sexta-feira, 8 de março de 2013

QUOTIDIANOS


Dois velhos a viverem há cinquenta anos numas águas furtadas da Avenida Marginal, frente ao Tejo: ele reformado da construção naval, sentado à cabeceira da mulher que esperava a morte que não vinha, e a olhar os navios que entravam e saíam da barra; a estudar os voos das gaivotas; a confirmar hora após hora os comboios que passavam entre ele o rio por essas praias além; a pensar mundos perdidos para lá dos nevoeiros. E vencido, impotente, porque a mulher há tantos anos, minada por metástases até aos ossos gritava, dormia e respirava dores, implorando a Deus que a levasse, depressa, Senhor, depressa para a sua santíssima presença.
Uma manhã, ao despertar, o velho viu-a por instantes bela e serena como nos seus tempos de amor. E chorou de mansinho e também ele desejou morrer.
Depois sentiu as dores a aproximarem-se de novo, e a escorrer lágrimas de desespero, de cansaço, de saudade, abraçou-se à mulher amada, envolveu-se nela e no seu sofrimento e cobriu-lhe o corpo de facadas.
Suicidou-se atropelado por um comboio, mesmo em frente da janela onde costumava ver passar os navios.
 José Cardoso Pires

OLHAR AS CAPAS


Já Não Se Escrevem Cartas de Amor

Mário Zambujal
A Esfera dos Livros, Lisboa Outubro de 2008

É certo que na Lisboa de 50 se vivia sem telemóveis, televisão – chegaria em 57 – semáforos, viadutos, metro, centros comerciais, pontes sobre o Tejo, micro-ondas, escadas rolantes, computadores, filmes sem cortes, a Gulbenkian, o CCB e um sem-número de comodidades.
Mas havia os chás-dançantes no Negresco, das cinco às sete e meia da tarde.
Os chás-dançantes era, aliás, moda em vários locais de diversão e nunca deviam ter acabado. Se chamam a isso o progresso, confundem avanço com marcha-atrás.
Era à escolha do frequentador levar menina, como seu par, ou ir à descoberta, o que oferecia o estímulo superior do imprevisto. Este era o bom hábito do nosso grupo. Travavam-se conhecimentos e sempre se sentia nos braços uma fêmea diferente, conforto menos trivial que actualmente. Quem não viveu esta época, ignora que apalpar a namorada na rua ou dar beijos glutões na boquinha dela era caso de polícia, por atentado ao pudor e à moralidade pública.
E depois, chá-dançante não queria dizer que o chá fosse obrigatório. Também valia um bom conhaque e foi o que tomámos, o Jorge e eu, na inédita tarde da zaragata. Por causa da esquadra americana .

quinta-feira, 7 de março de 2013

DO BAÚ DOS POSTAIS

Lisboa à noite.

O DIA DE SAÍDA DE CAVACO SILVA


A crónica de Ferreira Fernandes no Diário de Notícias de hoje:
Um mês e uma semana depois de ter estado na abertura do ano judicial, a 30 de janeiro, Cavaco Silva voltou ontem a sair do Palácio de Belém e foi visitar uma fábrica de moagem. De certa forma, ele partilha com o Rei Bhumibol um recorde: o tailandês é o chefe de Estado mais duradouro, reina desde 1946; já Cavaco é o de maior ausência, o mês de fevereiro passou-se inteirinho sem ele. Apesar disso, o Presidente mostrou que o País continua a interessá-lo vivamente. Para o provar, usou uma sinédoque, figura de estilo que toma a parte pelo todo, e falou do Portugal que lhe é mais querido: "Ninguém tem a experiência que eu tenho." Referia-se aos seus dez anos de primeiro-ministro e aos sete que já vai na Presidência. Evidentemente os críticos do costume vão conferir os números e lembrar que o mês passado não conta. Também ontem, o próprio lembrou que ele trabalha "10 ou até 12 horas por dia" e "muitas horas ao sábado e ao domingo." São informações importantes e poderão ser comparadas na próxima saída de Cavaco Silva, lá para meados de abril. Saberemos, então, se o índice de horas presidenciais trabalhadas aumentou e talvez Portugal encontre aí o nicho de propaganda estatística que lhe tem sido negada nos outros sectores (esperemos que a troika aceite o índice). Por outro lado, o ministro da Economia poderia fazer uma parceria com a Presidência e criar o Dia da Saída de Cavaco Silva. A Rainha Isabel tem o Trooping the Colour, dia em que sai do Palácio de Buckingham para passar em revista os regimentos. Por cá, poder-se-ia poupar na pompa e carruagens e a saída de Cavaco seria só dedicada ao discurso em que falaria das horas que trabalha em casa. O exemplo inglês seria ótimo porque o Trooping the Colour comemora o aniversário da Rainha, e assim só teríamos uma saída anual do Palácio de Belém: segundo muitos analistas, o contributo de Cavaco nunca é tão bom como quando está ausente.

