terça-feira, 21 de junho de 2011

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS

DEIXARAM DE SER SOCIALISTAS


José Gomes Ferreira no 3º volume dos seus “Dias Comuns”:

21 de Junho de 1967:

“O Carlos de Oliveira apareceu ontem no Bocage: “saí para ir levar o carro à oficina” – explicou, aborrecido por não estar em casa a escrever. – “A Ângela é que costuma encarregar-se dessas coisas; mas foi ao Funchal visitar uma tia…” – insistiu na explicação.

E depois, entrando no assunto, ao mesmo tempo que cofiava a barbicha provisória de eremita das Aguas Furtadas do Saldanha:

- Você já reparou que, pouco a pouco, muitos dos nossos amigos deixaram de ser socialistas? – interrogou-me.

- Alguns até, para ficarem com a consciência limpa, organizaram um Partido Socialista… - pensei eu, a concordar com os olhos.”

Legenda: José Gomes Ferreira, Augusto Abelaira e Carlos de Oliveira na casa de José Gomes Ferreira em Albarraque, em “Jose Gomes Ferreira: Fotobiografia” de Raúl Hestnes Ferreira, Publicações Dom Quixote” Lisboa, Novembro de 2001.

POSTAIS SEM SELO


“O homem foi dotado de razão e força criadora para multiplicar o que lhe foi legaram, mas até hoje não criou, destruiu. Há cada vez menos florestas, os rios secam, a caça desaparece, o clima torna-se mais rude dia adia, a terra mais pobre e mais feia. Vejo que me olhas ironicamente,  tudo o que eu digo te parece que não é a sério e… e, talvez seja apenas mania minha,  mas quando passo por uma floresta que salvei  ou ouço o rumor da floresta ainda jovem que  plantei com as próprias mãos,  torno-me consciente de que o clima depende um pouco de mim e que se o homem dentro de mil anos tiver de ser feliz mo fica também a dever um pouco. Quando planto uma bétula nova e a vejo em seguida cobrir-se de folhas verdes, balançar ao vento, o meu coração enche-se de orgulho…”

Anton Tchekhov em “Tio Vania”

segunda-feira, 20 de junho de 2011

JANELA DO DIA




Vaidades, inexperiências, garotices.

Tudo o que, neste momento, o país necessita.

Num gesto de pura inexperiência, talvez leviandade, Pedro Passos Coelho permitiu que Fernando Nobre apenas aceitasse ser cabeça de lista do PSD por Lisboa, se lhe dessem a presidência da Assembleia da República.

Nem ao mais pintado se admitiria uma exigência destas, quanto mais vinda de alguém, que a mando do clã Soares, entrou na política, como candidato presidencial afirmando-se como anti-sistema, anti-partidos, anti-tudo-e-mai-alguma-coisa.
Poucos acharam piada ao senhor, pessoa que me merece pouca simpatia, diga-se, e muito menos que um candidato a primeiro-ministro, tivesse posto numa casca de banana como esta.

Claro que Paulo Portas, senhor de ratice de sacristia, tratou logo de dizer que por ele poderiam tirar o cavalinho da chuva que não alinhava na festança.

Conhecidos os resultados das eleições de 5 de Junho, outra coisa não restaria a Fernando Nobre, se fosse uma pessoa de bem como apregoa aos quatro ventos e muitos fazem eco, do que desobrigar Pedro Passos Coelho da bota que lhe deu para descalçar.

Mas a ambição, a vaidade, falaram mais alto.

O resultado teve hoje o desfecho, um desfecho há muito escrito nos céus.

Depois de ver o seu nome rejeitado por duas vezes para o cargo de presidente da Assembleia da República, nem o pleno da bancada do PSD conseguiu reunir, alguém, finalmente, terá gritado ”alto e pára o baile!” e Fernando Nobre comunicou ao presidente do PSD, Pedro Passos Coelho, que não se candidatará a uma terceira votação.

Mas esqueceu o que há tempos, de peito feito, deixou dito, numa entrevista ao “Expresso”, que, caso não fosse eleito presidente da Assembleia da República, renunciaria ao cargo de deputado.

Mas, com aquela cara que se lhe conhece, disse aos jornalistas que será mais um que por ali fica a levantar-se e a sentar-se, ele que é anti-sistema, anti-partidos, anti-tudo-e-mai-alguma-coisa…

Foi triste, degradante, penoso, o que hoje aconteceu na “Casa da Democracia”.
Começaram mal os primeiros dias do resto de muitas vidas, como alguém já chamou ao futuro que nos está reservado.

