Sonhar é acordar-se para dentro.
Mário Quintana
«A Lisboa de Rodrigues Miguéis é um itinerário de saudades».
Três livros de Miguéis
podem ser destacados como o itinerário
dessa saudade: A Escola do Paraísos,
Léah e Outras Histórias, O Milagre Segundo Salomé.
«A Lisboa de Rodrigues Miguéis é esta – a da saudade inconformista que
lamente alto e bom as modificações urbanas, os prédios desaparecidos e depressa
substituídos por outros, vazios de memórias e vivências, para, timidamente,
dizer também da morte dos vizinhos a que nos habituámos, Em comum com todos os
que vociferam contra a delapidação do património das suas cidades, o escritor
tem o sentimento de que era esta ou aquela demolição são apenas o princípio de
um redemoinho maior e mais forte em que ele próprio e os seus serão levados.»
Maria João Martins, a
determinado ponto do texto, lembra a frase de José Cardoso Pires:
«Uma parte importante da cidade perdeu a cor quando acabaram com os
cafés e com as tabernas.»
No que a Rodrigues
Miguéis toca, os cafés marcaram-lhe a vida, o convívio, os amigos queridos:
José Gomes Ferreira, Carlos de Oliveira, Augusto Abelaira, outros mais.
E o seu exílio nos
Estados Unidos, para além de tudo, o que o desgosta e torna inconsolável é a falta
dos cafés de Lisboa.
É Camila Miguéis,
viúva do escritor, que lembra a angústia de José:
« Quando chegou aos Estados Unidos a primeira coisa que o ia matando foi quando descobriu que não havia cafés. Como é que podia viver sem um café onde encontrava os amigos, onde se sentava e levantava logo que se sentia desconfortável ou aborrecido, ou quando lhe surgia uma ideia e tinha de regressar a casa para a escrever? Como é que as pessoas podiam viver daquela forma? Isto foi um problema muito, muito difícil para ele, e eu sentia-me desanimada, porque não o podia resolver. Quando lhe disse o que tínhamos – restaurantes, cafetarias, balcões, vários locais -, ele disse: «Mas eu estou a falar de um café; tu não percebes.» E esta situação aborreceu-o a vida toda. Aborreceu-o mesmo.»
Conta-se que, na década de 30, sentado a uma mesa de A Brasileira, escreveu as primeiras páginas de O Milagre Segundo Salomé.
Ainda Miguéis e A
Escola do Paraíso:
«Não se pode ter nascido ali, viver a ver chegar e partir navios todos os dias, com um rasto de lágrimas e o esvoaçar de adeuses no azul, nem ouvir noite e dia estas vozes, sem ficar impregnado de irremediável nostalgia. Tudo isto, o rio imenso, os cais, o mar, os horizontes, se integra nele e ficará para sempre dele como um apelo de longe e uma saudade, anseio de partir e de voltar: quando? E para onde?»
Voltamos ao
texto de Maria João Martins para dar a fala a Cardoso Pires:
«Na zona da Almirante Reis passei grande parte da minha infância. No Jardim Constantino havia uma biblioteca e ali pude ler os primeiros livros. Mais tarde, ali me iniciei na literatura com os escritores que vieram a ser os surrealistas (Mário Cesariny, O’Neil e Vespeira). Frequentámos muito um café chamado Herminius que, mais tarde, deu lugar a uma agência funerária»
O café Herminius
já não uma agência funerária, é um Centro Acústica Médica.
O texto do José Cardoso Pires pertence à crónica Café Des Artistes e faz parte do livro de crónicas ACavalo no Diabo:
«Hoje o Café Hermínius está transformado em agência funerária – quere-se maior ironia? Talvez que, numa noite em que eu passe por lá, me apareça no vidro da montra o eco dos rostos duma juventude que ali criou uma parte da sua visão do mundo para lá do real imediato, a sua libertação; e que por trás desse vidro, deposta sobre um chão de violetas, esteja a cabeça da Dona Sol, rodeada de coroas funerárias e iluminada por um sorriso de ternura».
Para além dos
cafés, outra referência de Cardoso Pires debruça-se sobre as grandes tabernas que
eram frequentadas pelos condutores e cobradores da Carris, que ali faziam as
suas rendições: «ali havia tudo, peixe frito a choco, sandes, bom vinho.»
Lembro duas dessas tabernas: uma no Campo Pequeno, outra, a Cova Funda na Praça do Chile.
Cardoso Pires
refere ainda o Miradouro do Monte Agudo, na Penha de França, «onde ninguém
vai».
