domingo, 6 de outubro de 2024

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Desde 1976, a crítica gastronómica do Expresso é feita a partir de visitas anónimas, sendo pagas pelo jornal todas as refeições e deslocações.

Quem iniciou a função foi José Quitério.

E desde as primeiras linhas não se preocupou apenas com os pratos que degustou, os vinhos que bebeu.

Enrolou tudo numa escrita cativante que tratava a gastronomia com uma cultura geral admirável, que deixou marcas e alguns seguidores.

Segundo Mário de Carvalho «José Quitério é um dos grandes prosadores do nosso tempo. Porventura o maior. Um jornalista? Sim, um jornalista, um escritor, um erudito, um homem de cultura, um excelente conversador.»

Neste folheto, que aparece hoje em Olhar as Capas, debruçamo-nos sobre um «velho» restaurante de Lisboa, «O Funil», na Avenida Elias Garcia nº 82-A:

«É grato e reconfortante fazer escala num porto seguro, sem afunilamentos, onde há respeito pela gustação e pela bolsa. Que se revisita sempre com o mesmo alvoroço festivo com que se reencontra um amigo velho.»

Legenda: pintura de Giovani Stanchi

OLHAR AS CAPAS


100 Restaurantes/100 Vinhos

José Quitério

Expresso, Lisboa, 1998

A lista de 100 restaurantes que de seguida o EXPRESSO oferece aos seus leitores é a actualização de outra editada e distribuída juntamente com o jornal de 11 de Novembro de 1995. Dos então selecionados saíram 25, entrando naturalmente outros tantos. A ficha técnica de todos os agora mencionados reporta-se a Dezembro de 1997.

Convém recordar alguns avisos à navegação gastronómica. Esta nnão, uma escolha fundamentada dos melhores, mesmo tendo em conta a subjectividade inerente. Outros haverá – num país com mais de quarenta mil restaurantes e similares – que ficam de fora por ainda não se conhecerem, outros que beneficiaram da proximidade, outros que foram vítimas da distância, no sentido em que a possibilidade de visitas mais frequentes garante maior fundamentação aos juízes de valor.

Por outro lado, este é um sector altamente instável. Mudam-se proprietários, transferem-se cozinheiros, extinguem-se subitamente casas (muitas vezes por obra de quem nunca as devia ter aberto), adormecem ou degradam-se outras, modificam-se os estilos em prol de modismos duvidosos. Numa área em que o vector fundamental é uma arte que se consome imediatamente e se extingue após o acto da criação, captar tais efemeridades e inconstância, valorá-las e, ponto fulcral, manter essa classificação actualizada, é tarefa habitualmente só al alcance de uma equipa, obviamente competente, em dedicação exclusiva.

Cumpri este trabalho sozinho e assumo a respectiva responsabilidade.

MÚSICA PELA MANHÃ


Kris Kristofferson, que agora nos deixou, é daqueles personagens de que se gosta ao primeiro olhar, ao primeiro som, ao primeiro gesto. Não se pode esquecer a sua passagem pelo filme «Pat Garrett and Billy the Kid», filme de Sam Peckinpah, filme tratado a pontapé pelos idiotas da Metro-Goldwin Mayer, que tem banda sonora escrita por Bob Dylan, que também entra como actor, para além de  James Coburn, Rita Coolidge e  Harry Dean Stanton.

Pode ser que a Cinemateca, oportunamente, faça um In Memorian de Kris Kristofferson.

Por aqui ainda andam cassettes (inaudíveis) gravadas, a long time ago, dos LPs de Kris Kristofferson, que são propriedade do Luís Miguel Mira.




Para completar a lembrança de Kris Kristtoferson, ficamos com a espantosa interpretação de Janis Joplin de «Me na Bobby Mac Gee», como a canção de Bob Dylan «Knockin' On Heaven's Door» da banda sonora do filme «Pat Garrett and Billy the Kid».



sábado, 5 de outubro de 2024

BLOGUEANDO POR AÍ

Imagem e textos encontrados na Antologia do Esquecimento. Junto também o comentário que alguém deixou por lá:

«Que se pode dizer desta maravilha?
«O resto é silêncio», como diria o velho Hamlet.»

