sábado, 26 de setembro de 2026
MÚSICA PELA MANHÃ
O rapaz extraordinário chamado Jorge Palma deixou-nos.
Não há muitos, quase nenhuns,
como ele.
Marcou um tempo, o nosso
tempo.
Já não vai andar por aí mas ficam
os concertos, os poemas, as músicas e é isso que não podemos esquecer!
sexta-feira, 25 de setembro de 2026
EM BUSCA DE FLORES AZUIS NO DESERTO
81ª Assembleia Geral da ONU.
Antes do discurso de Netanyahu, foram apresentadas na
Assembleia Geral as declarações do Presidente palestiniano, Mahmoud Abbas, que
tiveram de ser previamente gravadas, já que os Estados Unidos rejeitaram os
pedidos de vistos feitos por si e pela sua delegação, pelo segundo ano
consecutivo.
Netanyahu leu o seu discurso perante aquela enorme
quase sala completamente vazia e acabou a dizer que Israel tem o exército mais mural do mundo.
Fora do edifício da ONU decorreram largos protestos,
convocados por grupos judaicos e israelitas contra a governação de Netanyahu e
apelando a que seja responsabilizado pelos crimes cometidos à luz do direito
humanitário internacional.
Cerca de uma centena de manifestantes foram detidos
pela polícia e nesse grupa estava a actriz Susan Sarandon:
«Netanyahu, não podes esconder-te, acusamos-te de genocídio e nenhum de nós é livre até que todos sejamos livres.»
À LUPA
O líder parlamentar do PSD, Hugo Soares, protagonizou um dos momentos do debate desta quinta-feira, na Assembleia da República, sobre o aumento do custo de vida, na Assembleia da República. O social-democrata acusou o líder daquela coisa, de ser um “aldrabão”.
Em podcast,
jornalistas do Público admitem que,
perante um deputado chamar aldrabão a outro, uma linha vermelha foi
ultrapassada ou é apenas o 'novo normal' no Parlamento?
SONETO À MANEIRA DE CAMÕES
Esperança e desespero de
alimento
Me servem neste dia em que te espero
E já não sei se quero ou se não quero
Tão longe de razões é meu tormento.
Mas como usar amor de
entendimento?
Daquilo que te peço desespero
Ainda que mo dês – pois o que eu quero
Ninguém o dá senão por um momento.
Mas como és belo, amor, de
não durares,
De ser tão breve e fundo o teu engano,
E de eu te possuir sem tu te dares.
Amor perfeito dado a um ser
humano:
Também morre o florir de mil pomares
E se quebram as ondas no oceano.
Sophia de Mello Breyner Andresen
quinta-feira, 24 de setembro de 2026
POSTAIS SEM SELO
Com certeza que já vos aconteceu ouvir uma voz que chama pelo vosso
próprio nome. Dizem as pessoas simples que é uma alma que tem saudades vossas e
que vos comunica a proximidade da morte.
Gogol
RETRATOS
Nome: Vinicius. Por quê?
O Quo Vadis, saído em 13
Ano em que nasci.
Sobrenome: de Moraes
De Pernambuco, Alagoas
E Baía (que guardo em mim).
Sou carioca da Gávea
Bairro amado, de onde nunca
Deveria ter saído.
Fui, sou e serei casado
E apesar do que se diz
Não me acho tão mau marido.
Filhos: três e um a caminho
Altura: um metro e setenta
Meão, pois. O colarinho
Trinta e nove e o pé quarenta.
Peso: uns bons setenta e três
(precisam ser reduzidos…)
Dizem-me poeta; diplomata
Eu o sou, e por concurso
Jornalista por prazer
Nisso tenho um grande orgulho
Breve serei cineasta
(Activo). Sou materialista.
Deito mais tarde que devo
E acordo antes do que gosto.
Fui auxiliar de cartório
Censor cinematográfico
Funcionário (incompetente)
Do Instituto dos Bancários.
Actualmente sou segundo
Secretario de Embaixada.
Formei-me em Direito, mas
Sem nunca ter feito prática.
Infância: pobre mas linda
Tão linda que mesmo longe
Continua em mim ainda.
Prefiro vitrola a rádio
Automóvel atrem, trem
A navio, navio a avião
(De que já tive um desastre).
