fado,
cantá-lo, a chave do destino meu.
Odylo Costa, filho
«Portugal está preso num sistema de compadrio, com justiça lenta, reguladores capturados e um Estado que falha aos cidadãos. O diagnóstico é de James A. Robinson, Nobel da Economia, que, no estudo a que o JN teve acesso, deixa um aviso sério: sem reformas profundas, o país continuará a empobrecer face à Europa.»
Lido no Jornal
de Notícias
Quadras Populares
Fernando
Pessoa
Selecção e
introdução: Luísa Freire
Assírio & Alvim, Lisboa, Junho 1999
Cantigas de portugueses
São como barcos no mar —
Vão de uma alma para outra
Com riscos de naufragar.
Todos os dias que passam
Sem passares por aqui
São dias que me desgraçam
Por me privarem de ti.
O canário já não canta.
Não canta o canário já.
Aquilo que em ti me encanta
Talvez não me encantará.
A abanar o fogareiro
Ela corou do calor.
Ah, quem a fará corar
De um outro modo melhor!
A tua boca de riso
Parece olhar para a gente
Com um olhar que é preciso
Para saber que se sente.
A tua saia, que é curta,
Deixa-te a perna a mostrar:
Meu coração já se furta
A sentir sem eu pensar.
Ai, os pratos de arroz doce
Com as linhas de canela!
Ai a mão branca que os trouxe!
Ai essa mão ser a dela!
Tenho uma pena que escreve
Aquilo que eu sempre sinta.
Se é mentira, escreve leve.
Se é verdade, não tem tinta.
Saudades, só portugueses
Conseguem senti-las bem,
Porque têm essa palavra
Para dizer que as têm.
Quem lavra julga que lavra
Mas quem lavra é o que acontece...
Não me dás uma palavra
E a palavra não me esquece.
Rosmaninho que me deram,
Rosmaninho que darei,
Todo o mal que me fizeram
Será o bem que eu farei.
Em Penamacor, podia tocar nas cabras e nas ovelhas dos rebanhos que passavam na rua. Eu estava convencida de que as cabras eram ásperas e as ovelhas macias. Toquei em cabras e em ovelhas. Era o contrário. As ovelhas eram ásperas e as cabras macias.
Li poemas meus na televisão quando tinha 11 anos. Foi a primeira vez que fui à televisão. Julgo que foi a 13 de Novembro de 1971. Na televisão deram-me um livro: Os Lusíadas de Luiz de Camões adaptação em prosa de João de Barros. Ainda hoje tenho esse livro.
Em criança, as pessoas em minha casa falavam muito da Avó Conceição. Gostavam muito dela. Era uma pessoa bondosa. Era minha bisavó. Não a conheci, morreu antes de eu nascer. Eu falava com ela para o Céu no telefone das bonecas. Sabia que estava morta e acreditava que estava no Céu. Não era uma brincadeira nem uma fantasia. Não falava com ela no telefone a sério. Ainda hoje sou assim. Ainda hoje faço coisas assim.
A Casimira era a empregada do consultório do meu Avô Raul. Vinha-nos visitar já muito velha. Parecia uma galinha de figo. Não estava boa da cabeça, dizia disparates e tinha visões. A Tia Paulina fazia troça da Casimira por ela estar maluca. A Tia Paulina também parecia uma galinha de figo.
Quando era pequena, batiam à campainha o cauteleiro que vendia o 13, o ceguinho que vendia sabonetes, a senhora que cheirava a chichi e que vendia agendas das missões, chamávamos-lhe a senhora do chichi ou a senhora dos rins. Não sei o nome dessas pessoas. Havia também o Sr. Amaro, que vendia ovos e queijos.
Em 1971 ou
1972, recebi um prémio literário. Foi uma bicicleta. O júri do prémio era a
Fernanda de Castro. Eu tinha lido um romance dela de que tinha gostado
muito, Maria da Lua. Fiquei muito contente com o prémio.
30.3.13
Adília Lopes em Resumo: a poesia em 2013
A contra capa
do livro assinala, quando o povo no 25 de Abril invadiu os escritórios da
censura e destruíram documentos preciosíssimos sobre a nefasta censura.
A ignorância
mata!
Em Portugal
existiu censura: às imagens, às palavras, ao pensamento.