Abertura de Lisboa,
Livro de Bordo, de José Cardoso Pires:
« Logo a abrir, apareces-me pousada sobre o Tejo como uma cidade de navegar. Não me admiro sempre que me sinto em alturas de abranger o mundo, no pico dum miradouro ou sentado numa nuvem, vejo-te em cidade-nave, barca com ruas e jardins por dentro, e até a brisa que corre me sabe a sal. Há ondas de mar aberto desenhadas nas tuas calçadas; há âncoras, há sereias. O convés, em praça larga com uma rosa-dos-ventos bordada no empedrado, tem a comandá-lo duas colunas saídas das águas que fazem guarda de honra à partida para os oceanos. Ladeiam a proa ou figuram como tal, é a ideia que dão; um pouco atrás, está um rei-menino montado num cavalo verde a olhar, por entre elas, para o outro lado da Terra e a seus pés vêem-se nomes de navegadores e datas de descobrimentos anotados a basalto no terreiro batido pelo sol. Em frente é o rio que corre para os meridianos do paraíso. O tal Tejo de que falam os cronistas enlouquecidos, povoando-o de tritões a cavalo de golfinhos.»
Guia de Portugal
Raúl Proença
1º Volume
Generalidades, Lisboa e Arredores
Apresentação e Notas de Sant’Anna Dionísio
Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Fevereiro de 1983
Lisboa é servida por 108,5 Km de linhas eléctricas, que ligam os principais pontos da cidade, e são explorados pela Comp.ª Carris de Ferro de Lisboa. Os carros são asseados e confortáveis, alguns deles fechados e com assentos cómodos assentos de junco, mas em número hoje insuficiente para as necessidades da população.
Deito fora as imagens.
Sem ti, para que me servem
as imagens?
Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em qualquer parte
e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica.
Preciso habituar-me ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor de todos os teus gestos
invisíveis,
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve
a não ser eu.
Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.
Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.
Era mais difícil inventar-te,
e eu te inventei.
Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.
E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.
Raul de Carvalho
Começo de O
Que Diz Molero de Dinis Machado.
«Teve uma infância estranha», disse
Austin. «Em última análise, todas as infâncias o são», disse Mister DeLuxe.
«Molero diz», disse Austin, «que a infância do rapaz foi particularmente
estranha, condicionada por questões de ambiente que fizeram dele,
simultaneamente, ator e espectador do seu próprio crescimento, lá dentro e um
pouco solto, preso ao que o rodeava e desviado, como se um elástico o afastasse
do corpo que transportava e, muitas vezes, o projetasse brutalmente contra a
realidade desse mesmo corpo, e havia então esse cachoar violento do que era e a
espuma do que poderia ser, a asa tenra batendo à chuva.»
Teremos que
pegar num artigo de Luiz Pacheco, publicado no Diário Popular de 5 de
Março de 1977, para percebermos o que é O Que Diz Molero.
O assombro
está logo no título do texto:
«Descobri um
autor: Dinis Machado».
Há que ter em
atenção que a Pachecal Figura era um exímio crítico do que por aqui se escrevia
e muito pouco dado a lambidelas de botas:
« Um livro-bomba. Uma obra referenciada
para gente nova. Contém cenas eventualmente chocantes aos literatos da nossa
praça e já está. Não recomendável a ceguetas, que cinema («o cinema é um álbum,
o mais fabuloso e embriagador dos álbuns imaginários», afirma o guarda da
última fronteira) e banda desenhada (álbum ou folhetim semanal também fabuloso
e embriagador, afirmo agora eu) passeiam-se muito pelas suas páginas. O Gaspar
Simões não vai gostar (excelente coisa!). A malta vai (excelentíssima coisa!).
Podiam ser frases publicitárias. Quem ler
«O Que Diz Molero», de Dinis Machado (Bertrand), por ruas e montras e olhos
ávidos de maravilhados ou espavoridos leitores nos próximos dias, confirmará
que não: é que é mesmo assim, como eu digo.Fiquei banzado. Para já, para já,
não julgava poder haver disto em português tão cedo. A livralhada de minha
lavra envelheceu vinte anos a partir de hoje. Não faz mal. Faço 52 no sábado,
se lá chegar, é tempo de reforma. Vou-me dedicar à pesca (de dólares, de
marcos, como o nosso Primeiro), vou deixar a Associação Portuguesa de
Escritores (é o deixas!, eu cá sei as linhas com que me coso) e ingressar no
Mercado Comum dos Cravas. Felizmente não sou invejoso, cada um, cada geração
cumpre a sua rábula e passa o facho. É a Lei.»
