sexta-feira, 7 de setembro de 2012
É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS
Destruição Confidencial de documentos.
O meu avô dizia que até com cascas de alho se pode fazer um negócio.
GARE DU MIDI
Gare du Midi. Chove. Espero por um combóio que só daqui a quatro horas vem. Podia ir dar uma volta, ver coisas que não cheguei a ver, mas não vou. Estou triste e desanimado como um locomotiva fria aqui ao pé. Andar mais, era entristecer e desanimar mais ainda. Ao partir, contra a minha própria unidade, trazia escondido na maior fundura de mim o desejo de abrir ao lado do postigo ibérico, que me revela a vida, amplas e europeias janelas. Afinal, quanto mais ando, mais cercado me sinto de muros e de penumbra. O que levo daqui é uma espécie de luar gelado que não serve de nada na minha quente noite peninsular.
Miguel Torga em Diário, Volume I, Coimbra, Maio de 1942
Legenda: Gare du Midi, óleo de José Manuel Gil Gonzalez
quinta-feira, 6 de setembro de 2012
NÃO HÁ FESTA COMO ESTA!
Noites quentes de Verão.
Amanhã, às 19,00 horas, abre, na Quinta da Atalaia, frente à Baía do Seixal, a Festa do Avante.
Já lá pode ir jantar e assistir à grande abertura musical da Festa.
Com tem acontecido nos últimos anos haverá música clássica.
Este ano o mote são os Concertos Promenade, os velhos Proms, tal como ficaram conhecidos os concertos que anualmente a BBC organiza no Royal Albert Hall de Londres.
Chamados de Promenade porque evocando os eventos musicais realizados ao ar livre, desde meados do século XVIII, nos grandes recintos públicos e parques citadinos, estes Concertos tornaram-se um acontecimento maior da programação da BBC a partir de 1927 e, depois de uma interrupção provocada pelos primeiros anos da II Grande Guerra, novamente a partir de 1942, agora no interior de amplas salas de concerto mas ainda e sempre proporcionando ao público um ambiente muito descontraído, quantas vezes sublinhando este com a sua espontaneidade e intervenção colectiva certas passagens de peças famosas e de conhecimento geral.
Orquestra Sinfonieta de Lisboa
Artistas Convidados:
Maestro | Vasco Pearce de Azevedo
Solista | Ana Cristina Fernandes Pereira
Solista | Inês Andrade
Solista | Sérgio Pacheco
Alinhamento do espectáculo:
1 Elgar Marcha de Pompa e Circunstância op. 39 – nº. 1 em Ré Maior
2 Khatchaturian Dança do Sabre
3 Mozart Eine kleine Nachtmusik - 1º and.
4 Mendelssohn Concerto para Violino e Orquestra, op. 64 em Mi menor - 1º and.
5 Chabrier España
6 Bernstein Symphonic dances from West Side Story - Prologue
7 Franz von Suppé Abertura Cavalaria Ligeira
8 Haydn Concerto para Trompete e Orquestra, em Ré Maior - 3º and.
9 Prokofiev Romeu e Julieta - Montagues and Capulets (Dance of the Knights)
10 Offenbach Infernal Galop (de Orphée aux Enfers)
11 Borodin Polovtsian Dance nº. 17: Dance of the Maidens (Príncipe Igor)
12 Bizet Suite L’ Arlésienne nº 2 - Farandole
13 Grieg Concerto para Piano op. 16, em Lá menor - 1º and
14 Schubert Marcha Militar D 733 nº. 1, op. 51
15 Johann Strauss Jr. Valsa - O Danúbio Azul
16 Johann Strauss Sr. Radetzky March op. 228
A FESTA
Fotografia publicada no Expresso s/d, a ilustrar uma reportagem sobre uma Festa do Avante, possivelmente das primeiras que se realizaram na Quinta da Atalaia.
Ao fundo vê-se a enseada do Seixal e em primeiro plano um grupo sorridente petisca.
Porque a comida, a bebida são um outro lado do encontro, do convívio, da Festa.