Se voltasse a vida atrás
Gostaria de ser médico
Pois sou um médico nato.
Minhas frutas predilectas
Por ordem de preferência:
Caju, manga e abacaxi.
Foi com meu pai, Clodoaldo
de Moraes, poeta inédito
Que aprendi a fazer versos
(Um dia furtei-lhe um
Para dar à namorada).
Tinha dezanove anos
Quando estreei com meu livro
O Caminho para a Distância
Meu preferido é o último:
Poemas, Sonetos e Baladas.
Toco violão, de ouvido
E faço sambas de bossa
Garoto, lutei jiu-jitsu
Razoavelmente. No tiro
Sobretudo em carabina
Sou quase perfeito. As coisas
Que mais detesto: viagens
Gente fiteira, fascistas,
Racistas, homem avarento
Ou grosseiro com mulher.
As coisas que mais gosto:
Mulher, mulher e mulher
(Com prioridade da minha)
Meus filhos e meus amigos.
Ajudo bastante em casa
Pois sou um bom cozinheiro
Moro em Paris, mas não há nada
Como o Rio de Janeiro
Para me fazer feliz
(E infeliz). Desde os 7 anos
Venho fazendo versinhos
Gosto muito de beber
E bebo bem (hoje menos
Do que há dez anos atrás).
Minha bebida é o uísque
Com pouca água e muito gelo.
Gosto também de dançar
E creio ser essa coisa
A que chamam de boémio.
Em Oxford, na Inglaterra
Estudei literatura
Inglesa, que foi
Para mim fundamental.
Gostaria de morrer
De repente, não mais que
De repente, e se possível
De morte bem natural.
E depois disso, ao amigo
João Conde nada mais digo.
Vinicius de Moraes
Nota do Editor:
Em 1956, João Condé, criador dos “Arquivos Implacáveis”, pediu a
Vinicius de Moraes que escrevesse algo sobre si.
O poeta atendeu-o com o Auto-Retrato que aqui se publica e encontrado
nas badanas O Operário em Construção e
Outros Poemas.
Legenda: desenho original de André Carrilho, tirado de “Cinema” de Vinicius de Moraes.
NOTÍCIAS DO CIRCO
Uma vereadora em Lisboa diz que “dinheiro fácil” do Volta põe em causa trabalho social
O “dinheiro fácil” do sistema de embalagens Volta veio comprometer o trabalho
dos técnicos sociais, afirmou a vereadora com o pelouro das
Pessoas em Situação de Sem-Abrigo na Câmara de Lisboa.
«O Volta o que veio também trazer é que,
muitas vezes, o trabalho que é feito pelos técnicos no terreno é posto em causa
sempre que existem mecanismos de dinheiro fácil, porque não se trata da
inexistência de respostas, trata-se naturalmente de um acompanhamento
personalizado que tem que haver de acordo com a vulnerabilidade”, defendeu
Maria Luísa Aldim (CDS-PP), na reunião da Assembleia Municipal de Lisboa».
Carlos Moedas, o presidente da Câmara de Lisboa, insurge-se porque os apanhadores de
garrafas, quando remexem os caixotes, deixam a rua cheia de lixo. Mesmo antes
do Volta, Lisboa sempre foi uma cidade suja e nunca se viram grandes
preocupações por parte do autarca, mais interessado em unicórnios e outras
variedades.
FUZILARAM UM HOMEM NUM PAÍS DISTANTE
Hoje proíbo as rosas de nascerem diante de mim!
Proíbo as deusas de dançarem nos olhos das crianças
proíbo os corpos das mulheres de terem outro destino que a morte!
Sim, proíbo!
E (baixinho, em sonho) aos gritos no mundo
ordeno aos homens
que venham para a rua descalços
para sentirem nos pés nus
o silêncio da terra
e o terror de viverem num planeta
onde os fuzilados não ressuscitam,
nem os malmequeres protestam com flores de luto
contra este sol que continua a fabricar primaveras mecânicas
e este cheiro tão bom a mulheres novas nas árvores com cio!
José Gomes Ferreira em Poesia III
quarta-feira, 23 de setembro de 2026
SOLTAS
O lavagante,
dizem, é o Rei dos Crustácaeos, Homarus gammarus é uma espécie de crustáceo
decápode marinho da família Nephropidae, vivendo no nordeste do Oceano Atlântico,
Mar Mediterrâneo e parte do Mar Negro.
