quinta-feira, 2 de abril de 2026

OLHAR AS CAPAS


As Minas de Salomão

Rider Haggard

Tradução: Eça de Queiroz

Capa: Lima de Freitas

Ilustrações: Will Nikeless e Peter Branfield

Edição Livros do Brasil, Lisboa s/d

Agora que este livro está impresso, e em vésperas de correr o mundo largo, começa a pesar fortemente sobre mim a desconfiança de que, para ele ser aceitável, muito lhe falta como estilo e como história. Enquanto à história, realmente, não pretendi nem tentei meter nestas páginas tudo o que fizemos e tudo o que vimos na nossa viagem à terra dos Cacuanas. Há, todavia, nesse estranho povo, coisas que mereciam exame detalhado e lento: a sua fauna, a sua flora, os seus costumes, o seu dialeto (tão aparentado com a língua dos Zulus), o magnífico sistema da sua organização militar, a sua arte subtil em trabalhar os metais... Que interessante estudo se faria, além disso, com as lendas que ouvi e colecionei acerca das armaduras de malha que nos salvaram na batalha de Lu! Que curiosa, também, a tradição que entre eles se tem perpetuado sobre os «Silenciosos», os dois colossos que jazem à entrada das cavernas de Salomão! No entanto pareceu-me (e assim pensaram o barão Curtis e o capitão John) que seria mais eficaz contar a história a direito, e secamente, deixando todas estas particularidades sobre a região e sobre os homens para serem tratadas mais tarde, num tomo especial, com minudência e largueza.

Resta-me, pois, implorar a benevolência para a minha tosca maneira de escrever. Estou mais habituado a manejar a carabina do que a pena e sempre me foi alheia a fina arte dos arrebiques e floreios literários. Talvez os livros necessitem esses floreios e ornatos: não sei nem possuo autoridade para o decidir; mas, na minha bárbara ideia, as coisas sim decidir; mas, na minha bárbara ideia, as coisas simples são as mais impressionadoras e mais facilmente se deve acreditar e estimar o livro que venha escrito com séria e honesta singeleza. «Lança aguda não precisa brilho», diz um provérbio dos Cacuanas; e, movido por este conselho da sabedoria negra, arrisco-me a apresentar a minha história, nua, lisa, nas suas linhas verdadeiras, sem lhe pendurar por cima, para a tornar mais vistosa, os dourados galões da eloquência.

                                                            

                                                                                                                 ALÃO QUARTELMAR


Sem comentários: