Emídio Rangel, quando era director da SIC, chegou a afirmar
que «uma televisão vende tudo –
tanto um Presidente da República como sabonetes».
Assim aconteceu.
Marcelo Rebelo de Sousa, tirocinou na catequese dos
domingos à noite da TVI, e acabou em Belém.
Luís Marques Mendes anda a tirocinar na catequese da
SIC, também nos domingos à noite e, provavelmente, acabará em Belém.
António Costa, durante a pandemia colocou o almirante Henrique
Eduardo Passaláqua de Gouveia e Melo a coordenar a vacinação e, ao que consta,
está no primeiro lugar dos candidatos à próxima eleição presidencial.
As palavras desenham-se na parede.
Não há centro, tudo prolifera.
A vela entre as espinhas.
As palavras ásperas resplandecem.
São as mais nuas feridas,
as mais desertas entre pedras.
O rosto é percorrido por formigas.
Raspado, e luz uma malícia pura.
Um cigarro aqui é mais do que uma estrela.
Um risco mais rápido que um foguete.
E a seara acende-se para além do muro.
António
Ramos Rosa de Esplendor Calcinado em Obra PoéticaVol. I
Sebastião Bogalho, um
rapazola, que subiu na política através de comentários, primeiro na TVI, depois
da SIC, agora, durante o Congresso do PSD, abandonou a máscara de independente (?),
e aderiu ao partido.
Das mais gostosas
aventuras nas longas, longas, longas leituras que tenho percorrido nesta vida,
são os começos de livros. Também os finais. Também as capas.
E então as frases, os
parágrafos, as páginas largamente sublinhadas?
No fundo de todos os
fundos: os livros.
Ler prejudica
gravemente a ignorância.
Uma notícia muito triste
que, recentemente, se soube: António Lobo Antunes não mais escreverá um
romance. Uma linha sequer? pergunta-se. Perdeu a fala, perdeu a memória.
O começo que colocarei
hoje, é o do Conhecimento
do Inferno, o tempo em que António Lobo Antunes me maravilhava com
os seus livros.
«O mar do Algarve é
feito de cartão como nos cenários de teatro e os ingleses não percebem.»
Como conheço tantas palavras? Porque li e reli os
clássicos… porque estudei, esmiucei o Camilo… e porque tenho passado a vida a
prestar atenção ao que os outros dizem… Sim, sim, a menos de ser surdo, um
escritor que tem a peito escrever na sua língua, deve anotar cada palavra, cada expressão que lhe
encanta ou lhe fere o ouvido… A língua do povo é um manancial!... Se o escritor
assim proceder, verá que, no momento oportuno, todo esse léxico virá por seu
próprio pé ao sabor da escrita. Mas foi com os nossos clássicos e com os homens
e mulheres da minha região que elaborei aminha língua e,
com ela, o meu estilo… que vale o que vale, mas que é o
meu!
O que define o capitalista, não é ser ele bom ou mau, bem educado ou
grosseiro, é a sua «função» nesse sistema: não se pode ser capitalista sem explorar os trabalhadores, e não
imperfeitamente, o mais que for possível.
António Ricciardi, presidente do conselho superior do
Grupo Espírito Santo, num depoimento prestado em Outubro de 2015 ao Ministério
Público, disse saber pouco sobre o GES e assinava documentos sem ler.
«Ricardo Salgado é que controlava a
gestão do grupo».
Rui Costa, agora presidente do Sport Lisboa e Benfica,
fez parte da SAD nos tempos em que Luís Filipe Vieira era o presidente.
Segundo depoimento prestado por Luís Filipe Vieira, Rui Costa desconhecia os
documentos, provenientes da SAD, que assinava. Ele, Vieira, é que controlava
tudo, e sabia de tudo.
É impressionante como numa cidade com uma oferta cultural tão rica como
Lisboa (música da melhor, algum cinema bom e o ballet renovado, as grandes
exposições) há tão pouca procura e se mantém no galarim esta gente bacoca,
espertalhona e pobre de espírito que ostente uns três automóveis de luxo e tem
duas casas de veraneio e quantas vezes mistura negócios sujos com o seu peso
político. Gente com ódio à liberdade e com desdém pelo povo, excepto quando
fazem discursos eleitorais.
Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo
Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre
Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida
Se ainda andasse por aqui, a ajudar-nos a passar os
dias tão difíceis que vamos vivendo, Leonard Cohen, no dia 21 de Setembro,
teria feito 90 anos.
Quando a Academia sueca, num suave devaneio, entregou
o Nobel da Literatura a Bob Dylan, não desesperei mas sempre entendi que, se o
tempo era de variar, ele teria ficado melhor nas mãos de Leonard Cohen.
Leonard Cohen é um abençoado santo
do meu panteão musical.
Esta bonita capa é do
disco em que Jennifer
Warnes canta canções de Cohen.
Jennifer amiúde foi suporte – brilhante, também - nos discos e nos concertos de Cohen.
Infelizmente, esta sua
aparição a solo não teve, pelo menos por aqui, a aceitação que bem merecia.
Provavelmente conhecem-na
melhor no dueto que fez com Joe Cocker, tema Up Where We Belong do
filme Oficial e Cavalheiro e com Bill Medley, tema Time
of your life do filme Dirty Dancing.
