quinta-feira, 14 de novembro de 2024

OLHAR AS CAPAS


Novelas do Minho

Camilo Castelo Branco

Parceria António Maria Pereira, 1945

As lágrimas da fé, se Deus não existisse, fariam comover o Nada.

Maria da Piedade e a mãe de Álvaro choraram prostradas à cruz de Jesus Cristo. Pediram a saúde do filho e do irmão, abraçadas aso pés do Redentor.

Álvaro restabeleceu-se.

Foi a felicidade que o salvou? foi aquele amor de irmão amor indefinível e santíssimo que o distraíu da ideia da morte, e o encheu de forças vitais que que a ciência nega ao milagre e concede ao mistério?

Wu, espírito apoucado, tenho a audácia de me erguer até Deus, e não faço grande conta das ciências médicas quando me não dizem porque processo fisiológico se salvou o enfermo que elas me asseveraram moribundo.

POEMA

A minha vida é o mar o Abril a rua

O meu interior é uma atenção voltada para fora

O meu viver escuta

A frase que de coisa em coisa silabada

Grava no espaço e no tempo a sua escrita

 

Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro

Sabendo que o real o mostrará

 

Não tenho explicações

Olho e confronto

E por método é nu meu pensamento

 

A terra o sol o vento o mar

São a minha biografia e são meu rosto

 

Por isso não me peçam cartão de identidade

Pois nenhum outro senão o mundo tenho

Não me peçam opiniões nem entrevistas

Não me perguntem datas nem moradas

De tudo quanto vejo me acrescento

 

E a hora da minha morte aflora lentamente

Cada dia preparada

 

Sophia de Mello Breyner Andresen de Geografia em Cem Poemas de Sophia

quarta-feira, 13 de novembro de 2024

POSTAIS SEM SELO

O prazer é sempre mais intenso quando existe o prazer da partilha.

Alfredo Saramago em Os Prazeres

Legenda: fotografia de Luís Eme em Largo da Memória

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


A Frenesi Loja tem à venda «Redações da Guidinha» de Luís de Sttau Monteiro.

É este o anúncio:

 

[LUÍS DE STTAU MONTEIRO]

ilust. Luís Osório

 

Lisboa, 1971

Edições Ática, S. A. R. L.

1.ª edição (em livro)

195 mm x 181 mm

136 págs.

ilustrado

exemplar estimado, pequeno restauro na contracapa; miolo limpo

35,00 eur (IVA e portes incluídos)

Entre 1969 e 1980, primeiro no suplemento «A Mosca» (Diário de Lisboa) e, depois do 25 de Abril, n’O Jornal, este alterego traquina e desbocado de Sttau Monteiro não deu tréguas ao Portugal sensaborão e reaccionário, em crónicas fingidamente pueris, curtas e demolidoras dos poderes vigentes. Aqui reunidas, temos apenas uma amostra dentre elas, publicadas durante os anos 1969-1970; uma segunda série virá a lume, nas edições em livro do semanário O Independente, por mão de Vasco Rosa / Helena de Gubernatis, somente em 2004.

pedidos para:
pcd.frenesi@gmail.com
telemóvel: 919 746 089   [chamada para rede móvel nacional]


Um livro interessante que colocou, na mais que cinzenta primavera de Marcelo Caetano, um toque de humor e crítica aos quotidianos que nos assistiam, em redor de redações escolares de uma moça moradora no Largo da Graça. 

Ou como se lê na contracapa: «A condição humana vista através do incisivo humor duma pequena personagem encantadoramente maliciosa e irreverente que observa, comenta, vibra – e faz vibrar quantos a conhecem.»

Começa assim:

«Ora cá estou eu Guidinha em tudo menos nos papéis porque nos papéis sou Margarida Peixoto para falar dos homens pais que são os homens piores que eu conheço são tão ruins que eu tenho pena de ter Mãe e Pai antes queria ter duas Mães eles são tão ruins que até fingem que a gente não existe quando eu ando na escola a escrever os nomes dos namorados das vizinhas nas paredes sim que não segredo nenhum toda a gente sabe que a D. Mécia do segundo anda embeiçada pelo careca da sapataria aparece sempre alguém que pergunta «pst ó menina quem são os seus pais?» o que eu queria dizer é que ninguém me pergunta «pst ó menina quem são as suas Mães»?

As redacções da Guidinha foram publicadas por Luís de Sttau Monteiro no suplemento A Mosca no Diário de Lisboa. de 1969 a 1970.

Legenda: pormenor da capa das Redacções da Guidinha, ilustrada por Luís Osório.

BLOGUEANDO POR AÍ


«Em «Simetrias — os 5 actos nos filmes de John Ford», Paulino Viota elogia os textos de Javier Marías sobre o realizador americano. Como estou sempre na disposição de me desviar do caminho traçado, fui procurá-los.

O que Marías escreveu sobre o olhar de John Wayne depois de beijar Maureen O’Hara no cemitério é formidável (El reino de la posibilidad, El País Semanal, 16 de março de 2014). Eles estão encharcados pela chuva e colados um ao outro e apaixonados, sim. Mas há uma certa gravidade nos olhos de Wayne — como se tivesse encontrado e perdido não se sabe o quê nesse preciso instante —, qualquer coisa que é quase uma tristeza (uma tristeza doce, diria Walser).

Através desse olhar, percebemos como são complicadas as relações entre homens e mulheres.