E a terminar:
«Repito e finalizo: um livro-bomba, uma
obra d’arromba.»
Antes de ter
fechado portas, o semanário publicou umas separatas em que pudemos constatar o
que a censura cortou aos escritos que se pretendiam publicar e que já por aqui
apresentámos, em Velhos Recortes, alguns exemplos.
Aqui fica
mais um, e voltamos a lembrar palavras de Mário Castrim:
«Porque neste País houve uma censura. Às
imagens, ao pensamento. E a propósito: estes censores que mutilaram, castraram,
destruíram, odiaram, onde estão eles agora? Em que lugar do Estado? Com que
votos? Que espécie de democracia estarão a levantar? Que direitos humanos estão
a defender?»
Revejo tudo e redigo
meu camarada e amigo.
Meu irmão suando pão
sem casa mas com razão.
Revejo e redigo
meu camarada e amigo
As canções que trago prenhas
de ternura pelos outros
saem das minhas entranhas
como um rebanho de potros.
Tudo vai roendo a erva
daninha que me entrelaça:
canção não pode ser serva
homem não pode ser caça
e a poesia tem de ser
como um cavalo que passa.
É por dentro desta selva
desta raiva deste grito
desta toada que vem
dos pulmões do infinito
que em todos vejo ninguém
revejo tudo e redigo:
Meu camarada e amigo.
Sei bem as mós que moendo
pouco a pouco trituraram
os ossos que estão doendo
àqueles que não falaram.
Calculo até os moinhos
puxados a ódio e sal
que a par dos monstros marinhos
vão movendo Portugal
— mas um poeta só fala
por sofrimento total!
Por isso calo e sobejo
eu que só tenho o que fiz
dando tudo mas à toa:
Amigos no Alentejo
alguns que estão em Paris
muitos que são de Lisboa.
Aonde me não revejo
é que eu sofro o meu país.
José Carlos Ary dos Santos de Resumo em Vinte Anos de Poesia
António
Guerreiro
Crime no Clube de Xadrez
Rex Stout
Tradução: J.
Lima da Costa
Capa: A.
Pedro
Colecção
Campiro nº 518
Livros do
Brasil, Lisboa 1990
Aos vinte e sete minutos depois das onze
daquela manhã de segunda-feira, dia do aniversário de Lincoln, abri a porta
ente o escritório e a sala da frente, entrei, fechei a porta e disse:
- Miss Blount está aqui.
Sem virat a cabeça, wolfe soltou um
grinhido, arrancou mais algumas páginas, atitou-as para o fogão e perguntou:
- Quem é Miss Blount?
«Um septuagenário brasileiro, fundador
de uma igreja evangélica na Amora, Seixal, e a sua mulher, de 65 anos, foram
recentemente condenados por 13 crimes de auxílio à imigração ilegal e
falsificação de documentos, no Tribunal de Almada. Adulteravam documentos para
a obtenção da extinta autorização de residência e, sob a capa de base
missionária, arrendavam espaços insalubres a compatriotas em situação ilegal. A
pena, de cinco anos para cada um deles, foi suspensa mediante o pagamento de
2500 euros ao Alto Comissariado para as Migrações.»
Jornal de Notícias, 17 de Agosto
«O ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben Gvir, defendeu publicamente a realização de assassinatos seletivos em Gaza, propondo a morte de “30 a 40 pessoas” por noite. As declarações foram feitas num podcast publicado este domingo, 16 de agosto, numa altura em que o Governo israelita reduziu os ataques à Faixa para tentar avançar com o plano de paz promovido pelos Estados Unidos.
“Creio que deveriam ser realizados
assassinatos seletivos em Gaza, eliminando entre 30 e 40 pessoas por noite”,
afirmou Ben Gvir, citado pela agência espanhola EFE, acrescentando que a
operação não deveria limitar-se a pessoas que representassem uma ameaça
imediata: “Há pessoas ali que não merecem viver. Não deveriam viver. Nem sequer
são pessoas.”
Ben Gvir, uma das figuras mais à direita
no Governo de Benjamin Netanyahu, disse também discordar da redução dos ataques
israelitas e voltou a defender a expansão dos colonatos judaicos na Faixa de
Gaza. “Considero que toda a Gaza é nossa”, afirmou. O ministro defendeu “a
maior emigração possível” de palestinianos, bem como a criação de colonatos em
toda a Faixa de Gaza, acrescentando, sobre os membros do Hamas: “Para os
terroristas, nada de emigração, nada, simplesmente matá-los um por um.”
