Comecei a olhar para o chão em vez de
olhar para o céu. Comecei a olhar para o que as pessoas deitam fora em vez de
para aquilo que os arquitectos constroem.
Paulo Nozolino
Legenda: fotografia de Luís Eme
Comecei a olhar para o chão em vez de
olhar para o céu. Comecei a olhar para o que as pessoas deitam fora em vez de
para aquilo que os arquitectos constroem.
Paulo Nozolino
Legenda: fotografia de Luís Eme
Como fiquei um tanto ou quanto enfastiado com os 4
volumes da Conta-Corrente, nunca
comprei o 5º volume tão pouco os restantes novos volumes da obra diarística de
Vergílio Ferreira.
Mas na reedição que a Quetzal está a disponibilizar
com a obra de Vergílio Ferreira, não resisti: comprei o volume que contém os
1989 a 1992 da Conta Corrente.
«Quando é que acaba com isso? - era a
pergunta que o Lourenço me fazia. Quando ia saindo mais um volume deste diário
e ele me fazia ainda perguntas. Está por pouco, meu caro Eduardo, e agora é
mesmo de vez».
Tinha toda a razão o Eduardo Lourenço!
Tinha eu a razão por, em devido tempo, não ter
alinhado em mais volumes da Conta-Corrente,
eu que detesto ter razão.
Estes últimos diários são um desconsolo.
A mesma atitude envinagrada contra tudo e mais alguma
coisa.
Invejava os seus pares por não o tratarem com a
dignidade que entendia merecer. Visitava as livrarias, folheava livros, mas não
os comprava por os achar caríssimos. Claro que eram caros, mas se gostamos de
ler livros, teremos que fazer sacrifícios para os comprar. Sei bem do que falo.
Até os amigos não tratava bem. Um exemplo é António
Ramos Rosa: vai lendo os seus poemas, já escreveu sobre eles mas supõe que
António Ramos Rosa «jamais leu um romance
meu».
Um dia, em Tróia, Mário Soares disse-lhe que o Nobel
lhe ficaria muito bem.
No ano em que Octávio Paz venceu o Nobel, escreveu:
«Nós portugueses arrastamos connosco,
desde que me conheço, a cruz deste vexame de não existirmos para a Academia Sueca.»
Vergílio Ferreira morreu em Março de 1996.
O destino, ou o que lhe quiserem chamar, poupou-lhe a
atribuição (1998) do Prémio Nobel a José Saramago.
José Saramago e António Lobo Antunes têm citações
pífias nas 1098 páginas do livro.
Os Diários
de José Gomes Ferreira são tratados quase a pontapé e fica pela quase margem de
lhe chamar xéxé.
Vergílio Ferreira tem livros interessantes, um nome na
nossa literatura, mas no resto foi sempre assim, uma inveja que nunca conseguiu
dominar.
Talvez a solidão de Fontanelas o atormentasse, ou os
mesmos pratos do dia do Café do Zé. Talvez…
Conta Corrente
1989-1992
Vergílio
Ferreira
Capa: Rui
Rodrigues
Quetzal
Editores, Lisboa Novembro de 2025
Não, não tenho «a obsessão de ser o primeiro», como certa amiga desbocadamente à Regina. Tenho é a obsessão de que me não são segundos os motivos que me obcecam. E é porque não são segundos e são sem dúvida primeiros que normalmente falho em chegar até eles ou eles até mim. O resto não é para aqui, mas para as pistas de atletismo, como talvez já tenha dito.
Copiado do Público:
«Luís Neves tomou posse como novo ministro da Administração Interna e
prometeu abraçar “todas as propostas positivas” que lhe cheguem. Tendo deixado
a Polícia Judiciária (PJ) a poucos meses de concluir o seu terceiro mandato
como director nacional, o novo ministro afasta quaisquer “reservas” quanto a
esta transição e explica ter sentido o apelo para “abraçar este novo projecto”.
No final da cerimónia, que decorreu no Palácio de Belém, Luís Neves foi
questionado sobre o seu papel na PJ na investigação ao dossier Spinumviva e à
construção da casa de Espinho de Luís Montenegro, apressando-se a afastar
qualquer conflito relacionado com o seu passado na investigação criminal: “O
director nacional não investiga ninguém. O papel de um director nacional é
organizar e prover meios para a instituição.”».