Como nos filmes Passion, de Godard.

Ou em Onde Jaz o teu Sorriso?, quando Danièle (que é uma verdadeira mulher de Ford, como todas queremos ser) diz: Sicilia!... se nos apaixonámos e nos apeteceu fazer o filme foi porque, em 1972, quando andávamos por Itália, à procura de lugares para filmar Moisés e Aarão, que rodámos em 1974, fizemos 30 000 quilómetros a passo de caracol e, um dia, em cima de uma ponte, dissemos um para o outro: «que cheiro tão estranho, não é desagradável, mas é muito intenso, que será?» E vimos quintais de laranjas despejadas num rio. Isso ficou-nos cá dentro e quando lemos o início de Conversazione in Sicilia, veio-nos à ideia, como uma recordação muito forte. Dito isto, como é que um homem e uma mulher fazem para aguentar... é a palavra certa — AGUENTAR — juntos?

Também tem a ver com as laranjas no rio...»

Cristina Fernandes em Bicho Ruim

OLHAR AS CAPAS


Antologia Poética

Vitorino Nemésio

Introdução: Vasco Graça Moura

Capa: Rochinha Diogo

Círculo de Leitores, Lisboa, 1988


Five O’ Clock Tea

Eu canto o chá das cinco que minha Mulher ofereceu,
Às seis da tarde, ao longo da barra azul da sala,
Àquela senhora inglesa que o Outono nos adiantou,
Tão distinta, discreta, boa e doce.
Naquela cadeira exposta ali na sala aos destinos
Das pessoas que vão entrando;
Aquela senhora de modos tão finos
E de dentes brancos onde já um ramo de tempo deita
sombra;
Aquela senhora, ali, inglesa, no seu vestido de miosótis,
De que não me atrevo a pedir ramo algum
Enquanto bebo o meu chá, ao lado dela, pensando
Em tanto miosótis que tenho visto e me tenho acanhado
de pedir ―
Ou por não ser tempo de miosótis e ficar feio andar augado,
Ou por não haver outra coisa nos jardins senão miosótis
e não me apetecer, francamente…
E assim, imobilizado o meu pálido yes
E falando francês àquela senhora inglesa,
Eu canto o chá dourado que minha Mulher lhe oferece ―
Minha Mulher, que não é inglesa mas gosta de pessoas
de Inglaterra,
E pôs a barra azul na sala, por poesia,
E escureceu os móveis numa tarde toda dourada
Em que mais triste se sentia.
A senhora inglesa,
Que uma amiga nossa que já esteve em Inglaterra nos
trouxe para este dia;
A senhora inglesa dos olhos claros;
A senhora inglesa que só disse palavras correctas, coisas
correctas,
E insinuou, na tarde, uma sinuosidade e uma harmonia
Só com o seu sim ou o seu não,
O seu braço longo, desistido, inapetente, mas belo
Precisamente porque é já o braço para o neto esfregar
as gengivas
E roer e rir, e rir e roer, meses depois de nascer,
Como um belo guizo de oiro que só mesmo feito em
Inglaterra!
O braço que não ocupa lugar e mede pela asa da chávena
(À distância a que a senhora inglesa a põe nos seus
dedos como asas)
O abismo que vai da senhora inglesa a um lugar
da Inglaterra,
E desta hora do chá a uma outra hora lá dela,
Íntima, doce, única, rara, ampla, esquecida,
Que não existiu talvez senão para ser lembrada
Em minha casa, esta tarde, e a comer short-bread -
Que é assim a vida…

terça-feira, 12 de novembro de 2024

DISTO, DAQUILO, E DAQUELOUTRO


 A América fica longe, mas o que por lá vai acontecendo sabe-se no imediato minuto.

Algo temos como certo: os estilhaços da eleição de Trump vão cair um pelas partes do mundo e, principalmente, coloca esta frágil Europa, que já há algum muito tempo anda em tempo de parto que fomos, ou deixámos (des)construir.

 Daniel Oliveira no Expresso:

 «Diz-se que os democratas abandonaram os trabalhadores brancos, mas o que toda a gente ouve é a palavra “brancos”, não a palavra “trabalhadores”. Essa é a grande vitória do trumpismo. Como se viu pelo comportamento eleitoral, quando a condição social supera a identitária, trabalhadores hispânicos e negros votam como os trabalhadores brancos. E, no entanto, continuamos a falar como se o racismo e o sexismo de Trump fossem o maior segredo para a sua vitória. Quando, num debate, em 2018, o instalado congressista democrata Joe Crowley exibia o seu trabalho pelas minorias, Alexandria Ocasio-Cortez, a jovem de 29 anos que o iria derrotar, não lhe recordou que era uma mulher porto-riquenha. Disse-lhe: “O que está em causa não é a diversidade ou a raça, é a classe.” Só que a palavra “classe”, ao contrário de “etnia” e “orientação sexual”, passou a ter um peso ideológico que a tornou impronunciável. Esta é a derrota histórica que deu à extrema-direita a hegemonia na classe trabalhadora num dos países mais desiguais do mundo desenvolvido. De tal forma, que já nem compreendemos um fenómeno eleitoral que nada tem de extraordinário.