«Kalil gostava de livros. Quando lia histórias, dizia, era como se deixasse de ouvir os estrondos, os tiros, os gritos ao longe, as sirenes. Era como se uma luz se acendesse no coração do escuro.»

João Pedro Mésseder (texto) e Ana Biscaia (ilustração), in "Que luz estarias a ler?", Xerefé Edições, Coimbra, 3.ª edição, 2017.

sexta-feira, 4 de outubro de 2024

OLHAR AS CAPAS


História da Filosofia

August Messer

Tradução: Adolfo Casais Monteiro

Colecção: Dúvidas e Conquistas da Humanidade nº 5

Editorial Inquérito, Lisboa, Dezembro de 1946

Era habitual e frequente, nas exposições de história da filosofia do século XIX, omitir-se inteiramente a filosofia católica, ou «liquidá-la» em meia dúzia de observações, declarando-a «antiquada». Não obstante, tal como a própria Igreja católica, a tendência filosófica aprovada pela Igreja é uma força activa da nossa vida espiritual.

quinta-feira, 3 de outubro de 2024

KRIS KRISTOFERSOIN (1936-2024)

Aos 88 anos, morreu  Kris Kristofferson.

DOCES LEMBRANÇAS DA PASSADA GLÓRIA

Doces lembranças da passada glória,
que me tirou Fortuna roubadora,
deixai-me repousar em paz uma hora,
que comigo ganhais pouca vitória.

Impressa tenho na alma a larga história
deste passado bem que nunca fora;
ou fora, e não passara; mas já agora
em mim não pode haver mais que a memória.

Vivo em lembranças, mouro de esquecido,
de quem sempre devera ser lembrado,
se lhe lembrara estado tão contente.

Oh! quem tornar pudera a ser nascido!
Soubera-me lograr do bem passado,
se conhecer soubera o mal presente.


Luís de Camões em Sonetos

quarta-feira, 2 de outubro de 2024

OLHAR AS CAPAS


Colóquio/Letras

Número 53 – Janeiro de 1980

Homenagem a José Gomes Ferreira

Artigos de:

Fernando J.B. Lepecki

Carlos Reis

Orlando Ribeiro

Maria da Glória Padrão

Depoimentos de:

Casimiro de Brito

Gastão Cruz

Jacinto do Prado Coelho

Joel Serrão

Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Janeiro de 1980

«Não falei muito da poesia de José Gomes Ferreira. Tentei, porém, indicar como ela se inscreve no primeiro plano das mais renovadoras tendências da poesia portuguesa das últimas décadas, o que, dito acerca de um poeta que faz agora oitenta anos, não é pequeno elogio.»

EM BUSCA DE FLORES AZUIS NO DESERTO


 Num recente comício de Kamala Harris, o repórter pergunta, a uma mulher negra, algo sobre Kamala, que apenas responde:

«Quero ouvir o que Kamala vai dizer sobre Gaza»

Não sabemos o que Kamala terá dito, mas a mulher negra, depois dos ataques de ontem de Israel sobre o Líbano, já tem a resposta de Kamala:

«Apoio totalmente a ordem do presidente Joe Biden para que os militares dos Estados Unidos abatam mísseis iranianos visando Israel.»

IN MEMORIAN AUGUSTO M. SEABRA


Crítico de cinema e música com intervenção em variadíssimas outras áreas, Augusto M. Seabra deixou marca indelével no espaço da crítica das artes em Portugal ao longo do último meio século. Tendo começado pela crítica musical no jornal A Luta, em 1977, prática que nunca deixou, foram os seus textos sobre cinema que tiveram maior alcance, tendo feito parte da equipa de críticos de jornais como o Expresso nos anos 1980 e sido um dos fundadores do Público.