Finalmente,
um primeiro-ministro deste país, não recolhe à tralha partidária para colocar
no cargo de primeiro-ministro um independente. Claro que esta história dos independentes
tem o que se lhe diga mas é a vida, como diria o engenheiro.
Sabe-se que Luís Neves não alinha na narrativa da insegurança com os imigrantes e o presidente «daquela coisa» já declarou aos adeptos que vai estar muito a tento, podem contar com ele. Pois então!...
O anúncio não é
recente terá para aí uns 10/15 anos, não sei bem. Quando fumava cachimbo,
apesar da falta de espaço, estive para comprar este móvel.
Mas não tinha
cachimbos suficientes e comprar mais não era possível, havia uma família para
sustentar, havia livros e discos para comprar, havia idas ao cinema, havia…
aprende a falar – diz
a rosa: escreve de
noite
e que o meu múltiplo
sol
te guie inúmeros
os caminhos, põe-te
numa sala
com a luz apagada
onde chegue acesa
a de uma outra, e
frágil,
ao papel que para ela
voltas. então, falas
das paixões, da pétala
que cai no interior
do coração
e navega na sombra do
sangue,
de assombro em
assombro.
Manuel Gusmão
«Estou muito preocupado, não por mim, mas pelos meus netos. Escrevi-o há 30 anos: o que se passa no mundo não é um fenómeno de imigração, mas de migração. A migração produz a cor da Europa. Quem aceitar esta ideia, muito bem. Quem não a aceitar, pode ir suicidar-se. A Europa irá mudar de cor, tal como os Estados Unidos. E isto é um processo que demorará muito tempo e custará imenso sangue. A migração dos alemães bárbaros para o Império Romano, que produziu os novos países da Europa, levou vários séculos. Portanto, vai acontecer algo terrível antes de se encontrar um novo equilíbrio. Há um ditado chinês que diz: 'Desejo-te que vivas numa era interessante'. Nós estamos a viver numa era interessante.»
Umberto
Eco em entrevista ao Expresso, 07.09.2015
«Os
pontos de contacto entre dirigentes, candidatos, autarcas e membros do Chega e
o grupo neonazi 1143 não são uma ficção ou simples coincidências. Estão
amplamente documentados na investigação de Miguel Carvalho que o PÚBLICO
publica este domingo e que mostra a facilidade com que militantes do Chega
apoiam a ideologia neonazi e as causas do grupo liderado por Mário Machado.
Relações perigosas entre Chega e 1143
Durante a campanha eleitoral para as presidenciais e perante a detenção de 37 membros do 1143 por associação criminosa e incitamento ao ódio e à
violência, André Ventura disse desconhecer ligações de pessoas do seu partido ao grupo de Mário Machado,
mas nunca chegou a condenar a natureza daquela organização. Limitou-se a dizer
que “o Chega tornou-se um partido muito grande, com muitos militantes de todos
os quadrantes e, como em todos, há situações que não são as melhores”
Estas novas acusações, a que o Chega não quis responder, são também elas
graves, pois indiciam a eventual instrumentalização partidária de um movimento
extremista e mesmo financiamento ilegal numa das maiores estruturas do partido.
Não é um pormenor que o líder do maior partido da oposição possa ignorar.»
Do editorial do Público de hoje assinado por Helena Pereira.
Legenda:
título da 1ª página do Público de hoje.
«It’s a dirty job but somebody has got to do it.»
A frase estava metida no ficheiro Soltas e não consegui, de imediato saber o porquê e a razão de
estar por ali.
Ele que em tempos tinha a mania e o gosto pela sua memória de
elefante.
Agora metade do cérebro está adormecido, mas longos
minutos depois, lembrou-se que é uma canção da Bonnie Tyler e vai ser a canção
da Música para esta anhã.
