Para os meus dias peço,
Senhor dos naufrágios,
não água para a sede, mas a sede,
não sonhos
mas o desejo de sonhar.
Para as noites,
toda a escuridão que seja necessária
para afogar a minha própria escuridão.
Piedad
Bonnett
Para os meus dias peço,
Senhor dos naufrágios,
não água para a sede, mas a sede,
não sonhos
mas o desejo de sonhar.
Para as noites,
toda a escuridão que seja necessária
para afogar a minha própria escuridão.
Piedad
Bonnett
Nos actos de propaganda dos 2 anos de governos liderados por Luís Montenegro,
surge um vídeo com um sorridente Luís Montenegro a viajar no banco de trás do
carro do estado sem cinto de segurança.
Para que conste:
«A não
utilização do cinto de segurança constitui uma contraordenação grave, punível
com coima entre 120 e 600 euros, de acordo com o Código da Estrada.»
O governo de Luís Montenegro é uma feira de vaidades
de gente incompetente a pensar em tudo menos no que deviam pensar e para isso
são pagos com acresvento de diversas mordomias.
Legenda: fotografia do Correio da Manhã.
Morte aos Feios
Vernon Sullivan
(Boris Vian)
Tradução: António Sabler
Capa: António S.
Série Negra nº 10
A Regra do Jogo,
Lisboa 1981
Levar uma paulada na cabeça, não é nada. Ficar drogado duas vezes na
mesma noite, enfim… Mas asir para o fresco e calhar num quarto desconhecido,
mais uma mulher, na indumentária de Adão e Eva, aí já começa a ser um pouco
forte. Quanto ao que veio a seguir…
De palavras não sei. Apenas tento
desvendar o seu lento
movimento
quando passam ao longo
do que invento
como pré-feitos blocos
de cimento.
De palavras não sei.
Apenas quero
retomar-lhes o
peso a consistência
e com elas erguer a
fogo e ferro
um palácio de força e
resistência.
De palavras não sei.
Por isso canto
em cada uma apenas
outro tanto
do que sinto por
dentro quando as digo.
Palavra que me lavra.
Alfaia escrava.
De mim próprio matéria
bruta e brava
- expressão da multidão
que está comigo.
José
Carlos Ary dos Santos
BOB DYLAN
grafismo de Geoff Gans
Nova Iorque – Londres
– Toronto – Sidnei – Nova Deli, 2016
Simon & Schuster Inc.
[reedição muito
aumentada]
texto em inglês
262 mm x 213 mm
VI págs. + 2 págs. +
680 págs.
ilustrado
encadernação
editorial gravada a prata na lombada, sobrecapa a duas cores directas
exemplar muito estimado;
miolo irrepreensível
70,00 eur (IVA e portes incluídos)
Eis a parte
substancial da obra de Bob Dylan, galardoada com o Prémio Nobel da Literatura,
aquilo que António Feijó, vice-reitor da Universidade de Lisboa, considera «uma
das obras maiores das últimas décadas», sendo que o mais importante «nem é
saber se ele é ou não um autor literário, que evidentemente é» (fonte: «Dylan
Está Acima do Nobel», in Público, Lisboa, 2016, Outubro 10). E
para a qual obra Carlos Reis, ex-director da Biblioteca Nacional de Lisboa, mas
também especialista em Eça de Queirós, alerta: «[...] Tratemos de reler a
poesia de Bob Dylan enquanto poesia e talvez tenhamos algumas surpresas. E
sobretudo não fiquemos chocados, pelo facto de essa poesia ser difundida em
concertos (como foi), pela rádio, pela televisão e pela internet. Pergunta
final, talvez antes de outra reflexão mais alargada: a cultura do século XX
seria a mesma sem Bob Dylan? [...]» (fonte: JL, n.º 1.202, 26 de Outubro a 8 de
Novembro, 2016).
A soberba e vasta obra literária de Dylan (por acaso cantada, aliás como a de
Camões: «Cantando espalharei por toda a parte / Se a tanto me ajudar o
engenho e arte»), essa, a de Dylan, é uma certeza, está aí para ficar, com
uma vitalidade invejável.