Como crítico de cinema, foi sempre alguém interessado em conciliar a atenção à vertente popular desta arte, o legado das épocas clássicas (em 1982, por exemplo, chamou ao E.T. de Steven Spielberg, em texto no Expresso aquando da estreia mundial do filme em Cannes, O Filme do Nosso Deslumbramento) com a descoberta e defesa das cinematografias ditas “periféricas”, fora do eixo Europa/América. Em Portugal, foi assim um dos críticos mais ativos na divulgação dos cinemas das várias regiões da Ásia, incluindo China continental, Japão, Hong Kong, Taiwan, Filipinas ou Índia, e mais tarde também do Irão (tendo sido, certamente, dos primeiros a chamar a atenção para Abbas Kiarostami). A atividade de crítico levou-o à função de jurado em diversos festivais internacionais de cinema, sendo aqui de destacar a sua presença no festival de Cannes de 1993.

A tudo isto juntou-se então a atividade de programador, que encarou como um prolongamento do trabalho na crítica. Dois exemplos entre muitos: em meados dos anos 1990 foi responsável pela programação de cinema de um acontecimento importante no panorama cultural da Lisboa de meados dos 90, uma espécie de festival multidisciplinar que levou o título genérico de “Mistérios de Lisboa”; mais recentemente, foi durante vários anos programador do Doclisboa, onde animou a secção “Riscos”, destinada a interrogar, de forma sempre estimulante, várias franjas da produção mundial na órbita do “cinema do real”, entre a pura experimentação formal e a exploração, por exemplo, de registos diarísticos e autobiográficos.
Last but not the least, impõe-se lembrar que, enquanto crítico, Augusto M. Seabra foi para além do horizonte mais habitual desta prática. Com frequência, os seus textos ultrapassaram em muito o domínio estrito da análise de obras ou espetáculos, transformando-se em reflexões continuadas sobre o papel das instituições e da política cultural no nosso país. A esse outro nível, a sua intervenção foi mais uma vez feita de conhecimento, memória, ponto de vista, e, o que não é nada despiciendo, raro espírito de independência, nunca poupando a priori quaisquer entidades, grupos ou instituições - disso não se excluindo a Cinemateca.
Presença regular na Cinemateca, Augusto M. Seabra foi homenageado na Cinemateca em junho de 2021 com uma carta branca que espelhava a abrangência do seu conhecimento, que deixou de parte títulos óbvios optando por um conjunto de títulos dos mais variados registos e origens geográficas. Nessa mesma data, decorreu na Cinemateca a cerimónia pública de doação do acervo documental de Augusto M. Seabra, que por sua vontade foi tematicamente confiado a diferentes instituições, tendo este organismo recebido a sua vasta Biblioteca e Mediateca de Cinema.
Um mês decorrido sobre a sua morte, a Cinemateca recorda-o agora na mais rara qualidade de realizador através do documentário que correalizou com José Nascimento sobre Manoel de Oliveira.»

Texto tirado do site da Cinemateca Portuguesa


MANOEL DE OLIVEIRA: 50 ANOS DE CARREIRA

De Augusto M. Seabra, José Nascimento

Portugal, 1981 – 51 min | M/12

Ao longo do ano de 1981 a televisão pública iniciou a emissão de um magazine de cinema. Chamava-se Ecran e os seus autores eram o crítico Augusto M. Seabra e o realizador José Nascimento. Ali, a dupla refletia sobre as estreias, os ciclos da Cinemateca (uma memorável retrospetiva de Fritz Lang), mas também sobre as questões da política do cinema nacional e as suas condições de produção (recorde-se o episódio-manifesto, A SITUAÇÃO DO CINEMA PORTUGUÊS). Produzido como um episódio especial (daí a diferença de duração e daí o fim da série, já que a direção de programas não aceitou a ousadia), os coordenadores assinalaram os 50 anos da carreira de Manoel de Oliveira, quando o realizador estreava FRANCISCA e se preparava para abandonar a famosa casa na Rua da Vilarinha. A sessão completa-se com excertos do programa Tv Artes de Alexandre Melo, Isabel Colaço e José Nascimento, integrado no Ciclo “José Nascimento – Nem Verdade, Nem Mentira”. 

