sábado, 28 de fevereiro de 2026

TRUMPALHADAS

Sempre a falar de paz, Donald Trump atacou seis países desde o início do mandato.

Com justificações diferentes, Trump encara o uso da força como um elemento central da sua presidência: Irão, Venezuela, Nigéria, Síria, Iémen e Somália foram os seus alvos. Outros estarão em agenda como Colômbia, Cuba, Gronelândia.


Além dos países que de facto atacou, somam-se as ameaças a outros que, por enquanto, escaparam a Trump: Colômbia, Cuba ou a Gronelândia são exemplos.

A ofensiva ilegal de Israel/Estados Unidos sobre o Irão denomina-se «Operação Fúria Épica» foi levada a cabo com Trump a ignorar o Congresso, os conselheiros militares, e até J.D. Vance se manifestou céptico de intervenções militares.

É entendimento geral que não se pode fazer uma mudança, assim do pé para a mão, de regime no Irão, será mesmo uma missão impossível.

Mas Trump, qual louco a voar pelo mundo de que se diz único dono, é taxativo:

«Eu posso ficar com aquilo tudo ou acabar com isto em dois ou três dias».

SOLTAS

Faleceu Vítor Dias.

É com profundo pesar que o Secretariado do Comité Central do PCP informa que faleceu Vítor Dias, com 80 anos, recordando a sua intervenção destacada na actividade do Partido, onde desempenhou importantes tarefas e responsabilidades.

Vítor Dias, empregado de escritório, aderiu ao PCP em 1973 sendo funcionário do Partido desde 1976.

Tendo integrado diversas associações culturais e desportivas do concelho de Vila Franca de Xira, foi dirigente da Associação de Estudantes da Faculdade de Direito de Lisboa em 1966/1967 e membro da direcção da Cooperativa Livreira e Cultural “DEVIR”. A partir de 1969 integrou diversas estruturas da CDE de Lisboa, pelo qual foi candidato na batalha política aquando da farsa eleitoral fascista de 1973 e dirigente do MDP/CDE até 1976. Militante antifascista, integrou a luta pela democracia e a liberdade tendo sido preso a 6 de Abril de 1974 e libertado com a Revolução de Abril.

Membro do Comité Central desde o IX Congresso, Vítor Dias integrou a Comissão Política do Comité Central do PCP de Maio de 1990 até 2008. Assumindo diversas tarefas, foi responsável pelo trabalho de Informação e Propaganda Central, autor de inúmeros textos na imprensa do Partido e activo participante nas diversas batalhas eleitorais a que o Partido foi chamado. Foi ainda membro da Assembleia Municipal de Vila Franca de Xira no primeiro mandato autárquico de 1976/1979. Nos últimos anos manteve uma atenção à situação do País e do Mundo intervindo com a sua opinião a partir do blogue Tempo das Cerejas de que era autor.

1.

Portugal é o segundo país mais envelhecido da União Europeia, apenas ultrapassado pela Itália.

2.

A procura turística por Portugal continua em alta e os próximos tempos esperam-se animadores para o setor hoteleiro. Há mais de 70 hotéis que vão abrir portas durante este ano, acrescentando mais de 3800 quartos ao mercado. A maioria é em Lisboa, no Algarve e no Porto.

3.

«A comparação é cruel, justa e conduz inevitavelmente à conclusão de que os protagonistas políticos são hoje, de um modo geral, bastante medíocres e fazem deslizar para a mediocridade o discurso e toda a circunstância política».

4.

Todos nos enganamos.

Uns mais do que outros.

Todos acreditamos.

Uns mais do que outros.

Zita Seabra

Militante do PCP desde os 15 anos, passou à clandestinidade com 17 anos. Participou nas lutas estudantis até ao 25 de Abril, sendo responsável pela criação da União dos Estudantes Comunistas.

Dirigente comunista e Deputada à Assembleia da República de 1975 a 1988 pelo PCP e pela APU, foi expulsa do PCP em 1988.

Foi deputada eleita pelo Grupo Parlamentar do PSD na Assembleia da República e vice-presidente do Grupo Parlamentar do PSD na X Legislatura. Foi, ainda, vice-presidente do PSD em 2009.

Coordenou o Secretariado Nacional para o Audiovisual em 1993, ano em que assumiu a presidência do Instituto Português de Cinema. De 1994 a 1995, foi presidente do Instituto Português da Arte Cinematográfica e Audiovisual.

Coordenou o Secretariado Nacional para o Audiovisual em 1993, ano em que assumiu a presidência do Instituto Português de Cinema. De 1994 a 1995, foi presidente do Instituto Português da Arte Cinematográfica e Audiovisual. Aderiu ao Partido Social Democrata  e, nessa condição, Eleita pelo PSD no círculo de Coimbra em 2005, foi deputada na X legislatura e vice-presidente do Grupo Parlamentar do PSD na Assembleia da República até outubro de 2007. Nessa legislatura, destacou-se pelas posições que tomou contra a legalização do aborto, de que havia sido uma das mais acérrimas defensoras nos tempos de militância comunista. No XXX Congresso do PSD, em 2007, passou a ser uma dos seis vice-presidentes da Comissão Política Nacional deste partido, cargo que desempenhou até maio de 2008.

Cadernos de Lanzarote 2º volume de José Saramago:

Entrada do dia 8 de Janeiro de 1994:

« Chegaram-me ecos do desastre que terá sido a participação de Zita Seabra no programa de Manuela Moura Guedes. Entristece-me verificar como afinal valia tão pouco, intelectual e eticamente falando, alguém a  quem os acasos e  as necessidades políticas colocaram em funções e confiaram missões de responsabilidade dentro e fora do Partido. Que Zita Seabra se tenha desempenhado delas, nesse tempo, com coragem e dignidade, não pode servir para disfarçar nem desculpar o seu comportamento actual. Zita Seabra é hoje o exemplo perfeito e acabado do videirinho, palavra suja que significa, segundo os dicionários e a opinião da gente honrada, «aquele que para chegar aos fins não olha aos meios nem hesita em humilhar-se e cometer baixezas». Ouço, leio, e chego a uma conclusão: esta mulher vai acabar mal.»