A formação do governo já tinha decorrido de forma algo atabalhoada, afinal os cérebros não quiseram abandonar os tachos e servir o país, que é uma coisa muito bonita para encher a boca, mas não preenche a conta bancária, e, agora Passos Coelho falha o seu primeiro teste pós indigitação como Primeiro-Ministro.

Chegou a admitir-se que o tempo das teimosias tinha ido de férias juntamente com José Sócrates.

Parece que não.

Como se fazem pontes para o além?


Legenda: os títulos são do dia 16 de Junho, respectivamente, do “Diário de Notícias” e do “Público”.

SARAMAGUEANDO



A escritora Lídia Jorge, ao pequeno discurso que, no sábado, proferiu, aquando do lançamento á terra das cinzas de José Saramago, chamou  Palavras para Ti.

São estas as palavras:

Pediu-me Pilar del Río que dissesse umas palavras para ti nesta ocasião. Em seu nome, digo-te que ela deitará as cinzas do teu corpo à terra, e nós, teus amigos, testemunharemos este momento do teu percurso, acompanhando o seu gesto, e agradecendo à vida termos vivido contigo. Agradecendo termos sido teus contemporâneos, e podermos falar sobre ti de viva voz, sobre aquilo que continua a ser a tua vida.

Sim. Dentro de instantes, Pilar, a tua mulher, irá deitar parte do que sobejou do teu corpo ao chão, mas todos nós que aqui estamos sabemos que ao mesmo tempo que te deitamos na terra, não te deixamos na terra, nós todos levantamos-te do chão. Nós, teus amigos, teus leitores, teus companheiros, toda esta cidade, levantamos-te do chão neste momento. E o mesmo sucederá no futuro, cada vez que abrirmos os teus livros e lermos as tuas palavras, e imaginarmos as figuras que tu mesmo imaginaste. E entrarmos nas tuas razões, e nos teus combates, sobretudo, no edifício magnífico da língua escrita que tu inventaste. Cada vez que acontecer, seja onde for, e em que idioma for que sejas lido, em qualquer parte da terra que seja, tu não serás as tuas cinzas que irão ser depositadas neste jardim, à sombra duma oliveira. Serás sim, os milhares de páginas que escreveste sobre a Utopia e o desconcerto e o concerto do mundo. Sobre os vivos, os mortos, Deus, os reis e os pobres, o elefante e o Cristo. Um mundo acrescentado ao Mundo. E por isso, quando Pilar del Río colocar as tuas cinzas da tua matéria física na terra, só ficaremos tristes por pensar em como o teu corpo foi inteiro, e termos saudades dele.

De resto, nós queremos que este momento seja alegre. Que tu sejas seiva desta cidade, lugar de paragem dos apressados, banco onde se sentam os cansados, casa onde se façam leituras, que neste canto em frente ao Tejo tu sejas uma história na História, e a partir daqui, que a paisagem se mantenha azul e o mundo se faça mais próspero e mais justo, como tu tanto sonhaste, que tu sejas parte de tudo isso, e que a tudo isso que aqui fica estendido se chame tua alma.

Quanto a nós, enquanto formos vivos e pudermos recordar-te, recordar-te-emos com se estivesses entre nós. Nós próprios não temos outra eternidade para te dar.

Tenho dito.


Legenda: fotografia de Aida Santos

AVISO

Lisboa.
Montra de “A Pombalina” na Rua do Comércio.
Sandes, de ovo, sandes de leitão, sandes de torresmos, o colesterol que vá dar uma volta.
Amanhã posso não estar cá.

OLHARES



Lisboa, Rua do Comércio, domingo de manhã.

domingo, 19 de junho de 2011

JANELA DO DIA


O dia foi o de ontem.

Pela manhã, as cinzas de José Saramago eram depositadas diante da Casa dos Bicos, sede da Fundação José Saramago.

Três, quatro centenas de pessoas assistiram à cerimónia.

À tarde, para cima de oitenta mil pessoas assistiram, na Avenida da Liberdade, ao mega piquenique,

organizado pela maior mercearia do país, a que se juntou o mega show de Tony Carreira.

Na década de 80, a maioria dos portugueses não lia um livro por ano.

Receio que, com o advento  dos telemóveis, das Playstation, de tudo o mais a estatistica tenha piorado.

Desde tempos que se perdem na memória, ouvimos dizer que a cultura é perigosa.

SARAMAGUEANDO

















 Foi assim que eu vi a cerimónia.

