Nos dias em que o Cais não foi percorrido, muitas coisas,
aqui e pelo mundo, aconteceram que deveriam ter sido registadas.
Algumas não perderam qualquer actualidade: a de
sabermos que não existem dúvidas que a guerra na Ucrânia não terminará tão
cedo.
Ana Cristina Leonardo
ouviu no Café do Monte:
«Os EUA e a Rússia precisam conversar um com o outro antes que seja
tarde demais»
Acontece que o
problema existe desde os primeiros tempos desta guerra, ou até antes.
Tal como se pode
recordar pelo título acima tirado do Público
de 29 de Abril.
1.
A inflação em Agosto atingiu os 9%, pelo que
os portugueses, com essa escalada, estão a perder 4,6% do salário e permite
concluir que quem recebe um salário de mil euros tem um poder de compra
de apenas 910 euros.
«Preocupa-me o destino de um país chamado Portugal. Isso preocupa-me,
embora não tenha nenhum cargo de velar pelo país a que pertenço, mas, como sou
português, penso nele e, efectivamente preocupa-me o destino deste país. Porque
eu acho que quando se chega a uma situação em que falta o essencial e se gasta
o supérfluo há qualquer coisa que está mal.»
No tempo quente, o meu
pai gostava de acompanhar algumas comidas com uma salada de batata cozida com
pepino, enfeitada com ovos cozidos aos quartos e muitos coentros.
Este é um Volksvagen
Carocha apanhado num dia longínquo numa ida ao Mattos, excelente e caro
restaurante quase em frente do Cinema King, de boa memória e onde, no tempo de
Verão, Paulo Branco agendava retrospectivas de filmes, tudo isto no tempo
exacto em que havia cinemas e espectadores, ainda com uma muito interessante
livraria e um bar onde vários vezes encontrei o João César Monteiro, cigarrando
e com o seu brilhante maulinguajar.
A especulação
imobiliária, a ganância senhorial, colocou a renda em patamares que Paulo
Branco sentiu não poder acompanhar.
Que eu tenha
conhecimento o senhorio ainda não conseguiu voltar a alugar.
Na década de 70 a PSP
teve VW Carochas de cor azul a que chamávamos os «creme Nivea».
Normalmente eram
ocupados por três agentes policiais. Criou-se então a piada:
- Porquê três
polícias?
- Um sabe escrever,
outro sabe ler, o terceiro gosta de acompanhar intelectuais.
A contra capa de A Obra ao Negro é simples, mas forte e
colocada.
Chamam-lhe obra-prima
e repetem os nomes dos tradutores. Difícil encontrar um nível como este para a
tradução da obra de Yourcenar.
No posfácio que
escreveu para o livro, Yourcenar adianta o significado do título:
«A fórmula A
Obra ao Negro, que dá o título a este livro, designa, nos tratados
alquímicos, a fase de separação e dissolução, que era, diz-se, a parte mais
difícil da Grande Obra. É ainda discutível se uma tal expressão se aplicava a
audaciosas experiências sobre a própria matéria, ou se significava
simbolicamente as provações do espírito ao libertar-se de rotinas e ideias
feitas. Significou, sem dúvida, uma coisa e outra, distinta ou
simultaneamente.»
O mote da narrativa é
também dado com a autora a introduzir a epígrafe de Pico della Mirandola:
«Não te dei, ó
Adão nem rosto nem lugar que te seja próprio,nem qualquer dom particular, para
que teu rosto, teu lugar e teus dons os desejes, os conquistes e sejas tu mesmo
a possuí-los. Mas tu, que não conheces qualquer limite, só mercê do teu
arbítrio, em cuja mãos te coloquei, te defines a ti próprio. Coloquei-te no
centro do mundo para que melhor pudesses contemplar o que o mundo contém. Não
te fiz nem celeste nem terrestre, nem mortal nem imortal, para que tu,
livremente, tal como um bom pintor ou hábil escultor, dês acabadamente a forma
que te é própria.»
Em 1999 o jornal Le
Monde, constituiu uma lista de 100 livros considerados como os melhores do
século XX. A lista foi elaborada por livreiros e jornalistas em que 17.800
leitores responderam à pergunta: «Que
livros ficaram na sua memória».
Esta obra de Marguerite Yourcenar ficou no 26º lugar.
Zenão regressa a Bruges. Não podia correr o risco de ser
reconhecido mas a velha Greete conhecia-o desde miúdo.
«Greete vinha quase todas as semanas tratar das suas
mazelas de velha, sem nunca deixar de trazer um presente, manteiga embrulhada
numa folha de couve, um bocado de bolo feito por ela, açúcar cristalizado ou
uma mão-cheia de castanhas. Enquanto comia, ela contemplava-o com aqueles seus
olhos risonhos. Havia entre eles a intimidade de um segredo bem guardado.
Tradução: António
Ramos Rosa, Luisa Neto Jorge e Manuel João Gomes
Colecção Ficção Universal nº 9
Publicações Dom
Quixote, Lisboa, Abril de 1998
Continuando no seu caminho, ficou Zenão de novo só. Cerca do meio-dia,
sentou-se para comer o pão, num talude de onde já se avistava a linha cinzenta
do mar.
Um caminhante munido de um grande bordão veio sentar-se ao pé dele. Era
um cego, que do seu alforge tirava também qualquer coisa para quebrar o jejum.