O filme de José do Nascimento e Augusto M. Seabra exibe-se no dia 3 de Outubro, pelas 21,30 horas na Cinemateca

terça-feira, 1 de outubro de 2024

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 

O espectáculo de A Barraca aconteceu em 1977, mas já de há muito íamos dizendo ao que o 25 de Abril tinha chegado.

Como diz Augusto Boal no guião do espectáculo:

«Ao que isto chegou: para falarmos sensatamente deste país, hoje 1977, temos que dizer absurdos.

É um absurdo. É o nosso país. Pelo menos é o que diz, neste espectáculo, a maneira dos artistas que dele participa.»

Passados quarenta e sete anos, do espectáculo de A Barraca, da publicação do livro, cuja capa agora se lembra, andamos, no país que foi de Abril, à volta de uma rábula, de uma cegada que mete personagens toscos,  a «discussão» de um orçamento – há mais de tudo para além de um orçamento!!! – que deveria reger as nossas vidas, e a frase não nos abandona:

AO QU’ISTO CHEGOU!?

Na capa do livro estão os autores que participaram naquela Feira Portuguesa de Opinião, grande parte deles já não se encontram ente nós.

OLHAR AS CAPAS


Ao Qu’isto Chegou!?

Diversos autores

Capa: Soares Rocha

Editorial Estampa, Lisboa 1977

 

QUE É FEITO DO MÊS DE ABRIL?

 

Que é feito do sol da Abril

que nos circulou pelas veias?

Que é feito das ruas cheias

quando o sol era um balão

e andava tudo ao contrário

as estátuas vinham ao chão

e o sonho era o nosso horário?

 

Que é feito do mês do mês do sonho

quando o sonho era concreto

e tinha forma de casas

portas abertas

e pão,

quando o sonho que sonhámos

era filho colectivo

parido pela multidão!

 

Foi então

num país

de repente sem fronteira

foi a feira

a desgarrada

foi o espanto dos abraços

na arquitectura sem margem

duma terra a conquistar.

 

Foi num país que acordou

com planícies no olhar

e a concertina a tocar

dentro do peito.

         Que é feito do mês de Abril?

Soldados a quem dissemos:

amigos eh! Pá! Irmãos

operários que descobriram

um espaço para além das mãos

e as mulheres trabalhadeiras

que rasgaram seus vestidos

para as bandeiras de alegria

com que Abril foi envolvido.

         Que é feito do mês de Abril?

 

Foi um país impaciente

que de pé se quis em flor

foi o riso das guitarras

cansadas de choro e dor

foi a alegria fabril

foi a força da razão.

       Não esqueças o mês de Abril!

       Não esqueças que és multidão!

ÚLTIMA PAISAGEM

Farol imóvel. Esquina solitária.

Densa paisagem de uma alma que caminha.

Menina com gabardina rasgada, eu.

Altos luzeiros.

Olho a rua larga que se ilumina.

Ouço a água que cai sobre a vida.

Deixa-me partir.

Chamar-te-ei irmão, amigo, caminhante.

Caminhante chamar-te-ia amor se eu não soubesse

que prosseguirei o meu rumo

com coração e cara de menino.

Amigo, irmão vou conversar

nos teus braços que tudo abarcam.

Ouve, macho, barcos há cindindo o horizonte.

Terras distantes como moedas velhas.

Tempo para esboroar entre os dedos

Eis a liberdade de que necessito

como uma fruta ácida e redonda.

Deixa-me partir.

Há um caloroso adeus nas minhas mãos.

O vento amar-me-á como a uma criança.

Nenhum outro homem terá o teu sorriso.

Sou o ouriço triste, de tantos esconderijos.

Irei pela tarde contra qualquer certeza.

Alto farol. Esquina solitária.

A minha gabardina rota pinga lá longe.

 

María Jesús Echevarria em Poemas da Cidade

segunda-feira, 30 de setembro de 2024

OLHAR AS CAPAS


A Funda

4º Volume

Artur Portela Filho

Carta-Posfácio: Norberto Lopes

Capa: Guilherme Prosperi

Editora Arcádia, Lisboa, Abril de 1974

Era o filho pródigo do Regime.