 Graça Castanheira no Público:

 «Kamala resultou numa candidata programada, sem ginga ou swag, em oposição ao improviso laranja e tagarela do seu rival. Não existiu assim uma sinceridade nova à qual aderir, muito graças a esta recém-adquirida mania de arrastar o pé para a direita, num medo parolo de se ser tomado por extremista, socialista, comunista, radical, ou, mais recentemente, por woke. Quando Kamala é acusada de “perigosa marxista”, podia ter esclarecido que conhece mal o marxismo — o que deve ser verdade —, mas que a justiça social é um imperativo universal e que ninguém, nenhum nome ou ideologia, se pode dela apoderar. Em vez disso, distanciou-se de tudo o que pudesse figurar ligeiramente à esquerda de si.

Harris, em lugar de se tentar distinguir como implacável promotora pública que mandava resmas de homens maus para a prisão, tipo heroína bidimensional da Marvel, podia ter construído uma figura apaixonada pela justiça ao ponto de ter uma moral e uma sinceridade suas. Poderia ter manifestado um ideário justo, esperançoso, com valores progressistas e sarapintado de utopia. Se no cômputo geral isso lhe traria mais ou menos votos, fica por saber. Uma vantagem seria certa: todos estaríamos hoje mais preparados, unidos, animados e inspirados por uma “agenda” capaz de enfrentar o que aí vem. Por mim, não se arreda o pé; seja na América ou na Câmara de Loures.»

1.

Na zona euro o património médio das famílias é de 434 mil euros enquanto em Portugal é de 295 mil euros. Por cada 100€ de rendimento disponível, as famílias portuguesas poupam apenas 8€, valor que compara com 13€ de média na União Europeia. 

2.

Mais de 12 mil crianças não têm gagas no pré-escolar.

3.

No turismo algarvio 90% da mão-de-obra imigrante é do Brasil, India e Nepal.

De Janeiro a Agosto de 2024, as contribuições dos imigrantes para a Segurança Social já somaram 2198 milhões de euros. E, em prestações sociais – subsídios de desemprego, prestações familiares ou de parentalidade, as mais comuns entre estes cidadãos – os estrangeiros só receberam cerca de 380 milhões de euros. Ou seja, o saldo positivo, nestes oito meses – de 1818 milhões de euros – é quase o mesmo que as suas contribuições ao longo de todo o ano de 2022. Os dados, fornecidos ao Público mostram ainda que em 2024 são as mesmas cinco nacionalidades que mais contribuem para a Segurança Social: brasileiros, indianos, nepaleses, cabo-verdianos e espanhóis. Nestes oito meses de 2024, os brasileiros foram os maiores contribuintes, o que não surpreende, dado que representam a maior comunidade de estrangeiros (são 35% do total de imigrantes): contribuíram com 824,5 milhões, ou seja, 37,5% do total. De seguida foram os indianos, com quase 145 milhões (estes cidadãos representam apenas 4,2% da população estrangeira). Depois, em terceiro lugar no topo das contribuições, ficaram os cidadãos do Nepal, com 93,147 milhões (são quase 3% dos estrangeiros), os de Cabo Verde, com 83 milhões (são 4,68% dos estrangeiros), e os de Espanha com 70 milhões de euros (são quase 2% dos estrangeiros).

4.

Susan Sarandon nunca deixou o activismo político de lado, mesmo que este pudesse entrar em conflito com a sua carreira de actriz. Sempre deixou a sua postura política evidente, o que culminou na sua expulsão da agência que a representava.

Depois dos seus comentários, a favor da causa Palestina, em Novembro de 2023, corre o sério risco de não voltar a trabalhar em Hollywood.
Nunca pensem que Hollywood gosta do cinema, apenas se interessa por dinheiro.

5.

Um menino de seis anos morreu depois de ter sido atacado pela cadela de raça rottweiler do avô paterno, em Chaves.

OLHAR AS CAPAS


Davam Grandes Passeios aos Domingos

José Régio

Capa: Francisco Providência

Colecção Brevíssima Portuguesa nº 6

Contexto Editora, Lisboa s/d

O comboio parara finalmente na estação de Portalegre. De novo o cavalheiro amável se dirigiu a Rosa Maria:

- Chegou. Faça favor de descer que eu passo-lhe os pertences.

- Muito obrigada! – disse Rosa Maria descendo.

O cavalheiro amável estendeu-lhe a caixa do chapéu, o embrulho do presente da velha Leocádia para a menina Lá-Lá, e a pequena mala de couro em que Rosa Maria trazia o indispensável para o primeiro dia. A mala grande vinha despachada.

- Muito obrigada! Repetiu Rosa Maria – Tenha boa viagem. Boa noite!

ESTUDO DO ROSTO

espelho meu, quem sou

eu? não tenho tido tempo para deixar a barba por fazer,

quanto ao resto, tenho a cara de sempre,

a que muda com os climas, e a mesma

necessidade de aperfeiçoara a técnica do

auto-retrato, de forma repetitiva e sem paixão,

para reconduzir um rosto que muda

com a luz e determinadas palavras,

foi assim que descobri essa tendência para

inclinar a cabeça para mais perto

de um dos ombros enquanto

morro,

por segundos, ao ler nesta descrição de livros alinhados

nas estantes, roupa dobrada nos armários, família

em volta da mesa, os princípios de uma ordem

provisória, que não sobreviverá sem mim

ou, no pior dos cenários, me sobreviverá,

afinal, como tudo o resto,

sem sobressaltos e uma memória

finita.