SARAMAGUEANDO




Simplicidade, dignidade.

Nada mais é necessário para assinalar as coisas importantes.

Às 11,30 horas de ontem, ao som dos tambores dos “Toca a Rufar”, Pilar del Rio depositou as cinzas de José Saramago debaixo da oliveira que veio da Azinhaga do Ribatejo, Violante Saramago , colocou “Palavras para José Saramago” , textos que foram escritos sobre o escritor português nos dias da sua morte. António Costa, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, colocou depois terra de Lanzarote junto à oliveira e ao banco de jardim feito de mármore de Pêro Pinheiro.

O professor e cantor lírico Jorge Vaz de Carvalho leu “Palavras para Uma Cidade” texto de Saramago que homenageia Lisboa.

A escritora Lídia Jorge falou da amizade e da obra de José Saramago.

Com breves palavras, António Costa encerrou a cerimónia.

Estiveram presentes cerda de 300 pessoas.

Poucos? Muitos?

Só faz falta quem está!

sábado, 18 de junho de 2011

SARAMAGUEANDO


Gostaria de morrer estando plenamente consciente. Acho uma injustiça uma pessoa morrer quando está a dormir. Isso não se faz a um ser humano. Gostaria de morrer estando consciente de que estou a morrer e a olhar para as pessoas que amo.

José Saramago

sexta-feira, 17 de junho de 2011

JANELA DO DIA



Fumo branco em Belém.

Habemus governo.

Será como os melões: só quando se abrem sabemos o que está dentro.

Os dias que começam, na próxima terça-feira, nos irão dizer como vai ser.

Os comentadores já se pronunciaram: uns a dizerem que houve surpresas porque esperavam um governo de primeiríssima linha, outros que há por ali muito academismo, muita gente sem experiência.

Por mim reparei que: em onze ministros, seis são comentadores assíduos da SIC, e um opina, semanalmente, no “Diário de Notícias”.

Ainda se não conhecem todos os secretários de estado, mas já se sabe que um, pelo menos, é comentador na TVI.

O Boris, no café do bairro, já disse que, para o gosto dele, são papagaios a mais e informou a plateia que o Ministro da Saúde é o dono da “Médis”.

Diz quem o conhece, que a nomeação do opinador do “Diário de Notícias” para Ministro da Economia, e outras coisas mais, não lembrava nem ao pior inimigo do PSD/CDS.

Disse mais coisas, mas seria especulativo enumerá-las.

O Partido Socialista já desejou boa sorte ao novo governo, mas lamentou a ausência do Ministério da Cultura na orgânica do executivo.

Convenhamos que, no mínimo, é preciso ter lata!

José Sócrates teve nos seus governos um Ministério da Cultura. Nos anos em que foi primeiro-ministro, borrifou-se, completamente, para a cultura.

Esta gente nunca mais toma juízo!


Legenda: imagem tirada do “Diário de Notícias”

SARAMAGUEANDO


Mais pensamentos e citações dos livros de José Saramago, também de artigos de opinião e entrevistas:

“Nunca me preocupou muito ser outra coisa do que aquilo que sou.”

“Nunca esperei nada da vida. Por isso tenho tudo.”

“Como nunca fiz projectos de carreira de carreira literária, nunca tive ilusões, e, como não tinha ilusões, também não tive desilusões.”

“Podes olhar para ti quando te barbeias de manhã e dizer: gosto deste senhor”

“A história das pessoas é feita de lágrimas, alguns risos, umas tantas pequenas alegrias e uma grande dor final.”

“A felicidade é só estar em paz consigo mesmo, olharmos para nós e recordar que não fizemos muito mal aos outros.”

“Quando me perguntam porque é que passei tantos anos sem escrever, respondo sinceramente que não tinha nada para dizer.”

“Não sei o que cá faço, e é importante que o saiba. Mas mais importante é saber.”


“Em Portugal nunca nada é demasiado grande. Tudo se fica sempre na mediania, na pequenez. Nunca há grandes sentimentos nem grandes paixões.”

“Quando nós olhamos para o estado em que o mundo se encontra, damo-nos conta de que há milhares e milhares de seres humanos que fizeram da sua vida uma sistemática acção perniciosa contra o resto da humanidade. Nem é preciso dar-lhes nomes.”

“Seria mais cómodo acreditar em Deus, mas escolhi o lugar da incomodidade.”

“E digo a mim mesmo: nasceste, estás a viver, morrerás e acabou-se.”

“Ao lado das minhas personagens femininas, as masculinas são insignificantes.”