OLHAR AS CAPAS

América, Nixon, Etc…

Diversos Autores

Capa: Fernando Felgueiras

Novos Cadernos D. Quixote nº 1

Publicações Dom Quixote, Lisboa s/d

Nos Estados Unidos, todos os negócios que não são tratados pelo telefone são-no em relação com o álcool ou com a gastronomia, muitas vezes em condições de embriaguez avançada.

ATAQUE COORDENADO CONTRA O IRÃO


O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, anunciou, num vídeo publicado no X, que Israel e os Estados Unidos lançaram uma "operação conjunta" contra o que classificou como a "ameaça existencial" representada pelo Irão.

 “Ao grande e orgulhoso povo do Irão, digo-vos que a hora da vossa liberdade está a chegar. Abriguem-se, não saiam de casa, é muito perigoso, bombas vão cair em todo o lado. Quando terminarmos de derrubar o vosso Governo, ele será vosso para o ocuparem”, afirmou Donald Trump no final de um vídeo de oito minutos, publicado na sua Truth Social, em que anuncia o ataque militar.

"Esta será provavelmente a vossa única oportunidade durante [várias] gerações", afirmou. "Durante muitos anos, pediram a ajuda da América, mas nunca a obtiveram. Nenhum Presidente esteve disposto a fazer o que eu estou disposto a fazer esta noite. Agora têm um presidente que vos está a dar aquilo que querem, por isso vejamos como respondem."

MÚSICA PELA MANHÃ

Soube-se ontem que Donald Trump, sugeriu uma “tomada de controle amistosa” de Cuba.

“Eles não têm dinheiro, eles não têm nada neste momento. Mas estão conversando connosco e talvez tenhamos uma tomada de controle amistosa de Cuba”.

Ninguém sabe o que é um controlo amistoso de um país sobre outro. Mas vindo de quem vem, não se augura nada de bom.

Lembremos, entretanto a música cubana, fumemos um charuto e bebamos um trago de rum, ou dois...

Company Segundo que morreu de insuficiência renal com 95 anos dizia:

«Enquanto tiver sangue nas veias, vou gostar de mulheres. Um verdadeiro cubano bebe rum, fuma “habanos” e os olhos brilham-lhe quando passa uma mulher bonita na rua. Company Segundo nasceu junto ao mar, em Siboney e era filho de um maquinista que trabalhava nos comboios de minas de manganésio. Com 5 anos de idade começou a fumar charutos que acendia a pedido da avó que morreu com 115 anos.»




À LUPA

Centenas de pessoas ficaram impossibilitadas de regressar a casa por causa dos danos da tempestade Kristin. Números estão a baixar, mas há quem ainda não saiba como será o futuro.

Da reportagem de Patrícia Carvalho no Público.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Eu detesto o mando; dão-me nojo os mandões.

António Sérgio

Legenda: Alexi Pretti assassinado, em Minneapolis, pela polícia norte-americana.

OLHAR AS CAPAS


 Confissões de Um Cooperativista

António Sérgio

Editorial Inquérito, Lisboa 1948

Os povos conscientes fazem os bons governos; não são os governos que fazem os povos bons.

NESTE DIA


Estamos a 25 de Maio de 1994, com o 2º volume dos Cadernos de Lanzarote de José Sartamago e o tema é Miguel Torga e uma sua frase ao agradecer um prémio: «Logicamente, eu devia ter ficado a cavar na minha terra; esse era o meu destino.»

A interpretação Saramaguiana da frase:

«Sem saber que palavras o conduziram a estas, sem conhecer as outras que proferiu depois, umas expondo os dados prévios do pensamento, outras apresentando as conclusões, leio algo que disse Miguel Torga ao agra­decer o Prémio da Crítica: «Logicamente, eu devia ter ficado a cavar na minha terra; esse era o meu destino.» À primeira vista, parece que Torga quis reunir numa mesma irremovível fatalidade a lógica e o destino. Po­rém, o que ele quis dizer, imagino, é que, tendo em conta o fim-do-mundo onde nasceu (as serranias de Trás-os- Montes) e a dura vida dos seus primeiros anos (uma família pobre), dever-se-ia esperar que dali saís­se, logicamente, um cavador, nunca um poeta, ou, quan­do muito, no caso de a vocação apertar, alguém que, intelectualmente, se ficaria pelas quadras de pé-quebra­do para reforço de galanteios e animação de récitas e ro­marias. Sabemos, contudo, que nem sempre as coisas se passaram assim: a vida lá encontrava maneira de partir os dentes à lógica, e o destino, duvidoso nos rumos, mais do que se crê, não raro acabou por levar aos ma­res do Sul quem do Norte julgava não poder sair. Hou­ve mesmo um tempo em que parecia que ninguém nascera nas cidades grandes, éramos todos da província.»

José Saramago apreciava Miguel Torga.

Lamento de José Saramago no momento da morte de Miguel Torga:

«Não conheci Miguel Torga. Nunca o procurei, nunca lhe escrevi. Limitei-me a lê-lo, a admirá-lo muitas vezes, outras não tanto. Foi só de leitor a minha relação com ele.

(…)

Achava que havia em Torga algo que eu gostaria de ter, e não tinha: o direito ganho por uma obra com uma dimensão em todos os sentidos fora do comum, a música profunda de uma sabedoria que nascera da vida e que à vida voltava, para não se tornarem, ambas, mais ricas e generosas. Que Torga não era generoso, dizem-no. Mas eu falo de outra generosidade, a que se entranha nesse movimento de vaivém que em raríssimos casos une o homem à sua terra e a terra toda ao homem.

