Memória de Setembro
Egito Gonçalves
Capa: Álvaro Portugal
Edição do Autor,
Porto, 1960
Porque te disse no momento exacto a palavra necessária – o
vagão dos prisioneiros pôde partir sem ti
Porque estabelecemos o mapa detalhado dos estreitos carreiros
que atravessem o pântano, a complicada mas segura rede –
erguemos ao abrigo o nosso facho de sangue
Porque soubemos não ficar de mãos vazias à espera da morte e
rasgamos a tempo as cartas de solidão que os correios entre-
gavam – escapamos às frias rajadas de vento norte e desespero
Porque soubemos construir as pontes que vadeiam o medo e
caminhar indiferentes ao piscar dos semáforos – conseguimos
encontrar a água potável, o corta-arame, a clareira onde tínhamos
entrevista
Pacientemente edificamos o tempo com o esforço dos olhos e
velamos para dar à felicidade as boas vindas
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