Fica também a versão de Meat Love. A Wikipédia informa: «A canção foi
regravada por Meat Loaf no seu álbum de 2016, Braver Than We Are, como um dueto
com Stacy Michelle, sob o título ligeiramente modificado de "Loving You Is
a Dirty Job (But Somebody's Gotta Do It)". Esta versão tem os vocais
masculinos e femininos invertidos, sendo o vocal masculino o principal.»
Ainda há-de andar pelas prateleiras da Biblioteca da Casa
o álbum da Bonnie Tyler Total Eclipse of
the Haert e também ficará bem por aqui.
Alberto de
Lacerda
Na sua crónica semanal no Público, José Pacheco Pereira indigna-se com a vergonha que o nosso governo lhe dá.
Portugal vai fazer parte “como observador” do Conselho da Paz de Trump? Que vergonha! E vai ao beija-mão de Trump em Washington?
Parece que não vai ao primeiro, mas vai aos outros. Será que Portugal vai pagar
a senha de entrada que Trump exigiu de 800 milhões de euros? Já nada me admira.
O nosso “observador” não viu anteontem Trump adormecer, trocar os nomes todos,
e fazer vários comentários sobre o aspecto do Presidente do Paraguai, que
considerou “bonito”? Depois especificou que não gosta de homens mas de mulheres, para não ser mal interpretado… E foi assim.
Na Europa, os países que ainda têm uma réstia de dignidade como a Espanha, a
França e a Suécia, pelo menos, disseram que não, a Hungria disse obviamente que
sim, e Itália, Roménia, Bulgária, Grécia, Eslováquia e Chipre aceitaram estar
como observadores. Olhem para os países que são membros-fundadores e percebe-se
logo de que lado Portugal está: Albânia, Argentina, Arménia, Azerbaijão,
Bahrein, Bielorrússia, Bulgária, Camboja, Egipto, El Salvador, Hungria,
Indonésia, Israel, Jordânia, Cazaquistão, Kuwait, Kosovo, Marrocos, Mongólia,
Paquistão, Paraguai, Catar, Arábia Saudita, Turquia, Emirados Árabes Unidos,
Uzbequistão, Vietname…»
A Relógio d’Água,
uma as editoras do livro, escreve:
«Era uma vez um homem que não era feliz. Tinha uma mulher que não lhe agradava e um trabalho que lhe causava horror. […] [Um dia,] quando se sentia muito infeliz, encontrou uma mulher de grande beleza, que tinha muito dinheiro e um barco. Ela percorria os mares em busca do marinheiro de Gibraltar. Quem é o marinheiro de Gibraltar? É a juventude, o crime e a inocência, um homem simples, o mar, as viagens. Um homem que ela amou e que desapareceu, que está talvez morto ou se esconde. Ele encontrou-a. Gostam um do outro. Ele teve a coragem de decidir sobre a sua vida. É livre. Não tem um cêntimo. Ela contrata-o para o seu navio. Ele vai ajudá-la a procurar o marinheiro de Gibraltar. Partem.»
Sobre a autora:
«Marguerite Duras nasceu a 4 de Abril de 1914 em Gia Dinh, perto de Saigão,
na então Indochina Francesa, cuja paisagem a marcaria profundamente. O seu pai
era director de uma escola e faleceu em 1921 num hospital francês. A mãe,
professora, regressou então à metrópole com os três filhos, mas em Junho de
1924 partiu para Phnom Penh, no Camboja, e depois para Saigão, onde adquiriu
terras e se fixou em 1928 (a posse de terras depressa se revelou ruinosa e a
mãe voltou ao ensino). Marguerite Duras fez estudos secundários num liceu de
Saigão, tirando um bacharelato em Filosofia. Tinha 18 anos quando se fixou
definitivamente em Paris, onde estudou Direito e seguiu cursos de Matemática.
