No dia 24 já havia muito Abril,
muita esperança no amanhã... e também muita poesia...
Em 2014 apeteceu-me fazer uma exposição com fotografias, cravos e
poemas. Chamei-lhe, "Cravos da Liberdade - Fotografias com Palavras"
e viveu no "Espaço Doces da Mimi", em Almada, no mês de Abril.
Este foi um dos poemas, e esta, uma das fotografias...
RECEBESTE CRAVOS
na quase caixa do correio
do teu portão azul que dança
de braço dado com a amargura e o vento
que só muito raramente te oferece uma nesga de esperança...
Ele sabia que hoje chegaria aqui e tropeçava.
Ontem ainda deu para disfarçar, mas agora
sabia que lhe iam faltar ideias, palavras, vontades, sabe-se lá mais o quê.
Claro que recusa o apagamento da memória, mas
o estupor do Corvid-19 dá-lhe cabo dos dias.
E esse largo, essa memória, tiraram-no do
limbo de fantasmas em que se sentia enredado, um passo, outro, passo, quantos
mais passos…
Não lhe apetecia lembrar as palavras do costume
que dizem que, depois de momentos de exaltação e esperanças, arrastou-se por
momentos de angústias e desesperanças.
Não.
A fotografia, o texto, o poema são do Luís Eme, e foi
esse o passe de mágica que arranjou para não aparecer embrulhado em alegrias,
próprias e datadas, daquela nave de sonhos e loucuras em que andou mergulhado e
que ninguém lhe tira.
E, à fotografia e ao poema, que bem lhes fica o Abril.
Em tempo de escolher a música, ainda andou às
voltas, seleccionou algumas, mas em cada esquina acabou sempre por encontrar a
mesma canção: Utopia do José Afonso.
Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
Gente igual por fora
Onde a folha da palma
afaga a cantaria
Cidade do homem
Não do lobo, mas irmão
Capital da alegria
Braço que dormes
nos braços do rio
Toma o fruto da terra
É teu a ti o deves
lança o teu desafio
Homem que olhas nos olhos
que não negas
o sorriso, a palavra forte e justa
Homem para quem
o nada disto custa
Será que existe
lá para os lados do oriente
Este rio, este rumo, esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
na minha rota?
Para assinalar os 10
anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar
alguns textos que por aqui foram sendo publicados.
O MEU AVÔ E O HOMEM DA BANDEIRA
O meu avô paterno foi uma das referências da minha vida de criança e
adolescente.
Sempre que necessário,
apresentava-se assim:
«Mário Santos,
republicano histórico, benfiquista e anticlerical.»
Todos os anos,
pelo 5 de Outubro, subia ao Cemitério do Alto São João, depois à Praça António
José de Almeida para uns «Viva a República».
Morreu em 1968, com
93 anos.
Foi um dos muitos
que morreu sem saber qual a cor da liberdade.
Estava na Praça
António José de Almeida, quando, no 5 de Outubro de 1958, a PIDE prendeu o
General Humberto Delgado.
O meu pai dizia-lhe
que ele devia deixar-se dessas romagens que não conduziam a nada.
«Dizes tu! Eu
e o homem da bandeira nunca falhamos!»
Referia-se a um
republicano que, no 5 de Outubro, aparecia com uma grande bandeira portuguesa.
Esse chegou a ver a cor da liberdade e, depois de Abril, foi militante do
Partido Socialista.
O meu pai morreu
em Junho de 1990.
Num 25 de Abril,
1988 (?), o meu pai whiscava, eu gintonicava, Cecília Bartoli, em fundo,
cantando Vivaldi, discorríamos sobre os tempos idos, dos que estavam para
chegar e ele batia na tecla de que o 25 de Abril acabaria nas mesmas
evocações-quase-solitárias do meu avô e dos companheiros republicanos
históricos.
Sucedeu nascer um
desesperante silêncio, agitei o gelo no copo, olhei a rodela de limão, murmurei
para dentro de mim que o meu pai era capaz de ter razão, mas deixei o silêncio
escorrer…
Que nada perturbe
esse silêncio… ainda estou a ouvi-lo… e numa, difusa, vagamente avermelhada,
imagem, admito ver o meu avô e o homem da bandeira…
Legenda: imagens
da prisão de Humberto Delgado no 5 de Outubro de 1958
Um dia se saberá
das razões que levaram, na manhã de 16 de Março de 1974, que uma coluna militar
saísse do Regimento de Infantaria 5, nas Caldas da Raínha, em direcção a
Lisboa.
Considerando os
respectivos interesses, são possíveis duas hipóteses:
a)Tentativa de os spinolistas se apropriarem da
liderança do Movimento das Forças Armadas.
b)Tentativa de os spinolistas serem afastados do
processo em curso.