É o
título de uma novela do José Cardoso Pires, escrita em 1963 e apenas publicada
em Fevereiro de 2008, decorria o 10 aniversário da sua morte.
O dono do Lanterna, o melhor bar de praia, a atirar par o carote, sabia alguma coisa da vida dos lavagantes, mais saboroso que a lagosta e Cardoso Pires, deixou no livro, os conhecimentos que então ouviu sobre lavagantes:
«Contei-lhe
como ele serve o safio que está nas tocas submersas levando-lhe comida a todas
as horas, e como a sua existência anda presa a essa serpente estúpida de
grandes sonos, vendo-a engordar, engordar, até saber que a tem bloqueada,
incapaz de sair do buraco porque o corpo cresceu de mais, enovelou-se, e não
cabe na abertura por onde podia libertar-se. 'Nesse momento fica sabendo, o
lavagante servil aparece à boca da toca do safio mas já não traz comida. Vem de
garras afiadas devorar o grande prisioneiro que alimentou durante tanto tempo.»
1.
«Os jornais noticiaram há dias, que um homem pobre e doente, falecido
no hospital d S. José, deixara como última vontade, a de ser enterrado vestindo
a camisola do Benfica, e se possível, debaixo da águia que identifica o Estádio
da Luz. Apenas a primeira parte do desejo pôde ser satisfeita. As posturas
municipais modernas são rigorosas e cada vez se percebe menos de mortos».
José Cutileiro em O Tempo e o Modo nº 25/26, Março/Abril de 1965
2.
Portugueses, calculados
em 2,7 milhões, têm gatos como animais de companhia.
Há velhotas, de parcos
rendimentos, que no supermercado, gastam mais em comida para animais do que na
sua própria alimentação.
Não saberá nunca das
razões que levam escritores, cantores, artistas vários, a gostarem de gatos, a
deixarem-se fotografar junto a gatos. A Assírio & Alvim tem uma antologia
de poesia de felinos a que chamou Assinar
a Pele».
3.
«Que Deus dê as nozes a quem não tem dentes, ainda é o menos; o mal é
que Ele as dá quase sempre em demasia, a quem os tem.»
José Rodrigues Miguéis
OS PÁSSAROS VOLTARÃO EM MARÇO
Assistir à chegada do Outono e entramos por ele dentro com temperaturas de 30 graus.
Faz calor e
se não fossem as noites chegarem cada vez mais cedo, diríamos que os dias
eram outros.
Nos meus
tempos, as aulas começavam no dia 1 de Outubro, apresentação no ginásio do
Liceu Gil Vicente: alunos, pais, o reitor, os professores, o comissário da
Mocidade Portuguesa.
As aulas da
Primária começavam a 7 de Outubro.
Já se andava
de camisolas de gola alta, gabardines e sobretudo.
Chovia quase
todos os dias.
Agora as
aulas começam no meio de Setembro e chegamos a Outubro envergando as roupas de
Verão.
Quando
Outubro começava já a minha avó tinha feito o doce de tomate e tudo aquilo que
gira em volta dos marmelos: a marmelada, a geleia, marmelos cosidos aos quartos
com açúcar que se guardavam em grandes frascos de vidro.
Outubro
quente traz o diabo no ventre.
Em Outubro
pega tudo.
Outubro
sisudo recolhe tudo.
Quem planta
no Outono, leva um ano de abono.
Vindima em
Outubro, que S. Martinho to dirá.
E como alguém
diria: os pássaros voltarão em Março.
Legenda:
fotografia de Lia Faria
HAIKAI DE OUTONO
Uma borboleta amarela?
Ou uma folha seca
Que se desprendeu e não quis pousar?
Mário Quintana
terça-feira, 22 de setembro de 2026
POSTAIS SEM SELO
Que o 25 de Abril não se
torne uma memória distante, uma imagem a desvanecer-se lá longe.
Jorge Palma
LIVROS AUTOGRAFADOS
Comprei O
Secreto Adeus num qualquer alfarrabista. ou num qualquer vão de escada
de bairro que já desapareceram.
Dois
escritores que estimo: Baptista-Bastos e Eduardo Valente da Fonseca.