Em 1936, Duras conhece Robert Antelme, com quem viria a casar em Setembro de
1939. Empregara-se, entretanto, como secretária no Ministério das Colónias.
Em 1942, preside a um comité de leitores controlado pelo regime de Vichy. Em
1943, o apartamento de Duras e Robert Antelme torna-se um ponto de encontro de
intelectuais, entre os quais Jorge Semprún. O casal vai participar na
Resistência e, em Junho de 1944, Robert Antelme é detido pela Gestapo e
Marguerite Duras tem de fugir. É ainda durante a guerra que Duras publica os
seus primeiros livros, Les impudents em 1943 e La vie tranquille no ano
seguinte, ambos ainda com uma estrutura tradicional. Depois da libertação,
filiou-se no PCF, de onde saiu anos mais tarde. Em 1950, torna-se conhecida
através de um romance de inspiração autobiográfica, Uma Barragem contra o
Pacífico, onde as características do seu estilo são já visíveis. Em 1954, participa
no comité de intelectuais contra a guerra na Argélia. É já então evidente que o
romance tradicional não interessa a Marguerite Duras e que ela procurava uma
voz singular através da desestruturação das frases, da estranheza das
personagens, da acção e do tempo. Os seus temas são o amor, a espera, a
sensualidade feminina e o álcool. Moderato Cantabile, de 1958, subverte as
convenções vigentes num estilo que depressa se alarga às suas peças teatrais e
textos cinematográficos. Em 1958, escreve o argumento cinematográfico de
Hiroshima, Meu Amor, que será realizado por Alain Resnais. Em obras como Le
ravissement de Lol V. Stein (1964) e O Vice-Cônsul (1966), Duras confirma um
estilo cada vez mais despojado e de grande rigor formal. Duras realiza em 1966
o seu primeiro filme, La Musica, e Détruire, dit-elle em 1969. É então uma
autora de culto. Tornar-se-ia uma das escritoras mais lidas em todo o mundo
depois de publicar em 1984 O Amante, que recebe o Goncourt. Em 1987, Duras
procura explicar a sua dependência do álcool na obra A Vida Material. A partir
do final dos anos 80, padece de várias doenças e começa a sentir dificuldades
na escrita, tendo mesmo sido mantida em coma artificial durante cinco meses.
Publica ainda O Amante da China do Norte, em 1991, Yann Andréa Steiner, em
1992, e Écrire, em 1993. Faleceu a 3 de Março de 1996, com 81 anos, e o seu
túmulo, tão despojado como a sua escrita, pode ser visitado no Cemitério de
Montparnasse.»
Não é dos livros mais acarinhados de Duras mas gostei de o ler e nunca vi o filme de Tony Richardson com Jeanne Moreau, Orson Welles, Vanessa Redgrave, mas trago para aqui o que o escritor Jorge Marmelo dissertou sobre o livro:
«Jornalista a Quanto tempo pode um livro permanecer
intocado na estante de nossa casa? Muito tempo.
Há romances exímios em confundirem-se e camuflarem-se entre outros que já
lemos, imitando-lhes a tonalidade amarelada das lombadas, a camada de pó, o
mesmo aspecto gasto. Aí ficam adormecidos, quietos e silenciosos como inimigos
ocultos - como as células adormecidas do novo terror. Não respiram, nunca
levantam o braço para se fazerem notar e, quando nada o faz supor, rebentam-nos
nas mãos, acendem certas luzes que temos dentro.
Resgatei ontem um desses livros-camaleão da estante onde, julgava eu, havia
apenas romances lidos há muito tempo. Estava convencido de que em algum momento
da vida me tinha já passado pelas mãos aquele O Marinheiro de Gibraltar, de
Marguerite Duras, mas, como não me lembrava de nada do que pudesse ter lido, o
aborrecimento do domingo levou-me a retirá-lo do sítio, a folheá-lo (com
cuidado para não perder as páginas já descoladas da lombada, sinal inequívoco
de algum uso) e a constatar que, caso alguma vez o tenha lido, não li, na
verdade, coisa alguma: passei-lhe os olhos por cima e esqueci.
Há provavelmente, naquela estante, outros livros nas mesmas circunstâncias,
obliterados pelo mesmo esquecimento, mas resolvi dedicar o final de tarde de
domingo a O Marinheiro de Gibraltar. A edição é de 1991, da Dom Quixote, mas a
primeira página tem uma dedicatória assinada por duas pessoas e datada de
Dezembro de 1995. Tive que fazer um esforço para recordar quem eram aqueles
dois "amigos", também esquecidos, aos quais agora estou
particularmente grato por terem infiltrado o romance de Duras na minha estante,
oferecendo-o à pessoa colectiva à qual, pelos vistos, eu então pertencia:
"Espero que gostem e que vos toque da mesma forma que nos tocou a
nós".