O médico admirou a habilidade com que aquele homem de olhos brancos se
desembaraçou da gaita-de-foles que trazia ao ombro, desatando a correia e
pousando delicadamente o instrumento sobre a relva.
O cego felicitava-se por o dia estar tão bom. Ganhava a vida fazendo
dançar os rapazes e raparigas na estalagem ou nos pátios das quintas; nessa
noite ia dormir a Heyst, aonde no domingo tocaria; seguiria depois para os
lados de Sluys: graças a Deus, havia sempre juventude bastante de quem auferir
lucro e mesmo, às vezes, prazer. Mynheer talvez não acreditasse, mas havia
mulheres que gostavam de cegos: não tinha nada que lamentar-se da desdita de já
não ver.
Como muitos outros cegos, também este usava e abusava da palavra ver:
via que Zenão era um homem na força da idade e que tinha educação; via que o
Sol estava ainda a meio do céu; via que quem ia a passar numa vereda por detrás
deles era uma mulher meio doente transportando uma canga de onde pendiam dois
baldes. Nem tudo, porém, era falso nessas gabarolices: foi ele quem primeiro se
apercebeu do deslizar de uma cobra por entre a erva. Chegou mesmo a tentar
matar com o pau o repugnante animal. Zenão deixou-o, depois de lhe ter feito a
esmola de um liarde e afastou-se no meio de ruidosas bênçãos.
Não fosse a
fotografia que todos os anos tiro ao pavilhão da & ETC, lembrando as
conversas que então tinha com o Vitor Silva Tavares, não iria lá.
A fotografia acima é
do Luís Eme no Largo da Memória e faz-me pensar o pior.
Também deixou estas
palavras:
«Voltei à Feira do Livro e estranhei-a, mais do que nunca.
Sei que o problema deve ser meu, por ser de outro tempo (e querer
ficar por lá...), em que os livros não se vendiam em supermercados nem eram produzidos
e vendidos como se fossem apenas mais um acessório para as nossas vidas, como
um perfume, um vestido ou um casaco.
Acredito que se batam recordes de tudo, tanto no número de editoras
presentes (há várias de que nunca tinha ouvido falar, das tais que podiam muito
bem estar ali a vender "batatas" em vez de "livros"...)
como nas vendas. Nas praças dos dois grandes grupos editoriais, formavam-se
filas para se pagar. O que até se compreende, pois conseguiram meter no bolso
as editoras mais interessantes e com melhores livros e autores deste nosso
pequeno país...
Mas também sei o quanto devem ser importantes para toda a gente que
vive (ou finge viver...) dos livros. Como fui a um dia de semana, não encontrei
escritores à espera de leitores e a assinar os seus nomes na folha de rosto dos
livros que escreveram, mesmo que pensassem que estariam bem melhor deitados
numa praia sossegada que naquela "costa de caparica" dos livros. Mas
este é um dos "fados" de quem escreve livros...
Claro que não vou falar da "banalização" que têm feito do
livro. Sei que muitas das tais editoras emergentes só existem para satisfazer
os caprichos daqueles que não querem deixar este mundo "sem deixar um
filho, plantar uma árvore e escrever um livro" (desconfio cada vez mais
que esta frase nasceu de algum editor...). E por causa desse capricho há
pessoas que até são capazes de "pagar dois livros" pelo preço de um,
para gáudio de quem precisa deste conjunto de folhas impressas para comer. Uma
boa parte destes autores acabam por perceber, que afinal só alguns primos
e vizinhos é que sentiam alguma curiosidade sobre o que estava dentro das suas
histórias ou poemas.
Mas quando percebem, é quase sempre tarde demais. Afinal não são bem
escritores, apenas pagaram a impressão de um livro com as suas palavras...»
Apeei-me devagar do automóvel e fiquei parado a olhar para cima, para a
janela às escuras do apartamento. A chuva fria tamborilava nos vidros e dava-lhes
um aspecto de espelho negro, de olho odiosos e diabólico, na fachada de um edifício
odiosos e diabólico. Havia em tudo aquilo um não sei quê de conspurcado e sujo,
de repugnante e inconcebível.
Lá em cima, atrás daquela janela às escuras, tinha de me matar. Lá em
cima saberia o que era estar morto, conheceria a sensação e o aspecto da ausência
de expressão, da lassidão da morte.
Por Setembro, lembrando sempre o meu pai quando, em
plenos calores estivais, dizia: «em Setembro voltamos a ser gente.»
Eugénio de Andrade conhecia Setembro pelo cheiro.
O ar ainda é quente, mas mais lá para a frente, começará
a cheirar a Outono, e tardará pouco para ir ao armário buscar uma
lãzinha, talvez se encontrem uns trocos num qualquer bolso, também o
entusiasmante fumo dos vendedores de castanhas a espalhar-se pela cidade.
Em Setembro, planta, colhe e cava, que é mês para tudo.
Hão-de apanhar-se as uvas e tudo ficará a cheirar a mosto.
Ramo curto, vindima longa.
Cheiros e mais cheiros.
«Setembro era também o mês do equinócio, único tempo
de Verão em que havia ondas e marés vivas. Para o fim dele, as tardes faziam-se
frias e As camisolas ou “pull-overs” eram de uso obrigatório. No fim do mês,
choviam as primeiras chuvas e a terra encarnada da Arrábida ganhava um cheiro
especial que nunca mais esqueci e que me volta ao nariz de cada vez que oiço a
palavra afrodisíaco», escreveu João Bénard da Costa ele que, por
Setembro, como sempre lembrava, ia «Arrabidar».