Ressalvando a tremenda qualidade do legado escrito de Bob Dylan, resta
assinalar que o Nobel não é prémio que se deseje, quando sabemos que o seu
promotor no passado, mas também no presente, colheu e colhe dividendos no
negócio das armas.
pedidos para:
pcd.frenesi@gmail.com
telemóvel: 919 746 089 [chamada para rede móvel
nacional]
NOTA DO EDITOR:
As canções de Bob
Dylan, em português, estão publicadas pela Relógio d’Água:
«Bob Dylan (Robert
Allen Zimmerman) nasceu em Duluth, Minnesota, em 24 de Maio de 1941,
descendente de emigrantes judeus da Lituânia, Rússia e Ucrânia.
Como aconteceu com
tantos outros músicos, Bob Dylan procurou nos agitados anos 60 novas vias de
expressão, dando voz aos deserdados e abordando as suas experiências pessoais.
Mas desde muito cedo
as suas composições integraram e revitalizaram também as tradições musicais
norte-americanas, as baladas do Norte e os blues do Sul. Dylan procedeu assim a
uma renovação musical que se prolonga até aos nossos dias, absorvendo e expandindo
velhas tradições e levando a literatura ao rock ‘n’ roll.
Uma das suas músicas
(“Like a Rolling Stone”, de 1965) tem sido repetidamente considerada como uma
das melhores canções de sempre. O primeiro volume reúne as suas composições de
1962 a 1973 e o segundo as composições de 1974 a 2001.» [Canções I e II]»
(Do site da Relógio d'Água).
Bob Dylan em Olhar as Capas Vol. I
Bob Dylan em Olhar as Capas Vol. II
José Pacheco Pereira, ontem, no programa Princípio da Incerteza na CNN, abordando o lamentável discurso do presidente «daquela coisa», por ocasião do 50º Aniversário da Constituição de Abril, acusou André Ventura de recorrer a “todas as formas de mentira” - desde a falsidade direta à omissão e à sugestão enganosa -, rejeitando a ideia de que o discurso possa passar sem resposta.
“Eu tenho uma regra que é um insulto não se leva para casa,
que é uma regra básica e como gosto do meu país e gosto de Portugal, não gosto,
evidentemente, das pessoas que são moles. E o insulto aqui é de todas as
pessoas que lutaram contra a ditadura antes do 25 de abril. Na intervenção do
André Ventura, ele utilizou todas as formas de mentira”, afirmou.
Ao mesmo tempo lançou
um repto a André Ventura:
«Organizemos um debate sobre estas coisas com as seguintes
características. Duas eu acho fundamentais. Um debate dura pelo menos uma hora
e a segunda é que cada afirmação que cada um de nós faça tem que ser
documentada. Tem que ser documentada, porque não adianta estar a vir com
coisas. Se eu disser que morreu este por causa daquilo, eu documento. Se eu
disser que a violência nas colónias tem estas características, eu documento. E
a mesma coisa espero que o André Ventura faça. Claro que havia uma outra regra
que valorizava, eu termino já, que valorizava no fundo o debate, que era que
não houvesse ataques pessoais, mas eu aceitarei essa regra se o André Ventura
aceitar igualmente esta regra".
Muitos e variados são os que ajudaram «aquela coisa» ao que despudoradamente são.
Alexandra Leitão, no mesmo programa da CNN:
«O Chega nem sequer mente ao que vem. Querem acabar com o regime que
saiu do 25 de Abril e que está hoje consagrado na nossa Constituição. Querem
outro regime e querem outra Constituição. E, portanto, é nestas três linhas que
se insere o discurso e quebrando até um consenso que havia relativamente à
Constituição de 76. Claro, teve sete revisões constitucionais, todas elas
melhoraram o texto constitucional, é evidente que a revisão constitucional de
82 foi fundamental para por fim há aquele período transitório com o Conselho da
Revolução. Isso é tudo verdade. Mas até o CDS, que agora se radicalizou para
ser uma espécie de Chega 2, mas até o CDS sempre teve, sempre viveu neste
regime, sem pôr em causa a Constituição de 76, apesar de originalmente ter
votado contra ela. Agora é que se radicalizou a achar que a receita do Chega
lhes vai servir a eles também. E quebram este consenso em torno da Constituição
em nome da criação de uma quarta república, que eu duvido muito que se for algo
gizado pelo Chega seja uma república democrática. Duvido muito".»
Muitos e variados são os que ajudaram «aquela coisa» ao que despudoradamente
são.»
Ficamos à espera, sem
muita esperança, que resposta o presidente «daquela coisa»
irá dar!