 

coleciono fotografias de família, vendidas em alfarrabistas

por pouco dinheiro, como prova de que estamos

a uma ou duas gerações do esquecimento,

invento dedicatórias, parentescos, datas e locais,

espalho-as em molduras  pela casa para confundir visitas

e de me vigar de uma memória que me atraiçoa sem descanso

porque

este rosto me levou mais de três décadas a destruir,

 

para agora abandonar à sua sorte, sem a gentil companhia de

desconhecidos, na descida aos infernos pelos túneis

das estações de metro

ou num café quase vazio

de Alcântara, a meio da tarde, quando as mesas estão reservadas

          para os

que não têm ocupação ou pressa. os jornais do dia no balcão e

na parede do fundo o espelho convexo em que

Parmigiano e depois Ashley se viram

sozinhos, rodeados de objectos e a certeza de mais uma

morte fixada em auto-retrato.

Tiago Araújo em Resumo: a poesia em 2010

 

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

OLHAR AS CAPAS


Vamos Comprar um Poeta

Afonso Cruz

Capa: Maria João Lima

Editorial Caminho, Lisboa, Janeiro de 2020

A mãe divorciou-se pois tinha ideias mais altas do que servir

Bolonhesa e esparguete com ervilhas e receber em troca dois miligramas de saliva em forma de beijo ou das palavras “está insosso”.

domingo, 10 de novembro de 2024

DITOS & REDITOS


 A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer.

O pior é depois.

Olho por olho e o mundo acabará cego.

O quadrado da hipotenusa é igual à soma do quadrado dos catetos.

Tudo tem tempo.

Não incomodem um intelectual com assuntos de porteira.

Iluminar a aridez do tempo.

Quem planta no Outono leva um ano de abandono.

sábado, 9 de novembro de 2024

DISTO, DAQUILO, DAQUELOUTRO


Numa outra eleição presidencial, após um período de hegemonia republicana, os americanos escolheram um presidente democrata. A minha memória não vai tão longe para lembrar quem foi este presidente democrata, mas lembro-me que um jornalista americano perguntou a Fidel de Castro como seriam as relações com este presidente. Fidel respondeu: seja quem for, democrata ou republicano, para nós é sempre o presidente dos Estados Unidos e sabemos sempre o que dali vem, qualquer coisa como «nem bom vento nem bom casamento.

O Partido Democrata cometeu uma série de erros que começaram em deixar Joe Biden entrar na ida às urnas. O mais grave acontece quando, cheios de gente rica nos seus comités de decisão, desligaram-se da vida quotidiana do povo e dos trabalhadores, uma grande parte vivendo com graves problemas de sobrevivência, e assim observaram como os muçulmanos, negros, latino-americanos, mulheres, votaram no trapaceiro, no corrupto Trump que lhes prometeu novamente uma grande América, o paraíso ali ai virar da esquina. Tiveram que arranjar à pressa uma Kamala Harris mas, como agora disse o escritor brasileiro, os eleitores da América profunda, onde crassa a ignorância e a estupidez, não se mostraram dispostos a votar numa negra e numa mulher.

Condenado por uma série de crimes que ultrapassa as três dezenas,  
regressa à casa oval. Quando em Janeiro, por lá se sentar, determinará que todas essas acusações mercê dos que já colocou e que colocará, irão parar a máquina guilhotinadora de destruição de papel.

É assim que a América conseguirá ser grande outra vez.

«Tudo é mau nos resultados eleitorais dos EUA. Acontece. Já não é a primeira vez na história que demagogos, populistas, protoditadores ganham eleições e, sem excepção, os efeitos são sempre maus. Não são maus para toda a gente, nem são maus para tudo, mas no geral são maus, em primeiro lugar, para a democracia, depois, dependendo do país, são maus para outros países ou para o mundo. No caso de Trump, são maus para quase tudo, a não ser para a direita radical em todo o mundo e para a Rússia porque, como se vê, eles são “estranhos companheiros de cama”, para não dizer em inglês», escreveu José Pacheco Pereira no Público.

«Este não é o Trump de 2016. Controla a Presidência, o Senado e provavelmente a Câmara dos Representantes. O Supremo tornou-o inimputável, mudando a natureza do regime. Esmagou o partido republicano, que é um mero suporte institucional do movimento MAGA. E rodeou-se de gente ainda mais fanática e perigosa do que ele. Começa, em janeiro, uma nova ordem de bilionários tecnológicos que se sentarão na cadeira do poder político para moldar o mundo aos seus sonhos distópicos. As duas guerras que nos assustam seguirão para o seu epílogo trágico. Esta vitória vai-se disseminar por todo o mundo ocidental. E vai ser tudo demasiado rápido para nos prepararmos. Mas podemos, ao menos, perceber que as respostas que temos dado não resultam. Talvez as certas sejam as que esquecemos.», escreveu Daniel Oliveira no Expresso.

sexta-feira, 8 de novembro de 2024

POEMA DO LIVRE-ARBÍTRIO

Há uma fatalidade, intrínseca, insofismável,

inerente a todas as coisas e nelas incrustada.

Uma fatalidade que não se pode ludibriar,

nem peitar, nem desvirtuar,

nem entreter, nem comover,

nem iludir, nem impedir,

uma fatalidade fatalmente fatal,

uma fatalidade que só poderia deixar de o ser

para ser fatalidade de outra maneira qualquer,

igualmente fatal.

 

Eu sei que posso escolher entre o bem e o mal.