“Nesta apreensão súbita de um destino ainda por cumprir”

“Eu não precisei de deixar de ser comunista para ganhar o Prémio Nobel. Se tivesse que renunciar às minhas convicções para ganhar, teria aberto mão do Nobel, mas felizmente a Academia não se importou com o facto de ser eu um comunista renitente.”

POSTAIS SEM SELO



“O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.”

Carlos Drummond de Andrade

OS CROMOS DO BOTECO

Desconhecia que os "Maranata” cantavam Mozart.
Apesar de a capa estar em mau estado, trouxe o disco.
Contrariamente ao que costumo fazer, verificar se o disco condiz com a capa, tal não aconteceu.
Chegada a casa, e disposta a ouvir Mozart pelos “Maranata” encontro um disco de uma tal Michèle Torr que, muito honestamente não sei quem é...
Tudo prejuízo!
Mas também por 50 cêntimos o que é que se pode exigir?

quinta-feira, 16 de junho de 2011

JANELA DO DIA


Há dias, aqui à janela, apanhando o fresco da noite, declarava não perceber de finanças e economia.

Ontem, João Pinto e Castro, num artigo de opinião para o “Diário Económico” colocava este título:

"Por que é que os economistas aparentam saber tão pouco sobre a economia?"

Mais ainda:

A crer na consultora High Frequency Economics, Portugal entraria ontem em falência, não tendo com que pagar 6,4 mil milhões em Obrigações do Tesouro.

Afinal, era engano.
 Ficou, demonstrado como funcionam as consultoras financeiras e agências de "rating".

Manuel António Pina chama a isto: “terrorismo financeiro”.

2.
Ao que parece, apenas Pedro Passos Coelho, e um grupo de gente chegada, quer Fernando Nobre como Presidente da Assembleia da República.

A falta de experiência de Passos Coelho, algum populismo eleitoral, deu origem a um problema, temos problemas muito mais graves, como se sabe, mas este não deixa de ser um problema, que fará perder tempo à nova Assembleia da República num momento em que todo o tempo é necessário.

Em 1917, Eça de Queiroz escrevia no “Distrito de Évora”:

“Ordinariamente, todos os ministros são inteligentes, escrevem bem, discursam com cortesia e pura dicção, vão a faustosas inaugurações, e são excelentes convivas. Porém, são nulos a resolver crises. Não têm a austeridade, nem a concepção, nem o instinto político, nem a experiência que faz o ESTADISTA. É assim que há muito tempo em Portugal  são regidos os destinos políticos. Política de acaso, política de compadrio, política de expediente. País governado ao acaso, governado por vaidades e por interesses, por especulação e corrupção, por privilégio e influência de camarilha, será possível conservar a sua independência?”

3.
Já tem algum tempo.

António Lobo Antunes numa entrevista ao “Expresso” afirmou:

“Um crítico do “El País” diz que daqui a cinco mil anos vou ser lido com paixão. Acho que ele tem razão.”

SARAMAGUEANDO


Apresentadas as epígrafes dos livros de José Saramago, aqui, aqui e aqui, segue-se uma série de pensamentos e citações retiradas dos livros de Saramago, também de artigos de opinião e entrevistas:

“Quando morrer quero que ponham sobre a minha lápide: 'Aqui jaz, indignado, José Saramago'".

“Quando a minha avó acabava de amassar o pão, dizia sempre, depois de traçar uma cruz na massa: “Deus te ponha a virtude, que eu fiz o que pude.”


“Somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos. Sem memória não existimos, sem responsabilidade talvez não mereçamos existir".


“Marx nunca teve tanta razão como hoje.”


“O ambiente de mediocridade em que vivemos é assustador.”


“A democracia não é um ponto de chegada mas de partida.”


“A ignorância tem alguma inconveniência. Quando se junta à estupidez, não há remédio."


“Todos guardamos segredos”.


“O poder dos cidadãos limita-se a tirar um governo e pôr outro, não pode influir nas decisões estratégicas.”


“A minha especialidade é levantar uma pedra e ver o que está por baixo.”


“Vivemos num sistema de mentiras, entrelaçadas umas nas outras.”


“Aqueles que amamos, amamos tal como são”.


“Estamos muito aborregados. Já nem somos capazes de balir.”


“Não vos vim trazer a paz, mas a espada.”


“Só aquilo que morre é que não muda. A mudança é um sinal de vida”.


“Costuma-se dizer que a solidão é enriquecedora, mas isso depende directamente da possibilidade de se deixar de estar sozinho.”