Consta que vestia como um operário,
mas a camisa
imaculadamente branca. O chapéu
de abas largas guardava
o crânio do poeta da democracia.
Cantou sozinho,
percorreu léguas, foi quase vadio.
Na sua bíblia os salmos incitam
à fraternidade, à vida plena.
Cantou a saúde e a bondade,
a rebeldia. Cantou o sexo
naturalmente livre e a América
não gostou.
Acabou os seus dias na casita
em Camden, atafulhada de exemplares
de Leaves of Grass
numa rua miserável, fedorenta.
Isabel de Sá
Voltarei a ouvir que as crianças não podem comer chocolates.
O meu pai, por chalaça, dizia-me que só pelos
chocolates, pelo bacalhau na consoada, pelo cabrito no domingo pascal, um ateu
se debruça quer pelo Natal, quer pela Páscoa.
Respondia-lhe que sempre gostei de histórias e a Bíblia é, apesar de tudo uma história razoavelmente bem contada.
«O símbolo
é o ovo. O «o» da palavra ovo é redondo, e o redondo é símbolo da vida, da
origem que começa também com o mesmo «o».
Páscoa é o maior sacro
religioso cristão que não é Natal. Natal é condição. Páscoa é a dramática
reconversão da vida. Mito cristão, pré-cristão e meta-cristão: do sol, redondo
como o «o» da Primavera, do recomeço do ciclo agrícola, da Natureza.
Páscoa é festa do campo. Anti-urbana. Na cidade o ovo é de chocolate. O símbolo que se consome antes de crescer numa realidade.»
Jorge Listopad em Fruta Tocada por Falta de Jardineiro
José Tolentino Mendonça:
«Perguntas quanto tempo
deves rezar?
a papoila na encosta
é vermelha sempre»
A pergunta de todos os dias:
Que seria de nós sem memória?
No 1º volume
dos Cadernos de Lanzarote, ano de 1993, Carmélia telefonou a Saramago, aos
gritos de 25 se Abril sempre!, mas o entusiasmo de Carmélia deixou-o «lamentavelmente
frio».
Neste Dia, estamos com o 2º volume dos Cadernos de Lanzarote, ano de 1994, 5 de Abril:
«Mal
refeito ainda da viagem de regresso, tive de decidir-me a responder, enfim, aos
inquéritos do Público e do Expresso, ambos sobre o vigésimo aniversário do 25
de Abril. A Vicente Jorge Silva, que convidou «vinte personalidades
representativas dos mais variados sectores e quadrantes da vida nacional» a
escolherem «os dez melhores e os dez piores acontecimentos, situações e
fenómenos registados» desde a revolução, respondi brevissimamente: que o pior
do 25 de Abril foi o 25 de Novembro; que o pior de ateio foi Saraiva de
Carvalho; que o pior de Vasco Gonçalves foi Vasco Lourenço; que o pior do
Primeiro de Maio foi o Dois de Maio; que o pior da Reforma Agrária foi António
Barreto; que o pior da Descolonização foi Agora Amanhem-se; que o pior das
Nacionalizações foi Salve-se Quem Puder; que o pior da Reforma do Ensino foi
Não Haver Ensino; que o pior da Liberdade de Expressão foi ser Liberdade Sem
Expressão; que o pior da Democracia (até agora) foi Cavaco Silva. E a Joaquim
Vieira, que me pedira 125 palavras sobre as circunstâncias em que recebi «a
notícia de que estava em curso o derrube do Estado Novo» e «as recordações mais
marcantes do período que se seguiu, até [mais de 1975», dei-lhe rigorosamente
as palavras pedidas, que assim rezam: «Nesse mês dormi algumas noites em casas
de amigos não marcados pelo regime. Vários camaradas meus haviam sido presos, a
minha vez podia não tardar. Passei uns dias em Madrid, mas, como a polícia não
se "manifestou", regressei a Lisboa. Vim a saber depois que a minha
prisão estava marcada para o dia 29... Numa reunião na Seara (ouviam-se ainda
tiros nas ruas) fui encarregado de escrever o editorial para o primeiro número
"livre" da revista.» E rematei: «Não esquecerei o Primeiro de Maio,
nem o 26 de Setembro, nem o 11 de Março, nem a Assembleia do MF A em Tancos,
nem os meses em que fui director-adjunto do Diário de Notícias. Não esquecerei
o Alentejo nem a Cintura Industrial. Não esquecerei o que então chamámos
Esperança.