Alguma parte daquele "nós" já extinto o deve ter lido entretanto,
pois as folhas estão descoladas entre as páginas 71 e 139. Mas não fui eu - ou,
pelo menos, não foi a mesma pessoa que hoje sou. Tal como agora me conheço, não
esqueceria, decerto, a bela americana deitada na areia perto do canavial e o
iate ancorado diante de Rocca, nem esqueceria Éolo, o estalajadeiro, ou Carla,
a sua filha, nem essa Jacqueline demasiado agitada e optimista, capaz de passar
dias a correr sob o impiedoso calor de Florença para ver todos os museus e
monumentos da cidade. Não esqueceria, sobretudo, esse homem cansado da vida,
"um desses homens cujo drama consiste em nunca ter encontrado um
pessimismo à altura do seu", que subitamente se descobre vivo enquanto
conversa com um pedreiro italiano e, por isso, larga tudo, Jacqueline e o
emprego no Registo Civil do Ministério das Colónias, para se instalar em Rocca
e fazer pesca submarina, ir aos bailes nocturnos do outro lado do rio e aprender
a gostar de beber pastis ao sol.
Leio ou releio O Marinheiro de Gibraltar, não sei bem, e mergulho numa estranha
nostalgia. Invejo, parece-me, todas as pessoas que recomeçam a viver.»
O Marinheiro de Gibraltar
Marguerite Duras
Tradução: Isabel
de St. Aubyn
Capa: José
Antunes
Círculo de
Leitores, Lisboa Dezembro de 1989
O Verão angustiava-me. Era certamente o desespero de nunca conseguir viver de acordo com ele.
Existe
a velha ideia de que se não fossem os irlandeses não tinham romancistas, nem
poetas, nem músicos, nem realizadores de cinema.
Deixemos
Shakespeare, ou os beatles de fora do eventual exagero da citação.
Van
Morrison é um irlandês, nascido em Belfast, que é da minha idade e de que gosto
muito.
São
dele as canções que entram hoje ma Música desta Manhã.
Tive
a grande oportunidade de o ouvir, em 22 de Julho de 2023, no Cascais Cool Jazz.
Das
citações.
A
opinião de Eduardo Prado Coelho:
«Citas muito, dizem.
Sempre foi assim. Como explicar? Não se trata nem do uso de argumentos de
autoridade nem de exibicionismo cultural. Mas incomoda, eu sei, e permite que
se insinue que se não pensa pela própria cabeça, ou que se vive alimentado
pelas modas «que vêm do estrangeiro».
Gostaria de tornar bem
claro como o gosto da citação tem a ver com um amor intenso das palavras. Por
vezes, citação que excita pela convicção de que alguém encontrou um dia as palavras certas –
isto é, os nomes próprios – para dizer algo que em nós foi
expressão confusa e enrodilhada. Aqui a citação tem um efeito de
evidência. Que é sempre, acreditem, motivo de júbilo.
Por outro lado, a
citação é um incitamento. Porque retirar as palavras de um contexto (a
citação faz um desvio) é criar em torno delas um halo de silêncio, um anel
de referências implícitas, que abre o espaço para dizer mais. O espaço
off de uma citação é um convite para se pensar. A citação condensa, mas
ao mesmo tempo indecide – efeito de descontextualização.»
Por
mim, sempre tive a ideia se há alguém que diz as coisas melhor do que eu digo,
não hesito: cito.
São
diversos os comentários que leitores fazem às muitas citações que Ana Cristina
Leonardo faz nas crónicas que publica no Público.
Na crónica de ontem a autora entendeu que era hora de escrever sobre o assunto.
Deste modo:
«Como alguns leitores terão provavelmente notado, gosto de citações (também
gosto de advérbios de modo, mas isso agora não vem a propósito). As citações
têm várias vantagens. Acima de tudo, poupam-nos trabalho. Além de nos pouparem
trabalho — benefício de monta para quem considera que o trabalho, além de mal
pago, está sobrevalorizado (caso, por exemplo, de Albert Cossery, autor, entre
outros, de Mandriões no Vale Fértil — trad. Júlio Henriques, Antígona,
3ª ed., 2022) —, permitem-nos expressar melhor ideias que, sem a elas
recorrermos, expressaríamos decerto pior.