Um país triste,
miserável, inculto, militares cansados de uma guerra que durava há 13 anos e em
que morreram cerca de 10 mil portugueses, e uns bons milhares não facilmente
contabilizáveis ficaram estropiados e outros acordam a meio das noites. Raro
existir um português que não tivesse um familiar, um amigo morto nessa guerra.
era um tempo com barcos por dentro dos sonhos
era um tempo com meninos por dentro dos olhos
era um tempo de saber dos homens as mãos
era um tempo de saber das fontes as sedes
era um tempo de cais de lenços de raivas
tempo de espera,
tempo de qualquer tempo
tempo de contratempo
tempo de ser o tempo de o tempo nosrevisitar
Em Março de 1974,
Marcelo Caetano, numa mensagem estranha, aos seus ministros, deixa implícito que
só as grandes patentes militares do regime se deixavam corromper, lembrava:
«Cuidado com os capitães, o perigo vem deles,
pois não têm ainda idade suficiente para poderem ser comprados.»
Marcelo Caetano,
no seu Depoimento, escreve que o
episódio das Caldas da Raínha não devia ter sido subestimado.
Não se percebe
bem a observação na medida em que, linhas à frente, escreve que «… a revolução veio efectivamente de
surpresa.»
A 24 de Abril, ao
fim da tarde Marcelo Caetano, falava ao telefone com um dos seus ministros e
comentava os rumores sobre um levantamento militar iminente:
«Isso é mais um boato desgastante», garantia.
Para o dia 25, os serviços de Meteorologia previam: Céu pouco nublado,
por vezes muito nublado; vento fraco de norte; possibilidade de trovoada e
aguaceiros.
Na noite de 24 de Abril, no Coliseu, representava-se La Traviata
de Giuseppe Verdi
A sala estava completamente cheia e a reportagem do Diário de Notícias,
do dia seguinte, dava conta que no meio das ovações vibrantes e intermináveis,
cravos foram lançados das frisas.
A reportagem
do Diário de Notícias dava conta que, no meio das ovações
intermináveis, cravos tinham sido lançados das frisas.
Regressando a
suas casas, a maioria daqueles espectadores desconheciam que esse começo
de 25 de Abril não era mais um dia do calendário, um dia como outro
qualquer.
Estava a chegar o
Dia de Todas as Surpresas.
Se outros
caminhos não o tivessem desviado, Otelo Saraiva de Carvalho teria um dos
espectadores da representação da Traviata.
Otelo diz à mulher que chegou a hora, e se ela, no rádio, ouvir os sinais, é
porque tudo está acorrer bem.
A mulher pergunta-lhe o que acontecerá se não ouvir os sinais.
Otelo responde-lhe:
Então, não sei ainda o que me poderá acontecer. Presumo que serei demitido,
entregue à PIDE, passado a civil e vá aboborar por uns anos largos em Caxias
ou, quem sabe, faça uma viagem só com bilhete de ida para o Tarrafal. Uma coisa
te garanto: nunca mais farei guerra nenhuma no Ultramar.
No livro Alvorada de Abril, onde
conta esta história, adianta:
«O gracejo final fora chocho. Tinha a sensação de que o panorama se apresentava
negro. Tentei dar-lhe uma pincelada de cor:
- Mas não te apoquentes com nada disso nem tenhas pensamentos desse género.
Porque eu tenho a certeza de que, em poucas horas, ganharemos esta guerra.
Dominamos quase todas as unidades do País, a malta está com uma gana
formidável, temos a nosso favor o efeito surpresa. É canja!
Ela quis também dar ao ambiente um pequeno toque de humor:
- Queres então dizer com isso que amanhã não vamos à ópera?
Tinha-me esquecido completamente do assunto. Comprara bilhetes para a Traviata,
que se cantava na noite de 24 no Coliseu dos Recreios, aproveitando o preço
mais baixo que nos era facultado através da Secção de Actividades Culturais e
Recreativas da Academia Militar.
- Olha, guarda-os para recordação. É claro que não vamos.
Com o permanente espírito de economia caseira retorquiu:
- Leva-os antes contigo e procura entregá-los amanhã na Academia. Pode ser que
devolvam o dinheiro.
- Não vou fazer isso. Entregá-los agora depois de tanto os ter pedido, dizendo
que já não me interessa, pode levantar qualquer suspeita. Paciência. Outra vez
virá. Além disso, já vimos a Traviata do alto do galinheiro do São Carlos.
Ainda hoje tenho comigo esses bilhetes. No sobrescrito timbrado da Academia
Militar dentro do qual mos entregaram, minha mulher inscreveria mais tarde a
frase: "Faltámos por motivo imprevisto".»
Naturalmente, a música que vos escolhi, é um trecho do 1º acto da
Traviata: «E
strano, e strano...Follie, follie...Sempre Libera»,
interpretado por Maria Calas.
Há quarenta e seis anos, por esta hora, findava
mais um dia do nosso cinzento quotidiano.
«Um
Verão, quando voltava de Londres, ao ir embarcar em Valência para Nápoles,
tinha passado por Portugal. Tinha posto a si mesmo mil perguntas sobre o
declínio dessa nação cujo império se tinha estendido à volta do Globo. Tinha
conhecido escritores que não escreviam para ninguém; homens políticos que
governavam para os Ingleses; homens de negócios que liquidavam os seus
estabelecimentos do Brasil e viviam de pequenas rendas, em cidades de
província, sem finalidade. Ele tinha pensado que era a pior das infelicidades
nascer Português. Em Lisboa, pela primeira vez na vida, tinha-se encontrado com
um povo que se tinha desinteressado.»