Suspeito que não terão apreciado as respostas nem o tom em que foram dadas. O caso é que inquéritos destes me irritam pela sua inutilidade. Servem para encher papel.»
Não foi por mim que deixaste que te pendurassem na cruz
não foi por mim
que te deixaste matar
Não foi por mim que deixaste que te insultassem e
cuspissem
não foi por mim
que morreste
Ninguém se deixa matar assim
para cumprir a vontade do pai
— Pai Pai faça-se a tua vontade! —
Ninguém se deixa matar assim
porque um dia alguém se lembrou de oferecer uma maçã
Não sei quantas maçãs já me ofereceste
sem que um anjo com uma espada de fogo viesse para nos
expulsar
do nosso apartamento de três assoalhadas
Não foi por mim que tu morreste
e ressuscitaste ao terceiro dia
É uma herança demasiada pesada
para se deixar a alguém
que só viria a nascer dois mil anos depois
e cujo único pecado foi nascer
Não foi por mim nem por ti nem por ninguém
que tu morreste
e continuas a morrer todos os dias
Há quem não saiba fazer outra coisa senão morrer
e voltar a morrer
Nem a vontade do Pai te serve de álibi
Não foi por mim que tu morreste
embora eu seja capaz de morrer por ti
Jorge Sousa Braga
As gentes que Donald
Trump escolheu para a sua governação, é tudo de última gaveta. A tal ponto que,
como as coisas, agora, começam a correr mal, tratou de despedir alguns e outros vão saindo pelo seu
pé.
Entretanto com as
suas leis, as suas guerras está a causar o caos no Mundo.
Trump, desde que se
tornou presidente dos Estados Unidos, à custa de uma seita – MAGA - que consta
de tudo o que de mau existe no país, entendeu tratar alguns conflitos com uma meta de resolução apontada
para 2 semanas, mas nada aconteceu e as semanas somam-se através dos dias de
todas os dias.
Porque, no fundo dos
fundos, Donald Trump é um presidente que
apenas quer realizar negociatas, adora bravatas e prémios, despreza o
Congresso, o Senado, os Juízes, as Forças Armadas… o povo americano.
Bruce Springsteen não
gosta de Trump, e, todos os dias, declara esse ódio.
Começou agora uma nova digressão - Land of Hope & Dreams American Tou que percorrerá as cidades americanas até 27 de Maio -, e começou a exercer o seu direito de crítica ao presidente, acusando a governação de ser corrupta, racista, incompetente, irresponsável e que a guerra contra o Irão é inconstitucional e ilegal.
Em reação, Donald Trump
pediu ao eleitorado MAGA o boicote aos concertos de Springsteen e, nas redes
sociais, chamou o cantor de medíocre e
enfadonho que parece uma ameixa seca e, criticando a aparência física de
Bruce, diz que o cantor sofreu as consequências de um cirurgião plástico
incompetente, e sofre há muito tempo de uma síndrome de aversão a Trump
horrível e incurável.
A música desta manhã não poderia ser outra que não algumas canções de Bruce.
Sábado de Aleluia.
Hoje, pela manhã, é tempo de ir a um supermercado comprar, para os netos, um coelho grande de chocolate, com surpresa dentro, ovos de chocolate e gomas.
Dizer que e festa chocolateira não é só dos netos.
Chocolatedependente que sou, a posição primeira na grelha de partida para comer o coelho grande de chocolate, é minha.
Doce dependência, com o pormenor-escândalo-da-família, de que não se contenta, logo que uma chocolate de chocolate tablete é aberta, em comer um quadradinho, ficar a saboreá-lo de olhos fechados, enquanto se derrete na boca.
Não! Tablete aberta, tablete consumida.
O resto, bom o resto logo se vê e aguardar as palavras do costume do médico de família quando olha as análises deste emocionalmente desequilibrado portador de angústias chocolateiras.
Talvez tenha lido que sem um toque de loucura não existem homens sensatos.
Mas de onde lhe vem o grito delicioso do chocolate?
Como quase tudo, terá que ir à infância.
Já contei isto, mas continuemos.