“Parece mal que o escritor viva do que escreve. O meu ofício é este: escrever.”


“Ser escritor não é apenas escrever livros, é muito mais uma atitude perante a vida, uma exigência e uma intervenção.”


“Necessitamos de tudo, excepto de silêncio.”


“É a ler que se aprende a escrever. É a ler!”


“No que me toca, eu penso que tenho dado muita satisfação aos meus leitores e isso é o melhor que eu posso pensar de mim mesmo.”

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS

OLHAR AS CAPAS


Biografia – José Saramago

João Marques Lopes
Caoa: Ilídio J.B. Vasco
Ilustrações Lucy Pepper
Prefácio João Tordo
Guerra e Paz, Editores S.A.
Distribuído hoje com a Visão – 5,90 euros.

Aliás, fonte próxima do escritor e à época também envolvido na imprensa confirma que Saramago, ao contrário do que acontecia, por exemplo n’ “O Século”, onde os militantes comunistas da direcção do jornal aplicavam a linha ditada pelo PCP e mantinham contactos regulares com o “controleiro” Carlos Brito, suspendeu os contactos com o partido e conservou uma orientação independente mal vista pelos quadros dirigentes. Daí o ostracismo a que foi votado nos tempos a seguir ao 25 de Novembro.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

JANELA DO DIA



Neste país houve uma censura: às imagens, às palavras.

Marcelo Caetano mudou-lhe nome para Exame Prévio.

Mas nada mudou!

O 25 de Abril aboliu qualquer tipo de censura.

É como não acreditar em bruxas. Só que parece que elas existem.

A censura, hoje, exerce-se de maneiras várias, subtis algumas, mafiosas outras.

As palavras da Eurodeputada Ana Gomes, sobre Paulo Portas, continham uma boa dose de insensatez.

O Brigadeiro Pezarat Correia, no “Diário de Notícias” quis publicar, sobre o assunto, a sua opinião.

Aquele rapaz que, do “Record” subiu a director do jornal do Oliveirinha, recusou.

Desconhecem-se os motivos.

O artigo de opinião chama-se “Paulo Portas Ministro?”

Transcrevo-o daqui:

“Ana Gomes provocou uma tempestade mediática com as suas declarações sobre Paulo Portas. Considero muito Ana Gomes, uma mulher de causas, frontal, corajosa, diplomata com muito relevantes serviços prestados a Portugal e à Humanidade. Confesso que me escapa alguma da sua argumentação contra Paulo Portas e não alcanço a invocação do exemplo de Strauss-Kahn. Mas estou com ela na sua conclusão: Paulo Portas não deve ser ministro na República Portuguesa. Partilho inteiramente a conclusão ainda que através de diferentes premissas. Paulo Portas, enquanto ministro da Defesa Nacional de anterior governo, mentiu deliberadamente aos portugueses sobre a existência de armas de destruição maciça no Iraque, que serviram de pretexto para a guerra de agressão anglo-americana desencadeada em 2003. Sublinho o deliberadamente porque, não há muito tempo, num frente-a-frente televisivo, salvo erro na SICNotícias, a deputada do CDS Teresa Caeiro mostrou-se muito ofendida por Alfredo Barroso se ter referido a este caso exactamente nesses termos. A verdade é que Paulo Portas, regressado de uma visita de Estado aos EUA, declarou à comunicação social que “vira provas insofismáveis da existência de armas de destruição maciça no Iraque” (cito de cor mas as palavras foram muito aproximadamente estas). Ele não afirmou que lhe tinham dito que essas provas existiam. Não. Garantiu que vira as provas. Ora, como as armas não existiam logo as provas também não, Portas mentiu deliberadamente. E mentiu com dolo, visto que a mentira visava justificar o envolvimento de Portugal naquela guerra perversa e que se traduziu num desastre estratégico. A tese de que afinal Portas foi enganado não colhe. É a segunda mentira. Portas não foi enganado, enganou. Um político que usa assim, fraudulentamente, o seu cargo de Estado, não deve voltar a ser ministro. Mas já não é a primeira vez que esgrimo argumentos pelo seu impedimento para funções ministeriais. Em 12 de Abril de 2002 publiquei um artigo no Diário de Notícias em que denunciava o insulto de Paulo Portas à Instituição Militar, quando classificou a morte em combate de Jonas Savimbi como um “assassinato”. Note-se que a UNITA assumiu claramente – e como tal fazendo o elogio do seu líder –, a sua morte em combate. Portas viria pouco depois dessas declarações a ser nomeado ministro e, por isso, escrevi naquele texto: «O que se estranha, porque é grave, é que o autor de tal disparate tenha sido, posteriormente, nomeado ministro da Defesa Nacional, que tutela as Forças Armadas. Para o actual ministro da Defesa Nacional, baixas em combate, de elementos combatentes, particularmente de chefes destacados, fardados e militarmente enquadrados, num cenário e teatro de guerra, em confronto com militares inimigos, também fardados e enquadrados, constituem assassinatos. Os militares portugueses sabem que, hoje, se forem enviados para cenários de guerra […] onde eventualmente se empenhem em acções que provoquem baixas, podem vir a ser considerados, pelo ministro de que dependem, como tendo participado em assassinatos. Os militares portugueses sabem que hoje, o ministro da tutela, considera as Forças Armadas uma instituição de assassinos potenciais». Mantenho integralmente o que então escrevi. Um homem que, com tanta leviandade, mente e aborda assuntos fundamentais de Estado, carece de dimensão ética para ser ministro da República. Lamentavelmente já o foi uma vez. Se voltar a sê-lo, como cidadão sentir-me-ei ofendido. Como militar participante no 25 de Abril, acto fundador do regime democrático vigente, sentir-me-ei traído.”