Setembro é o 9º mês do ano e tem 30 dias.
No dia 1 o sol nasce às 06h 6m e o ocaso verifica-se às 19h 07m
No dia 30 o sol nasce às 06h, 31m. e o ocaso verifica-se às 18h 21m.
Durante Setembro o mês diminui 1h 11m.
As mulheres nascidas em Setembro são alegres, afectuosas e sentimentais;
procuram agradar e têm muitos adoradores. E apreciam os prazeres.
Os homens são amáveis e simpáticos. Gostam da harmonia e da ordem; são
prudentes, indecisos; possuem boas ideias e habilidade na maneira de conduzir
os negócios. Cumprem sempre as suas promessas.
Incensos: gardénia Pedra: safira Metal: platina Cor: azul céu.
Na horta continua a sementeira de alhos, cebolas, rabanetes, couve-flor,
agriões, alfaces, espinafres de Inverno.
Com as primeiras chuvas plantar morangueiros, regando até pegarem.
No jardim semeiam-se amores-perfeitos, begónias, cravos, gipsofilas, margaridas.
E fica-se a saber que faltam 116 dias para que seja Natal.
Há muitas canções para saudar Setembro.
A mais antiga de que me lembro é C’est un
Septembre do velho Gilbert Bécaud, também visitada por Neil Diamond, o
cantor do casaquinho azul, como lhe chamava o Dinis Machado.
Embora tenha por aqui
algumas na minha estante à espera de serem defloradas (Churchill, Hitler,
Estaline, Obama), a verdade é que nunca fui um grande leitor de biografias ou
autobiografias de políticos.
Se ainda assim tenho
tantas não terá sido por as ter comprado, mas sim porque uma boa parte são
daquelas que me vinham semanalmente parar às mãos, cortadas aos bocados, nos
tempos em que ainda tinha paciência para comprar e ler o jornal Expresso, as
quais fui acumulando e colocando despreocupadamente na prateleira, com a íntima
convicção de que muito dificilmente viria a ter tempo e paciência para lhes
pegar. A do Obama é uma exceção e está na lista das prioridades…
A minha formação
académica em Sociologia também faz com que não me preocupe muito com as
características de personalidade das figuras históricas e, muito menos, com
grandes detalhes acerca da sua vida particular. Interessa-me, muito mais, conhecer,
através delas, o tempo em que viveram, embora saiba muito bem que os Homens
fazem o Tempo, e que o Tempo molda os Homens.
Tomando por exemplo o
mais velho dos irmãos Kennedy, pouco me interessaria saber com quantas atrizes
de Hollywood andou ele enrolado, se o que se diz acerca da morte da Marilyn
foi, ou não, uma realidade, ou se é verdade que na Casa Branca ele tinha uma
salinha escondida sempre preparada para as suas escapadelas, como dá a entender
o Tim Burton no seu “Marte Ataca”. Interessar-me-ia, isso sim, através da sua
ação ficar a conhecer melhor como foram vividos do interior da Presidência
esses tempos do climax da Guerra Fria que foi a “Crise dos Misseis”, da luta
dos negros pelos seus Direitos Civis ou do combate à Mafia…
E depois, mesmo que
de tempos a tempos me pudesse passar pela cabeça pegar nalguma dessas
biografias esquartejadas, tenho a certeza que, de imediato, me saltaria o
anjinho mau do Cinema a berrar-me aos ouvidos: Hitler…? Quando ainda não
pegaste na autobiografia do William Castle, que já está nas tuas mãos há algum
tempo…? Estaline…?? Quando ainda nem te deste ao trabalho de concluir o “Un
Siècle de Cinema”, do Tay Garnett…? Churchill…??? Quando desejas tanto
encontrar e ler “When in Disgrace”, a caríssima autobiografia de Budd
Boeticher…?
E é claro que nestas
pequenas guerras, o Cinema sai sempre a ganhar…
Felizmente que na
altura ainda não era assim tão prendido a estas coisas do Cinema e que estes
pequenos dramas opcionais não se colocavam, porque há uma biografia de um
político que me lembro de ter lido muito cedo, em plena adolescência. É esta de
Abraham Lincoln que aqui vos mostro, que foi escrita por Nina Brown Baker, que
hoje sei ter sido uma escritora americana que se especializou em biografias
destinadas a um público juvenil.
Tal como tive a
preocupação de deixar registado, tratou-se de uma oferta do meu irmão José
Carlos no Natal de 1967, tinha eu acabado de fazer 14 anos. Fora editada em
Portugal pela Livraria Civilização, em 1965.
O livrinho era curto,
as letras eram grandes e de quando a quando surgiam umas ilustrações adequadas,
pelo que se lia muito bem, mesmo por alguém que, como era o meu caso, nessa
idade estava longe de ser um leitor compulsivo (e ainda hoje o não sou…).
Lembro-me que a li
rapidamente e com prazer.
Recordo-me de me ter
comovido com o precoce falecimento da mãe de Lincoln e sobretudo, com aquela
cena em que, já Presidente, lhe querem dar uma boa notícia acerca da evolução
da Guerra, mas ele não deseja ser interrompido porque está sentado há horas
junto ao leito do seu filho mais novo, que viria a falecer poucos dias depois…
Não hei-de eu, ainda hoje, gostar tanto de melodramas…!