A caminho do Liceu Gil Vicente, na Graça, também para a casa da avó paterna na Rua Senhora do Monte, percorria toda a Rua da Penha de França, chegava a Sapadores, e aí estava a Fábrica de Chocolates Favorita e, neste ponto, socorre-se de Mário de Carvalho porque conta melhor do que eu, alguma vez possa, contar:
«Voltemos ao volutpuoso
aroma de chocolate que descia por sobre o bairro e impregnava os ares, as
casas, as roupas e nos punha logo bem dispostos, na nossa meninice voraz de
guloseimas caras. Provinha ele da Fábrica Favorita que levantava na outra
esquina, a sua arquitectura graciosa e robusta, mesmo ao lado de um jardim
esconso e sombrio em que ficava a casa do arquitecto Raul Lino. Nos anos
oitenta do século vinte, por contingências do mercado ou por gestão trapalhona,
a velha Favorita fechou e ficou para ali, abandonada. Aquela
atmosfera adocicada e benigna dilui-se tristemente nas alturas e o bairro foi
invadido pelos odores banais de Lisboa. Se não fosse a variação dos ventos,
pesaria ali a fumarada dos escapes e outros eflúvios maléficos…
Na Lisboa tristonha e pobre desses tempos eram estes pequenos milagres que alegravam a nossa infância e deixaram um sorriso na memória.»
Guardo o cheiro a chocolate e também lembro, com uma nitidez deveras melancólica, os operários de ganga azul, as operárias de bata branca, a descerem a rampa para, depois do almoço na cantina da fábrica, irem beber o café nas pastelarias em redor, certamente a «A Mimosa da Graça»?
Este pormenor não consigo clarificar, mas o que lembro mesmo são os operários, elas de bata branca, eles de ganga azul.
Depois chegaria ao poema de Álvaro Campos:
«Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso, e ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida!»
Há também Chocolate um delicioso filme de Lasse Hallstrom, um conto de fadas maravilhoso pelos chocolates mas também – e não é aspecto de somenos – pela Juliette Binoche.
Li, já não lembro onde, que é um filme para comer com os olhos.
E ficamos assim.
Ou melhor: ficamos com o Tom Hanks, na pele de Forrest Gump, sentado num banco, à espera de um autocarro e a dizer:
«A vida é como uma caixa de bombons. Nunca sabemos o que nos espera…»
De resto fiquem a saber, que há poucos problemas que um chocolate não possa resolver.
Numa sua crónica, João
Bénard da Costa cita uma frase de Romano Guardini:
«O Cristo na
Cruz! Ninguém conseguirá jamais perceber este mistério!»
Tão pouco sabia
Bénard da Costa porque de «há muito longo tempo» reteve a
frase.
E adiantava:
«Os mistérios só
são mistérios porque ninguém os percebe e porque é estulto aquele que os tenta
perceber. Cristo na Cruz, para qualquer cristão, é um mistério. Mas Cristo
ressuscitado também. E, na esfera do mistério, não cabe o maior nem o menor.
Quando não percebo, não posso perceber o tamanho do que não percebo. Se abro a
porta para uma escuridão total, nunca poderei saber se essa escuridão é imensa
ou atravessável em sete passos. A não ser que me enfie nela, o que não posso
fazer pois que não tenho sustentação possível».
Semana Santa.
A entrada de Jesus
em Jerusalém, a subida ao Monte Calvário, a morte e a Ressurreição.
Vitória, cantam os
cristãos católicos.
Porquê?
Dizem que é a
vitória da vida sobre a morte.
«Ninguém
conseguirá jamais perceber esse mistério.»
Ninguém!
Legenda: Pintura de Paul Gauguin
Jesus morre, morre, e já o vai deixando a vida, quando de súbito o céu por cima da sua cabeça se abre de para em par e Deus aparece, vestido como estivera na barca, e a sua voz ressoa por toda a terra, dizendo, Tu és o meu Filho muito amado, em ti pus toda a minha complacência. Então Jesus compreendeu que viera trazido ao engano como se leva o cordeiro ao sacrifício, que a sua vida fora traçada para morrer assim desde o princípio dos princípios, e, subindo-lhe à lembrança o rio de sangue e sofrimento que do seu lado irá nascer e alagar toda a terra, clamou para o céu aberto onde Deus sorria, Homens perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez. Depois, foi morrendo no meio de um sonho, estava em Nazaré e ouvia o pai dizer-lhe, encolhendo os ombros e sorrindo também, Nem eu posso fazer-te todas as perguntas, nem tu podes dar-me todas as respostas. Ainda havia nele um resto de vida quando sentiu que uma esponja embebida em água e vinagre lhe roçava os lábios, e então, olhando para baixo, deu por um homem que se afastava com um balde e uma cana ao ombro. Já não chegou a ver, posta no chão, a tigela negra para onde o seu sangue gotejava.
José Saramago em O Evangelho Segundo Jesus Cristo
Legenda: pintura de Rubens
Legenda: A Última Ceia
de Leonardo Da Vinci.
A conversa era sobre Deus,
embora o teólogo estivesse inclinado
a pensar que fosse sobre outra coisa,
pois era hora de jantar.
Pegou num cigarro e perguntou às senhoras se podia fumar.
Tinha devorado o pargo com honesto apetite
e elogiava as virtudes do cozinheiro.
Só Deus, algures, chorava sobre
os despojos da sua pequena criatura na travessa
a caminho da copa, antes da sobremesa.
Manuel António Pina de Atropelamento e Fuga em Poesia Reunida
Por tudo e por nada foram dias gloriosos.
Os dias da nossa Esperança.
Para sempre!
POEMA
CONSTITUINTE
A Constituição
constitui-se de homens e mulheres
cidadãos com a mesma
dignidade social
iguais perante a lei
A Constituição
constitui-se de homens e mulheres
antes de se estruturar
em Títulos
Capítulos
Artigos
Alíneas
A Constituição
constitui-se pela vontade popular
empenhada livremente
na transformação da
sociedade portuguesa
numa sociedade sem
classes
A Constituição
constitui-se por dentro dos braços
e das cabeças
dos homens e das
mulheres livres
que constroem o
socialismo
dia a dia
antes de ele ser o
Artigo 2.° da Constituição
pela via democrática
A Constituição
constitui-se de avanços projectos e lutas
no coração
que não admite recuos
nem abdica
do futuro
A Constituição
constitui-se da força organizativa
dos que acordam
todos os dias
com um novo intento de
vive
porque possuem em si
próprios
a soberania
una
indivisível
A Constituição
constitui-se dos direitos dos trabalhadores
não distinguindo
idade raça religião
ideologia
com direito ao trabalho
e à retribuição
sem aviltamento
sem exploração
com direito
à existência condigna
à realização pessoal
à higiene e à saúde
à organização
à segurança
à educação e à
cultura
ao repouso
às comissões suas
de trabalhadores
defendendo esses seus
interesses
e outros
A Constituição
constitui-se de consciências livres
antes de se cristalizar
nas palavras e nas
frases
num documento lei
A Constituição
constitui-se da liberdade de escrever
essas palavras
da obrigatoriedade de
cumpri-las
porque por longos anos
circularam
interditas
no sangue livre
do povo soberano
Constituição
constitui-se das palavras
com que se escrevem os
poemas
(como este)
que todos têm direito
de produzir
exprimir
divulgar
já que pela palavra
são a criação do
pensamento
pela imagem
são a materialização da
comunicação
por todos os meios
são a circulação da
informação
a que todos os homens e
mulheres
têm direito
sem impedimentos
nem discriminações
E porque
todos esses direitos
não podem ser impedidos
por qualquer tipo
de censura
a voz soberana do povo
digno e verdadeiro
far-se-á ouvir
defendendo
e
constituindo a
Constituição!
Poema escrito por E. M. de Melo e Castro, em 1979, por
ocasião do 3º aniversário da Constituição da República Portuguesa.
Legenda: Deputados da
Constituinte, no final da Sessão Solene dos 50 anos da Constituição realizada
na Assembleia da República.
A fotografia é de Daniel Rocha e foi tirada do Público.
A parede do antigo Cinema
Lys, a que estava voltada para a Avenida Almirante Reis, com os grandes
cartazes de A Túnica de
Henry Koster com o Richard Burton, a Jean Simmons, o Victor Mature.
A Emissora Nacional a
interromper o silêncio radiofónico para transmitir os jogos de Hóquei em Patins do
Torneio de Montreux.
O Carlos Alberto que
aparecia de gravata preta.
Os putos da rua que
éramos, perguntavam sempre do porquê, e a resposta também a sabíamos:
- Cristo morreu!
A minha avó apenas
respeitava a quinta e a sexta-feira santas e nesses dias não havia carne
para ninguém.
Curiosamente, também não
abundava nos outros dias.
Porque o pequeno mundo caseiro vivia do rol fiado do merceeiro, Francisco de seu nome, estabelecimento na esquina da Castelo Branco Saraiva com a Vila Gadanho.