Fizera, no Direito, a ideologia, a família moral, o destino histórico.

Estava talhado, calibrado, destinado.

Não era um acidente - era uma raça.

Tinha, sobre a cabeça, a estrela. Na fronte, o halo. No olhar, a certeza. No sorriso, a sorte.

E quando passava, nos corredores pombalinos do poder, soltando a sua risada aguda, o seu gesto largo, todos os barões, acercando, cochichadamente, as cabeças, o seguiam com um olhar terno.

Era Marcello.

Era Rebello.

Era De Souza.

E, excessivamente, Nuno.

Foi o escândalo.

Foi o escândalo quando ele, recusando sob Martinez, a reprise, rechaçando, sob Dias Rosas, a tarimba, apareceu por sobre o ombro Pestana & Brito de Francismo Balsemão, a espreitar.

Era a fronda do Expresso.

Não quiseram crer. 

E, no entanto, era bem ele, a vivacidade Tim-Tim, a barba Trotsky, o olhar Harold Loyd.

E o riso fácil, a voz estaladamente metálica, a inteligência extravasante, o brilho incontrolado.

O próprio excesso.

O Regime empalideceu.

A Esquerda riu. E a 3ª Força, ela mesmo, sentiu, naquele Gotha revoltado, naquela lei de  Mendel às avessas, naquela Divisão Azul, um compromisso, uma má consciência, um lastro, uma trela.

Um chumaço.

Uma bala de madeira.

Uma injustiça.

domingo, 29 de setembro de 2024

DISTO, DAQUILO E DAQUELOUTRO

Em Junho, Mia Couto venceu o Grande Prémio de Conto Branquinho da Fonseca da Associação Portuguesa de Escritores pelo livro «Compêndio para Desenterrar Nuvens.»

António Rodrigues, a propósito deste novo prémio de Mia Couto, para o Público de 30 de Agosto, suplemento Ipsilon, realizou uma excelente entrevista com o escritor moçambicano.

«Fico sempre surpreendido quando ganho um prémio. Não é coisa de falsa modéstia, mas sinto-me bem não tendo essa expectativa de poder ganhar, senão o prazer de fazer o livros e de escrever.»

António Rodrigues pergunta a Mia Couto:

Já sabe como vai gastar o dinheiro do prémio? Tem algumas dívidas para pagar?

«Quando se trata de dinheiro, sou péssimo. E sou péssimo, porque, felizmente, tenho algum privilégio, olhando para o mundo e para a maior parte das pessoas, para quem o dinheiro é uma preocupação do quotidiano. Não sendo rico, não tenho, nunca tive essa preocupação. Acho que se fosse mais pobre também não teria, porque eu via pelos meus pais, que não era gente que vivia de maneira folgada, antes pelo contrário, que ali faziam-se contas, mas o meu pai, que era poeta, nunca as fez. Era a minha mãe que controlava esse lado da vida. Eu herdei um pouco do meu pai esta coisa de estar desamarrado, e é um grande privilégio.»

Como já disse: uma excelente entrevista e um tempinho ainda para o seu final:

«Para terminarmos, e como diz que a sua linguagem é a linguagem da poesia, gostava de lhe perguntar: qual foi o seu verso mais conseguido?
Não lhe sei responder, mas o primeiro poema que fiz foi ao meu pai e, mais tarde, quando o meu pai morreu, despedi-me dele por via da poesia e percebi que tinha voltado a um verso feito 40 anos antes e que falava dessa criatura que vivia numa varanda como se vivesse num palácio. Como não sabia o que fazer com ele próprio, ficava ali com as mãos estendidas como se recolhesse esse orvalho que imaginava estar a tombar do céu. O verso não é exactamente esse, mas isso perseguiu-me como a grande lição do meu pai: dar importância àquilo a que ninguém ligava. O meu pai, no meio da guerra colonial, andava à procura de pedrinhas e sementes e olhava os pelicanos que passavam. Ensinou-nos a ver o que não tinha importância para os outros».