Dirão alguns, em tom acusatório, que as citações não passam de uma bengala. Não
serei eu a contrariá-los. Faço apenas humildemente notar que, ultrapassada
certa idade, de uma maneira ou de outra, metafórica ou literalmente, uma
bengala dá sempre bastante jeito. Depois, há a síntese. Uma boa citação
permite-nos ir directos ao ponto. Sem palha. Com sorte, com elegância. E a
elegância, ao contrário do trabalho, anda bastante subvalorizada. Porque se é
verdade que Einstein não chegou à elegantíssima síntese E = mc² flanando
apenas, também é verdade que a hipótese (genialmente arrojada: não tenhamos
medo das palavras) de o tempo não ser uma medida fixa lhe ocorreu ia ele a
passar tranquilamente junto à Torre do Relógio em Berna. Por falar nisso, li
algures num livro, já não me lembro qual, que o biólogo e psicólogo Jean
Piaget, inspirado pelo físico, chegaria à conclusão de que as diferentes setas
do tempo em nada parecem estranhas às crianças: para elas, quanto mais depressa
correm, mais devagar o tempo passa. Lembrando Pessoa: “Grande é a poesia, a
bondade e as danças.../ Mas o melhor do mundo são crianças”.
Ocasionalmente, flanar e pensar pode ter consequências bizarras: umas vezes
cómicas, outras vezes trágicas. Tales de Mileto caiu num buraco, ao que se sabe
sem mazelas de maior, enquanto caminhava a observar as estrelas. Já ao filósofo
Francis Bacon, terá sido o empirismo a matá-lo. Envolvido em experiências sobre
congelação, ao cruzar-se em pleno Inverno com uma galinha, decidiu mandar
matá-la e enterrá-la na neve. O destino da ave perdeu-se, mas Francis Bacon
acabaria mesmo por morrer de pneumonia.
Chegado aqui, o leitor terá talvez concluído, e legitimamente, que, além de
citações e de advérbios de modo, também admiro muitíssimo uma boa história. Só
para dar dois exemplos: o chamado Antigo Testamento ou As Mil e
Uma Noites são fontes inesgotáveis. E para voltar às citações e à sua
defesa, e dado que me referi às escrituras hebraicas: e se afinal o Livro de
Eclesiastes estiver certo e não existir mesmo “nada de novo debaixo do sol”,
pelo menos para nós que, como Sísifo, empurramos ciclicamente a mesma pedra, revoltados
de quando em vez?
Albert Camus, o autor da célebre abertura de O Mito de Sísifo — “Só há
um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio. Julgar se a vida
merece ser ou não vivida é responder à questão vital da filosofia” (uma
daquelas frases que comprovam sobremaneira que “o começo de um livro é precioso”)
—, não escolheu o suicídio ante o absurdo. Morreria prematuramente e de maneira
absurda num acidente na estrada, durante uma viagem de automóvel em que decidiu
participar apenas ao último minuto. Já cá não está para nos ajudar a decidir
sobre a revolta, mas quando se tropeça por acaso em Loretta, as decisões mais
recentes do Parlamento Europeu (PE), rasurando a palavra “mulher” só parecem
comprovar, senão os trabalhos de Sísifo, decerto a longevidade do absurdo.»
A prosa sobre citações já vai
longa, mas não resisto a terminar colocando o comentário de uma leitora na
edição do Público de ontem:
«Gosto de citações, remetem- nos para obras que podemos desconhecer e aprendemos e, por outro lado, é uma homenagem. Não vejo nisso qualquer problema. É preciso ter lido muito para as tornar oportunas e nisso a Ana é exemplar.»
A vida hoje é outra, a História segue o
seu caminho e muita gente há que corre atrás desse comboio só para arranjar
lugar na 1ª classe. Nós preferimos fazer parte daqueles que melhoram a via para
que o comboio não descarrile.
Autor desconhecido