Legenda: Um Coliseu cheio para na noite de 24 de Abril de 1984 assistir
à representação da Traviata. Fotografia do Diário de Notícias.
Estas são as últimas
fotografias de murais, pintados, pós 25 de Abril, nas ruas de Lisboa.
Havia mais
algumas mas estão em muito pior estado do que aquelas que foram publicadas.
Há 46 anos, sem
muitos o saberem, chegávamos à véspera do Dia das Surpresas.
Neste caminhar do
25 de Abril pelo tempo, há quem pergunte se o 25 de Abril cumpriu o que, por
aqueles dias, foi prometido ao povo.
Há um poema de
José Saramago em que se pode ler:
«O homem diz que sabe o caminho, mas não
acrediteis porque o homem não sabe o caminho e há sessenta séculos que o homem
diz: Eu sei o caminho mas nós sabemos que o homem não sabe o caminho e outros
sessenta séculos ouviremos o homem dizer: Eu sei o caminho mas o pobre do homem
não soube, não sabe, nem saberá jamais o caminho.»
Não sei das
contabilidades do cumpriu ou não cumpriu.
Pelo menos sei de
uma, e considero-a de uma importância tal que me faltam palavras:
O FIM DA GUERRA
COLONIAL!
Lembram-se das
palavras de morte que o botas-ditador-de-santa-comba
nos lançou?
«A Pátria não se discute, defende-se!»
Mas qual pátria?
Toda uma juventude serviu de carne para
canhão para defender o que nem sequer era nosso.
O Jorge de Sena tem um poema, simplesmente
arrepiante, que marca o quanto foi possível aqueles ditadores de pacotilha
terem resistido tanto tempo:
«Uma vez eu, chegando a Portugal
após muitos anos de ausência minha e alguns
de guerras africanas, encontrei uma vizinha
muito estimável que era casada com
um operário categorizado e antigo republicano.
O filho dela estava nas Africas, arriscando
a vida dele e a dos outros em defesa
do património da pátria de alguns (muito mais
que das gerações brancas que vivem nas Áfricas).
Eu condoí-me, todo embebido de noções políticas.
E ela, com um sorriso resignado, respondeu-me:
- Pois é, mas ele está a ganhar tão bem!»
Os cinco dias a que me propus o colocar
fotografias dos murais, juntando uma canção daqueles tempos, levou a que muitas
dessas canções tivessem ficado de fora.
Mas o Manuel Freire não poderia faltar.
Foi ele que com a «Pedra Filosofal» divulgou
o António Gedeão, o próprio poeta o reconheceu, que não teria a projecção que
teve, se não fosse essa canção.
Mas irei escolher «Livre», um poema de Carlos
de Oliveira que faz parte de um EP editado em 1968.
Diz-me o teu nome – agora, que perdi
quase tudo, um nome pode ser um princípio
de alguma coisa. Escreve-o na minha mão
com os teus dedos – como as poeiras se
escrevem, irrequietas, nos caminhos e os
lobos mancham o lençol da neve com os
sinais da sua fome. Sopra-mo no ouvido,
como a levares as palavras de um livro para
dentro de outro – assim conquista o vento
o tímpano das grutas e entra o bafo do verão
na casa fria. E, antes de partires, pousa-o
nos meus lábios devagar: é um poema
açucarado que se derrete na boca e arde
como a primeira menta da infância.
Ninguém esquece um corpo que teve
nos braços um segundo – um nome sim.
Neste cais, nunca
ligámos aos dias de… seja lá qual for.
Andando à volta da não data, pesca-se aqui e ali alguma
coisa, e serve-se a quem nos está a ler.
Uma mão chega – e sobra - para eu contar as livrarias
independentes que ainda existem em Lisboa.
Sei que a maior parte dos livros que se publicam em
Portugal não justificam perder qualquer ponta de tempo, a espreitá-los.
Sei o que é o McDonald’s, sei qual é a comida que tenho
gosto em comer.
Leio cada vez mais devagar e releio mais do que leio. Alguns
livros de escritores novos, ou que desconheço, não escreveram livros para mim,
ou sou eu que não estou preparado para os receber.
Caramba! parece que foi o Jorge Luís Borges que disse isto.
Marina Tsvetaeva, poetisa russa, uma vida muito difícil,
suicidou-se no dia 31 de Agosto de 1941, tinha 48 anos:
«Presos nas livrarias, cinzentos pelo pó e o tempo,
não vistos, não procurados, não abertos e não vendidos,
Os meus poemas serão apreciados como o mais raro dos vinhos-
Quando forem velhos»
A páginas 148 de A
Sombra do Vento de Carlos Ruiz Zafón alguém observa «por que se queimam os livros? Por estupidez, por ignorância, por ódio…
vá-se lá saber.»
Num livro sobre o julgamento de Nuremberga, alude-se à
fogueira que os alemães fizeram da biblioteca de Tolstoi para se aquecerem.
Sobre o porquê, um oficial alemão respondeu que «gostava se aquecer no calor da literatura russa.»
Manuel Hermínio Monteiro dizia que gostava de pensar que editava
livros como quem trata de uma vinha.