Tinto para os homens, sumo para as senhoras. Talvez o casqueiro seja alentejano.
Sentem-se bem, porque não há Festa como esta.
Di-lo, por exemplo, Rogério Rodrigues, neste recorte de uma crónica publicada no Diário de Notícias de 6 de Setembro de 2000:
(Para uma leitura mais fácil, clique sobre a imagem do texto).
O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?
O que mais me agradava no Verão de outros tempos, era a possibilidade de ver, ou rever, em alguns cinemas, como o King, o Ávila, o Nimas, reposições dos filmes que tinham estreado durante a época.
Não só os filmes que tinham estreado, também outros.
Tudo mudou: o Verão, as políticas das distribuidoras de filmes.
Resta a Cinemateca, mas ninguém garante por quanto tempo.
Legenda: imagem de O Joelho de Claire de Eric Rohmer, 1970
QUOTIDIANOS
Diga-se: o medo voltou a crescer na sociedade portuguesa.
Há tão pouco tempo o deixámos!...
Fazer crer que não conseguimos viver fora deste enredo de medidas de austeridade, de ameaças, disto e daquilo, mercados, juros, empréstimos, troikas, troikados…
Passos Coelho ainda agora lembrou que ninguém no Governo deseja sobrecarregar os portugueses com mais impostos, mas nenhuma decisão pode ser excluída.
Em Maio de 1956 Miguel Torga perguntava:
A minha geração falhou, ou falharam-na? Fomos nós que não pudemos, ou fomos impedidos de poder?
As gerações seguintes fazem a mesma pergunta.
Quantas mais?
No entanto, por um Abril, tivemos um golpe de esperança.
Em que esquina do tempo deixámos que nos enganassem?
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
À LUPA
Cristiano Ronaldo? Gostava de estar triste como ele.
Adriano Galliani, vice-presidente do Milan em A Bola.
ACABOU-SE O FORRÓ!
Cinquenta anos após a sua morte, os autodenominados herdeiros de Marilyn Monroe acabam de perder a galinha dos ovos de ouro.
Um tribunal norte-americano desmontou todas as manigâncias que os herdeiros conceberam para lucrar com os direitos sobre a imagem da actriz.
A partir de agora, ninguém vai ter de pagar para utilizar imagens de Marilyn Monroe.
Os representantes de Monroe tomaram uma decisão sobre o domicílio da sua morte há 40 anos atrás, mas decidiram mudá-la para se beneficiarem economicamente, disse fonte do tribunal que julgou o caso. Para além disto, a mesma fonte acrescenta que os herdeiros trataram de convencer o estado da Califórnia para que criasse direitos que não existiam quando ela morreu.
A luta pelos direitos de exploração da imagem de Marilyn Monroe termina como ela previu há 50 anos atrás", diz a sentença uma vez que Marilyn Monroe sabia da polémica que poderia surgia em torno dos direitos da sua imagem.
Sei que pertence ao público e ao mundo, não porque tenha talento e seja bonita, mas porque nunca pertenci a nada nem a ninguém, disse a atriz antes de morrer.
O CR7 ESTÁ TRISTE!
Cristiano Ronaldo é um excelente jogador e vivia no melhor dos mundos até ao momento em que descobriu que, afinal, não é o jogador mais bem pago do mundo.
Tem pela sua frente nove rapazes a ganharem mais do que ele.
Não gostou.
Os rapazes são:
Samuel Etoo (Anzhi), 20 milhões/ano
Ibrahimovic (PSG), 14,5
Wayne Rooney (Man. United), 13,8
Yaya Touré (Man. City), 13
Kun Aguero (Man. City), 12,5
Didier Drogba (Shanghai), 12
Fernando Torres (Chelsea), 10,8
Conca (Guagzhou), 10,6
Lionel Messi (Barcelona), 10,5
Ibrahimovic (PSG), 14,5
Wayne Rooney (Man. United), 13,8
Yaya Touré (Man. City), 13
Kun Aguero (Man. City), 12,5
Didier Drogba (Shanghai), 12
Fernando Torres (Chelsea), 10,8
Conca (Guagzhou), 10,6
Lionel Messi (Barcelona), 10,5
Pelo caminho viu, na semana passada a bola de ouro ser atribuída a Iniesta, ele que já destinara espaço, na vitrina da mansão, para colocar o troféu.