Amiúde
encontrava-os no Bar Expresso no Largo da Trindade.
A estranha
sensação de como este exemplar oferecido ao Eduardo, aparece perdido por
aí.
Alguém se
desfez da biblioteca do Eduardo?
O livro
foi roubado?
Ou emprestado
e nunca devolvido?
Frases
sublinhadas:
«A democracia é um mito inventado por
políticos falhados».
«Todos sabemos o que se tem praticado em
nome da ordem».
«Então, porque bebo? «É o medo de estar
lúcido.»
Palavras do
poeta José Gomes Ferreira na contra capa do livro:
«Testemunho ardente que veio desvendar-me as razões fundas por que certa juventude – por certo a mais consciente e digna – vive afogada, dir-se-ia que provisoriamente, numa desregra de exageros sexuais. Afinal, segundo revelação perturbadora deste depoimento em forma de romance, essa juventude sofre de «saudade de heroísmo impossível».
JORGE PALMA (1950-2026)
Morte de Jorge Palma aos 76 anos.
Que dizer?
Um tipo sem
classificação, mas sujeito às tretas do costume: a música portuguesa, ou Portugal ficam mais
pobres.
Como ele dizia:
«Deixa-me rir!»
Em Setembro
de 1973 recusa-se cumprir o serviço militar obrigatório e foge para a
Dinamarca:
«Com licença, meus amigos, mas para a guerra não vou!»
São assim os pássaros rebeldes!
A GENTE VAI CONTINUAR
Tira a mão do queixo não penses mais
nisso
O que lá vai já deu o que tinha a dar
Quem ganhou, ganhou e usou-se disso
Quem perdeu há de ter mais cartas pra dar
E enquanto alguns fazem figura
Outros sucumbem á batota
Chega a onde tu quiseres
Mas goza bem a tua rota
Enquanto houver estrada pra andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada pra andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar
Todos nós pagamos por tudo o que usamos
O sistema é antigo e não poupa ninguém, não
Somos todos escravos do que precisamos
Reduz as necessidades se queres passar bem
Que a dependência é uma besta
Que dá cabo do desejo
A liberdade é uma maluca
Que sabe quanto vale um beijo
Enquanto houver estrada pra andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada pra andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar
Jorge Palma
segunda-feira, 21 de setembro de 2026
NOTÍCIAS DO CIRCO
Ana Sá Lopes, no Público de hoje, escreve que Montenegro será o pai, a mãe e a tia da austeridade.
«O tom soturno de Luís Montenegro na comunicação ao país de quinta-feira,
aqui e ali com laivos de desespero não habituais num homem frio, foi uma
metáfora acabada do momento que se vive na economia portuguesa (e mundial).
Estamos tramados. Todos os que viveram os choques petrolíferos dos anos 70 – e
o racionamento da gasolina –, o programa do FMI de 1983-1985 e, finalmente, a
intervenção da troika têm prática de crises. Ter prática não é grande consolo.
Tudo o que se passou foi muito mau, houve muito sofrimento que, agora, está
prestes a repetir-se.»
O OUTRO LADO DAS CAPAS
Um dia de Julho de 1968, José Cardoso Pires numa
entrevista, a Mário Ventura, disse:
«Sou um escritor que pensa muito com o aparo.»
Exactamente 18 títulos em 50 anos!
Em Lavagante, José Cardoso Pires aborda o
ambiente opressivo de Portugal no início dos anos 60, marcado pela censura e a
acção policial. A história, que se desenrola num contexto de perseguições e
prisões políticas, acompanha o romance entre um médico oposicionista e uma
jovem estudante, destacando a influência da repressão na vida privada e nos
relacionamentos pessoais. O livro utiliza a imagem do lavagante — um crustáceo
— para ilustrar a natureza primitiva e a falta de refinamento do país.
Uma pré-publicação começou por ser publicada na
revista O Tempo e o Modo, nº 11 do ano de 1963, como excerto de um futuro livro
de Cardoso Pires, o que não veio a acontecer.
Mais tarde, Nelson de Matos, em Fevereiro de 2008, nos
10 anos da morte de José Cardoso Pires publicou o livro na sua nova editora - Edições
Nelson de Matos, teve sete edições.