POSTAIS SEM SELO


Com o pano à vista é que se talha a obra.
Sabedoria Popular
Legenda: Brigitte Bardot em Le Mépris

quarta-feira, 6 de março de 2013

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS

À LUPA


Cavaco Silva afirmou que trabalha 10 horas ou até 12 horas por dia, em Belém e que a partir da Presidência da República influencia mais as decisões políticas do que com "mediatismo público".
No debate quinzenal desta tarde, o primeiro-ministro defendeu que pôr a economia a crescer e combater o desemprego em Portugal não passa pelo aumento do salário mínimo nacional como propõe o PS. E até chegou a dizer que o “mais sensato” era fazer o oposto, mas rejeita aplicar esta hipótese.
Dos jornais

POR CAUSA DE UM FILME DO CHARLOT


Neste dia, em 1932, escrevia Miguel Torga no seu Diário:
Estoirei-me hoje dum carro eléctrico abaixo por causa de um filme de Charlot. Ia morrendo, ou pelo menos ficando sem um braço. Mas o filme mereceu o fato inutilizado e merecia também o braço a menos.

terça-feira, 5 de março de 2013

MARCADORES DE LIVROS

O DIA SEGUINTE


O problema das enormes manifestações, como a de sábado passado, é o dia seguinte, quando se exige um pouco mais de nós do que uma pueril discussão sobre o alegado milhão ou os supostos 500 mil que realmente protestaram nas ruas.
Pedro Tadeu no Diário de Notícias de hoje.
 Legenda: fotografia de Aida Santos.

OLHAR AS CAPAS


Hitchcock Diálogo com Truffaut

François Truffaut, com a colaboração de Helen Scott
Tradução: Regina Louro
Capa: Fernando Felgueiras
Publicações Dom Quixote, Fevereiro de 1987

O MacGuffin é um expediente, um truque, uma senha, chamamos a isso um ginmick.
Sabe que Kipling escrevia frequentemente sobre as Índias e sobre a luta dos Britânicos contra os indígenas nas fronteiras do Afeganistão. Em todas as histórias de espionagem que evocam esse ambiente havia, invariavelmente, roubo dos planos da fortaleza. Era o MacGuffin. MacGuffin é, portanto. O nome que se dá a este género de acção… os papéis, roubar… os documentos, roubar… um segredo. Na realidade isto não tem importância e os lógicos fazem mal em procurar a verdade no MacGuffin. No meu trabalho, sempre pensei que os «papéis», ou os «documentos», ou os «segredos» da fortaleza devem ser extremamente importantes para as personagens do filme mas sem qualquer importância para mim, narrador.
Agora, de onde é que vem o termo MacGuffin? Lembra um nome escocês e podemos imaginar uma conversa entre dois homens num comboio. Um diz ao outro: «Que embrulho é aquele que você pôs na rede?» O outro: «Ora! É um MacGuffin.» E o primeiro «O que é isso, um MacGuffin?» O outro: «Olhe, é um aparelho para apanhar leões nas montanhas Adirondak!» O primeiro: «Mas não há leões nas Adirondak!» Então o outro conclui: «Nesse caso não é um MacGuffin.» Esta anedota mostra-lhe o vazio do MacGuffin… o nada do MacGuffin.

segunda-feira, 4 de março de 2013

O VERTIGINOSO SR. HITCHCOCK


Sem saber bem quem era Alfred Hitchcock, gozei à parva com as histórias que a televisão, a preto e branco da ditadura, transmitia semanalmente.

Ainda hoje sorrio com aquele velho Good evening.

Mais tarde, o meu pai conduziu-me pelos seus filmes, um cineasta de peso como ele dizia ou ouviu dizer.

Durante o mês de Março, a Cinemateca proporciona a exibição de vinte e cinco filmes de Mr, Hitch.

Chamaram ao ciclo O Vertiginoso Sr. Hitchcock, e a programação pode ser consultada no site da Cinemateca:

Uma sucessão de acontecimentos reavivou, nos últimos tempos, o interesse público pela figura e obra de Alfred Hitchcock. A eleição de VERTIGO como “melhor filme de todos os tempos” na célebre sondagem da revista Sight & Sound; as reposições no circuito comercial português desse filme e, depois, de PSYCHO; a estreia em sala de HITCHCOCK, de Sacha Gervasi, retrato do realizador durante a rodagem de, justamente, PSYCHO; ou ainda a exibição, nos Estados Unidos, de um telefilme, THE GIRL, sobre a relação entre Hitch e Tippi Hedren, protagonista de THE BIRDS e MARNIE.
Sob o efeito combinado de tudo isto, Hitchcock voltou à berlinda, e por certo despertou o interesse e a curiosidade pela sua obra nas mais jovens gerações de espectadores e cinéfilos. Foi sobretudo a pensar neles – como se precisássemos de pretexto para voltar a Hitchcock – que concebemos este programa, constituído quase exclusivamente pelos títulos hitchcockianos da nossa coleção. Não é a retrospetiva integral que a Cinemateca já por duas vezes realizou; mas é um passeio por uma das mais obras mais ricas e complexas que o cinema gerou, e um mergulho em cheio na vertigem de Alfred Hitchcock. Modesta e francamente, parece-nos proposta irrecusável.
Alfred