Manuel António Pina disse um dia:
«As 300 pessoas que
em Portugal compram livros de poesia são as 300 pessoas que escrevem poesia
também – já pensei juntá-las numa almoçarada.
Um poeta é um autor
minoritário, quando não confidencial. Há quem diga que escrevem “como se não
fossem lidos por ninguém.”
Vive para escrever,
mesmo que não viva do que escreve.»
As bibliotecas que temos em casa, dizia o meu pai, para
serem dignas de serem uma biblioteca, têm que ter pelo menos uma boa parte de
livros ainda não lidos.
Lembro-me que, ao longo da vida, foi comprando uma série
de livros, história e filosofia principalmente, para que quando chegasse o
tempo da reforma os lesse calmamente.
Quando esse tempo chegou, desatou a ver vídeos de velhos filmes e a ler
romances policiais da Colecção Vampiro.
Gosto de casas que cheiram a romances policiais… dizia o
meu pai.
Tinha lido o livro de enfiada. Passou a ter saudades do
tempo em que o estava a ler. Pode pegar no livro, voltar a lê-lo, mas não é a mesma
coisa. Disse o filósofo: Nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio...
pois na segunda vez o rio já não é o mesmo…nem tão pouco o homem!
Há um filme de que gosto muito, baseado num livro da
escritora norte-americana Helene Hanff.
O livro chama-se 84,
Charing Cross Road, o filme em português teve o título de A Rua do Adeus, dirigido por David Jones,
com Anne Brancroft , Anthony Hoptkins e Judi Dench.
Gira à volta da correspondência que a autora manteve com
um livreiro da Charing Cross Road, a quem encomendava livros raros, e, entre os
dois, foi crescendo gostos e gestos de amizade.
Hoje, já quase não existem livrarias na Charing Cross
Road. Tudo porque o custo dos arrendamentos, dada a especulação imobiliária, atingiu
valores inalcançáveis por uma livraria, mesmo que fosse uma boa livraria.
Os ingleses perderam as suas livrarias, talvez tenham deixado
de ler, caminho escancarado para que lhes acontecesse o Brexit.
Por aqui, soubemos que a Livraria da Editora Cotovia
fechou portas. Estava situada frente às traseiras do extinto jornal República e onde em tempos antigos
esteve a Livraria Opinião.
Hei-de escrever sobre a Livraria Opinião
A música que lhes deixo, é o tema musical do filme A Rua do Adeus da autoria de George
Fenton.
Repito: um filme muito bonito.
1.
Um dos seis migrantes ainda desaparecidos do hostel da Rua Morais Soares, em
Lisboa, que teve de ser evacuado no domingo por ter sido detectado um caso de Covid-19, foi localizado pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras em
Inglaterra.
Como foi possível?
A Inglaterra não fica ali ao virar da esquina.
2.
A Polícia Judiciária localizou e apreendeu “um importante
acervo documental, que fará parte do espólio da extinta PIDE/DGS”.
São “documentos relevantes e de um conjunto superior a
setecentos negativos de clichés fotográficos, aparentemente de fichas
biográficas de indivíduos identificados por aquela antiga Polícia,
classificados pelo nome e respectiva alcunha”.
Do material consta ainda “negativos, integrando resenha
dactiloscópica”, e “um dossier/inquérito de recolha de informação dactilografado
e um livro manuscrito de registos de nomes”.
3.
Em cinco semanas, cerca de 26 milhões de pessoas pediram subsídios de
desemprego no país.
4.
Os líderes da União Europeia continuam em reuniões e
reuniões, correndo o risco que o que acabarem por concluir aconteça tarde de
mais.
Mas parece que hoje houve luz ao fundo do túnel.
Tendo em vista a recuperação da economia europeia face à
grave crise, houve uma proposta de fundo de recuperação.
O nosso primeiro-ministro ainda não sabe se será uma
bazuca ou uma fisga.
Os detalhes serão conhecidos nos próximos dias.
5.
Os negros números:
Portugal regista 820 óbitos.
Os Estados Unidos continuam a ser o país do mundo a
registar o mais elevado número de mortos: 46.583.
Naquele tempo as
fotografias eram em papel, possivelmente, alguém em qualquer parte do mundo, já
pensava noutras maneiras de as guardar.
Já passaram
muitos e muitos dias e as cores dos murais foram ficando para o desmaiado.
Mas por que será
que o papel é sempre o papel?
Mudando o disco.
Há um texto de
Sophia Mello Breyner Andresen, fragmento poético de Os Gracos, que guarda uma
lição de política.
«Os ricos nunca perdem a jogada, nunca fazem
um erro. Espiam. E esperam os erros dos outros. Administram os erros dos
outros. São hábeis e sábios. Têm uma larga experiência do poder e quando não
podem usar a própria força, usam a fraqueza dos outros. E ganham.»
Não lemos bem as
lições que nos dizem para ler.
Não aprendemos com
as lições que devíamos ler, ou ler com mais atenção.
Sabemos das
razões, mas fazemos por olvidar.
Ficamos a
inquietação da distância.
«Valerá a pena você gastar tanta inteligência
para explicar aos parvos que são parvos?
De uma carta de
Sophia para Jorge de Sena, Maio de 1962.