13.06.2011

PEDRO DE PEZARAT CORREIA

OS CROMOS DO BOTECO

Trafaria, Verão de 1959, havia discos do Teixeirinha na “Juke-Box” da esplanada do Marques na praia da Lourdes.

SARAMAGUEANDO


Aqui e aqui coloquei as epígrafes, ou dadas por mim como tal, que aparecem nos livros de José Saramago.

Esgotados os livros, nos próximos dias, volto a a outras palavras de Saramago.

“Entre os homens, com a sua razão, e os animais, com o seu instinto, que, afinal, estará mais bem dotado para o governo da vida? Se os cães tivessem inventado um deus, brigariam por diferenças de opinião quanto ao nome a dar-lhe, Perdigueiro fosse, ou Lobo d’Alsácia? E, no caso de estarem de acordo quanto ao apelativo, andariam, gerações após gerações, a morder-se mutuamente por causa da forma das orelhas ou do tufado da cauda do seu canino deus?”

“In Nomine Dei”

“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.” – Do “Livro dos Conselhos”

“Ensaio Sobre a Cegueira”

“Contar os dias pelos dedos e encontrar a mão cheia”.

“Cadernos de Lanzarote”

“Conheces o nome que te deram, não conheces o nome que tens”. – Do “Livro das Evidências”

“Todos os Nomes”

“Sou o rei deste reino, e os barcos do reino pertencem-me todos. Mis lhes pertencerás tu a eles do que eles a ti, Que queres dizer, perguntou o rei, inquieto, Que tu, sem eles, és nada, e que eles, sem ti, poderão sempre navegar.”

“O Conto da Ilha Desconhecida”

“Em todo o caso creio que estas “Folhas Políticas”, de cuja honradez cívica não reconheço a ninguém o direito de duvidar, levam dentro verdades suficientes para que sejam capazes de defender-se sozinhas, sem ajuda. Nem sequer a minha.”

“Folhas Políticas”


“Que estranha cena descreves e que estranhos prisioneiros, São iguais a nós”. – Platão, República, Livro VII

“A Caverna”

“E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos? Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar?”

“A Maior Flor do Mundo”

“O caos é uma ordem por decifrar”. Do “Livro dos Contrários”

“O Homem Duplicado”

“Nem tudo é o que parece” – Provérbio

“Don Giovani ou o Dissoluto Absolvido”

“Uivemos,  disse o cão”. – Do “Livro das Vozes”

“Ensaio Sobre a Lucidez”

 “Saberemos cada vez menos o que é um ser humano” Do “Livro das Previsões”
“As Intermitências da Morte”

“Deixa-te levar pela criança que foste” – Do Livro dos Conselhos”

“As Pequenas Memórias”

“Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam” – Do “Livro dos Itinerários”

“A Viagem do Elefante”

“O blog vai iluminando o caminho do seu autor. É essa a virtude”.