Em Novembro
de 1945, Salazar disse:
«Declaro não ter nunca percebido esta
incoerência que ninguém ainda me explicou claramente: por que motivo se exige
atenta fiscalização dos géneros deteriorados – o arroz, o bacalhau, a manteiga
– e se descura completamente a higiene do espírito, não a aceitando para os
baixos sentimentos?
Conheci a censura. Mas, não tendo gosto
pelas memórias ressentidas, só muito raramente falo dela. Ainda há pouco toquei
nesse terror quando reli Os Demónios – não Os Possessos –
na tradução do António Pescada, a quem tão grata sou por me ter permitido ler
sem desconfiança os meus romances russos. Está nele incluído o capítulo que
Dostoievski se viu forçado a retirar aquando da publicação. Escreveu um outro,
totalmente diferente. E a chave do enigma respeitante à personagem principal
caiu no lodo. «Que nunca mais, que nunca mais isto aconteça», é o voto que faz
qualquer leitor. E, no entanto, está a acontecer.
Não pela força de um poder instituído e
frequentemente muito estúpido, mas pela força de um poder massificado,
igualmente estúpido, igualmente autorizado por um puritanismo executório. É uma
polícia da opinião que não parece imposta e que se aloja no interior de cada um
para desencorajar a ousadia, sendo que a ousadia não está hoje na infantil
libertinagem sexual e sim no dar palavra e dar figura ao que o homem e a
natureza têm de terrível, de necessário, de indomesticável. Dar a palavra ao
que é inominável, afrontar o tabu, eis a tarefa.
Não podemos deixar que uma cruzada de higienização se estenda à arte.»
Hélia Correia
José Pedro
Castanheira
Prefácio:
Francisco Pinto Balsemão
Capa: Rui
Guerra
Expresso,
Lisboa Abril de 2009
“Politicamente só existe o que o público
sabe que existe»
António de Oliveira Salazar, 1933
“Sem censura, o salazarismo não duraria
um mês”
«Não perdoo à Igreja nunca ter pedido perdão aos portugueses pela sua colaboração activa com a Ditadura e as iniquidades decorrentes dela, a sua total indulgência, desde a primeira hora, com a injustiça, a crueldade, a desigualdade, a intolerância, os campos de concentração, a monstruosa polícia política, a violência da censura, o desprezo pelas mulheres, a guerra colonial, a perseguição aos estudantes, aos operários, aos camponeses, a desavergonhada defesa dos ricos, as missas para as criadas, as homilias em que exortavam à obediência aos patrões, a violência para com os sacerdotes e os bispos que ousaram levantar-se contra o Estado Novo, a forma como abençoaram as centenas de milhares de rapazes mandados para África combater as aspirações dos povos colonizados, mandando capelães abençoar aquele horror, apoiar aquele horror, santificar aquele horror
(eu estava lá e vi)
em nome da luta contra o comunismo ateu, em nome da defesa dos valores
cristãos, em nome da tolerância, em nome de Cristo. Porque carga de água não
tem sequer a simples dignidade de pedir desculpa? Porque carga de água finge
esquecer-se? Porque carga de água este silêncio? Eu sou cristão e aprendi a ser
fiel até à morte como está escrito no Livro e pergunto: como tem coragem de
tocar na Bíblia, como tem coragem de ser hipócrita para com o Senhor? O capelão
do meu batalhão em África era um pobre jesuíta que se queixava das instruções
que o obrigavam a fazer a apologia do colonialismo em nome do Deus e não tenho
a menor dúvida que Jesus o cuspiu da Sua boca. Porque não pede perdão por ter afastado
tanta gente da Virtude com as suas atitudes, as suas homilias, até com a
utilização ignóbil das pobres crianças de Fátima a quem Nossa Senhora pediu em
português
(que outra língua saberiam elas?)
para rezarem pela conversão da Rússia comunista, elas que nem sabiam o que
comunismo queria dizer, manobradas sem vergonha pela hierarquia eclesiástica. O
que terá sofrido o nosso capelão
(Tenho de fazer isto, tenho de fazer isto, dizia ele)
obrigado a louvar a guerra santa, obrigado a prometer o Paraíso aos nossos
mortos, criaturas inocentes condenadas a dois anos e tal de um sofrimento
injusto. E a Igreja, passados mais de quarenta, permanece em silêncio,
completamente alheada da sua culpa. Isto entende-se? Isto aceita-se? Isto
apaga-se? Claro que os filhos das classes altas não iam para a guerra. Conheço
filhos dessas classes altas poupados a África com desculpas inacreditáveis.