Eu sei que posso fatalmente escolher entre o bem e o mal.

 

E já sei que escolho o bem entre o mal e o bem.

Já sei que escolho fatalmente o bem.

Porque escolher o bem é escolher fatalmente o bem,

como escolher o mal é escolher fatalmente o mal.

O meu livro arbítrio

conduz-me fatalmente a uma escolha fatal.

 

António Gedeão de Novos Poemas Póstumos em Obra Completa

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

O OUTRO LADO DAS ESTANTES


Num dia triste para a América, num dia triste para o mundo, deu-me para ir ao Outro Lado as Estantes buscar um importante documento.

Os catálogos do ciclo O Musical trabalho conjunto da Cinemateca Portuguesa e da Fundação Calouste Gulbenkian, em que de 20 de Dezembro de 1985 a 27 Março de 1986 foram vistos 180 filmes.

O catálogo são quatro volumes metidos em duas caixas, com cerca de 2.000 páginas.

«A expressão  «Cinema Musical adequa-se a qualquer filme (antes ou depois do da invenção do sonoro) em que a música tenha tido um papel importante», João Bénard da Costa dixit.

PRIMEIRO VOLUME

Tem o título de Aberturas com  intervenções de Carlos de Pontes Leça, João Bénard da Costa, João Paes, Luís de Pina, Miguel Esteves Cardoso.

SEGUNDO VOLUME

Titulado com Libretos, com intervenções de João Bénard da Costa. Manuel S. Fonseca, João Lopes, João Gabriel Trindade dos Santos, José de Matos Cruz, José Manuel Costa, Luís de Pina

TERCEIRO VOLUME

Chamaram-lhe As Pautas e tem colaboração de Miguel Esteves Cardoso.

QUARTO VOLUME

Com o título de As Letras tem colaboração de João Bénatd da Costa

De cada volume fizeram-se 2.000 exemplares, há muito esgotados e que, provavelmente, não voltarão a a ter outra edição.

Quem gosta de Cinema, quem gosta de musicais, tem aqui a tudo e mais alguma coisa.

Não tenho memória do primeiro musical que vi. Quase de certeza deveriam conter os passos de magia de Fred Astaire, as pernas de Cyd Charisse. O último direi com  a certeza das certezas, e não só por ter sido visto há poucas semanas: One From The Heart, o mais grandioso filme, o sonho mais louco  de Francis Ford Coppola que o levou à falência.

A primeira vez que vi Do Fundo do Coração foi na magnífica sala do Apolo 70. Depois fui a quase todas as exibições que aconteceram na Cinemateca Portuguesa.

Diga-se que há dias morreu Teri Garr que não sei onde se juntou a Raul Julia um dos seus comparsas na noite fabulosa daquele 4 de Julho, amores conquistados, amores perdidos, amores reconquistados, tudo à volta da genial banda sonora de Tom Waits.

Não resisti à tentação de reproduzir a crítica que Manuel S. Fonseca escreveu para este catálogo com a alegria que é importante destacar  que a crítica seja parcial e entusiasmante.



Claro que nunca poderemos esquecer  que a América, de novo, foi capaz de eleger para presidente  um criminoso, um aldrabão capaz de tudo e de mais alguma coisa.

É isso que o novo ano trará ao mundo. 

Fatalmenete?

Lembrava José Pacheco Pereira: «As democracias não deviam permitir que alguém que é criminosos, que despreza as leis e a Constituição tenha condições para se candidatar».

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

CRONICANDO POR AÍ


«Eusébio, Coluna, o pequenino Simões, o Torres gigante desciam da escada do avião para a pista do Aeroporto de Luanda e uma alucinada onda de perfume descia com eles. Ainda não disse: quem vinha à frente era o senhor Otto Glória, brasileiro, com o seu crespo bigode mestiço, a impor respeito ao miúdo que eu era, talvez 12, 13 anos. O Benfica, o SLB desses anos, cheirava bem. O Benfica perfumava uma noite tropical, resgatava até uma noite colonial. Eu estava lá.

Já cá não estarei em 2050, mas o telepático futuro, em sussurro ou estrépito, vem contar-me à noite as coisas que hão de vir. De 2050, o maléfico futuro deu-me conta de elixires entorpecentes e de um Portugal apocalíptico.

Um spleen baudelairiano afligirá os velhos. Em vez de jogarem à sueca nos jardins e baterem uma camuflada manilha, atacam-se uns aos outros, numa nevrose inexplicável que uma cerrada e negra melancolia há de cobrir.

Os jovens de 2050, conta-me o xamânico futuro, estarão abúlicos, anémicos e anómicos. O sexo é fortuito, destituído de sedução, agora interdita, um sexo imparticipativo, obrigado à repetição de um mecânico vaivém, nem bem que entras, nem bem que sais, sem efusões ou magia.

O pesadelo é a regra de 2050. Os escritores soçobraram, perdido no tempo o segredo da esplêndida prosa, entregues à lamúria de quem ignora o mistério ou o engenho da alegria, o elixir da felicidade.

Toda a música é sonâmbula, e os coros estão proibidos – nos velhos e decrépitos auditórios, os raros espectadores entreolham-se com horror. Não há cânticos na rua, ninguém sabe já o que é uma mole humana unida à volta de um rubro estandarte, narinas sôfregas, mãos trémulas de sentimento, numa só voz a soletrar a vitória e a glória.