Por sua iniciativa, ou talvez não, resolveu ir até ao gabinete do Presidente do Real Madrid, Florentino Peres, manifestando o seu desagrado por não receber mais dinheiro, e terá feito saber que, de longe, das terras do petróleo, dos países dos sheiks, lhe andam a acenar com um contrato irresistível.
Com o país em crise, o presidente não terá, no imediato, satisfeito as exigências de Ronaldo, ou até admite que ele já ganha o suficiente ou que já começa a ficar um tanto ou quanto cansado dos seus caprichos.
O CR7 amuou e no domingo deixou de vibrar com os golos que mete, exige carinhos não se sabe bem como, nem de quem.
A cabeça de Ronaldo não acompanha, bem longe disso, a magia dos seus pés, das suas fintas, dos seus remates. Não é caso único, diga-se.
Nos clubes também ninguém se dedica à tarefa de, para além dos aspectos tácticos, do trabalho especifico, da preparação física, pôr aquelas cabecinhas a pensar mais um bocadinho, qualquer coisa que tenda para o bom senso, para uma certa educação cívica, leve que seja, qualquer coisa que lhes permita irem além daquele palavreado vazio, repetitivo que já enjoa, o mister, o grupo de trabalhão, o agora há que levantar a cabeça e pensar no próximo jogo.
Não se exige que leiam Shakespeare, mas que deixem de mostrar a banalidade assustadora que são que bolsos cheios de dinheiro e cabeça vazia de princípios
Não conduz a nenhum lado.
Mas o que falta ao CR7?
Deixou o Manchester, onde se fez o jogador que hoje é, para ir para o maior clube do mundo, ser treinado pelo maior treinador do mundo.
Tem dinheiro, tem jacto particular, tem uma colecção de carros topo alto de gama, numa noite londrina espatifou um Ferrari de 307 mil euros, tem namoradas, tem um original corte de cabelo, tem brinquinhos para a orelha, só que ainda não chega.
Quem ainda acredita no amor à camisola, tire o cavalinho da chuva, desengane-se. Quando virem os jogadores meterem golo, correrem o campo a darem beijinhos no emblema da camisola, desviem os olhos para o lado, esqueçam, não acreditem.
Pesetero chamaram os adeptos do Barcelona ao Luís Figo, no dia em que, por mais dinheiro, rumou a Madrid para jogar no Real.
A sabedoria popular diz que as pessoas que ganham muito dinheiro perdem a única coisa que têm: prazer.
Os jogadores de futebol, os ditos craques, tornaram-se uns bebés-chorões, com birras dignas de uma qualquer balzaquiana, são vaidosos, arrogantes, pomposos.
Preocupam-se mais em serem manequins, vedetas de publicidade do que jogarem futebol que é isso que se lhes exige e para o que são principesca e escandalosamente, pagos.
Incomoda que se ocupem tantas horas nas televisões, nas rádios, nos jornais, com a tristeza que acometeu esse herói nacional que dá pelo nome de Cristiano Ronaldo.
Como se o país não tivesse mais em que pensar.
Mas podemos descansar: o defesa Álvaro Arbeloa, seu colega de equipa, mostrou-se solidário e confessou à imprensa espanhola:
Se ele precisa de carinho é isso que vai receber da equipa.
terça-feira, 4 de setembro de 2012
OLHAR AS CAPAS
John Ford: A Filmografia Completa
Scott Eyman
Tradução Constança Santana
Taschen, Colónia 2005
Os westerns de Ford têm tanto um sentido da vida como uma aura de lenda. Podemos ouvir o ranger da madeira nas suas combinações de temas da odisseia com o seu sentido da humanidade desleixada. Os westerns de Ford preenchem a necessidade essencial de qualquer coisa duradoura acerca da América – são sobre promessas, e por vezes sobre a traição a essas promessas. O mundo de Ford é feito de soldados e padres, de alcoólicos e médicos e empregados e prostitutas e homens enlouquecidos, guiados pela sua necessidade da solidão, mesmo quando viajam em direcção a casa, em direcção a uma reconciliação.
