As Minas de Salomão
Rider Haggard
Tradução: Eça de Queiroz
Capa: Lima de Freitas
Ilustrações: Will Nikeless e Peter
Branfield
Edição Livros do Brasil, Lisboa s/d
Agora que este livro está impresso, e em vésperas de correr o mundo
largo, começa a pesar fortemente sobre mim a desconfiança de que, para ele ser
aceitável, muito lhe falta como estilo e como história. Enquanto à história,
realmente, não pretendi nem tentei meter nestas páginas tudo o que fizemos e
tudo o que vimos na nossa viagem à terra dos Cacuanas. Há, todavia, nesse
estranho povo, coisas que mereciam exame detalhado e lento: a sua fauna, a sua
flora, os seus costumes, o seu dialeto (tão aparentado com a língua dos Zulus),
o magnífico sistema da sua organização militar, a sua arte subtil em trabalhar
os metais... Que interessante estudo se faria, além disso, com as lendas que
ouvi e colecionei acerca das armaduras de malha que nos salvaram na batalha de
Lu! Que curiosa, também, a tradição que entre eles se tem perpetuado sobre os
«Silenciosos», os dois colossos que jazem à entrada das cavernas de Salomão! No
entanto pareceu-me (e assim pensaram o barão Curtis e o capitão John) que seria
mais eficaz contar a história a direito, e secamente, deixando todas estas
particularidades sobre a região e sobre os homens para serem tratadas mais
tarde, num tomo especial, com minudência e largueza.
Resta-me, pois, implorar a benevolência para a minha tosca maneira de
escrever. Estou mais habituado a manejar a carabina do que a pena e sempre me
foi alheia a fina arte dos arrebiques e floreios literários. Talvez os livros
necessitem esses floreios e ornatos: não sei nem possuo autoridade para o decidir;
mas, na minha bárbara ideia, as coisas sim decidir; mas, na minha bárbara
ideia, as coisas simples são as mais impressionadoras e mais facilmente se deve
acreditar e estimar o livro que venha escrito com séria e honesta singeleza.
«Lança aguda não precisa brilho», diz um provérbio dos Cacuanas; e, movido por
este conselho da sabedoria negra, arrisco-me a apresentar a minha história, nua,
lisa, nas suas linhas verdadeiras, sem lhe pendurar por cima, para a tornar
mais vistosa, os dourados galões da eloquência.
ALÃO QUARTELMAR

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