Leio espantado, completamente espantado:
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der
Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa, bem como a alta
representante/vice-presidente, Kaja Kallas, reafirmaram o empenho da União
Europeia na estabilidade regional, instando a
desescalada imediata e
retenção máxima
protecção da população
civil e das infra-estruturas civis
pleno respeito pela Carta
das Nações Unidas
A posição da União Europeia E foi reiterada nas conclusões
do Conselho Europeu de 19 de março de 2026, em que todos os 27 dirigentes
condenaram os ataques do Irão, exigiram um cessar-fogo imediato e apelaram a
uma moratória aos ataques às infraestruturas energéticas e hídricas.»
As Minas de Salomão
Rider Haggard
Tradução: Eça de Queiroz
Capa: Lima de Freitas
Ilustrações: Will Nikeless e Peter Branfield
Edição Livros do Brasil, Lisboa s/d
Agora que este livro está impresso, e em vésperas de correr o mundo
largo, começa a pesar fortemente sobre mim a desconfiança de que, para ele ser
aceitável, muito lhe falta como estilo e como história. Enquanto à história,
realmente, não pretendi nem tentei meter nestas páginas tudo o que fizemos e
tudo o que vimos na nossa viagem à terra dos Cacuanas. Há, todavia, nesse
estranho povo, coisas que mereciam exame detalhado e lento: a sua fauna, a sua
flora, os seus costumes, o seu dialeto (tão aparentado com a língua dos Zulus),
o magnífico sistema da sua organização militar, a sua arte subtil em trabalhar
os metais... Que interessante estudo se faria, além disso, com as lendas que
ouvi e colecionei acerca das armaduras de malha que nos salvaram na batalha de
Lu! Que curiosa, também, a tradição que entre eles se tem perpetuado sobre os
«Silenciosos», os dois colossos que jazem à entrada das cavernas de Salomão! No
entanto pareceu-me (e assim pensaram o barão Curtis e o capitão John) que seria
mais eficaz contar a história a direito, e secamente, deixando todas estas
particularidades sobre a região e sobre os homens para serem tratadas mais
tarde, num tomo especial, com minudência e largueza.
Resta-me, pois, implorar a benevolência para a minha tosca maneira de
escrever. Estou mais habituado a manejar a carabina do que a pena e sempre me
foi alheia a fina arte dos arrebiques e floreios literários. Talvez os livros
necessitem esses floreios e ornatos: não sei nem possuo autoridade para o decidir;
mas, na minha bárbara ideia, as coisas sim decidir; mas, na minha bárbara
ideia, as coisas simples são as mais impressionadoras e mais facilmente se deve
acreditar e estimar o livro que venha escrito com séria e honesta singeleza.
«Lança aguda não precisa brilho», diz um provérbio dos Cacuanas; e, movido por
este conselho da sabedoria negra, arrisco-me a apresentar a minha história, nua,
lisa, nas suas linhas verdadeiras, sem lhe pendurar por cima, para a tornar
mais vistosa, os dourados galões da eloquência.
ALÃO QUARTELMAR
O cheiro da menta
no canteiro improvisado
entrou depressa demais
nos meus pulmões.
O ar tornou-se um silêncio incómodo
- pouco e frio. Essas palavras,
que íamos agora ouvir, a apagarem-se
diante dos meus olhos. E a acenderem-se
logo depois, debaixo das tuas pálpebras.
Os néons substituíram toda a mobília
Do quarto: já não a vejo.
Descobrimos a seguir os vapores
que se levantaram das minhas
mãos, até das chávenas vazias.
E calámo-nos.
Quase nada do que foi plantado
resistiu ao domínio da hortelã.
Os outros versos nunca chegaram a
existir.
Margarida Ferra em
Curso Intensivo de Jardinagem
Duas vezes por mês o meu pai reservava
as tardes de sábado para uma visita ao Fausto, alfarrabista com porta aberta, a
meio da Rua Angelina Vidal, lado esquerdo de quem desce.
Mais ou menos os alfarrabistas sabiam o
que vendiam, e os preços estavam de acordo com esse saber. Hoje pedem exorbitâncias
por qualquer livro e que eles compraram por tuta e meia e, na maior parte das vezes, nem sabem de que tratam os livros, quem são os autores.
Hoje, no que foi a excelente Pastelaria Suprema, na Avenida de Roma, encontra-se a Re-Read, uma cadeia de livros espanhola que tem por slogan: "Livros quase novos a preços quase impossíveis".