Nos tempos da
ditadura, numa televisão a preto e branco, o país sentava-se atentamente frente
ao aparelho para assistir ao Zip-Zip.
Apesar dos cortes
da censura, era um programa que conseguia passar para lá do habitual
cinzentismo que nos assistia.
Por ele o país
ficou a conhecer Almada Negreiros, o poeta António Gedeão, outros mais, por ele
começou a ver e a ouvir uma série de rapazes que, de viola na mão, cantavam
coisas fora do circuito do então já chamado nacional- cançonetismo.
Mais espantadas
ficaram as gentes quando uma noite um padre, Francisco Fanhais de seu
nome, pegando num poema de Sebastião da Gama, entrou casa dentro a dizer que a
um rouxinol lhe tinham quebrado as asas não o deixando voar, lhe quebraram o
bico não o deixando cantar.
Lembro-me do José
Afonso dizer que não há só gaivotas em terra quando um homem se põe a pensar,
pelo que mantenho não ser importante a sessão solene comemorativa do 25 de
Abril na Assembleia da República.
Se fizerem o
favor de não dizerem que sou contra o 25 de Abril, agradeço.
Obviamente reconheço
que qualquer pretexto é bom para certa gente se manifestar contra a data dos
cravos vermelhos.
Na parte que me
toca, terão que fazer o favor de não me incluírem nesse pano de fundo.
Agora leio que a
CGTP não realiza o habitual desfile/manifestação do 1º de Maio, apenas a concentração,
em algumas cidades, de pessoas, distanciadas entre si 4/5 metros e sem a participação
de velhos e crianças.
Pode ser que a clausura me esteja a retirar capacidades de análise e raciocínio
e chegado aqui não sei que diga.
Há silêncios que
doem.
A disposição não
é muita para hoje vos escolher a música.
Mas como há dias
tropecei no José Gomes Ferreira, tem-me feito uma agradabilíssima companhia,
lembrei-me do que ele escreveu a 16 de Dezembro de 1970:
«Fiz hoje mais um esforço para gostar de O
Cavaleiro da Rosa.
Impossível.
Ainda não encontrei o segredo.
Continua a parecer-me uma longa estopada para
embalar os saudosos do Strauss das cervejarias de Viena.
É uma valsa sem epiderme… Mas por baixo não
existe a carne viva com nervos sangrentos… Apenas o cadáver de um boneco
monótono, com corda de dançar.»
Num Natal, o meu
amigo Hans-Martin mandou-me, desde Reinbek, O
Cavaleiro da Rosa.
Honestamente
terei que vos dizer que o José Gomes Ferreira influencia-me barbaramente…
1.
A Tele-Escola,
na RTP Memória, bateu todos os recordes de audiência e destronou a CMTV.
2.
Juntamente com
os lares, os hostels são uma preocupação dado o elevado perigo de contágio que
representam. Calcula-se que cerca de 800 migrantes vivem, em Lisboa, amontoados
nesses alojamentos, constituindo uma perigosa fonte de propagação do vírus.
De como foram
passadas as licenças para estas casas/hostels funcionarem, é algo que deveria
ter sido rigorosamente vigiado. Agora, em plena pandemia, não se vê solução
para o problema.
2.
O ministro das
Relações Exteriores do Brasil afirmou que o novo coronavírus tem sido usado
para implantar o comunismo no mundo.
O ministro
brasileiro usou o termo comunavírus para nomear o surgimento de um
alegado vírus ideológico que se sobrepõe ao coronavírus e que teria como
objetivo despertar para o pesadelo comunista.
3.
A Organização Mundial
de Saúde avisa o mundo de que o vírus estará entre nós durante muito tempo.
4.
O governo anunciou a descida do IVA, de 23% para 6%, para
máscaras e gel desinfectante.
5.
Os negros números:
Portugal regista 785 óbitos.
Os Estados Unidos continuam a ser o país do mundo a
registar o mais elevado número de mortos: 44.845. Só em Nova Iorque registam-se
15.302 óbitos.
Itália: 25.085 mortos
Espanha: 21.717 mortos
França: 21.340 mortos
Grã-Bretanha: 18.100 mortos
Em todo o mundo já morreram 182.740 pessoas.
6.
Passagem pelo dia 22 de Abril de 1974:
O jornal situacionista Época dava grande destaque ao
almoço íntimo que o Chefe de Estado Américo Thomaz ofereceu, em Belém, ao Chefe do Governo
Marcelo Caetano, ministros e outras figuras do regime.
Sem protocolo, sorridentes, desconheciam que esta seria a
última refeição que, juntos, iriam ter.
Nenhum jornal informa os seus leitores das iguarias que
suas excelências manducaram mas sempre adiantaram que tudo decorreu num grande
ambiente de grande cordialidade, alguns odiavam-se mesmo.
No jornal República, o jornalista e escritor Álvaro Guerra, que era um elo de
ligação entre os militares e a imprensa, sabendo do que daí a dias iria
acontecer, escreve o habitual Ponto
Crítico:
«A Primavera continua chuvosa, um resto
de invernia que se arrasta, retardando o sol aquém, de tantos sóis adiados, se
vai fartando e chegando ao Inverno da vida com um levíssimo e já frio raio de
luz teimando penetrar na floresta desencantada da memória.