1.

Em apenas três dias, 2024 tornou-se o quarto pior ano da década em área ardida.

Do Público de 18 de Setembro

2.

No seu programa da SIC intitulado Conversas Secretas, o escritor Baptista-Bastos popularizou a pergunta «onde é que você estava no 25 de Abril?». Esta pergunta foi o ponto de partida para a Fundação José Saramago que, no quadro das comemorações dos 50 anos da Revolução de Abril, inverteu a questão e lançou um ciclo de conversas com o mote «Onde estarias se não fosse o 25 de Abril?».

sábado, 28 de setembro de 2024

COMO SE CHEGOU AQUI?


«A cidade no verão tem menos carros. Mas os “menos” carros são ainda muitos carros demasiados carros.

Seria interessante fazer-se um cálculo simples, que talvez exista já, mas que não conheço. El alguma cidades, calcular o espaço público disponível – estradas, passeios, jardins, etc. – e perceber qual a percentagem ocupada por pessoas.

E uma pergunta ainda. Não sobre carros, mas sobre algo bem mais sério.

Há uma tragédia recente, inaceitável, que em poucos anos, se tornou quase parte da paisagem social. – paisagem, ou seja, algo a que quase já não se dá atenção.

O emprego sempre foi historicamente aquilo que tirava as pessoas da pobreza. Não ter emprego implicava o risco de cair no total desamparo. Ter emprego era o objectivo, a salvação.

É muito recente este facto, que é dinamite social: muitos hoje têm emprego e são pobres. Ter emprego já não significa sair da pobreza. Hoje há pessoas com emprego que são sem-abrigo. Isso mesmo. Vão trabalhar e regressam depois à rua, para dormir.

Como se chegou aqui?»

Gonçalo M. Tavares, de uma crónica no Expresso, 6 de Setembro de 2024.

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

HÁ SEMPRE UMA ABÉBIA PARA DAR O FROSQUE


 Por Outubro aparecia nas livrarias um novo livro de António Lobo Antunes.

Como por aqui fui escrevendo, há muito que deixei de ler romances seus, ele que tanto me entusiasmou. As últimas palavras que dele gostava de ler, encontram-se nas crónicas que publicava em jornais e revistas, depois reunidas em livro. Mas já há algum tempo que nada disto acontecia.

Soube agora que António Lobo Antunes, por a demência o ter atingido, não mais escreverá.

Em 2016 publicou Para aquela que está sentada no escuro à minha espera.

José Cardoso Pires, grande amigo de Lobo Antunes, escreveu, Janeiro de 1997, no seu De Profundis, Valsa Lenta:

«Como despedida, a festa anunciada parece-me uma vinheta mas, se me é permitido, acrescento-lhe um fio de música.»

Conheci o escritor António Lobo Antunes através de uma entrevista que o jornalista Carlos Miranda publicou no jornal A Bola, 1980.

Comprei então Memória de Elefante, publicado pela Vega, e largamente, durante anos e anos, fui um entusiasta leitor.