A melancolia irlandesa de Ford manifestava-se num sentimento de perda – por uma inocência desaparecida, por um amor perdido, uma comunidade, uma casa. Muitos dos filmes de Ford são grandiosos, quase épicos, mas são ao mesmo tempo íntimos, pois contém o mesmo calor, pormenor doméstico e intimidade dos filmes pequenos. Tinha sentido de humor, evidentemente, mas tinha também uma seriedade intensa e sustida e um sentido do dramático – tanto com as paisagens como com as pessoas. A sua afinidade com os homens e mulheres dos seus filmes era notável; Ford é um mundo de humanidade genial – não de pecados cardeais, mas de pecados venais, hedonísticos.
O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?
Wyatt Earp – Mac, já alguma vez estiveste apaixonado?
Mac – Não. Fui taberneiro toda a vida.
Diálogo de A Paixão dos Fortes de John Ford.
Esta cena passa-se no bar de Tromstone, mas não é a cena do diálogo.
Foram infrutíferas as tentativas para encontrar essa cena, a cena em que Earp, mãos em cima do balcão, garrafa de whisky no meio, um candeeiro de petróleo, está face a face com Mac e faz-lhe a pergunta:
Wyatt Earp – Mac, já alguma vez estiveste apaixonado?
Mac – Não. Fui taberneiro toda a vida.
Com A Paixão dos Fortes, John Ford regressou a um seus cenários favoritos: Monument Valley, em plena Reserva dos Indios Navajos, na fronteira do Arizona com o Utah.
Um filme de persistentes silêncios, céus rasgados.
Manuel Cintra Ferreira chamou-lhe a quinta essência do western clássico.
Nenhum filme como este nos dá a sentir o cheiro das flores do deserto e o espírito da música popular nessa sequência única na história do cinema que conduz Wyatt Earp da porta da barbearia ao cimo da colina onde tem lugar o baile. E ninguém soube filmar os bailes como Ford, fazendo de cada movimento um verdadeiro ritual.
Como escreveu Scott Eyman:
Fonda a mover-se com o passo deliberado de uma elegante cegonha.
Fonda a mover-se com o passo deliberado de uma elegante cegonha.
John Ford morreu, de cancro, no dia 31 de Agosto de 1973. Tinha 79 anos.
Uma hora antes de morrer, John Ford gritou:
Alguém tem para aí um charuto?
Deram-lhe um. Fumou-o e apagou-o. Passados alguns momentos morreu.
Pedir um charuto, os seus tão amados charutos que fumava inteiros ou metades cortadas a canivete, terão sido as últimas palavras do homem que fazia westerns, que adorava fazer filmes, mas não gostava de falar deles e, tal como disse a Peter Bogdanivich, o seu filme preferido era sempre o próximo.
Mas na vida, nos filmes de Ford, as histórias tornam-se quase todas lendárias.
Assim como, sempre, ter dito que nasceu num bar da Irlanda.
Assim como, sempre, ter dito que nasceu num bar da Irlanda.
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John Ford,
O Qu'é Que Vai No Piolho?
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
À LUPA
A história repete-se. E na RTP há pessoas que uma década volvida voltam a viver as mesmas coisas, a partilhar as mesmas angústias, a sentir as mesmas revoltas. Gente que não tem "carros de luxo" nem "ordenados milionários". Parece incrível, não é? Mas é uma verdade. Na RTP também há gente a ganhar mil e poucos euros, que perdeu 10% do ordenado nos últimos dois anos, que perdeu os subsídios de férias e de Natal. E voltam a ser esses, também esses, que dez anos volvidos voltam a revoltar-se em plenários, a sair à rua, a empunhar cartazes e a gritar palavras de ordem.