“O Caderno”

“Pela fé, Abel ofereceu a Deus um sacrificio melhor do que o de Caim. Por causa da sua fé, Deus considerou-o seu amigo e aceitou com agrado as suas ofertas. E é pela fé que Abel, embora tenha morrido, ainda fala”. – Hebreus, 11-4

“Caim”

POSTAIS SEM SELO



“O bar ideal não existe na América. O bar ideal é algo que desapareceu do nosso horizonte. Em 1910 um bar era um sítio onde os homens iam encontrar-se durante ou depois do trabalho, e tudo o que lá havia era um balcão comprido, um varão de lata, escarradores e um pianista para tocar música; mais alguns espelhos e barris de “whisky” a dez cêntimos o copo entremeados com barris de cerveja a cinco cêntimos a caneca. Agora é tudo cromados, mulheres bêbadas, paneleiros, “barmen” hostis, proprietários ansiosos a espreitarem pela porta preocupados com os seus assentos de couro e com a polícia; uma data de gritaria na altura errada e o silêncio mortal quando entra um desconhecido.”

Jack Kerouac “Pela Estrada Fora”

A LONGA VIAGEM


Não há um livro da nossa vida, nem um filme, nem uma música.

Não existe tal coisa.

A vida não é uniforme, temos muitas vidas, fases, momentos, em cada uma cabe um livro, um filme, uma música, que nos marcam, de maneira diferente, ao longo de todos os anos da nossa vida.

Em todas as minhas vidas sempre existiu um livro, um filme, uma música.

O tempo em que foram fundamentais e hoje pode não ter o mesmo significado.

Agora que Jorge Semprun nos deixou, peguei em A Longa Viagem”.

Um livro de uma das minhas vidas. Há muito que não o tirava da estante. Reli-o, mais uma vez. Mantém tudo, mas tudo, o que senti da primeira vez que o li. Há livros assim: intemporais, tempos que marcam, “porque há crimes que talvez não possamos evitar, mas tentemos impedir pelo menos o crime do silêncio, tal como escreveu Jan Patocka, filósofo checoslovaco.

A 27 de Janeiro de 1945, o Exército soviético entrou em Auschwitz, campo nazi onde mais de um milhão de pessoas foram exterminadas

Faltavam dois escassos meses para eu saltar para o mundo.

Não existem palavras para descrever aquele inferno, disseram os que passaram pelos hediondos campos e conseguiram sobreviver. Jorge Semprun foi um deles e confessou não estar certo de que fosse verdadeiramente possível levar alguém, que não passou pelos campos de extermínio nazi, a perceber o que fora viver em Buchenwald.

Em Auschwitz, na parede de um dos dormitórios de crianças, foi encontrado este poema:

"Amanhã fico triste,
Amanhã.
Hoje não.
Hoje fico alegre.
E todos os dias,
por mais amargos que sejam,
Eu digo:
Amanhã fico triste,
Hoje não.
Para Hoje e todos os outros dias!"


De uma entrevista de Jorge Semprun:

“O dia mais difícil? Nunca reflecti nisso. Nunca tentei fazer esse balanço. Possivelmente, o dia mais difícil terá sido um dia qualquer em Buchenwald, no campo de concentração. Um qualquer dia de cansaço, de esgotamento físico, de desespero porque não avia a possibilidade física de continuar a viver. Terá sido, possivelmente, um desses dias de total abandono, de total fadiga de viver.

O 11 de Abril de 1945 não sei se é o mais feliz da minha vida, mas um dos mais felizes porque, claro, de repente, a morte fica para trás. A morte estava ali sempre no futuro imediato. Quase todos estávamos convencidos que não sairíamos vivos do campo de concentração.”

Regressar depois de ter experimentado a morte.

Antes, com 19 anos, fora o tempo de uma longa viagem, a viagem do futuro prisioneiro 44.904 de Buchenwald;

“Ouvem-se, subitamente, gritos no vagão, uivos. Um impulso brutal de toda aquela massa inerte de corpos amontoados atira-nos, literalmente, contra a parede do vagão. Os nossos rostos roçam o arame farpado que veda o postigo. Olhamos para o vale de Moselle.

“Está bem tratada esta terra”, diz o rapaz de Semur.

Olho para aquela terra bem tratada.

“Não é como nos nossos sítios, está claro”, diz ele, “mas é bom trabalho.”

“Vinhateiros são vinhateiros”.

Volta ligeiramente a cabeça para mim e ri entredentes.
“Tu sabes disto” diz-me ele.

“Eu queria dizer…”

“Mas é isso”, volta ele, impaciente, “tu querias dizer, é clao que tu querias dizer.”

“O vinho deles não chega aos calcanhares do “chablis”, sabias?