De onde vem essa decadência? Foi essa a patética pergunta que fiz ao profeta de 2050. Vi-o ganhar a dimensão do colossal Gulliver. O espírito da nação, gritou-me ele, afundou-se como o imemorial rio que seca. E acrescentou: tudo começou, abrupta, inexoravelmente, dez anos antes, em 2040.

Descubram, então, a labiríntica verdade que nem a mais astuta sociologia antecipou. Num tribunal, sentenciou-se um processo que o Ministério Público começara no remoto, mortalíssimo ano de 2024. Um caso de corrupção desportiva, que se arrastou por penosos e novelescos 14 anos. O réu foi, por fim, em 2040, apostrofado e condenado: era, diz-me o xamã de 2050, um clube de futebol. Condenado a baixar ao Hades que era a 4.ª divisão, o clube foi extinto. Dessa certeza jurídica nasceu, como o perverso Baco da coxa de Zeus, a caducidade e morte da fé de toda uma nação.

Ao primeiro vendaval de incredulidade, sobreveio o tufão da amargura. Um torpe ateísmo sentimental derramou-se como véu negro sobre os corações: todos os corações, o do rico e do pobre, mulheres, homens, as jovens raparigas de perna lábil e lábios rouge, os cândidos rapazes movidos a cerveja e a inescrutável e labiríntica testosterona. Uma inteira nação, os políticos, a Assembleia da República, as forças armadas, o inconsolável Presidente, mesmo o impávido jurista, uma inteira nação, repetiu-me ele, transformara-se numa gigantesca barata kafkiana, e de Dante imitou os nove ciclos do inferno.

O clube, confidenciou o xamã, era o mesmo desses rapazes que eu vira descer as escadas de um avião em Luanda, esses rapazes, Eusébio, José Augusto ou Humberto, que espalhavam fragrâncias na noite de África e nas tardes da Europa.

Sonho ou pesadelo, acordei. Não voltarei a escutar o inverosímil xamã: o futuro ou é glorioso ou nunca será. SLB forever!»

Manuel S. Fonseca na sua Página Negra

Legenda: o velho estádio da Luz ainda em construção.

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

DISTO, DAQUILO E DAQUELOUTRO


 Donald Trump é uma ameaça para a Democracia.

Há dias. José Pacheco Pereira lembrava que; «
«Vai acontecer alguma coisa? Duvido, ele diz coisas destas todos os dias, e não perde, que se saiba, metade dos americanos como eleitores, nem que a máquina de minimização da importância do que ele diz funcione em pleno, até em Portugal, nas mais altas esferas do poder. Na direcção do PSD, no CDS e no Chega, há quem esteja “hesitante” se devia votar em Trump. O que significa que, se votassem, votariam

Texto de Carolina Amado, copiado do Público de 3 de Novembro:

 
«A poucos dias das eleições norte-americanas, o The
New York Times publicou este sábado, 2 de Novembro, um editorial a apelar ao voto que ponha "fim à era Trump".

New York Times publica editorial contra Donald Trump: “É uma ameaça à democracia”
"Já conhecem Donald Trump. Ele não está apto para liderar. Observem-no. Ouçam quem o conhece melhor. Ele tentou subverter uma eleição e continua a ser uma ameaça à democracia", lê-se no editorial, curto e incisivo. "A corrupção e a ilegitimidade de Trump vão além das eleições: são todo o seu
ethos. Ele mente sem limites."

O
New York Times (NYT) lembra que o ex-Presidente dos Estados Unidos, agora candidato a um novo mandato na Casa Branca, ajudou a reverter o direito ao aborto, "com consequências terríveis".

E alerta, antecipando aquilo em que se podem tornar os próximos quatro anos, caso Donald Trump seja eleito: "O Partido Republicano não o vai conter. Trump vai usar o seu governo para perseguir os seus adversários. Vai seguir uma política de deportações em massa. Vai lançar o caos sobre os pobres, a classe média e os empregadores. Outro mandato de Trump trará danos ao clima, destruirá alianças e fortalecerá os autocratas."

Sem fazer referência à candidata democrata, Kamala Harris, o editorial, cujo título é "
Vote to end the Trump era" (em português, "votem para pôr fim à era Trump"), termina com um apelo claro: "Os americanos devem exigir melhor. Votem."

Ainda que o conselho editorial do NYT não fale em nome da redacção, como esclarece o diário norte-americano, defende uma visão com a qual o jornal se identifica — a de um mundo em que "a liberdade e o progresso avançam através da democracia e do capitalismo".

Há pouco mais de uma semana, o The Washington Post anunciou não apoiar nenhum dos candidatos à Presidência dos Estados Unidos na eleição da próxima terça-feira, 5 de Novembro. É a primeira vez em 36 anos que o diário norte-americano não declara apoio a nenhum candidato à Casa Branca, numa corrida que se adivinha renhida até ao final.

Em comunicado, o sindicato
The Washington Post Guild, que representa quase mil jornalistas e funcionários do jornal, garantiu que a direcção já tinha redigido um editorial a declarar apoio a Kamala Harris, e que a decisão de não o publicar foi tomada pelo proprietário do jornal, o multimilionário e fundador da Amazon, Jeff Bezos. Na sequência do anúncio da decisão, mais de 200 mil pessoas suspenderam as suas assinaturas do jornal.