E foi assim que eu,
que na altura já estava em muito boa idade de largar os heróis de
fantasia da minha meninice (o Kit Carson, o Jim das Selvas, o Major Jaime
Eduardo de Cook e Alvega, …) passei a ter mais um herói de carne e osso para
colocar ao lado do Vitor Damas…
É claro que, mais
tarde, vim a perceber que toda essa história da devoção do Norte pela
libertação dos escravos sulistas tinha muito que se lhe dissesse e não
obedecia, unicamente, a um ideal humanista, mas era, igualmente, um imperativo
que um sistema capitalista em rápida ascensão tinha de alargar os seus
tentáculos a toda uma extensa parte do país que se mantinha fechada como uma
sociedade rural e, em muitos aspetos, até quase feudal. Libertando-se os
escravos não só se obtinha uma nova mão-de-obra abundante, dócil e barata para
alimentar as grandes indústrias emergentes no Norte dos Estados Unidos, como,
igualmente, se poderiam alargar os negócios a toda uma enorme massa de novos
consumidores que passaria a ter algum poder de compra, ainda que
reduzido.
Muitos anos mais
tarde, no cinema, vi com prazer os filmes que tinham Lincoln como figura principal:
desde o de Griffith, de 1931, até ao mais recente do Spielberg (2012),
passando pelo “Abraham Lincoln in Illinois”, do John Cromwell (1940), e pelo
melhor de todos eles, o “The Young Mister Lincoln” do John Ford (1939).
Com toda esta devoção
“lincolneana”, não seriam umas míseras centenas de quilómetros que me iriam
impedir de fazer o trajeto entre Nashville e Hodgenville, no Kentucky, que foi
a terra onde Lincoln nasceu.
Em boa hora o fiz,
porque foi bom ter abandonado a autoestrada e atravessado aquelas magnificas e
solitárias estradas rurais que me fizeram sentir melhor o que é a América
profunda.
Mas façamos um pouco
de História.
Os pais de Lincoln,
Nancy e Thomas Lincoln, viviam numa pequena quintarola em Elizabethtown, no
Kentucky, na companhia da primeira filha do casal, Sarah. A aproximação do
nascimento de um segundo filho levou Thomas a procurar um novo terreno com
melhores condições.
Encontrou-o a uma
vintena de quilómetros a Sul de Elizabethtown. Uma quinta de razoável dimensão
(300 “acres”) que se chamava Sinking Spring, devido à existência de uma
corrente de água subterrânea, que Thomas Lincoln comprou por 200 dólares. A
quinta ficava perto do Moinho de Hodgen, que muitos anos mais parte viria a
estar na origem do nome da pequena cidade de Hodgenville.
Dois meses apôs a
mudança, em 12 de Fevereiro de 1809, nasceria o nosso Abraham.
A vida em Sinking
Spring corria de feição para a jovem Família Lincoln e o local onde viviam era
paradisíaco. Plantaram milho, feijão, abóboras e tudo o mais que fosse
necessário para providenciar a subsistência da família, e também dispunham de
algumas cabeças de gado. Água para tudo isso não lhes faltava…
Para além disso,
Nancy era tecelã e Thomas carpinteiro, pelo que não só faziam eles próprios a
roupa e o mobiliário de que necessitassem, como também pequenos negócios na
vizinhança.
Mas essa harmonia foi
Sol de pouca dura…
Os terrenos que
Thomas comprara não se encontravam devidamente legalizados e foram reclamados
em Tribunal por um anterior proprietário. Viu-se, assim, envolvido num conflito
judicial que se iria arrastar por muito tempo e o obrigaria a despender muito
do pouco dinheiro que tinha.
Imaginando que o
desfecho da Ação judicial não lhe seria favorável (como, na realidade, o não
foi…), Thomas antecipou-se e a poucos quilómetros a Norte da quinta de Sinking
Spring adquiriu um terreno mais modesto num local chamado Knob Creek, devido à
proximidade de um riacho com o mesmo nome, e para lá mudou a família em 1811,
teria Abraham pouco mais de 2 anos.
Foi nesse local,
igualmente belo, que Lincoln viveu a sua meninice, mas apenas até cerca dos
seus 8 anos de idade, porque um novo imbróglio judicial respeitante à compra
deste terreno fez com que Thomas Lincoln decidisse levar a Família para o
Indiana, onde já tinham também diversos parentes instalados. Desta vez Thomas
iria ganhar, anos mais tarde, a sua disputa judicial, mas a Família não mais
regressaria ao Kentucky.
São estes dois
lugares, Sinking Spring onde ele nasceu e Knob Creek onde viveu dos dois até
perto dos oito anos, que hoje constituem o “Abraham Lincoln Birthplace National
Historic Site”.
Contada a História,
será também interessante ver agora, para se compreender como é que estas coisas
das negociatas funcionavam já nos Estados Unidos cerca de 130 anos atrás, a
pequena história que está na origem da criação destes parques.
Como se compreende,
quando faleceu, em 15 de Abril de 1865, Lincoln estava longe de ser uma figura
consensual nos Estados Unidos. Uns veneravam-no, outros odiavam-no…
Pouco tempo após a
sua morte o Congresso dos Estados Unidos aprovou uma medida que tinha em vista
a preservação do local de nascimento de Lincoln, enquanto homenagem e memória
futura.