Fita-me pelo canto do olho. Deve pensar que a minha pergunta é uma armadilha. Acha-me complicado, o rapaz de Semur. Mas não é armadilha nenhuma. É uma pergunta para reatar o fio dos nossos quatro dias e três noites de conversa. Ainda não conheço o vinho de Moselle. Só mais tarde o provei em Eisenach. Aquando do regresso desta viagem. Num hotel de Eisenbah onde fora instalado o centro de repatriamento.”

Mário Vargas Llosa afirmou que Jorge Semprun viveu como protagonista os grandes tumultos do século XX e o “El País” colocou em título: “Uma memória do Século XX”.
Nos anos 60, as suas divergências com Santiago Carrillo levaram à sua expulsão do Partido Comunista Espanhol, acusado de “desviacionismo”.

Como argumentista colaborou com os cineastas Alain Resnais e Costa Gravas.

Felipe Gonzalez, primeiro-ministro espanhol, convidou-o para Ministro da Cultura. A sua exigência crítica não permitiu que a experiência mais de três anos e acabou por regressar a Paris, onde veio a falecer, na passada quarta-feira, com, com 87 anos.
       
Foi hoje a enterrar em Garentreville, onde tinha uma casa, e onde estão os restos mortais de Colette Leloup, sua terceira mulher.

“Ontem, numa taberna perto de Semur, onde comíamos presunto, pão e queijo, regado com um bom vinho da região de se lhe tirar o chapéu, Michael dissera, após uma longa pausa de silêncio entre nós:
“Realmente, ainda não me contaste nada.”

Eu sei de que ele quer falar, mas não me importo. O pão, o presunto, o queijo, o vinho da região, eis as coisas que é preciso a gente reaprender a saborear.”

terça-feira, 14 de junho de 2011

JANELA DO DIA




1.
A janela de ontem debruçava-se sobre a intenção de os senhores bispos pretenderem fiscalizar os actos do novo governo.

Uma parceria entre o “Canal Q” e o jornal “I”, coisas de letras, coisas da IOL.pt iniciou-se com uma entrevista a Mário Soares. É-lhe perguntado:

“Sendo agnóstico, fez algumas alianças com a Igreja em momentos difíceis...

Mais do que alianças, conspiração. Eu conspirei activamente, posso dizê-lo hoje, com D. António Ribeiro.

Se todos os párocos não tivessem dito nas igrejas que seria bom que todas as pessoas fossem para Fonte Luminosa, não teríamos tido aquela manifestação que derrubou, no fundo, o caminho para que se estava a dirigir o país.”

Claro que destas conspirações, há muito se sabia, também as conspirações com o embaixador americano Frank Carlucci que, na semana passada veio a Lisboa tomar chá com Mário Soares e recordar velhos tempos.

Mas ouvido, muito claramente, pelo próprio conspirador, tem um  outro impacto…

Já não vou a tempo de ver, mas um dia se fará a história de quem, logo após os primeiros tempos de Abril. opôs resistência, quem vacilou, quem colaborou, quem traiu.

De nenhum acto, nenhuma palavra, nenhum nome, a história se esquecerá.

Não verei, mas estou certo que será assim!

2.
Números nunca foram comigo.

Fico basbaque a ouvir, a ler os comentaristas das economias e das finanças. Tanta sabedoria, deuses meus…

Hoje, o Correio da Manhã”, publica uma entrevista com João Duque, entre outras coisas, Presidente do ISEG,  e que, ainda há mão muito tempo, juntamente com Medina Careira, perorava na SIC sobre, e contra, a populaça.

Afirma Duque:

“Portugal vai ter de reestruturar a dívida. E temos de mudar o paradigma produtivo. Basta olhar para o discurso do senhor Presidente da República sobre a agricultura. Nós hoje temos défice na balança comercial de bens alimentares. E, como as coisas estão, se ficarmos sem dinheiro, temos pelo menos de ter comida. Podemos renegociar os prazos, dando um pequeno benefício ao mercado.”

Devagarinho os crânios chegam lá, só que quando isso acontece, já é tarde demais…

Hélas!

3.
Amanhã ocorrerá um novo eclipse da lua e, se as condições meteorológicas assim o permitirem, Portugal vai poder assistir ao fenómeno a partir das 20h58, em Lisboa, hora em que ocorre o nascimento da Lua.

Penso que, ao falar de luas e seus eclipses, não ficará mal colocar uma “Lua Adversa”, da poetisa brasileira Cecília Meireles:

 “Tenho fases, como a lua,
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!

Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...).
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...”

Legenda: Títulos do “Diário de Lisboa” de 14 de Maio e de 7 de Novembro de 1974.