Nuno Azinheira no Diário de Notícias.
ALGURES AONDE EU NUNCA VIAJEI
algures aonde eu nunca viajei, alegremente além de
qualquer experiência, os teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frouxo há coisas que me prendem,
ou que não posso tocar de tão próximas que estão
o teu mínimo olhar há-de facilmente desprender-me
embora eu me tenha cerrado como dedos,
tu sempre me abres pétala a pétala como abre a Primavera
(tocando hábil, misteriosamente) a primeira rosa
mas se teu desejo for encerrar-me, eu e
minha vida fecharemos em beleza, de repente,
como quando o coração desta flor imagina
a neve em tudo cuidadosa descendo:
nada do que existe para ser sentido neste mundo iguala
o poder da tua extrema fragilidade: cuja textura
me submete com a cor dos seus domínios,
representando a morte e para sempre em cada alento
(eu não sei o que é que há em ti que fecha
e abre; apenas alguma coisa em mim entende
a voz dos teus olhos mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem tão finas mãos
Tradução de Jorge Fazenda Lourenço, tirado de uma agenda da Assírio &Alvim
domingo, 2 de setembro de 2012
À CONVERSA...
Perguntaram-lhe:
Nas suas composições o que é mais importante?
Respondeu:
Para mim é mais importante saber o que não quero, do que saber o que quero.
EMMANUEL NUNES
Dois dias depois de ter feito 72 anos, morreu, em Paris, o compositor Emmanuel Nunes.
São básicos, serão muito pior que básicos, os meus conhecimentos sobre música.
Nunca consegui ultrapassar a banalidade do gosto, não gosto.
Fiz várias tentativas para entender, passar a gostar, da música de Emmanuel Nunes, mas não houve o menor lampejo.
Passa-se o mesmo com Jorge Peixinho, se bem que com Peixinho, tenha conseguido entrar um bocadinho mais para lá.
Há que dizer, a vulgaridade do costume: que ficamos, mais pobres, cada vez mais pobres, com a morte de Emmanuel Nunes.
Recebeu, em 1971,o Prémio de Estética Musical do Conservatório de Música de Paris, cidade onde passou a viver a partir de 1964, quando se exilou por oposição à ditadura salazarista.
Venceu também o prémio Composição da UNESCO em 1999 e o Prémio Fernando Pessoa em 2000.
Venceu também o prémio Composição da UNESCO em 1999 e o Prémio Fernando Pessoa em 2000.
Os seus estudos musicais foram feitos sobre a orientação de Fernando Lopes Graça.
QUOTIDIANOS
Ilha do Corvo, Açores.
Numa fajã lávica, prantou-se a Vila do Corvo, onde vivem meia dúzia de pessoas.
O censo de 2011 apurou 430 habitantes.
O jornalista deslocou-se para fazer uma reportagem sobre a vida e as gentes do Corvo.
Falou com o habitante mais velho que, ao despedir-se lhe disse:
- Olhe lá: na sua entrevista, não diga muito mal do Corvo, se faz favor, mas também não diga muito bem porque nós gostamos assim, de estar sozinhos.
SARAMAGUEANDO
Mais um passar de olhos pela Correspondência trocada entre José Rodrigues Miguéis e José Saramago.
Numa carta datada de 31 de Maio de 1960, Miguéis lamenta-se amargamente:
Não recebo uma palavra dum amigo! – Em Portugal estar ausente é estar esquecido.
Saramago entende a tristeza do amigo, e a 7 de Junho escreve-lhe:
As paredes da sua casa, aí, devem tê-las ouvido das boas a meu respeito! E com carradas da razão. Que silêncio é este? que se passas nos Estúdios Cor? que é feito do Saramago que perdeu o pio? E vai-se procurar os motivos e que encontra? Nada, ou antes, mil e uma pequenininhas coisas, todas igualmente significantes, mas que juntas fazem uma rede capaz de amansar Hércules – o dos doze trabalhos.