Naturalistas, alegóricos, nostálgicos, vamos seguindo os caprichos do clima,
mitigando a ausência das palavras primaveris com a decifração de eternos
boletins meteorológicos.»
Não são razoáveis
as fotografias que tirei a alguns murais que, após o 25 de Abril, apareceram na
cidade, apenas ficarão como um juntar de certas memórias.
Sentado no Expresso-Bar, gin-tónico na mão, o
Mário-Henrique Leiria dizia:
-Vê lá tu, que o Álvaro Guerra deixou de me
falar só porque não sou do partido dele!...
Com estrondo os
altos muros ruíram, olhámos o dia das surpresas.
Mas era
suficiente?
Pode-se ter
deixado de acreditar em coisas em que se acreditou?
E os escolhos dos muros que ruíram?
Miguel Torga, que
é escritor que nunca me provocou grandes entusiasmos, escreveu no seu Diário:
«Coimbra, 25 de Abril de 1974 – Golpe militar. Assim eu acreditasse nos
militares. Foram eles que, durante os últimos macerados cinquenta anos pátrios,
nos prenderam, nos censuraram, nos apreenderam com as baionetas o poder à
tirania. Quem poderá esquecê-lo? Mas pronto: de qualquer maneira, é um passo.
Oxalá não seja duradoiramente de parada…»
Passados estão 46
anos.
Demasiados erros,
demasiadas distracções, demasiadas ingenuidades, acabaram por mergulhar o país
num mar largo de clientelismo, de partilha do poder, de corrupção, do salve-se
quem puder…
Onde está o
dinheiro, onde está o raio do dinheiro?
Não lhe apetecia
nada rematar a prosasinha com a frase da Simone de Beauvoir, escritora que
também nunca lhe provocou grandes entusiasmos, mas aí vai:
«É horrível assistir à agonia de uma
esperança.»
A canção daqueles
tempos que hoje ouviremos, é trazida pelo Adriano Correia de Oliveira.
Faz parte do
álbum, «Cantaremos», editado em 1970.
Música do Adriano
para um poema do Fernando Assis Pacheco que nos fala das razões porque então
podíamos amar serenamente com tantos amigos na prisão.
«Não deveis enganar-vos: cada verso tem um
selo fraterno caminhando para a branca cidade sob o sol.», deixou o poeta escrito nas o páginas
interiores do álbum.
Como um jantar frugal junto à
clara janela,
Na sala já está escuro mas ainda se vê o céu.
Se saísse, as ruas tranquilas deixar-me-iam
ao fim de pouco tempo em pleno campo.
Como e observo o céu — quem sabe quantas mulheres
estão a comer a esta hora — o meu corpo está tranquilo;
o trabalho atordoa o meu corpo e também as mulheres.
Lá fora, depois do jantar, as
estrelas virão tocar
a terra na ancha planura. As estrelas são vivas,
mas não valem estas cerejas que como sozinho.
Vejo o céu, mas sei que entre os tectos de ferrugem
brilha já alguma luz e que, por baixo, há ruídos.
Um grande golo e o meu corpo saboreia a vida
das árvores e dos rios e sente-se desprendido de tudo.
Basta um pouco de silêncio e as coisas imobilizam-se
no seu verdadeiro sítio, como o meu corpo imóvel.
Cada coisa está isolada ante os
meus sentidos,
que a aceita impassível: um cicio de silêncio.
Cada coisa na escuridão posso sabê-la,
como sei que o meu sangue circula nas veias.
A planura é água que escorre entre a erva,
um jantar de todas as coisas. Cada planta e cada pedra
vivem imóveis. Escuto os alimentos e eles alimentam-me as veias
com todas as coisas que vivem nesta planura.
A noite importa pouco. O
rectângulo de céu
sussurra-me todos os fragores e uma estrela miúda
debate-se no vazio, longe dos alimentos,
das casas, distinta. Não se basta a si mesma
e precisa de muitas companheiras. Aqui no escuro, sozinho,
o meu corpo está tranquilo e sente-se soberano.
Em plena pandemia, tempo de tristeza, preocupação à flor
da pele, encontrar a primeira notícia que me fala de cerejas, e lembro-me de
José Manuel dos Santos, a deixar numa crónica, «são as cerejas que me dizem que a perfeição é visível neste mundo.».
A notícia, essa vem do Fundão e é uma notícia triste: cerca
de metade da habitual produção de Cereja do Fundão estará este ano perdida
devido às condições meteorológicas: o nevão caído no final do mês de Março,
seguido de geada forte e temperaturas muito baixas, bem como a chuva intensa e
a queda de granizo, em Abril semearam a desilusão.
De onde são as melhores cerejas?
Não sei, não entro nesses campeonatos.
Dêem-me cerejas, simplesmente
E Alijó, no tempo das cerejas, tem a medida de
Wall Street.» escreveu Agustina
bessa Luís.
«Penso na minha
infância. Quando eu era criança do que eu gostava mais era cerejas», deixou Ana
Hatherly numa das suas Tisanas.
«Quero fazer contigo o que a primavera faz com as
cerejeiras», é o final de um poema
do Pablo Neruda.