Demasiado cedo morreu Miguel Torga. Compreendo agora quanto gostaria de tê-lo conhecido. Demasiado tarde».

O sentido das palavras de Torga, ou muito eu me engano, tem mais que se lhe diga. Equivalem ao discur­so de qualquer velhice lúcida - «Cheguei até aqui, fiz o que podia, lástima não ter sabido ir mais além, agora já é tarde» -, mas representam principalmente a cons­ciência dorida de que nada dura, quiçá algo mais a obra que a vida, mas tão pouco, e que, no fundo, tanto monta à felicidade, própria e alheia, ter sido capaz de escre­ver A Criação do Mundo, como, de olhos no chão, ter ficado a cavar as terras do mesmo mundo, sem outro desejo e outra necessidade que ver crescer a seara, moer o trigo e comer o pão.»

À LUPA

Há um problema grave que os americanos terão de resolver que é o da sanidade mental do homem que resolveram reeleger para um segundo mandato presidencial.

Antes disso, terão que resolver a própria sanidade mental por terem oferecido à América, e ao Mundo, tão nefasto personagem.

NOTÍCIAS DO CIRCO

O nosso grande mal, de todos os tempos, são os dons sebastião que, volta e meia, enxameiam os nossos dias.

Um político que a muita boa gente não oferece credibilidade, aproveitou os nevoeiros de Matosinhos, para desancar Luís Montenegro e o seu governo.

Cito Miguel Guedes no Jornal de Notícias:  

«Com brutalidade, Passos Coelho não resiste à tentação de acreditar que, depois de Montenegro, o futuro ainda lhe deve um último acto. Acredita que a maioria de Direita é ainda matéria moldável nas suas mãos, artífice de uma revolução inacabada. Mas o tempo político é um animal caprichoso: raramente devolve intacto aquilo que um dia ofereceu.»

Estamos nisto e os papagaios-comentadores-televisivos tão cedo não vão largar o osso e, como em quase tudo, deixamos que isso nos aconteça.

EPÍGRAFE

De palavras não sei. Apenas tento

desvendar o seu lento movimento

quando passam ao longo do que invento

como pré-feitos blocos de cimento.

 

De palavras não sei. Apenas quero

retomar-lhes o peso  a consistência

e com elas erguer a fogo e ferro

um palácio de força e resistência.

 

De palavras não sei. Por isso canto

em cada uma apenas outro tanto

do que sinto por dentro  quando as digo.

 

Palavra que me lavra. Alfaia escrava.

De mim próprio matéria bruta e brava

- expressão da multidão que está comigo.

 

José Carlos Ary dos Santos em  Insofrimento in Sofrimento

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

NÃO PASSARÁ!

NOTÍCIAS DO CIRCO

Nunca estamos preparados para uma série de procedimentos, necessário e que têm a sua urgência.

Incompetência e mais qualquer coisa. 

«Depois de ter deixado passar o prazo do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), que permitiria ter um orçamento de 30 milhões de euros para a construção de dois novos centros de instalação temporária  de estrangeiros em processo de expulsão, a PSP criou uma “solução provisória”: a instalação de contentores com 80 camas na Unidade Habitacional de Santo António, no Porto. A notícia foi avançada pelo Diário de Notícias e confirmada pelo PÚBLICO junto de fonte oficial da PSP.

Expulsão de estrangeiros: depois de falhar PRR para centros, PSP paga 800 mil euros por contentores no Porto
Segundo a PSP afirmou ao PÚBLICO, o concurso para esta “solução provisória”, estimada em cerca de 800 mil euros, que sairão do orçamento da PSP, está a ser preparado, e prevê-se que a instalação dos contentores fique pronta até 12 de Junho, data em que os Estados-membros têm de ter implementadas as novas regras do Pacto para as Migrações e Asilo da União Europeia. Segundo a PSP, "a capacidade identificada para Portugal estima uma lotação instalada para cerca de 300 passageiros".

Para André Jorge, presidente do Plano de Recuperação e Resiliência — que tem defendido alternativas à detenção, referindo que esta deve ser a medida de último recurso — a solução dos contentores faz sentido enquanto for provisória, garante “habitabilidade básica", “mas claro que choca”. Atribuiu a situação a falta de planeamento, pouca transparência e ausência de debate público, defendendo que, sem visibilidade, nada disto “é discutido no espaço público”.

Afirma que a detenção é “suficientemente dura e penosa” para alguém “que não cometeu nenhum crime”: “Migrar não é um crime”, e as condições de habitabilidade, cuidados de saúde, apoio psicológico, informação jurídica e acompanhamento são “fundamentais”.»

Lido no Público de hoje

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Estamos perante um livro muito bonito.

Octavio Paz, numa nota, explica:

«As construções e caixas de Marie José são objectos tridimensionais transfigurados pela sua imaginação e a sua sensibilidade em conceitos visuais, enigmas mentais portadores, às vezes de imagens bizarras e inquietantes, outras de percepções irónicas.

Mais do que coisas para serem vistas, são asas para viajar, velas para vaguear e divagar, espelhos para atravessar.»

O texto introdutório de José Bento, acima apresentado, explica o resto. 

OLHAR AS CAPAS


Figuras e Figurações

Octavio Paz e Marie José Paz

Ilustrações: Marie José Paz

Apresentação e tradução. José Bento

Colecção Documenta Poética nº 58

Assírio & Alvim, Lisboa, Dezembro de 2000

 

Enigma

 

Nascemos de uma pergunta

cada um dos nossos actos

é uma pergunta,

nossos anos são um bosque de perguntas,

tu és uma pergunta e eu sou outra,

Deus é uma mão que desenha, incansável,

universos em forma de perguntas.

DÁ-ME A TUA MÃO

Dá-me a tua mão:

Vou agora te contar

como entrei no inexpressivo

que sempre foi a minha busca cega e secreta.

 

De como entrei

naquilo que existe entre o número um e o número dois,

de como vi a linha de mistério e fogo,

e que é linha sub-reptícia.