Mas essa medida não
provocou um entusiasmo generalizado e, sobretudo, nunca foram libertadas as
quantias indispensáveis à sua concretização, pelo que o lugar ficou entregue à
sua sorte durante as três décadas que se seguiram.
Em 1894, antecipando
a possibilidade de fazer um bom negócio devido à proximidade do centenário de
Lincoln, um empresário de Nova Iorque, de nome Andrew Dennett, comprou o
terreno com o objetivo de lá construir um hotel e um parque temático. E,
juntamente com o terreno, comprou também a cabana que se julgava ser aquela
onde Lincoln tinha nascido.
Mas o negócio não
correu tão bem como se esperava. O hotel nunca chegou a ser construído e Andrew
Dennet optou por desmantelar a cabana e pô-la em exibição em diversas cidades
dos Estados Unidos, com entrada paga, é claro. Terminada essa “tournée” os
troncos de madeira que constituíam a cabana regressaram ao local original e aí
ficaram armazenados.
À medida que os anos
foram passando foi crescendo um interesse mais sério em organizar uma homenagem
a Lincoln no seu centenário, se possível utilizando o local do seu nascimento
para aí instalar um monumento comemorativo e, sob a égide do jornal semanário
“Collier’s” foi criada, em 1906, uma organização, “A Lincoln Farm
Association”, cujo objetivo era o de angariar dinheiro junto de subscritores
para a aquisição do terreno e para o projeto e construção do tal “Memorial”,
como então se chamou ao monumento. Dessa Associação fizeram parte nomes
ilustres, tais como o escritor Mark Twain e o próprio Presidente Theodore
Roosevelt.
Parece que entre 1906
e 1909 a Associação logrou obter 400.000 dólares de 140.000 doadores. Para
incentivar a participação das pessoas de menores posses, qualquer doação entre
25 cêntimos e 25 dólares daria direito a um certificado personalizado, e ainda
hoje existe um “site” onde a lista das doadores e os respetivos certificados
podem ser consultados.
No preciso dia do
centenário, 12 de Fevereiro de 1909, a primeira pedra do monumento foi lançada
pelo Presidente Theodore Roosevelt e dois anos depois, perante 3.000
convidados, o “Lincoln Memorial Building” foi oficialmente inaugurado pelo novo
Presidente William Taft, também ele membro da “Associação”.
O resultado é este
que aqui vos mostro em diversas fotografias: um edifício feito de mármore e
granito com um pórtico de seis colunas estilo dórico, no cimo de uma escadaria
de 56 degraus, um por cada ano de vida que Lincoln tinha à data da sua morte.
Embora mais modesto, este monumento tem algumas semelhanças com aquele que
viria a ser erguido em Washington, treze anos mais tarde.
Encerrada no
interior do edifício foi colocada a cabana de maneira, numa sala com dezasseis
aberturas de janela, uma por cada um dos presidentes dos Estados Unidos
existentes até Lincoln.
Uma atenção especial
foi dada à nascente de água que deu origem ao nome da quinta (Sinking Spring) e
que esteve na origem da decisão da compra do terreno por parte do pai de
Lincoln e que se encontra localizada perto do início da escadaria.
Mas as curiosidades
não se ficam por aqui…
A autenticidade da
cabana de Lincoln, inicialmente aceite sem discussão, sempre suscitou muitas
dúvidas aos verdadeiros especialistas. Em 1949 essas dúvidas foram publicamente
manifestadas num artigo científico assinado por um tal Prof. Roy Hays, mas foi
apenas em 2004 que estudos aprofundados à madeira puderam demonstrar que ela
dataria dos anos 40 do Séc. XIX e que, portanto, nunca poderia ter sido a
cabana onde Lincoln nascera em 1809…
Essa posição
científica foi aceite sem discussão e por isso hoje se chama à dita cabana, que
continua lá fechadinha no interior do edifício, já não a cabana onde Lincoln
nasceu, mas sim a “simbólica cabana onde Lincoln nasceu” (Symbolic Birthplace
Cabin).
Quanto a Koock Creek,
o local onde Lincoln viveu dos 2 aos 8 anos, não foi alvo de um interesse
nacional tão acentuado.
Essa quinta acabaria
por ser comprada em 1928 por um casal, Chester e Hattie Howell Howard, no
intuito de preservar a memória da infância de Lincoln. Colocaram lá uma cabana
idêntica àquela onde Lincoln teria vivido e em 1932 abriram um bonito
restaurante, “Lincoln Tavern”, uma vez que a afluência de visitantes já o
justificava. A quinta manteve-se em poder da Família Howell até 2001, data em
que foi vendida ao Estado de Kentucky, ficando, mais tarde, a fazer parte
integrante do “Abraham Lincoln Birthplace National Historic Site”.
O local é muito
bonito e deixo-vos fotografias disso tudo, incluindo do célebre riacho que,
reza a história, quase ia causando a morte do jovem Lincoln, não fosse um amigo
lhe ter lançado um tronco que o salvou. É da vida nesta quinta que Lincoln tem
as suas primeiras memórias da infância, e terá sido aqui que o futuro
Presidente foi pela primeira vez confrontado com o mau trato infligido
aos escravos que trabalhavam nas imediações.