O Tempo de
Cerejas.
Le Temps des
Cerises é uma canção de amor com letra de Jean Baptist Clément e música de
Antoine Renard, escrita em 1866 e que anos mais tarde ficará associada às
esperanças do povo francês durante a Comuna de Paris.
Esta canção faz
parte do reportório de um grande número de cançonetistas.
Escolhi a versão
de Juliette Greco.
Quando cantarmos no tempo das cerejas,
E o feliz rouxinol mais o melro gozão
Andarem em festa.
As formosas terão tolice na testa
E os namorados sol no coração...
Quando cantarmos no tempo das cerejas,
Assobiará melhor o melro gozão
Mas passa depressa, o tempo das cerejas,
Quando os namorados colhem, a sonhar,
Brincos de princesa!
Cerejas de amor de igual beleza,
Caem sobre as folhas, qual sangue a pingar.
Mas passa depressa, o tempo das cerejas,
Brincos de coral colhidos a sonhar!
Quando vos chegar o tempo das cerejas,
Se tiverdes medo das coitas d'amor,
Evitai formosas.
Mas eu que não temo penas dolorosas,
Não hei de perder um só dia de dor...
Quando vos chegar o tempo das cerejas,
Haveis de ter também vossas coitas d'amor.
Sempre adorarei o tempo das cerejas:
Guardo desse tempo no meu coração
Uma chaga aberta.
E mesmo a Fortuna, posta como oferta,
Jamais poderá tirar-me esta aflição...
Sempre adorarei o tempo das cerejas
E esta memória no meu coração.
1.
Continua a rábula sobre as comemorações do 25
de Abril na Assembleia da República.
Muitos dos que bolsam disparates atrás de
disparates sobre a data história, uns ainda não eram um sorriso na cara dos
pais, outros andavam de cueiros.
2.
Na imensidão
alentejana, registou-se a primeira morte de uma pessoa infectada com o coronavírus,
trata-se de um homem com 87 anos e estava internado no hospital de Beja desde
o dia 14 de Abril.
3.
O presidente dos
Estados Unidos e o primeiro-ministro britânico concordaram na necessidade de
uma resposta internacional coordenada para a pandemia.
4.
Em Espanha, mais de mil profissionais de saúde estão isolados, e milhares
vão ter de fazer testes de triagem depois de terem estado expostos ao novo
coronavírus e terem utilizado máscaras de protecção individual de um lote
defeituoso.
5.
O estado da
Baviera anunciou que o festival alemão de cerveja foi cancelado devido ao novo
coronavírus.
O Oktoberfest
costuma reunir cerca de seis milhões de pessoas todos os anos. O festival
estava marcado entre 19 de Setembro a 4 de Outubro.
6.
Os bispos
começaram a trabalhar no regresso das missas após o fim do estado de emergência.
Os clubes de
futebol estão a fazer o mesmo.
Um título de 1ª
página do Público revelava que o governo dá luz verde a clubes de
futebol para recorrerem ao lay-off.
Continuo com os murais que, após o 25 de
Abril, foram aparecendo nas ruas de Lisboa.
Sacuntala de Miranda, militante
anti-salazarista, exilada política em Londres, no seu livro «Memórias de um Peão nos Combates da Liberdade», lembra, o como era possível que tanta gente viesse para a rua,
naquele 1º de Maio, vitoriar o fim da ditadura, quando éramos tão poucos os que
tínhamos lutado para que o 25 de Abril viesse a acontecer.
Foi possível mesmo.
Passados os primeiros dias – não importa
quantos… - muita dessa gente, que calcorreou ruas, regressou à sombra dos dias,
marcando o aparecimento do camaleonismo.
Sim, porque, dizem os livros, o camaleão,
está na sua própria natureza, não muda de cor uma só vez.
Que é feito do sol que aquela madrugada
anunciava?
Como canção que então ouvíamos, escolhi «Canto Moço» de José Afonso, faixa 3 do
lado A de «Traz Outro Amigo Também», editado
em 1970, terceiro álbum de José Afonso.
Filhos da madrugada, navegando de
vaga em vaga, sem saber de dor nem mágoa, pelas praias do mar nos vamos, à
procura da manhã clara.
Soube há instantes, o filho do sr. Teodoro da
bomba de gasolina não vai marcar presença nas cerimónias do 25 de Abril na
Assembleia da República.
Mas ele alguma vez teve a ver com o 25 de
Abril?
Poupem-nos, porra!
Já tivemos do senhor tempo demasiado em que,
povo e trabalhadores ficaram arredados, e apenas ele se serviu e serviu os
amigos, num tempo dito de vacas gordas, com os dinheiros europeus.
As comemorações do
25 de Abril nunca tiveram manual de instruções.
Comemora quem quer, como quer.
Este ano, dado o terrível vírus, a situação modificou-se
por completo.
A sessão solene prevista para a Assembleia da República,
está a ocasionar um crescendo de tomadas de posição, a favor e contra, a
desencadear uma polémica em que, ilustres e não ilustres, trocam acusações tão
descabeladas, como inúteis, tudo a roçar o ridículo.
Não havia necessidade.