 

Entre duas notas de música existe uma nota,

entre dois fatos existe um fato,

entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam

existe um intervalo de espaço,

existe um sentir que é entre o sentir

- nos interstícios da matéria primordial

está a linha de mistério e fogo

que é a respiração do mundo,

e a respiração contínua do mundo

é aquilo que ouvimos

e chamamos de silêncio.

 

Clarice Lispector  

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Nas profundezas do desconhecido, para encontrar algo novo.

Baudelaire

O MUNDO A FUNCIONAR

«O mundo continua a funcionar, outras vidas decorrem sem eu ser chamada a encontrar objectos que não fui eu que perdi»

Margarida Ferra

RETRATOS


Sou egoísta, impaciente e um pouco insegura. Cometo erros, sou descontrolada e, por vezes, difícil de lidar. Mas se não consegue lidar comigo nos meus piores momentos, de certeza que não me merece nos meus melhores.

Marilyn Monroe

OLHAR AS CAPAS

Sebastião Salgado

Direcão: Henrique Monteiro

Colecção Mestres da Fotografia

Edição: Expresso, Lisboa 2008

Às vezes a fotografia não é suficiente. Mas a luta que travamos dá-me ânimo para fazer do mundo um lugar melhor.

AMAR-TE É VIR DE LONGE

Amar-te é vir de longe,

descer o rio verde atrás de ti,

abrir os braços longos desde os sete

anos sob a latada ao pé do largo,

guardar o cheiro a figos vistos lá,

a olho nu, ao pé, ao pé de ti,

parar a beber água numa fonte,

um acaso perdido no caminho

onde os vimes me roçam a memória

e te anunciam mãos e te perfazem;

como se o sino à hora de tocar

já fosse o tempo todo badalado,

e a tua boca se abrisse atrás do tojo,

e abaixo dos calções as pernas nuas

se rasgassem só para o pequeno sangue,

tal o pequeno preço que me pedes.

Atrás da curva estavas, és, serias,

nos muros de granito, nas amoras.

Amar-te era lembrança e profecias,

uma porta já feita para abrir,

e encontrar o lar ou música lavada

onde, se nasces, vives, duras, moras

- meu nome exacto e pão

no chão das alegrias.

 

Pedro Tamen

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

POSTAIS SEM SELO

Seria possível a alguém que o que eu procurava era apenas ver uma coisa que já tinha visto?

Cesar Pavese

SOLTAS


Francis Ford Coppola produz vinhos para fazer os filmes que quer sem depender dos estúdios.

 «Sou apenas uma folha no vento. Fiz quase vinte filmes, muitos deles interessantes. Fala-se sempre nos altos e baixos da minha carreira, mas os meus verdadeiros “flops”, os que não fizeram dinheiro ou não tiveram aplausos ou prémios, foram apenas quatro: Do Fundo do Coração, Rumble Fish, Jardins de Pedra e Cotton Club. Acho que os meus “flops”,  são dos mais interessantes que algum realizador teve, porque eram filmes que tentavam ser diferentes. Sei que as pessoas pensam em mim primordialmente como realizador de O Padrinho, porque foi O Padrinho que o público realmente gostou. Estou a tentar fazer os filmes que quero e sempre a adiá-los para ganhar o dinheiro para pagar as dívidas dos filmes que fiz. Nestes últimos dez anos tenho estado sobretudo ocupado com a minha própria sobrevivência.»

1.

«São breves as flores dum cacto e tardam a nascer. Quando nascem vêm embrulhadas numa penugem que faria inveja ao papel de seda e abrem-se perfeitas, como peças de porcelana fina. Como uma dedicatória num “Livro da Noite” que dizia assim:

“Para ti, a fraternidade de quem escreve livros com a noite para que outros dias sejam possíveis”.»

2. 

Epitáfio do poeta Nicolas Guillen;

«Aqui estou. Lamento tê-los feito esperar tanto tempo.»

3.

E a sua inteligência parecia ser daquelas que acendem fósforos à distância.

4.

Até amanhã é uma primavera de abraços que se adia.

5.

Viagens.

Partir é bom, mas regressar é excelente.

6.

Não necessito de resposta. A dúvida delicia-me longamente.

7.

Em 1999, Marcelo Rebelo de Sousa coordena e publica a Fotobiografia de Baltasar Rebelo de Sousa, seu pai, ministro da ditadura e governador-geral de Moçambique.

O livro foi apresentado num velho restaurante da marginal, junto a S. João do Estoril.

Ness e restaurante, nos anos 50, Baltazar Rebelo de Sousa reunia-se com o seu grupo político numa mesa redonda sempre reservada. Jantavam, cavaqueavam, com música de fundo do Conjunto Shegundo Galarza.

A lagosta àTherminor, um clássico da culinária francesa, custava 48 escudos.

8.

O julgamento de José Sócrates volta a ser adiado porque a advogada nomeada, renunciou invocando que dez dias que a juíza lhe deu para consultar o processo não é tempo suficiente.

O processo é absolutamente gigantesco: tem 300 mil páginas, 126 apensos, tem 400 horas de escutas telefónicas.

9.

Chega de mortes. Chega de destruição.

 ONU diz que guerra na Ucrânia é “uma mancha na nossa consciência coletiva”

À LUPA

Hoje, no final de um fórum organizado, em Matosinhos, pela SEDES, Pedro Passos Coelho debruçou-se sobre a passagem de Luís Neves de director da Polícia Judiciária para ministro da Administração Interna.

Não está de acordo e entende que não é um bom sinal,  é mesmo um grave precedente.

A minha ignorância da matéria não permite qualquer comentário.

O que a Lupa consegue apanhar, é que Pedro Passos Coelho não gosta de Luís Montenegro e terá, possivelmente, começado a sua campanha para a futura presidência do PSD.