Quanto a Lincoln, já
se sabe que a sua memória é evocada de tempos a tempos, quando mais
interessa…
Foi-o, por exemplo,
nos tempos do New Deal de Franklyn Roosevelt, quando medidas de fundo foram
lançadas para apoiar os mais desprotegidos da Sociedade, nomeadamente nos
Estados do Sul.
Foi-o, de novo,
durante a II Guerra Mundial, com esse grande apelo que então foi feito à união
de todos os americanos em torno do esforço de guerra.
Foi-o também, e de
que maneira, nos anos violentos da luta dos negros pelos seus Direitos Civis, e
foi noutro Lincoln Memorial que terminou, em Agosto de 1963, a “Marcha sobre
Washington”, tendo sido nessa mesma escadaria que Martin Luther King Jr,
pronunciou o seu célebre discurso “I Have a Dream”.
E volta a evocar-se
também nos dias de hoje, pelas piores razões, quando Trumps já governaram e
novos Trumps estão à espreita para governar, não só na América como um pouco
por todo o Mundo, fazendo com que muito boa gente se recorde do final do curto
discurso de Gettysburg e dê por si a admitir que o tal governo do povo, pelo
povo e para o povo possa vir mesmo a desaparecer, progressivamente, da face da
terra. Se é que, na sua pureza, alguma vez chegou a existir em algum tempo e em
algum lugar…
Quanto à pequena
cidade de Hodgenville, quem passar por ela e não encontrar nenhum carro dos
dias de hoje imaginar-se-á em plenos anos 50… Duas estátuas de Lincoln dominam
a praça central, e depois à volta, como seria de esperar, é tudo Lincoln: o
Banco, o Museu, o restaurante…
Despeço-me, por hoje,
deixando-vos com a cena final de “Young Mister Lincoln”, um dos momentos altos
da Arte de Ford, esse mesmo acerca do qual Eisenstein uma vez disse que de
todos os filmes americanos existentes à sua época era aquele que mais gostaria
de ter feito…
PS:
É óbvio que as
informações mais detalhadas que aqui vos deixo não foram retiradas do livrinho
da minha infância, mas sim deste “Abraham Lincoln: A Living Legacy” que também
vos mostro e que constitui o Guia dos diversos “Abraham Lincoln National Park
Sites”, já que, para além deste, existem mais dois em Indiana e no Illinois.
Raríssimo seria o dia em que a censura não
esquartejava a crítica de televisão que Mário Castrim publicava no Diário de
Lisboa.
Acabou por chegar o dia em que Marcelo Caetano o mandou silenciar.
Proveniente de todos os
quadrantes, levantou-se um vendaval de protestos.
Outra coisa não restou às
múmias ditatoriais, senão aceitarem o regresso de Mário Castrim.
Quando esse dia chegou,
Castrim abriu com um lindíssimo texto.
Foi assim:
«Regresso. Comovido,
como quem regressa ao país da sua infância. Ficou para trás a calma, o sono
reencontrado, o silêncio por toda a casa. Ficou para trás a visita de amigos, a
frescura da noite, o deambular descuidado. Ficou para trás o ser “como toda a
gente”. E no entanto, este regresso, na sua felicidade perdida, tem o sabor de
uma felicidade reencontrada. Vou de porta em porta apertando as mãos que se
estendem, forte de uma grande família. Vou crucificar os olhos no fulgor violento
do televisor. Vou, pelo túnel da noite, em perseguição das palavras úteis, ou
necessárias, ou simplesmente possíveis. Difíceis sempre, arrancadas da carne a
grande profundidade da pele. Palavras que seriam de amizade, a selar a presença
vivida, revivida, de tantos rostos desconhecidos e atentos. Palavras de quem,
regressando ao frio da noite, regressa também, a morosamente, ao país da sua
infância, ao país do seu país.»
Mário Castrim começou a
fazer crítica de televisão, no Diário de Lisboa, em 14 de Maio
de 1965.
Nos tempos da ditadura, a
malta encontrava-se nos cafés e quando algum chegava, as palavras pouco
variavam:«Já leste o Castrim?»
Quase quarenta anos a
fazer crítica de televisão.
Em 1990, Fernando Assis
Pacheco calculou que Mário Castrim já passara 17 mil horas frente ao televisor.
Em Outubro de 2002, tempo da sua morte, as contas foram calculadas em 70 mil
horas.
A nossa ignorância em relação a estas coisas e
coisinhas da informática, dos computadores, é enorme.
O que se pensava ser uma coisa simples de resolver,
revelou-se algo de dificuldades acrescidas.
Entretanto quem nos ajuda nestas «coisas e coisinhas», teve que ir de férias com a família e sem qualquer possibilidade de concluir o
trabalho de recuperação, e tudo isto ficou coxo.
«Daqui a um mês, quando voltar de férias, poderei estar a escrever
sobre a Terceira Guerra Mundial. Daqui a um mês, Estados Unidos, Canadá,
Austrália, Japão, Europa da NATO e outros satélites poderão estar a combater,
simultaneamente, a Rússia, a China e respetivos aliados. Daqui a um mês, o
maior potencial destruidor do planeta Terra pode estar a ser utilizado, em
frenesim, num combate descontrolado entre todas as potências militares do
mundo.
É este medo que a visita de Nancy Pelosi a Taiwan me coloca.