POSTAIS SEM SELO


O grande crime de certos governantes é criar no espirito dos governados a convicção de que não vale a pena caminhar porque, estão num deserto, e é sempre mais deserto…
Miguel Torga em Diário Vol. VIII, Edição do Autor, Coimbra Janeiro de 1960.

domingo, 3 de março de 2013

PRISIONEIRO

´

O programa é intragável, atropelam-se, falam todos ao mesmo, dizem piadas sem graça alguma, gargalham com sonora alarvidade, mas, ontem, pareceu-me ouvir o insuspeito social-democrata, Pedro Marques Lopes no Eixo do Mal,  dizer que  há 27 dias 27, que Cavaco Silva não sai do Palácio de Belém.
 Legenda: fotografia de Aida Santos, ontem, no Terreiro do Paço.

sábado, 2 de março de 2013

EI-LA QUE FICA E SOBREVIVE


Ei-la a cidade envolta em dor e bruma
Ei-la na escuridão serena resistindo
Hierática Estranha Sem medida
Maior do que a tortura ou o assassínio
Ei-la virando na cama
Ei-la em trajes menores Ei-la furtiva
seminua sensual e no entanto pura
Noiva e mãe de três filhos Namorada
e prostituta Virgem desamparada
e mundana infiel Corpo solar desejo
amor logro bordel soluço de suicida

Ei-la capaz de tudo Ei-la ela mesma
em praças ruas becos boîtes e monumentos

Ei-la ocupada inerte desventrada
com música de tiros e chicote

Ei-la Santa-Maria-Ateia maculada
ignóbil e miraculosamente erecta
branca quase feliz quase feliz

Ei-la resplandecente de amor teoria
e prática nocturna mistério acontecido
doce habitável ah sobretudo habitável
vestido acolhedor café à noite
a voz distante e amada ao telefone

Ei-la que fia e sobrevive
e reflecte neons nos lagos do jardim
mesmo quando partimos e as lágrimas inúteis
roçam de espanto a solidão crescendo

Ei-la a cidade prometida
esperamos por ela tanto tempo
que tememos olhar o seu perfil exacto
flor da raiz que somos
meu amor

Daniel Filipe em Canto e Lamentação na Cidade Ocupada de A Invenção do Amor, Editorial Presença, Lisboa s/d.

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


A caminho do Terreiro do Paço, na montra de um snack no Rossio.
Primeiro a luta, depois o resto.

QUE SE LIXE A TROIKA!


...a ideia de que há uma esperança.

Nuno Júdice

POSTAIS SEM SELO


Conheci uma criança que chorava porque o filho da sua porteira tinha morrido; os pais deixaram-no chorar, até que se agastaram. «Apesar de tudo, esse miúdo não era teu irmão». A criança limpou as lágrimas. Mas aquele era um perigoso ensinamento. Inútil chorara por um miúdo estranho. São as minhas lágrimas que decidem. Nada está decidido antes de mim.
 Simone de Beauvoir em Pyrrhus et Cinéas, citado por João Martins Pereira em No Reino dos Falsos Avestruzes.
Legenda: fotografia de Dorothea Lange.

sexta-feira, 1 de março de 2013

A INDIGNAÇÃO É UMA ARMA!


Não sei quantas vozes eu represento ao ir à manifestação, mas sei que tenho menos voz se não for.
Desta manifestação vai sair alguma coisa? Boa pergunta. Posso dizer uma coisa: quando nos manifestamos há a remota possibilidade de a nossa voz se fazer ouvir. De a outra parte saber que não detém o monopólio da razão, ainda que reclame para si o monopólio da força. E, a menos que a telepatia já tenha sido inventada, caladinhos é que não vamos a lado nenhum.
Ainda assim, é certo que, neste Portugal acinzentado «cada um sabe de si». Ora eu, pelo menos, sinto-me mais cidadão quando dou a voz ao manifesto, e uma vez por outra gosto de ter gente ao meu lado.

Rui Zink, tirado do blogue Que Se Lixe a Troika!