Compram livros por um preço pífio e depois colocam,
alguns, a preços bastamente acessíveis.
Passo por lá volta e meia e trago sempre um ou mais
livros.
Foi o caso deste livro do Lauro António que me ficou
por 4 euros e que se encontrava em falta nas as muito boas colecções das Publicações
Dom Quixote que fui adquirindo quando saíam e custavam 35 escudos, ao cambio de hoje seria 1 euro e
75 cêntimos.
O que acima se vê, é o recibo do então comprador-assinante,
a 15 de Fevereiro de 1970 do livro do Lauro António e, curiosamente no topo
pode ler-se:
Publicações Dom Quixote- Sociedade Editora Abecassis,
Lda.
Trata-se de Snu Abecassis que a Wikipédia diz quem foi:
«Ebba Merete Seidenfaden, mais
conhecida como Snu Abecassis, foi uma editora dinamarquesa. Fundou as
Publicações Dom Quixote, editora que se notabilizou por publicar livros
considerados de esquerda, com ideias contrárias à ditadura do Estado Novo.»
Mais:
« Filha de um casal de jornalistas dinamarqueses,
Erik Seidenfaden e Jytte Kaastrup-Olsen, desde pequena foi chamada de Snu, que
quer dizer "esperta" na língua dinamarquesa.
Em 1961, casou-se com o português
Alberto Vasco Abecassis. Mudou-se para Portugal passado um ano e aí
nasceram os três filhos do casal: Mikaela Linea, Ricardo Fortunato e Rebecca
Sofia. Em 1965, sob sua direção, foi fundada a editora Publicações Dom
Quixote, em Lisboa.
Já em época pós-revolucionária, Ebba começou a relacionar-se com o também casado Francisco Sá Carneiro. Conseguiu divorciar-se de Abecassis, mas Sá Carneiro não conseguiu obter o divórcio. Apesar disso, começaram a viver juntos e também juntos vieram a morrer no dia 4 de dezembro de 1980, no acidente de Camarate, que para além de Snu e Sá Carneiro, vitimou Adelino Amaro da Costa. Isto quando os três se dirigiam para o encerramento da campanha presidencial de António Soares Carneiro. Snu contava então 40 anos de idade.»
Foi realmente uma excelente editora que, mercê de
certas ligações ,se movimentava bem entre a clique da ditadura, conseguindo coisas de esquerda que eram
rigorosamente proibidas a outros editores.
Cada volume da Dom Quixote trazia estes postais de
encomenda que outras editoras como a Seara Nova, a Portugália, as Publicações
Europa-América também praticavam.
Lauro António
Colecção Cadernos de
Cinema nº 8
Capa: Fernando
Felgueiras
Publicações Dom
Quixote, Lisboa, Fevereiro de 1970
Rompendo o silêncio comprometido que a envolveu nos últimos anos, a
Cinemateca Nacional iniciou em 21 de Março de 1968, um ciclo de exibições
semanais subordinado ao título Os Filmes da Cinemateca, durante o qual projectou (sem qualquer critério que não fosse o enunciado
no próprio título, ou seja: filmes que a Cinemateca guarda postos à disposição
de todo o público galardoado com a sorte de um convite) algumas obras
importantes na história da cinematografia mundial.
Todos os meus amigos viajam sempre em 1.ª classe…
Pelo menos levam a cabeça em 1.ª classe.
Do Universo, vêm ter comigo
E me dizem:
“O senhor não pode ir aqui,
“O seu lugar não é aqui,
“O senhor tem que ir para a 3.ª classe
do seu corpo
“ o senhor tem que viajar onde os seus
olhos dizem
Sim, porque esta é que é a verdade;
Os meus olhos dizem sempre:
3.ª classe, 3.ª classe. 3.ª classe…
Um dia tive uma rapariga
Pareceu-me que ela era como eu,
Que viajava em 3.ª classe.
Gostava dela porque era macia
E boa para tudo quanto vivia.
Gostava dela porque acendeu duas luzes
Na minha 3.ª classe sempre tão escura,
Sempre tão 3.ª classe.
E ela viajou comigo muitas horas
Brilhantes de 1.ª classe.
Mas não.
Não… de facto ela viajava comigo
Porque não tinha mais ninguém.
Mário-Henrique Leiria de Poesia Édita, Inédita e Dispersa em Poesia