O sinal que dá esta viagem da presidente da Câmara dos Representantes
dos EUA a um território autónomo que a China reivindica como seu (e a ONU
concorda) é terrível: depois das autoridades chinesas (em nome de três posições
anteriores de reconhecimento da soberania chinesa sobre Taiwan, assinadas pelos
líderes dos dois países) terem exigido que essa viagem não acontecesse, depois
de tudo o que se passou e se passa na Ucrânia, que conclusão poderemos
tirar?...
A resposta parece óbvia: é mesmo do interesse da maior potência do
mundo encontrar uma desculpa para lançar a guerra generalizada no planeta,
talvez convencida de que essa é a única maneira de manter a sua hegemonia.
A análise da liderança norte-americana, no seu egoísmo nacionalista
(semelhante aos egoísmos imperialistas que levaram à I Guerra Mundial), pode
até estar certa, mas a sua possível consequência custará milhões de vidas, uma
destruição enorme, uma miséria descomunal e o fim da liberdade nas democracias
- já declaradamente limitada desde que começou a guerra na Ucrânia.
«A voz de Laura Welman tornou-se
subitamente aguda:
-Com que então é isso que Gerrard te
anda a meter na cabeça? Não dês ouvidos ao teu pai, Mary. Nunca viveste nem
viverás à minha custa! Peço-te que fiques cá um pouco mais somente por minha
causa. Isto acabará em breve… Se as coisas acontecessem como devia ser, a minha
vida terminava neste momento, e não haveria nada destas demoras tolas com
enfermeiras e médicos.
- Não é bem assim, srª Welman. O dr.
Lord diz que pode ainda viver muitos anos.
- Obrigada, mas não o desejo! Disse-lhe
outro dia que num país devidamente civilizado, o que havia a fazer era eu declara-lhe
categoricamente que queria terminar com isto e ele liquidava-me sem dor com
qualquer droga apropriada. E disse-lhe mais: Se o doutor tivesse coragem,
fazia-o!
- E que disse ele?
- O descarado limitou-se a rir de mim,
filha, e disse que não estava para se arriscar a ser enforcado. E acrescentou
ainda: «Se me deixasse o seu dinheiro, era um caso diferente, é claro!» Ora
vejam o impertinente! Mas eu gosto dele. As suas visitas fazem-me melhor do que
os remédios que me receita.»
Há alguns anos, Mário Castrim, numa das
suas críticas de televisão no Diário de
Lisboa, deixou escrito:
«Quem já leu Jack London, fecha os olhos
quando entram os cãezinhos do circo.»
Nunca apreciei o
espectáculo que o meu clube, antes do começo dos jogos, oferece aos
espectadores com o voo da águia vitória.
Também não concordo
com o «speaker» do estádio quando informa que vais ser cantado o hino do Sport
Lisboa e Benfica.
O que eles põem a
tocar é «Ser Benfiquista», uma cançoneta do Luís Piçarra, nunca o hino do
clube.
A leviandade, a
ignorância têm destas coisas lamentáveis.
Por isso retardo
sempre a entrada no estádio para não ter que ver e ouvir disparates.
A águia é uma ave
nobre que não pode estar sujeita a cenas circenses de péssimo gosto.
Sobre isso uma
organização inglesa, que se dedica aos direitos dos animais, revelou ter
enviado uma carta ao Benfica a pedir que retire a águia dos jogos do clube, e
acrescentam:
«O lugar das águias não é em eventos desportivos. Na natureza, estas
aves magníficas percorrem vastos territórios, passam a maior parte do seu
tempo acima das árvores, voam livremente e caçam em espaços amplos.»
Tenho a quase certeza
que estas palavras caíram em cesto roto.
Quanto ao hino do
Sport Lisboa e Benfica, volto a contar :
Este é o verdadeiro
Hino do Sport Lisboa e Benfica cantado pelo Orfeão do Glorioso.
Quando sentado na catedral, ouve o speaker do Estádio, com uma
histeria de levantar fantasmas a dizer e agora, cachecóis ao alto, a
uma só voz, cantemos o hino do Sport Lisboa e Benfica, fica todo pele de
galinha.
O que se ouve é Luís Piçarra a cantar o Ser
Benfiquista que, segundo António Vilarigues, no seu
blogue O Castendo, é uma
cançoneta apresentada a 16 de Abril de 1953, num sarau, no Pavilhão dos
Desportos, para angariação de fundos destinados à construção do Estádio, com
letra e música de Paulino Gomes Júnior, um confesso salazarista.
Abra-se um parêntesis para dizer que Luís Piçarra, um ferrenho
benfiquista, foi pessimamente tratado, nos últimos anos de uma vida muito
difícil, por sucessivas direcções do clube.
Diga-se que o Hino do Sport Lisboa e Benfica dá pelo nome de Avante, Avante p’lo Benfica, data
de 1929, tempo do 25º aniversário do clube, tem letra de Felix Bermudes, um
democrata e um homem da Cultura, e música de Alves Coelho.
É esta a letra do hino:
Do velho Clube Campeão, Que um nobre esforço imortaliza, Em gloriosa tradição.
Olhando altivo o seu passado, Pode ter fé no seu futuro. Pois conservou imaculado Um ideal sincero e puro.