Se realmente vem em meados deste mês (e oxalá venha, que já tarda) esta carta vai encontra-lo em preparativos de partida. Não importa. Não vou deixar escapara esta oportunidade de vestir a pele de crítico, a mais sovada e dura pela da Criação.
Nesta longa carta, Saramago fala da Escola do Paraíso, de que acabara de ler o manuscrito, e no final da carta, releu o que escrevera e conclui que não disse metade do que teria para dizer.
Que é, cá no meu fraco entender a Escola do Paraíso? Um prodigioso inventário, já o disse. Todos vão procurar «o» romance no seu livro – e não «o» vão encontrar. (Como «o» não encontrar na Recherge du Temps Perdu.) E esse será o seu grande «crime». Porque nada mais atrapalha as pessoas de índole classificador (e sabemos bem quanto os lusos são dessas tais), que não saberem onde meter a ficha a que sempre reduzem as obras de arte. Por mim, confesso que até um terço do livro me senti dérouté: a todo o momento me parecia ter um fio condutor na mão, e logo, ele se partia, substituído imediatamente por outro que também me levava longe. E a minha franca admiração por si perguntava, desolada: «Aonde quer chegar este homem? isto é partida que se faça ao leitor de boa fé (ou má) que compre o ‘romance’?» Até que percebi, ou melhor, até que encontrei a «minha» explicação: a Escola é uma exploração da memória, levada telescopicamente ao infinito, desdobrando-se e repartindo-se em todas as direcções, passando e repassando infatigável, até restituir em cor e sabor, em som, tacto e olfacto (todos os cinco sentidos) uma época, um estilo de vida, um conjunto social que não se extinguiram de todo, apesar dos cinquenta anos decorridos, de duas guerras, vinte revoluções e trinta-anos-de-cultura.
Quando acertei a minha rota pela sua agulha (ou o que eu suponho ter sido a «sua» agulha), o constrangimento e o embaraço sumiram-se, e eu desci consigo à investigação minuciosa e apaixonada do tempo da «sua» infância. E embora uma adolescência nos separe (eu tenho 37 anos), descobri na minha memória inúmeros ecos da sua. Eu conheci algumas pessoas «assim», houve ruas, jardins e quintais comos os seus na minha infância. Em cada página me acontecia um sobressalto de ressurreição, e momentos houve em que o autor do livro (não sorria, por favor) era eu e ninguém mais… Cheguei ao fim como quem termina uma viagem que não devia acabar, porque as terras da memória estão sempre por descobrir, porque o «inventário» nunca está terminado.
Já disse: a carta é longa, mas arrisco, ainda, este pedacinho sobre o entusiasmo de Saramago perante o extraordinário livro de Miguéis:
Que se pode dizer do seu estilo que não esteja dito já? Somente que me pareceu mais vivo e mais alerta que nunca, lira de mil cordas, que vai do riso à lágrima, da ternura à ironia, com o ar (aparente) de quem respira sem esforço, de árvore que cresce «ali» porque «ali» está, confiante nas raízes que a sustenta de terra e no sol que a sustenta de luz.
Retenho a frase de Saramago: porque as terras da memória estão sempre por descobrir, porque o «inventário», porque o «inventário» nunca está terminado.
É assim, que alguns bons anos depois, iremos desaguar em As Pequenas Memórias.
Está lá a epígrafe tirada de O Livro dos Conselhos:
Deixa-te levar pela criança que foste.
Legenda: José Rodrigues Miguéis a comprar jornais num quiosque em Nova Iorque.
sábado, 1 de setembro de 2012
À CONVERSA...
Por vezes as conversas seguem rumos sombrios, e alguém perguntou como é que ele gostaria de morrer.
Depois de um silêncio arrastado, respondeu:
Rapidamente. Mas não hoje!
Legenda: imagem do filme O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman, 1957.
À LUPA
Dos 51.209 candidatos, sem vínculo à função pública, que se candidataram ao concurso para contratação inicial e renovação de contrato, ficaram colocados 7600.
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