«São cinco da manhã e juro que não sinto a tua falta. A Dóri está lá dentro a dormir de barriga para cima, de braços abertos crucificados no lençol, e a dentadura postiça, descolada do céu da boca, avança e recua ao ritmo da respiração num ruído húmido de ventosa. Bebemos ambos a aguardente da cozinha pelo púcaro de folha, sentados nus na cama que o gás de guerra tornou inabitável carbonizando até as folhas estampadas das fronhas, escutei-lhe as confidências prolixas, enxuguei-lhe o choro confuso que me tatuou o cotovelo de um arbusto de rímel, puxei-lhe o cobertor até ao pescoço à laia de um sudário piedoso sobre um corpo desfeito, e vim para a varanda arrancar os dejectos endurecidos dos pássaros. Está frio, as casas e as árvores nascem lentamente do escuro, o mar é uma toalha cada vez mais clara e perceptível, mas não penso em ti. Palavra de honra que não penso em ti. Sinto-me bem, alegre, livre, contente, oiço o último comboio lá em baixo, adivinho as gaivotas que acordam, respiro a paz da cidade ao longe, desdobro-me num sorriso feliz e apetece-me cantar. Se eu tivesse telefone e me telefonasses agora deverias encostar cuidadosamente o auscultador à orelha numa expectativa de búzio: através das espiras de baquelite, vindo de quilómetros de distância, desta varanda de betão suspensa sobre o fim da noite, terias, juntamente com o eco do meu silêncio, o vitorioso eco do meu silêncio, o piano amortecido das ondas. Amanhã recomeçarei a vida pelo princípio, serei o adulto sério e responsável que a minha mãe deseja e a minha família aguarda, chegarei a tempo à enfermaria, pontual e grave, pentearei o cabelo para tranquilizar os pacientes, mondarei o meu vocabulário de obscenidades pontiagudas. Talvez mesmo, meu amor, que compre uma tapeçaria de tigres como a do Senhor Ferreira: podes achar idiota mas preciso de qualquer coisa que me ajude a existir.»

quarta-feira, 25 de setembro de 2024

OLHAR AS CAPAS


Portugal Contemporâneo

Oliveira Martins

Guimarães Editores, Lisboa 1953

 

S.M. fora a Belém comer uma merenda. Era nos primeiros dias de março. Quando voltou ao pal´cio achou-se, à noite, mal – câibras, sintomas de epilepsia. Vieram médicos: o barão de Alvaiázere e o valido cirurgião Aguiar. No dia seguinte (5) o estado do enfermo piorou, e o rei decidiu-se a despir de si o pesado encargo do Governo. A 7, a Gazeta publicava o decreto nomeando a Regência, presidida pela  infanta D. Isabel Maria cuja bondade merecia as graças particulares do infeliz pai.

«Esta minha imperial e real determinação, afirmava o decreto do dia 6, regulará também para o caso em que Deus seja servido chamar-me à sua santa glória, enquanto o legítimo herdeiro e sucessor desta coroa não der as suas providências…» Mas quem era esse legítimo herdeiro? D. Pedro, o brasileiro? D. Miguel no seu desterro de Viena? Não o dizia o rei moribundo que toda a vida se achara indeciso, e acabava como tinha existido, sem uma afirmação de vontade, entre flatos, na impotência de uma morte oportuna. 

terça-feira, 24 de setembro de 2024

COMEÇOS DE LIVROS

A Morte É Um Acto Solitário de Ray Bradbury

É um maravilhoso começo de livro

«Veneza, na Califórnia, tinha, nos velhos tempos, muito que a pudesse recomendasse a quem gostasse de estar triste. Era o nevoeiro quase todas as noites, e era, ao longo da costa, o gemer das máquinas nos poços de petróleo, e o bater da água suja nos canais, e o zumbir da areia a roçar as vidraças, quando o vento assobiava à volta das praças e ao longo das ruas desertas.

Era no tempo em que o pontão de Veneza, a cair aos bocados, morria no mar. E podia ver-se então gigantesca ossada de dinossauro, a montanha-russa, a coberto ou a descoberto, com o vaivém das marés.

No fim de um longo canal, viam-se as caravanas de um circo, decrépitas, para lá atiradas e abandonadas. E quem olhasse para as jaulas, à meia-noite, veria que lá dentro havia vida – peixes e camarões de ´+agua doce, que andavam ao sabor da maré. E tudo isto, afinal, era o circo do tempo, feito ruína, desfazendo-se em ferrugem.»

Quantos anos? Depois continuamos a recordar quem não queremos esquecer.

«Tenho tudo em meio e já não me restam muitos anos para acabar o que está e há-de vir.»

Mário Sacramento

«Morrer era agora minha liberdade, e eu tinha a vida inteira para executá-la

pormenorizadamente.»

Herberto Helder

Há dois géneros de pessoas: as que acham que tudo se passa no principio e as que acham que tudo se passa no fim. Foi isso que T.S. Eliot sobre isso escreveu: «In my beginning is my end».