NESTE DIA


Hoje, é mesmo NESTE DIA, 24 de Fevereiro de 1991, e estamos num Conta Corrente do Virgílio Ferreira

Lá fora o dia está cinzento, depois de uns estupendos dias de sol que já anunciam a Primavera.

Uma boa parte destes Diários são ocupados por uma certa amargura de Vergílio Ferreira, não declarada, mas em que por sinais não ocultos, o autor vai dizendo que o fim se aproxima.

«Apressa-te, apressa-te, tens já poucos dias para dizeres que existes. E se tu não o disseres, quem é que vai suspeitá-lo?»

Mas vamos ao que o autor sentia neste dia de há 35 anos, um domingo:

Tenho reparado às vezes que, em ritmo acelerado, o coração me para com frequência ou se suspende um momento para depois retomar o ritmo em que bate. Arritmia? Efeito do próprio nervosismo sem razão? Não estou curiosos de o saber. Disse-me um tipo uma vez: as doenças do coração não se tratam, porque são um benefício da natureza. Admito-o para minha tranquilidade»

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Conforme escrito ali atrás, regressamos às capas dos policiais da Biblioteca da Casa que estavam em falta.

Da Colecção Alibi, editada pelas Edições 70, só existem dois volumes. O que hojese apresenta da autoria de James Hadley Chase e o Rififi de Auguste le Breton com uma excelente tradução de Mário-Henrique Leiria. 

OLHAR AS CAPAS


Não Mandem Orquídeas a Misa Blandish

James Hadley Chase

Tradução: Mariana Pardal Monteiro

Capa: Manuel Portela

Colecção Alibi nº 4

Edições 70, Lisboa, Agosto de 1983

Tudo começou numa tarde de Verão de Julho, um mês de calor intenso, céu descoberto e ventos escaldantes carregados de poeira

Na junção das estradas de Fort Scott e Nevada que atravessa a Estrada Nacional nº 54, a estrada principal de Pittsburg para Kansas City, há uma bomba de gasolina e um café: uma estrutura tosca de madeira com uma única bomba explorada por um viúvo de idade e a sua filha, uma rapariga gorda e loira.

CONVERSANDO


O meu pai passou alguma parte da vida a comprar livros de História e Filosofia, para calmamente, quando chegasse o tempo da reforma, os lesse lesse. Não aconteceu. Antes dedicou-se a livros simples em que a Colecção Vampiro são um razoável espaço na Biblioteca da Casa.

Posso dizer que quase aprendi a ler em A Bola, mas não direi que foram os livros da Vampiro que fizeram de mim um leitor, foram outros os livros e neles está Eça de Queiroz.

Borges era um leitor atento de romances policiais, mas eu também nunca fui um borgiano puro.

Por aqui, no Olhar as Capas, trouxe esses livros da Vampiro, exclusiva compra do meu pai, quase todos em 2ª mão.

Ficaram os policiais da Regra do Jogo e da Alibi por apresentar que trarei agora e estes foram compra minha, não por serem de fácil leitura, muitos não o são, mas por terem um excelente tamanho para levar no bolso quando saía de casa e os ler nos transportes a caminho do trabalho.

Reparei agora que não publiquei todas as capas de Rex Stout e o seu Nero Wolf, mais o secretário Archie Goodwin,  Fritz Brenner o cozinheiro, também Theodore Horstman, o fiel jardineiro das suas preciosas orquídeas.

Aos poucos, rectificarei a falha.

ESTA MANHÃ DE AGOSTO

Nesta manhã de Agosto
encontrei o papel onde tinha escrito
a idade em que Blaise Cendrars
perdeu a mão direita
e fiquei a sentir a dor
que me atormentava. Não tomei aspirina
nem esqueci a tua carta
de ontem, aquele momento
em que dizes eu querer
arrastar-te comigo “para esse universo
onde a vida é trocada por palavras”.

Tenho lido os poetas
da minha geração. Conheço
o primeiro poema, aquele que inaugurou
a vida, também em mim.
Cansada de ir à praia, à piscina,
procuro livros, uma emoção linguística,
o verso desconhecido.
Guardei uma frase de Musil, na caixa
onde tenho os selos, um minúsculo relógio
que decidi não usar.

Não posso viver sem a música de Schubert,
ou aquela peça de Brahms – tudo isto
são palavras, a vida passa-se lá fora,
o Inverno há-de vir e não poderei
totalmente fugir ao desconforto.

Falava-se de As Túlipas
e começo a entender. Esta música,
estas palavras, a morte na dobra do lençol,
meu frio corpo na penumbra, no paraíso inicial
da anestesia. Perdida a razão no inferno
da dor, a cabeça irreal, meu poema
esquecido na margem do sono. A morfina,
as enfermeiras, tudo o que pudesse
polir o tormento.

E hoje acabei
por tomar aspirina, gastar o rosto,
permanecer em casa.

 

Isabel de Sá


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

POSTAIS SEM SELO

Comecei a olhar para o chão em vez de olhar para o céu. Comecei a olhar para o que as pessoas deitam fora em vez de para aquilo que os arquitectos constroem.

Paulo Nozolino

Legenda: fotografia de Luís Eme

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Como fiquei um tanto ou quanto enfastiado com os 4 volumes da Conta-Corrente, nunca comprei o 5º volume tão pouco os restantes novos volumes da obra diarística de Vergílio Ferreira.

Mas na reedição que a Quetzal está a disponibilizar com a obra de Vergílio Ferreira, não resisti: comprei o volume que contém os 1989 a 1992 da Conta Corrente.

«Quando é que acaba com isso? - era a pergunta que o Lourenço me fazia. Quando ia saindo mais um volume deste diário e ele me fazia ainda perguntas. Está por pouco, meu caro Eduardo, e agora é mesmo de vez».

Tinha toda a razão o Eduardo Lourenço!

Tinha eu a razão por, em devido tempo, não ter alinhado em mais volumes da Conta-Corrente, eu que detesto ter razão.