Em Setembro de 2025 a Relógio d’Água, que está a publicar a obra completa de José Cardoso Pires, publicou Lavagante
O livro, provavelmente, estará datado, nunca teve revisão de Cardoso Pires, mas está lá o timbre da prosa que sempre o caracterizou.
Páginas
a reter, principalmente no Capítulo XI, uma Lisboa a viver na dita «primavera marcelista»,
após um 1º de Maio em que a polícia de choque exerceu a costumada violência,
perseguindo barbaramente os manifestantes:
«No
dia 2 de Maio, quarta-feira, e para ser mais exacto, num fim de tarde, Cecília
saiu do metropolitano nos Restauradores e dirigiu-se a certo snack-bar da rua da
Prata.
De
pois meses e meses de chuva cerrada, a Primavera, com uma persistência vegetal,
secreta, conseguia vencer o manto húmido que pesava sobra a cidade. Nas últimas
semana, o ar estava ligeiro, aliviado, e era Primavera, finalmente a Primavera,
tal como costumava chegar a Lisboa depois de muitas hesitações e de muito
trabalho para vencer as nuvens da costa.
As pessoas mal dão por isso. Um belo dia sentem a necessidade de olhar o céu, vêem azul, um azul fino, alegre, e dizem: “ Já sei.”. Depois descobrem as pombas do Rossio e as colinas pousadas diante do rio, cobertas de uma luz macia, feminina; descobrem uma nova expressão no andar das mulheres e um novo perfume – nelas e na cidade. E todos regressam mais tarde aos autocarros e a casa. É isso a Primavera: um novo sentido no olhar, uma nova velocidade. “Já sei”, dizem as pessoas.»
OLHAR AS CAPAS
Lavagante
José Cardoso
Pires
Fixação de
texto: Ana Cardos Pires
Capa: Carlos
César Vasconcelos
Relógio d’Água,
Lisboa, Setembro 2025
Fresco e impecável, o barman, está do
outro lado balcão com um sorriso divertido. Bebe e fuma com modos repousados, e
entretanto contempla do alto da sua serenidade o jornalista atormentado. Esse
homem que ali tem sacode a cabeça dianta duma taça de vinho, estrebucha e fala
dos seus sonhos frustrados.
- Viciámo-nos. Agora temos a censura a
escrever por nós. E amanhã? Quem sabe escrever amanhã, quando a Censura acabar?
POSSIBILIDADE
Prefiro cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro os carvalhos da margem do rio Warta.
Prefiro Dickens a Dostoievski.
Prefiro-me a mim, que quero bem às pessoas, a mim, que amo a humanidade.
Prefiro ter à mão agulha e linha.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não afirmar que o intelecto tem culpa de tudo.
Prefiro as excepções.
Prefiro sair antes.
Prefiro falar com os médicos de outras coisas.
Prefiro as velhas ilustrações tracejadas.
Prefiro o ridículo de escrever poesias ao ridículo de não as escrever.
Prefiro no amor os aniversários que não são redondos, para festejar todos os
dias.
Prefiro os moralistas que não me prometem nada.
Prefiro uma bondade perspicaz a uma demasiado crédula.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro os países conquistados aos países conquistadores.
Prefiro ter reservas.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro as fábulas dos Grimm às primeiras páginas.
Prefiro folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães com a cauda não cortada.
Prefiro os olhos claros, porque os tenho escuros.
Prefiro as gavetas.
Prefiro muitas coisas que aqui não mencionei a muitas outras também aqui não
mencionadas.
Prefiro os zeros desordenados aos alinhados numa quantia.
Prefiro o tempo dos insectos àquele sideral.
Prefiro bater na madeira.
Prefiro não perguntar por quanto ainda nem quando.
Prefiro tomar em consideração até a possibilidade de que o ser tenha uma
razão.
Wislawa Szymborska
Este poema foi publicada pela jornalista Bárbara Reis no Público de 12 de Setembro de 2026.
domingo, 20 de setembro de 2026
MÚSICA PELA MANHÃ
Domingo, e eu às voltas com as canções para a manhã de hoje.
Capa
de um velho disco comprado na Grande Feira do Disco na Rua do Forno do Tijolo
no dia 10 de Setembro de 1966. Olha como o tempo passa!...
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