Ou como diria o vagabundo no bar irlandês, acabando a última Pin:

Life is a bitch… and then you die.

Miguel Torga diz que o homem é em si uma solidão:

«Nascemos sós, vivemos sós, morremos sós.»

Uma prosa existente na papelada da casa e que não consegue saber o autor, ou os papéis de onde copiou, num guardanapo de café de bairro, a citação:

«Todos devemos deixar qualquer coisa atrás de nós, ao morrermos, dizia o meu avô. Um filho, um livro, um quadro, uma casa, uma parede ou um par de sapatos. Ou ainda um jardim plantado de flores. Qualquer coisa que a mão tocou e para onde irá a alma no instante da morte, E quando as pessoas olharem essa árvore ou essa flor que plantámos nós, estamos lá, sob os seus olhos.»

segunda-feira, 23 de setembro de 2024

MÚSICA PELA MANHÃ


Disse Salvador Sobral que  «Autumn in New York» é para mim o standard mais bonito... O Wynton Marsalis disse um dia que nunca se ouviu jazz até se escutar a Billie Holliday a cantar o «Autumn in New York».

«Autumn in New York» é um standard de 1934, letra e música de Vernon Duke.

Que raio terá o Outono m Nova Iorque para ser tão convidativo?

Diz quem viu, que é um espectáculo de extraordinária beleza, as mais variadas folhagens que imaginar se possa.

Cheguei lá pelo cinema, pelas fotografias.

Dor e amor, sonhadores com mãos cheias de nada que, mesmo esforçadamente, conseguem chegar mais longe.

É bom viver o Outono nos milhares de Parques Centrais espalhados por este mundo.

Será?

Fazer por isso mesmo que hoje, aqui, tenhamos que viver um Outono que se passeia lá fora disfarçado de Verão.

Mas o importante é a visibilidade dos afectos.

Os pássaros voltarão em Março. 

DIA DE OUTONO

Senhor: é tempo. O Verão foi muito longo.
Lança a tua sombra sobre os relógios de sol
e solta os ventos sobre os campos.

Ordena aos últimos frutos que amadureçam;
dá-lhes ainda dois dias meridionais,
apressa-os para a plenitude e verte
a última doçura no vinho pesado.

Quem agora não tem casa, já não vai construí-la.
Quem agora está só, assim ficará por muito tempo,
velará, lerá, escreverá longas cartas
e vagueará inquieto pelas alamedas acima e abaixo,
quando caírem as folhas.

Rainer Maria Rilke

domingo, 22 de setembro de 2024

ELES TERÃO QUE PAGAR AS CRISES!

O Papa Francisco quer que os ricos paguem mais impostos.

Numa reunião no Vaticano, Francisco recusou frontalmente o sistema económico actual:

«Enquanto não se resolverem os problemas dos pobres, não se resolverão os problemas do mundo.»

OLHAR AS CAPAS


Sermão Sobre a Paz

Padre António Vieira

Prefácio e notas : António Sérgio

Colecção Textos Literários

Editora Seara Nova, Lisboa, 1938

A paz é uma concórdia recíproca e relativa; e tudo aquilo que é recíproco e relativo, em faltando e se perdendo de uma parte, necessariamente falta e se perde também da outra.

sábado, 21 de setembro de 2024

MORTES NOS FILMES

«Não gos­tava de muitas mor­tes nos fil­mes – “os cadá­ve­res não sabem representar”, explicou ele, achando que era um desperdí­cio e uma san­gria desa­tada cortar-se sim­ples­mente a cabeça à vítima.»

Manuel S. Fonseca na sua Página Negra

OLHAR AS CAPAS


 

Contos

Fialho D’Almeida

Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1941

Sem querer tinha reparado numa cousa – o tio Sabino não oferecia na pronunciação o menor resaibo brasileiro. O Alfredo apontára-lh’o como homem inteligente e amigo de leituras; bem podia ser por conseguinte, que aquella correcção no dizer, um pouco lisboeta por ventura, fosse esforço de estudo e evidente resultado da resistência ao contagio.