Um dia antes, o proprietário do
Los Angeles Times, Patrick Soon-Shiong, também bloqueou um apoio do jornal californiano a Harris. Um editor, dois membros da direcção e alguns jornalistas demitiram-se em protesto.»

1.

Morte do ant-fascista Camilo Mortágua.

Nota de Daniel Oliveira no Expresso:

«Pensei escrever sobre deputados que desrespeitaram, brincaram ou fizeram política com a morte do pai de duas pessoas com quem dividem o local de trabalho. Intriga-me como conseguirão voltar hoje ao Parlamento, tendo de se cruzar com elas, e não baixar a cabeça de vergonha. Depois desisti. Sou comentador político e o problema destas pessoas não é político. É serem, como seres humanos, uma miséria. Não merecem o nosso tempo.»

2.

«É indecente falar no Ocidente em direitos humanos, quando a desigualdade doméstica resvala na pobreza, e se alimenta o genocídio e agressão perpetrados por Israel.»

Viriato Soromenho-Marques de uma crónica no Diário de Notícias

3.

Há actividades  em Portugal – e não só! – que não conseguem passar sem os trabalhadores imigrantes.

Estes trabalhadores ganham em média 600 euros brutos, mas há quem receba muito menos.

A maior vive em contentores e barracas degradadas.

Pouquíssimos empresários tratam estes trabalhadores com respeito e dignidade, perante ministros completamente ignorantes e incompetentes, de deputados que não abandonam os assentos na Assembleia para verem, com olhos de ver, o que se vai passando com a esmagadora maioria destes trabalhadores.

4.

6.

«Os católicos são perfeitos em criar mistérios, fazem tudo à porta fechada.»

Edward Berger no Diário de Notícias

OLHAR AS CAPAS


O Bobo

Alexandre Herculano

Edição (16ª edição) dirigida por David Lopes

Livraria Bertrand, Lisboa s/d

E ele ria; ria contínuo! Era rir diabólico o do bobo: porque nunca deixava de ir pulsar dolorosamente as fibras de algum coração. Os seus ditos satíricos, ao passo que suscitavam a hilaridade dos cortesãos, faziam sempre uma vítima.

SOLIDÃO

A solidão é como uma chuva.
Ergue-se do mar ao encontro das noites;
de planícies distantes e remotas
sobe ao céu, que sempre a guarda.
E do céu tomba sobre a cidade.

Cai como chuva nas horas ambíguas,
quando todas as vielas se voltam para a manhã
e quando os corpos, que nada encontraram,
desiludidos e tristes se separam;
e quando aqueles que se odeiam
têm de dormir juntos na mesma cama:

então, a solidão vai com os rios...

Rainer Maria Rilke em O Livro das Imagens

domingo, 3 de novembro de 2024

DEIXAR RASTOS PELO CAMINHAR DOS DIAS


Quando os meus filhos nasceram, o fumo do meu cachimbo recebeu-os um a um, como uma nuvem de boas vindas. Uma nuvem feita de imaginação e de sonho. Todas as minhas casas ficaram impregnadas desses odores – a cada um o seu perfume…
Mais tarde, quando me separei, os meus filhos confessavam-me que sentiam a falta do cheiro do meu cachimbo. Pelo menos ficou-lhes o meu rasto… Efémero, como qualquer fumo.

António Carvalho, Diário de Notícias s/d 


sábado, 2 de novembro de 2024

DISTO, DAQUILO E DAQUELOUTRO

Quando estava muito chateado com o país, o José Cardoso Pires dizia que a culpa era dos padres.

Alguns americanos, chateados eles com o país, cansados do país, apresentam sinais de desistência, talvez digam que a culpa é dos judeus, mais concretamente dos judeus americanos ricos.

Para as eleições do próximo dia 5, o Partido Democrático só acumulou disparates. Primeiro deixou que Biden se atravessasse como candidato, depois ter, muito tarde, direccionar-se para Kamala que, face às suas ideias de esquerda, não reúne as simpatias dessa terrível e estranha América profunda.

Para piorar a situação, Kamala acaba de se deparar com Biden a chamar «lixo» aos apoiantes de Trump.

Pode-se pensar, mas não se diz publicamente.

Pelos meios ao seu dispor, Kamala tenta distanciar-se do disparate de Biden:

«Discordo totalmente de qualquer crítica às pessoas com base no seu voto», disse Harris aos jornalistas.

Não sei se chegará!

Ana Cristina Leonardo no começo da sua crónica de sexta-feira no Público:

«A próxima vez que me sentar a escrever serão públicos os resultados das eleições presidenciais nos Estados Unidos. Desfrutemos, pois, da última oportunidade de poder fazê-lo em inocência, desconhecendo sobre qual das cabeças penderá a espada de Dâmocles, certo e sabido que, seja qual for o resultado, o peso do mundo continuará a pesar-nos nos ombros.»

 José Pacheco Pereira no Público de sábado: 

 «A complacência com os crimes de Trump, o medo que ele inspira, os poderosos apoios interesseiros que fecham os olhos a tudo para ganhar dinheiro e poder manietaram a justiça americana e permitiram-lhe uma impunidade que ninguém deveria ter. Trump, que é contra a democracia, beneficiou das fragilidades da democracia, usando três coisas: a manipulação da política-espectáculo, hoje uma das maiores ameaças à democracia; o dinheiro para pagar uma litigância infinita e para corromper testemunhas e processos; e o medo da retaliação e vingança que ele promete como quem respira. Na minha interpretação da história, Trump é o mais importante, e o seu carisma “cria” os seus seguidores. Podemos interpretar mil e uma coisas sobre o que lhe dá apoiantes, mas, antes disso, está perceber porque aceitam tudo o que ele diz e faz, e isso está antes, modela os acontecimentos, cria o movimento MAGA.