É assim tão complicado assumir que, pelos motivos
imprevistos que se conhecem, não existir a sessão comemorativa do 25 de Abril
na Assembleia?
Por isso, 25 de Abril deixa de ser um marco histórico da
história portuguesa?
É uma pena o bom senso não estar à venda em qualquer
farmácia ou drogaria.
Continuo muito chateado, as palavras teimam em sair e não
ajudam o desenho daquilo que pretendo dizer.
Faltam-me uma série de rotinas, idas e vindas pelas ruas, que ajudam
à sobrevivência.
Desde 23 de Fevereiro que não vou a uma livraria.
Poderia mandar vir os livros pelo correio, a Bertrand
colocou um anúncio em que diz que os portes são grátis, mas não me servia de
nada.
Tenho que olhar os escaparates, as capas, tenho que
folhear.
Estou mesmo muito chateado.
Está a chover, não como eu gosto que chova, mas chove.
Pela chuva que cai, o quarto minguante que nos assiste,
não se vislumbra, e recorro a Anton Dvorak, à sua ópera «Rusalka» e ouvir «Silver
Moon».
Alguma coisa que ajude.
1.
Os chineses acusam os Estados Unidos de divulgar teorias
da conspiração sobre a origem da covid-19. O Ministério dos Negócios
Estrangeiros de Pequim garante que o vírus não teve origem num laboratório de
Wuhan. O chefe da diplomacia norte-americana revelou que estava a ser feita uma
investigação aos chineses.
2.
O banco central alemão acredita que a pandemia de
Covid-19 e as medidas para a conter precipitaram a economia daquele país numa
"recessão severa" e descarta uma possível recuperação rápida, de
acordo com um boletim mensal.
O Bundesbank diz que a pandemia paralisou alguns setores
de serviços de consumo, bem como a atividade económica em geral, desde meados
de março.
3.
Pelo menos 138 dos hóspedes que foram retirados,
este domingo, de um hostel no centro de Lisboa, que acolhia, em 40 quartos,
perto de duas centenas de refugiados, acusaram positivo para coronavírus nos
testes, que foram realizados após o edifício ter sido evacuados na sequência de
ter sido detectado uma caso confirmado da doença.
A presidente da Junta de Arroios exige que a Câmara
Municipal, o governo mandem fiscalizar os hostels.
4.
Pela primeira vez na História, o preço do barril do
petróleo atingiu valores negativos na negociação em Nova Iorque. A pandemia fez
colapsar a procura de crude e os produtores não têm onde armazenar.
Segundo a agência Reuters, o preço do barril do barril
caiu abaixo dos zero dólares em Nova Iorque — o West Texas Intermediate, que
serve de referência para os preços do petróleo nos Estados Unidos, está em
valores negativos para as entrega que serão feitas em maio. Ou seja: os
produtores estão a pagar aos compradores para se verem livre do petróleo que
não vão conseguir escoar.
5.
Os negros números:
Portugal regista 735 óbitos.
Os Estados Unidos registam 40.905 mortos, no estado de
Nova Iorque ocorreram 14.604 mortes.
Itália: 24.114 mortos
Espanha: 20.852 mortos
França: 20.265 mortos
Grã-Bretanha: 16.509 mortos
Em todo o mundo já morreram 169.502 pessoas.
6.
Recuamos ao dia 20 de Abril de 1974.
Por outros motivos, o país vivia tempos difíceis.
Com oito milhões de habitantes, em cada mil crianças
nascidas 56 morriam antes de completarem um ano de idade e em cada mil
habitantes 15 morriam de tuberculose pulmonar. Apenas 40 por cento da população
tinha água em casa e 75 por cento não dispunha de esgotos. Em cada 100
portugueses 37 eram analfabetos e em cada 100 alunos que frequentavam o ensino
primário 30 não o completavam e apenas 2 por cento vinham a obter uma graduação
universitária.
E havia uma guerra em África. Milhares e milhares de mortos, feridos,
estropiados.
Nas paredes da cidade começam a aparecer inscrições: «O
Primeiro de Maio é vermelho!»
A Direcção-Geral de Segurança mandava divulgar, através da Secretaria de Estado
de Informação e Turismo”, a seguinte nota:
«Desde o início do corrente mês, mas com
maior intensidade nos últimos dias, tem-se verificado por parte de várias
organizações comunistas, uma grande actividade na difusão de panfletos e outras
actuações de propaganda através das quais se incita a acções revolucionárias no
1º de Maio.
Ataca-se, ao mesmo
tempo, o esforço da Nação em defesa dos territórios portugueses do Ultramar e
faz-se a defesa das organizações terroristas que nos atacam e dos métodos que
empregam, com os quais animosamente se solidarizam.
Com base nas
averiguações feitas, foram detidos em Lisboa 15 indivíduos e 15 no Porto, especialmente
ligados aos “sectores de informação e divulgação” daquelas organizações, alguns
dos quais estão á muito referenciados como seus orientadores activos.
As averiguações
conduziram a apurar que era nas oficinas do semanário «Notícias da Amadora» que
se imprimia muito do material subversivo, tendo nelas sido apreendidos largos
milhares de exemplares de panfletos revolucionário.»