Avante, avante p'lo Benfica, Que uma aura triunfante Glorifica! E vós, ó rapazes, com fogo sagrado, Honrai agora os ases Que nos honraram o passado!
Olhemos fitos essa Águia altiva, Essa Águia heráldica e suprema, Padrão da raça ardente e viva, Erguendo ao alto o nosso emblema!
Com sacrifício e devoção Com decisão serena e calma, Dêmos-lhe o nosso coração! Dêmos-lhe a fé, a alma!
Claro que este Avante, Avante p’lo
Benfica fazia comichões ao ditador Salazar que acabou por ordenar que o hino
deixasse de ser cantado.
Ordens expressas foram, mais tarde, dadas à Censura para que os jornalistas não
designassem os jogadores do clube por «vermelhos» mas sim por «encarnados.»
Será este o primeiro Agosto sem o Jorge Silva Melo.
Tempo para recordar o que aqui se escreveu sobre o
filme em que ele andou às voltas com Pavese:
Um atento leitor
de Cesare Pavese sabe
que A Praia será
o menos político dos romances de Pavese.
A observação
deixou-a, também, Pedro Mexia, no Expresso,
quando em 2011 a Ulisseia reeditou A
Praia.
Pavese resume A Praia como um relato da
amizade de dois rapazes que uma mulher, casada com um deles, ao mesmo tempo une
e separa.
Aparentemente nada
acontece.
Quando o tempo de
Verão era outro, tão lento, no devagar depressa dos tempo, para citar Guimarães
Rosa: bebidas, bailes, jogos na praia, paixões de Verão, que as mães diziam que
ficavam enterrados na areia, pores-de-sol, ambientes, sensações, estados de espírito,
melancolias, situações de que a maior parte não se conseguem entender mas que
gostamos de olhar e sentir, as aparências que revelam mais do que iludem, o
carácter efémero das coisas, nostalgias de tempos perdidos, ele, Jorge Silva Melo que,
naquele tempo, quando andava a
ler romances arrepende-se de não ter dançado o twist e andar de carro
descapotável.
No Verão todos os
pecados se confundem.
Rilke dizia que só
o Verão vale a pena, ou Ruy Belo, mesmo que não conheças nem o mês nem o lugar
caminha para o mar pelo Verão.
Jorge Silva Melo
lê A Praia em 1965 e,
ficou a moer por dentro que a novela poderia dar um filme.
«Sempre li Pavese com os meus “jeans”, uma camisa aos
quadrados vermelha e os cigarros Porto que então fumava , entre os postais que
regularmente punha no correio.»
Dessas leituras,
dessas melancolias, em 1987, Jorge Silva Melo fez um filme e chamou-lhe Agosto.
La Spiaggia, de Cesare Pavese, cuja acção se passa nos
40, na Itália do pós-guerra, e aborda a ascensão da burguesia intelectual
depois de alguns anos de recuperação económica. O meu filme fala do momento em
que li a novela: é mais uma adaptação da leitura que fiz em 1965. Agosto é, se
calhar, o filme que gostava de ter feito quando ainda não podia fazer cinema. E
um filme que me faltou; é, talvez, o filme que gostava que a geração de João
Bénard da Costa tivesse feito quando se encontravam na Arrábida.
Mas esse tal João
Bénard da Costa percebe o recado, e de Agosto dirá: os
anos 60 da Arrábida, que Jorge Silva melo imortalizou no seu belíssimo Agosto,
ainda lhe revelaram coisas, a ele, que mais nenhum sítio de Portugal lhe podia
revelar.
De novo, Jorge
Silva Melo a falar de Agosto:
É um filme que tem saudades de um tipo de cinema que
existia e era exibido em Lisboa.Um cinema que eu vi no Condes com salas cheias,
que os meus pais viram, que as pessoas normais iam ver. Isto é, o cinema dos
amores na praia. Esse género de filmes nunca foi feito em Portugal e este meu
tem saudades desses filmes do tempo em que sonhávamos com as raparigas de
«Vespa» na praia.
O meu filme fala do momento em que li a novela; è mais
uma adaptação da leitura que fiz em 1965. Agosto é, se calhar, o filme que gostaria
de ter feito quando ainda não podia fazer cinema porque foi um livro que mais
me marcou depois de O Estrangeiro do Camus.
Todos pensamos que aquela prosa impessoal e tão
tocante foi escrita apenas para cada um de nós, que foi um sussurro que nos chegou
de Itália, um segredo que nos contaram, que foi realmente só para nós.
A minha primeira
leitura de A Praia foi
encantadora, apressada como sempre são as minhas primeiras leituras de alguns
livros, a que depois tenho, naturalmente, de voltar.
E volto até que os
olhos me doam.
Gosto do filme do
Jorge Silva Melo.
Gostaria de vos
dizer o porquê, mas faltam-me unhas...
É em A Praia que Pavese deixa escrita a
frase que pelos tempos fora tem sido repetida, e sempre continuará a ser, e que
vem na pág. 154 da minha velhinha edição de bolso da Portugália Editora:
Começava a
compreender que nada é mais inabitável do que um lugar onde se foi feliz.
EmO
Diabo Sobre as Colinas escreve que da sua infância só lhe
ficara o Verão, e num daqueles muitos seus dias depressivos e tristes,
escreveu: basta-me a companhia do
mar. Não quero ninguém. Na vida não tenho nada de meu. Deixem-me ao menos o
mar.