Estes últimos diários são um desconsolo.

A mesma atitude envinagrada contra tudo e mais alguma coisa.

Invejava os seus pares por não o tratarem com a dignidade que entendia merecer. Visitava as livrarias, folheava livros, mas não os comprava por os achar caríssimos. Claro que eram caros, mas se gostamos de ler livros, teremos que fazer sacrifícios para os comprar. Sei bem do que falo.

Até os amigos não tratava bem. Um exemplo é António Ramos Rosa: vai lendo os seus poemas, já escreveu sobre eles mas supõe que António Ramos Rosa «jamais leu um romance meu».

Um dia, em Tróia, Mário Soares disse-lhe que o Nobel lhe ficaria muito bem.

No ano em que Octávio Paz venceu o Nobel, escreveu:

«Nós portugueses arrastamos connosco, desde que me conheço, a cruz deste vexame de não existirmos para a Academia Sueca.»

Vergílio Ferreira morreu em Março de 1996.

O destino, ou o que lhe quiserem chamar, poupou-lhe a atribuição (1998) do Prémio Nobel a José Saramago.

José Saramago e António Lobo Antunes têm citações pífias nas 1098 páginas do livro.

Os Diários de José Gomes Ferreira são tratados quase a pontapé e fica pela quase margem de lhe chamar xéxé.

Vergílio Ferreira tem livros interessantes, um nome na nossa literatura, mas no resto foi sempre assim, uma inveja que nunca conseguiu dominar.

Talvez a solidão de Fontanelas o atormentasse, ou os mesmos pratos do dia do Café do Zé. Talvez…

OLHAR AS CAPAS

Conta Corrente

1989-1992

Vergílio Ferreira

Capa: Rui Rodrigues

Quetzal Editores, Lisboa Novembro de 2025

Não, não tenho «a obsessão de ser o primeiro», como certa amiga desbocadamente à Regina. Tenho é a obsessão de que me não são segundos os motivos que me obcecam. E é porque não são segundos e são sem dúvida primeiros que normalmente falho em chegar até eles ou eles até mim. O resto não é para aqui, mas para as pistas de atletismo, como talvez já tenha dito.

NOTÍCIAS DO CIRCO

Copiado do Público:


«Luís Neves tomou posse como novo ministro da Administração Interna e prometeu abraçar “todas as propostas positivas” que lhe cheguem. Tendo deixado a Polícia Judiciária (PJ) a poucos meses de concluir o seu terceiro mandato como director nacional, o novo ministro afasta quaisquer “reservas” quanto a esta transição e explica ter sentido o apelo para “abraçar este novo projecto”.
No final da cerimónia, que decorreu no Palácio de Belém, Luís Neves foi questionado sobre o seu papel na PJ na investigação ao dossier Spinumviva e à construção da casa de Espinho de Luís Montenegro, apressando-se a afastar qualquer conflito relacionado com o seu passado na investigação criminal: “O director nacional não investiga ninguém. O papel de um director nacional é organizar e prover meios para a instituição.”».

Finalmente, um primeiro-ministro deste país, não recolhe à tralha partidária para colocar no cargo de primeiro-ministro um independente. Claro que esta história dos independentes tem o que se lhe diga mas é a vida, como diria o engenheiro.

Sabe-se que Luís Neves não alinha na narrativa da insegurança com os imigrantes e o presidente «daquela coisa» já declarou aos adeptos que vai estar muito a tento, podem contar com ele. Pois então!...





 


É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS

O anúncio não é recente terá para aí uns 10/15 anos, não sei bem. Quando fumava cachimbo, apesar da falta de espaço, estive para comprar este móvel.

Mas não tinha cachimbos suficientes e comprar mais não era possível, havia uma família para sustentar, havia livros e discos para comprar, havia idas ao cinema, havia…

APRENDE A FALAR

aprende a falar – diz

a rosa: escreve de noite

e que o meu múltiplo sol

te guie inúmeros

os caminhos, põe-te numa sala

com a luz apagada

onde chegue acesa

a de uma outra, e

frágil,

ao papel que para ela

voltas. então, falas

das paixões, da pétala

que cai no interior

do coração

e navega na sombra do

sangue,

de assombro em

assombro.


Manuel Gusmão

domingo, 22 de fevereiro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Eu já não choro. Nem sequer quando recordo

o que ainda me falta chorar.

José Hierro

VELHOS RECORTES

Diário de Notícias, 2 de Março de 2011.

OLHAR FRIGIDEIRAS, TACHOS, PANELAS

TEMPOS INTERESSANTES

«Estou muito preocupado, não por mim, mas pelos meus netos. Escrevi-o há 30 anos: o que se passa no mundo não é um fenómeno de imigração, mas de migração. A migração produz a cor da Europa. Quem aceitar esta ideia, muito bem. Quem não a aceitar, pode ir suicidar-se. A Europa irá mudar de cor, tal como os Estados Unidos. E isto é um processo que demorará muito tempo e custará imenso sangue. A migração dos alemães bárbaros para o Império Romano, que produziu os novos países da Europa, levou vários séculos. Portanto, vai acontecer algo terrível antes de se encontrar um novo equilíbrio. Há um ditado chinês que diz: 'Desejo-te que vivas numa era interessante'. Nós estamos a viver numa era interessante.»