Estou a escrever este artigo na Trumplândia, e não é preciso ir muito longe para ver o medo. Nas campanhas eleitorais anteriores, os jardins em frente às casas estavam cheios de cartazes apoiando um ou outro candidato. Agora, nada. Há medo de vandalismo, de todos os lados. Medo de americanos contra americanos.»

1.

Na dia 30 morreu André Freire, politólogo, comentador televisivo, cronista do Público, além de professor Catedrático do Departamento de Ciência Política do ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa e investigador integrado no Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES-Iscte), dirigia o Departamento de Ciência Política do ISCTE desde 2015 e o Observatório da Democracia e Representação Política. Numa nota de pesar, o CIES-Iscte destaca o “legado de excelência e inspiração para todos os que tiveram o privilégio de trabalhar” ao lado de André Freire, que “foi mentor de várias gerações de estudantes e investigadores, partilhando generosamente o seu vasto conhecimento e fomentando o pensamento crítico e rigor académico”.

Segundo o Público André Freire foi operado esta terça-feira ao ombro no Hospital da Luz, em Oeiras, tendo sofrido uma paragem cardio-respitatória após a cirurgia que obrigou à sua transferência para o Hospital de São Francisco Xavier, em Lisboa, por ser o hospital mais próximo com cuidados intensivos, onde acabou por morrer.

A tristeza da sua morte, demonstra, uma vez mais que a medicina privada pode retirar médicos do Serviço Nacional de Saúde, mas apenas isso.

André Freire é um homem público, daí termos sabido, o que por norma acontece em quase todos os dias: as coisas correrem mal no hospital privado e transferem-se os doentes para o hospital público.

No caso de André Freire, infelizmente, não houve possibilidade de o salvar.

2.


Recorte do Público de 29 de Setembro.

Na Comissão europeia os líderes estão divididos sobre as migrações.

No princípio era tudo muito bonito, agora face a um trabalho mal conduzido. querem encontrar formas de acelerar os repatriamentos.

Os países precisam dos trabalhadores imigrantes,

3.

Para períodos de descanso ou tempo para viajar, o próximo ano vai ter cinco fins de semana de três dias e quatro feriados à quinta-feira, existindo a possibilidade para fazer ponte.

4.

A PSP deteve dois homens em flagrante delito, minutos depois de terem sido colocados em liberdade por um juiz de instrução, estando estes suspeitos referenciados por recentes assaltos em Campo de Ourique, Lisboa.

5.

O tempo médio  dedicado diariamente pelos portugueses às redes sociais é actualmente de 97 minutos, um aumento face a 2023.

6.

O juiz Orlando Nascimento subiu agora ao Supremo Tribunal de Justiça apesar de ser arguido num processo crime em que é suspeito de abuso de poder. 

FIM

 

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.

Mário de Sá-Carneiro 

sexta-feira, 1 de novembro de 2024

POSTAIS SEM SELO


Que sabemos dos vivos para levarmos flores aos mortos?

Autor desconhecido

MÚSICA PELA MANHÃ


 Poderei dizer que gosto de todas as canções dos Beatles?

Penso que não, até porque não ouvi todas.

Mas posso dizer que fizeram as melhores canções dos meus melhores tempos, de todos os meus tempos…

E agora posso pedir um disco?

Colaboração de Aida Santos

Legenda: ilustração tirada do livro do Abel Rosa


OLHAR AS CAPAS


 Os Beatles: Aventuras Pop Portuguesas

Abel Rosa

Prefácio: João Carlos Callixto

Capa: Tiago Melo

Âncora Editora, Lisboa, Maio de 2022

Toda uma geração adorava (adora) aqueles objectos redondos, negros e simples que nos davam alento, amores, paixões e amizades em apenas 45 rotações e durante cerca de três minutos o mundo ficava melhor numa gloriosa sinfonia pop.

Não havia CD, iPhone nem spotify mas tínhamos gira-discos de mala ou tipo torradeiras, que engoliam os discos… e, claro todo o seu esplendor e mistério, a Rádio: «Quando o Telefone toca – posso dizer a frase?» ou aquele genérico instrumental Revenge (The Kinks) que nos deixava logo Em Órbita.

Colaboração de Aida Santos


VELHOS RECORTES


 Gosto de crónicas

Lidas em jornais e revistas.

Quando publicadas em livro, compro.

Esta é um velho recorte do Expresso  (sem data) que reproduz parte de uma das crónicas que Ana Cristina Leonardo publicava no semanário

A essas crónicas deu título: Isto Anda Tudo Ligado que soa ao título de um livro do Eduardo Guerra Carneiro, por quem, certamente, tinha amizade e admiração

Por motivos que ninguém explicou - pelo menos que tivesse lido... - as crónicas deixaram de ser publicadas. O mesmo aconteceu às crónicas do Manuel S. Fonseca.

Neste momento, Ana Cristina Leonardo publica, todas as sextas-feiras, uma crónica no suplemento Ipsilon do Público.

Posteriormente, publica-as no seu blogue Meditação na Pastelaria.