Ela trata de uma maneira
simples e amável as canções de Cohen, ao ponto de este ter dito que First
We Take Manhattan saíu melhor que o original.
Cortesia do mestre,
cumplicidades várias, provavelmente ditas depois de uma épica e caríssima
garrafa de tinto, seguida de uma grande cigarrada.
No disco, Jennifer faz
dueto com Cohen em Joan of Arc e Cohen desenhou: Jenny
Sings Lenny.
Lembrando Cohen, transcrevo
o poema Famoso Impermeável Azul, um lindíssimo poema, uma
canção quase única, servindo-me de uma tradução de José Alfredo Marques no seu
livro 59
Canções de Amor e Ódio e Um Poema Sobre Portugal:
São quatro da manhã
fim de Dezembro
Escrevo-te agora,
só para saber se estás
melhor.
Nova York é fria
mas gosto do sítio onde
vivo
Há música na Rua
Clinton
durante toda a noite.
Ouvi dizer que estás a
construir a tua casinha,
no mais fundo do
deserto.
Agora vives para nada,
Espero que mantenhas
alguma espécie de recordações.
Sim, Jane voltou
trazendo um anel do teu
cabelo.
Disse que lho havias
dado
naquela noite em que
tencionaste abrir o coração.
Alguma vez abriste o
teu coração?
Oh, a última vez que te
vimos parecias ter envelhecido tanto!
O teu famoso
impermeável azul estava rasgado no ombro.
Tinhas ido `*a estação
esperar todos os comboios
e voltaste para cas sem
Lili Marlene
E convidaste a minha
mulher para uma centelha da tua vida.
Quando regressou, já
não era mulher de ninguém.
Imagino-te aí, com uma
rosa nos dentes,
um ladrão cigano e escanzelado.
Sei que Jane partiu.
Ela manda cumprimentos.
Que te posso eu dizer,
meu irmão, meu assassino?
Que te posso eu dizer?
Acho que vou sentir a
tua falta.
Acho que te perdoo.
Estou contente por
teres surgido no meu caminho.
Se algum dia voltares
aqui,
por Jane ou por mim,
o teu inimigo está
adormecido
e a sua mulher livre.
Sim, E obrigado pelo
pesar que tiraste dos seus olhos.
Edição dos Autores: Francisco S. Costa e António P.
Rodrigues, Lisboa, Junho de 1975
O conflito na «República»,
começara praticamente no início do mês de Maio, altura em que os trabalhadores
dos sectores gráficos e administrativos se opuseram à admissão de mais dois
jornalistas, que consideraram afectos ao Partido Socialista.
Não é segredo para
ninguém que a «República» tem toda a tendência socialista, jornalistas e
leitores socialistas… mas isso não é crime nenhum.
O turno seguinte trouxe-me um «pide» que me disse:
-Então a senhora já está disposta a falar, ou não? A senhora, pelos vistos
está a gostar disto! É que, sabe, aqui na Polícia toda a gente fala. Quando não
querem falar às boas, temos que ir por outros caminhos.
Num dia desses, o Tinoco, já sem saber como convencer a trair o meu
Partido, resolveu dizer-me que o meu marido tinha resolvido abandonar o Partido
porque já estava muito cansado e que me mandava dizer que me fosse também
embora. Apesar de já ter a minha cabeça em água, conservei sempre o tino e
soube distinguir as verdades das mentiras que me diziam. Por isso, respondi-lhe
que um verdadeiro comunista, como o meu marido era, nunca daria um passo
desses.
-Ah, não? Ele até escreveu uma carta repudiando o Partido…
Fiquei fora de mim e, num ímpeto, corri para ele e disse-lhe:
- Mostre-me lá essa carta. Dê-ma na minha mão.
Confesso que foi uma fraqueza que ele aproveitou logo para me dizer:
- Ah, a senhora não acredita no seu companheiro…
Deu dois murros na mesa e retirou-se, para entrar na sala momentos
depois acompanhado pelo Rosa Casaco.
Toda a poesia é
luminosa,
até a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol,
nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar outra vez e outra vez
e outra vez a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.
Carlos Alberto
Machado, Hélia Correia, Jaime Rocha, José Mário Silva, Margarida Vale de Gato,
Miguel-Manso
Colecção AzulCobalto
Companhia das Ilhas, Setembro
de 2014
É uma ideia de aldeia, de comunidade, de partilha. Uma ideia que
alastrou a uma vila, a um conselho – Vila Velha de Ródão. Começou com uma
conversa entre uma bibliotecária e um escritor, corria o ano de 2011: porque
não um Encontro de Poetas em Vila Velha de Ródão?
Porque não?
Temos o rio Tejo, barcos, grifos, jardins, comboio. Temos aldeias de
xisto, temos museus, lagares, poetas populares. Temos uma população maravilhosa
e ávida de cultura. Temos uma biblioteca, uma associação cultural, um grupo de
teatro, serras, montes, ribeiros. Temos pessoasas que gostam de ler e de discutir literatura. Temos boa comida e muitos
bolos tradicionais, queijos, enchidos, azeite. Temos sol.