CHEGARÁ SEMPRE


A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.
Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, - e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.
Há bosques de rododentros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, - e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.
Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol. Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, - e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz. Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.
Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, - e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou. Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a euforia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor. Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, - por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade.
Saudemos a primavera, dona da vida - e efêmera.


Cecília Meireles

POSTAIS SEM SELO


A mais conhecida frase de Gandhi é:
«Não há qualquer causa pela qual esteja disposto a matar. Mas há causas pelas quais estou pronto a morrer.»
Estas palavras resumem a perspectiva de luta com que hoje se defrontam centenas de milhões de pessoas em todo o mundo, mas em especial no Ocidente (Europa e continente americano). Estamos na última das extremidades: está em jogo a vida das pessoas. Primeiro seremos reduzidos à pobreza. Depois farão de nós o que bem lhes aprouver.

Paulo Varela Gomes retirado do blogue Que se Lixe a Troika

Legenda: ilustração de Maroe Susti

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

QUEM SOMOS NÓS?


Quem somos nós?
Nós somos «a esperança que não fica à espera».
Quem pode ser no mundo tão quieto
Que o não movem nem o clamor do dia
Nem a cólera dos homens desabitados
Nem o diamante da noite que se estilhaça e voa
Nem a ira, o grito ininterrupto e suspenso
Que golpeia aqueles a quem a voz cegaram
Quem pode ser no mundo tão quieto
Que o não mova o próprio mundo nele.
Manuel Gusmão
Texto retirado do blogue Que Se Lixe a Troika
Legenda: imagem do Público.

OS CROMOS DO BOTECO

OS CLÁSSICOS DO MEU PAI


Quando o meu pai conseguiu comprar, em suaves prestações, um televisor lá para casa, um enorme Nordmend, naturalmente a preto e branco, o primeiro programa que, espantados e felizes, vimos, foi um Nat King Cole Show.

Suponho que foi aí o meu pai agarrou o gosto pelo velho Nat.

Foi ele quem comprou todos os Eps de Nat King Cole a cantar em espanhol e português, discos que fizeram o sucesso dos bailes da casa.

Esses EPs perderam-se pelo caminho, mais tarde recuperei-os, editados em LP, e ainda por aqui moram.

Curiosamente foi a partir desses cachitos, desses quizás, desses perfidia , desses quero chorar não tenho lágrimas, desses ay coisita linda, que, anos mais tarde, passei a conhecer o verdadeiro Nat, o pianista de jazz, mas principalmente o cantor de standards que vira nos tais Nat King Cole Show e considerava uma seca de todo o tamanho.

A voz de Nat King Cole é um veludo eterno. É tão macia que apetece embrulharmo-nos nela. Ninguém soube cantar como ele – como se respirasses, sem esforço, sem exibição, como se ciciasse aos nossos ouvidos, disse alguém de que não lembro o nome.

Mas lembro que foi João Gilberto quem disse: ele não é preto, não. É azul.

Um cancro nos pulmões levou-nos, prematuramente, essa voz, esse sussurro.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

MARÉ DE TODOS NÓS!


Vou sair à rua e irei contigo, com quem sempre tenho ido, mesmo que não vá mais ninguém.
Contigo também que, da última vez, sem saberes bem o que te empurrava porta fora, sem saberes bem que besta é esta, que nome lhe dar, essa mesmo que te vem sugando a vida, palmando a vontade, matando o desejo, comendo o pão e agora até a água te cobiça, foste à rua para te juntares. Para saberes afinal como é essa coisa de nos juntarmos a outras mulheres e a outros homens. Para saberes se o teu grito pode ou não ser o grito de outros.
Sairei à rua. Sairemos à rua.
Nos primeiros instantes seremos poucos. O Marquês será ainda rotunda quando olharmos os primeiros rostos. Meia dúzia de pessoas, ali de volta dum cartaz que estão a pintar, acenam a um carro que apitou enquanto gritam o que escreveram: «JAMAIS SEREMOS VENCIDOS!» Em volta não param de chegar. Vêm em grupos de dois, de três, muitos pela primeira vez como tu vieste também: sós. Uns com mochila às costas. Outros com os filhos. Tiveram de cortar o trânsito e agora ocupas a estrada, tu e as centenas que já não consegues contar. Já não cabemos nos passeios, grita alguém que não vês. Queres dar uma volta e subir a um banco ou a um poste, mas agora já não interessa, porque são muitos e vêm de todos os lados, porque ficas com medo de perder o grupo. «JAMAIS SEREMOS VENCIDOS». Mas entretanto vês outros com um cartaz a dizer «O POVO É QUEM MAIS ORDENA» e de novo perdes o medo. Por todo o lado há pontos de exclamação e desistes da investida, porque já não queres saber quantos são, contar às vezes é estúpido, pensas agora que os rostos estão mais perto, quase colados.
Rui Dinis texto tirado do blogue Que se Lixe a Troika