Umberto Eco em entrevista ao Expresso, 07.09.2015

NOTÍCIAS DO CIRCO

«Os pontos de contacto entre dirigentes, candidatos, autarcas e membros do Chega e o grupo neonazi 1143 não são uma ficção ou simples coincidências. Estão amplamente documentados na investigação de Miguel Carvalho que o PÚBLICO publica este domingo e que mostra a facilidade com que militantes do Chega apoiam a ideologia neonazi e as causas do grupo liderado por Mário Machado.
Relações perigosas entre Chega e 1143
Durante a campanha eleitoral para as presidenciais e perante a detenção de 37 membros do 1143 por associação criminosa e incitamento ao ódio e à violência, André Ventura disse desconhecer ligações de pessoas do seu partido ao grupo de Mário Machado, mas nunca chegou a condenar a natureza daquela organização. Limitou-se a dizer que “o Chega tornou-se um partido muito grande, com muitos militantes de todos os quadrantes e, como em todos, há situações que não são as melhores”
Estas novas acusações, a que o Chega não quis responder, são também elas graves, pois indiciam a eventual instrumentalização partidária de um movimento extremista e mesmo financiamento ilegal numa das maiores estruturas do partido. Não é um pormenor que o líder do maior partido da oposição possa ignorar.»


Do editorial do Público de hoje assinado por Helena Pereira.

Legenda: título da 1ª página do Público de hoje.

MÚSICA PELA MANHÃ


«It’s a dirty job but somebody has got to do it.»

A frase estava metida no ficheiro Soltas e não consegui, de imediato saber o porquê e a razão de estar por ali.

Ele que em tempos tinha a mania e o gosto pela sua memória de elefante.

Agora metade do cérebro está adormecido, mas longos minutos depois, lembrou-se que é uma canção da Bonnie Tyler e vai ser a canção da Música para esta anhã.

Fica também a versão de Meat Love. A Wikipédia informa: «A canção foi regravada por Meat Loaf no seu álbum de 2016, Braver Than We Are, como um dueto com Stacy Michelle, sob o título ligeiramente modificado de "Loving You Is a Dirty Job (But Somebody's Gotta Do It)". Esta versão tem os vocais masculinos e femininos invertidos, sendo o vocal masculino o principal.»

Ainda há-de andar pelas prateleiras da Biblioteca da Casa o álbum da Bonnie Tyler Total Eclipse of the Haert e também ficará bem por aqui.



sábado, 21 de fevereiro de 2026

POSTAIS SEM SELO


A morte não tarda e eu hei-de recebê-la tão grave como o céu perante uma nova estrela.

Alberto de Lacerda

À LUPA


 Público, 21 de Fevereiro de 2026.

NOTÍCIAS DO CIRCO


 «Se o Governo quer agradar a Trump, pode fazê-lo de muitas maneiras. Por exemplo, cria um Prémio Nobel da Paz das capoeiras, com um galo de Barcelos de ouro, cheio de coraçõezinhos, e vai lá entregá-lo, com pompa e circunstância, ao imperador do mundo, dizendo-lhe que ele é “rei” das capoeiras. Ele ficará excitado com o tratamento de “rei” e… agradecerá a Espanha.»


Na sua crónica semanal no Público, José Pacheco Pereira indigna-se com a vergonha que o nosso governo lhe dá.

Portugal vai fazer parte “como observador” do Conselho da Paz de Trump? Que vergonha! E vai ao beija-mão de Trump em Washington? Parece que não vai ao primeiro, mas vai aos outros. Será que Portugal vai pagar a senha de entrada que Trump exigiu de 800 milhões de euros? Já nada me admira.

O nosso “observador” não viu anteontem Trump adormecer, trocar os nomes todos, e fazer vários comentários sobre o aspecto do Presidente do Paraguai, que considerou “bonito”? Depois especificou que não gosta de homens mas de mulheres, para não ser mal interpretado… E foi assim.

Na Europa, os países que ainda têm uma réstia de dignidade como a Espanha, a França e a Suécia, pelo menos, disseram que não, a Hungria disse obviamente que sim, e Itália, Roménia, Bulgária, Grécia, Eslováquia e Chipre aceitaram estar como observadores. Olhem para os países que são membros-fundadores e percebe-se logo de que lado Portugal está: Albânia, Argentina, Arménia, Azerbaijão, Bahrein, Bielorrússia, Bulgária, Camboja, Egipto, El Salvador, Hungria, Indonésia, Israel, Jordânia, Cazaquistão, Kuwait, Kosovo, Marrocos, Mongólia, Paquistão, Paraguai, Catar, Arábia Saudita, Turquia, Emirados Árabes Unidos, Uzbequistão, Vietname…»

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 Teria que mudar o título para O Outro Lado das Badanas, mas é um acaso, apenas.

A Relógio d’Água, uma as editoras do livro, escreve:

«Era uma vez um homem que não era feliz. Tinha uma mulher que não lhe agradava e um trabalho que lhe causava horror. […] [Um dia,] quando se sentia muito infeliz, encontrou uma mulher de grande beleza, que tinha muito dinheiro e um barco. Ela percorria os mares em busca do marinheiro de Gibraltar. Quem é o marinheiro de Gibraltar? É a juventude, o crime e a inocência, um homem simples, o mar, as viagens. Um homem que ela amou e que desapareceu, que está talvez morto ou se esconde. Ele encontrou-a. Gostam um do outro. Ele teve a coragem de decidir sobre a sua vida. É livre. Não tem um cêntimo. Ela contrata-o para o seu navio. Ele vai ajudá-la a procurar o marinheiro de Gibraltar. Partem.»