Conheço os seus nomes e conheço as desculpas, desde “incompatibilidade
psicológica com o Exército” (posso citar nomes) até “incontinência urinária”
(posso citar nomes), até “pé chato” (posso citar nomes), até classificações
aldrabadas durante a especialidade (posso citar nomes), e é impossível que a
Igreja não soubesse disto. Soube, claro, colaborou. E até hoje nenhuma voz
oficial dela se ergueu, nenhuma voz oficial dela protestou, nenhuma voz oficial
dela pediu perdão a Portugal, nenhuma voz oficial dela pediu perdão aos
portugueses, nunca os sucessivos cardeais roçaram sequer este assunto quanto
mais falar nele. Pelo contrário: abençoaram o Estado Novo que perseguiu os
sacerdotes que ousaram, ainda que só timidamente, levantar a voz contra isto
tudo. Perseguiram-nos, expulsaram-nos fizeram-lhes a vida negra. Nem disso a
Igreja a que pertenço tem vergonha? Um bocadinho de vergonha ao menos?
Limitou-se a arranjar bispos castrenses que aceitaram, apadrinharam, foram
cúmplices desta situação. Não temos uma Igreja de Cristo, temos, sob muitos
aspectos, uma Igreja hipócrita e complacente. Cristo não foi nunca hipócrita
nem complacente: Porque é que a Igreja portuguesa o é? Tenho o maior orgulho no
meu País, não tenho o menor orgulho nesta Igreja. Se Cristo aqui estivesse
vomitá-la-ia da sua boca por não ser fria nem quente. Meu Deus será que nem
arrependimento existe? Será que pensa que a memória dos homens é curta? Será
que pensa que os portugueses esquecem? Será que não se importa de ser vendilhão
do Templo? Será que acredita que vai ficar impune aos olhos do Senhor? Será que
imagina que o Senhor não sabe? Será que toma Deus por parvo? Será que cuida que
São Paulo, por exemplo, não a varreria? Onde estão as palavras do Senhor? Os
Seus ensinamentos?
O Seu exemplo? Ainda que em linguagem aparentemente
críptica Cristo foi sempre muito claro. E quem quiser ouvir que oiça. A
ditadura acabou em 1974, há quarenta e três anos portanto. E nem uma voz até
hoje? Nem um simples pedido de perdão, nem uma confissão fácil
– Errei
não existe nenhuma humildade honesta neste silêncio, não existe o simples
assumir de uma culpa, de um erro formidável, de um silêncio indecente. Dói-me
na alma que a minha Igreja, o meu Deus sejam amesquinhados e esquecidos pelos
que se dizem Seus filhos. Tenho vergonha. Tenho nojo. Tenho pena de vós que
pagareis por isto. Será que um simples pedido de desculpa não alivia a alma?
Parece que não. Por isso, quando morrer, não quero a vossa hipocrisia em torno
do meu caixão. Basta-me que a sombra de Cristo ou de um dos seus Anjos se
apiede, mesmo de longe, ainda que de muito longe, da minha alma pecadora. Não
quero nenhum fariseu junto ao nosso diálogo. Quereria um Homem Justo. Um Homem
Justo bastava-me. Onde, na hierarquia da Igreja, da minha pobre Igreja, ele
estará?»
Dorme, meu amor, que o mundo já viu
morrer mais
este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.
Fecha os olhos agora e sossega — o pior já passou
há muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão
desvia os passos do medo. Dorme, meu amor —
a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste
e pode levantar-se como um pássaro assim que
adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra
não hão-de derrubar-me — eu já morri muitas vezes
e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos
agora e sossega — a porta está trancada; e os fantasmas
da casa que o jardim devorou andam perdidos
nas brumas que lancei ao caminho. Por isso, dorme,
meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e
nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já
olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui,
de guarda aos pesadelos — a noite é um poema
que conheço de cor e vou cantar-to até adormeceres.
Maria do Rosário Pedreira
em O Canto do Vento nos Ciprestes
Pierre Kyria
em A Morte Branca
Legenda: fotografia de Daniel Blaufuks
Fernando Albuquerque ainda é ministro da Educação.
Luís Neves
ainda é ministro da Administração Interna
Luís
Montenegro ainda é o primeiro-ministro e disse aos jornalistas que não vai de
férias.
Thomas
Jefferson disse que: «O melhor governa é o que não governa».