Sobre a autora:

«Marguerite Duras nasceu a 4 de Abril de 1914 em Gia Dinh, perto de Saigão, na então Indochina Francesa, cuja paisagem a marcaria profundamente. O seu pai era director de uma escola e faleceu em 1921 num hospital francês. A mãe, professora, regressou então à metrópole com os três filhos, mas em Junho de 1924 partiu para Phnom Penh, no Camboja, e depois para Saigão, onde adquiriu terras e se fixou em 1928 (a posse de terras depressa se revelou ruinosa e a mãe voltou ao ensino). Marguerite Duras fez estudos secundários num liceu de Saigão, tirando um bacharelato em Filosofia. Tinha 18 anos quando se fixou definitivamente em Paris, onde estudou Direito e seguiu cursos de Matemática. Em 1936, Duras conhece Robert Antelme, com quem viria a casar em Setembro de 1939. Empregara-se, entretanto, como secretária no Ministério das Colónias.
Em 1942, preside a um comité de leitores controlado pelo regime de Vichy. Em 1943, o apartamento de Duras e Robert Antelme torna-se um ponto de encontro de intelectuais, entre os quais Jorge Semprún. O casal vai participar na Resistência e, em Junho de 1944, Robert Antelme é detido pela Gestapo e Marguerite Duras tem de fugir. É ainda durante a guerra que Duras publica os seus primeiros livros, Les impudents em 1943 e La vie tranquille no ano seguinte, ambos ainda com uma estrutura tradicional. Depois da libertação, filiou-se no PCF, de onde saiu anos mais tarde. Em 1950, torna-se conhecida através de um romance de inspiração autobiográfica, Uma Barragem contra o Pacífico, onde as características do seu estilo são já visíveis. Em 1954, participa no comité de intelectuais contra a guerra na Argélia. É já então evidente que o romance tradicional não interessa a Marguerite Duras e que ela procurava uma voz singular através da desestruturação das frases, da estranheza das personagens, da acção e do tempo. Os seus temas são o amor, a espera, a sensualidade feminina e o álcool. Moderato Cantabile, de 1958, subverte as convenções vigentes num estilo que depressa se alarga às suas peças teatrais e textos cinematográficos. Em 1958, escreve o argumento cinematográfico de Hiroshima, Meu Amor, que será realizado por Alain Resnais. Em obras como Le ravissement de Lol V. Stein (1964) e O Vice-Cônsul (1966), Duras confirma um estilo cada vez mais despojado e de grande rigor formal. Duras realiza em 1966 o seu primeiro filme, La Musica, e Détruire, dit-elle em 1969. É então uma autora de culto. Tornar-se-ia uma das escritoras mais lidas em todo o mundo depois de publicar em 1984 O Amante, que recebe o Goncourt. Em 1987, Duras procura explicar a sua dependência do álcool na obra A Vida Material. A partir do final dos anos 80, padece de várias doenças e começa a sentir dificuldades na escrita, tendo mesmo sido mantida em coma artificial durante cinco meses. Publica ainda O Amante da China do Norte, em 1991, Yann Andréa Steiner, em 1992, e Écrire, em 1993. Faleceu a 3 de Março de 1996, com 81 anos, e o seu túmulo, tão despojado como a sua escrita, pode ser visitado no Cemitério de Montparnasse.»

Não é dos livros mais acarinhados de Duras mas gostei de o ler e nunca vi o filme de Tony Richardson com Jeanne Moreau, Orson Welles, Vanessa Redgrave, mas trago para aqui o que o escritor Jorge Marmelo dissertou sobre o livro:

«Jornalista a Quanto tempo pode um livro permanecer intocado na estante de nossa casa? Muito tempo.
Há romances exímios em confundirem-se e camuflarem-se entre outros que já lemos, imitando-lhes a tonalidade amarelada das lombadas, a camada de pó, o mesmo aspecto gasto. Aí ficam adormecidos, quietos e silenciosos como inimigos ocultos - como as células adormecidas do novo terror. Não respiram, nunca levantam o braço para se fazerem notar e, quando nada o faz supor, rebentam-nos nas mãos, acendem certas luzes que temos dentro.
Resgatei ontem um desses livros-camaleão da estante onde, julgava eu, havia apenas romances lidos há muito tempo. Estava convencido de que em algum momento da vida me tinha já passado pelas mãos aquele O Marinheiro de Gibraltar, de Marguerite Duras, mas, como não me lembrava de nada do que pudesse ter lido, o aborrecimento do domingo levou-me a retirá-lo do sítio, a folheá-lo (com cuidado para não perder as páginas já descoladas da lombada, sinal inequívoco de algum uso) e a constatar que, caso alguma vez o tenha lido, não li, na verdade, coisa alguma: passei-lhe os olhos por cima e esqueci.
Há provavelmente, naquela estante, outros livros nas mesmas circunstâncias, obliterados pelo mesmo esquecimento, mas resolvi dedicar o final de tarde de domingo a O Marinheiro de Gibraltar. A edição é de 1991, da Dom Quixote, mas a primeira página tem uma dedicatória assinada por duas pessoas e datada de Dezembro de 1995. Tive que fazer um esforço para recordar quem eram aqueles dois "amigos", também esquecidos, aos quais agora estou particularmente grato por terem infiltrado o romance de Duras na minha estante, oferecendo-o à pessoa colectiva à qual, pelos vistos, eu então pertencia: "Espero que gostem e que vos toque da mesma forma que nos tocou a nós".
Alguma parte daquele "nós" já extinto o deve ter lido entretanto, pois as folhas estão descoladas entre as páginas 71 e 139. Mas não fui eu - ou, pelo menos, não foi a mesma pessoa que hoje sou. Tal como agora me conheço, não esqueceria, decerto, a bela americana deitada na areia perto do canavial e o iate ancorado diante de Rocca, nem esqueceria Éolo, o estalajadeiro, ou Carla, a sua filha, nem essa Jacqueline demasiado agitada e optimista, capaz de passar dias a correr sob o impiedoso calor de Florença para ver todos os museus e monumentos da cidade. Não esqueceria, sobretudo, esse homem cansado da vida, "um desses homens cujo drama consiste em nunca ter encontrado um pessimismo à altura do seu", que subitamente se descobre vivo enquanto conversa com um pedreiro italiano e, por isso, larga tudo, Jacqueline e o emprego no Registo Civil do Ministério das Colónias, para se instalar em Rocca e fazer pesca submarina, ir aos bailes nocturnos do outro lado do rio e aprender a gostar de beber pastis ao sol.
Leio ou releio O Marinheiro de Gibraltar, não sei bem, e mergulho numa estranha nostalgia. Invejo, parece-me, todas as pessoas que recomeçam a viver.»