Ben Gvir não tem autoridade para
ordenar operações militares, mas controla a polícia e o sistema prisional
israelitas enquanto ministro da Segurança Nacional. As suas declarações sobre
os palestinianos têm sido apresentadas perante o Tribunal Internacional de
Justiça como possível evidência de “intenção genocida”, acusação rejeitada por
Israel.
Antigo militante do movimento
Kach, considerado organização terrorista por Israel, Gvir defende há anos
posições ultranacionalistas e a expulsão de palestinianos de Gaza.»
Diário de Notícias, 17 de Agosto
Hei-de morrer inocente
exactamente
como nasci.
Sem nunca ter descoberto
o que há de falso ou de certo
no que vi.
Entre mim e a Evidência
paira uma névoa cinzenta.
Uma forma de inocência,
que apoquenta.
Mais que apoquenta:
enregela
como um gume
vertical.
E uma espécie de ciúme
de não poder ver igual.
António Gedeão em Obra Completa
Diário de um Sentimental Killer
Seguido de
Jacaré e Hot Line
Luís Sepúlveda
Tradução de
Pedro Tamen
Colecção
PequenosPrazeres
Asa Editores,
Porto, Julho de 1999
O dia começou mal, e não é que eu seja supersticioso, mas acho que em dias como este o melhor é não aceitar nenhuma encomenda, ainda que a recompensa tenha seis zeros à direita, livro de impostos.
Hoje, retiro
da prateleira da Biblioteca/Discoteca da Casa um velho disco do Charles Dumont,
quando se ouviam canções francesas…
Colaboração
de Aida Santos
«Assim que acabarmos de derrotar o Irão,
que está a sofrer uma derrota esmagadora, vou declarar, muito em breve, o
Estreito de Ormuz como território dos Estados Unidos da América.»
Donald Trump, ontem, ou hoje, ninguém sabe quando.
É talvez a idade que surge, traidora e nos ameaça com o pior. Já não existe
dentro de cada um de nós música suficiente para fazer dançar a vida, aí está.
Toda a juventude nos abandonou para ir morrer no fim do mundo, num silêncio de
verdade. Para onde ir agora, pergunto, depois de não possuirmos em nós a soma
bastante de delírio. A verdade é uma agonia sem fim. A verdade deste mundo é a
morte. Precisamos escolher: mentir ou morrer. E eu nunca consegui matar-me.»
Céline em Viagem ao Fim da Noite
1.
«Quatro em cada dez jovens de 18 anos passam pelo menos cinco horas por
dia na Internet
Em Portugal, quatro em cada dez jovens de 18 anos dizem passar pelo menos cinco
horas por dia na Internet, cerca de um terço do tempo em que estão acordados. O
tempo de utilização tem vindo a aumentar ao longo da última década.»
Público, 15 de Agosto
2.
«Onde havia duas salas de cinema no estádio do Sporting, agora vêem-se
jogos num lounge
O Sporting Clube de Portugal, proprietário do centro comercial Alvaláxia onde
em Janeiro encerraram 12 salas de cinema, está já a usar duas dessas salas para
exibição de jogos e espaço lounge, ainda que sem
aprovação de um pedido de desafectação dos espaços à exibição de cinema,
obrigatório por lei. As outras dez salas estão totalmente vazias. Porém, a
Inspecção-Geral das Actividades Culturais (IGAC) está a “acompanhar” a
transformação das duas salas já em novas funções, disse ao PÚBLICO fonte
oficial do clube, e algo confirmado pela IGAC aos grupos de moradores que
contestam o fim do cinema nos seus bairros.»
Público, 15 de Agosto.
3.
Menor confessou
ter assassinado com golpe mata-leão na quarta-feira e só deu o alerta 21 horas
depois. Menina de 4 anos, filha da vítima e irmã do suspeito, estava também na
habitação.
Legenda: fotografia de Luís Eme
O Homem que
lia o jornal é o título de uma crónica de António Guerreiro, publicada ontem no
Público:
«Num destes dias de Agosto, vi um homem de meia-idade a ler um jornal no metro.
A cena despertou em mim, de repente, a recordação nostálgica de um medium que
começou a declinar no princípio deste século e, em poucos anos, quase se tornou
um objecto vintage. Num segundo momento, ergui-me do “choque”, achando que
tinha caído na amplificação demagógica de um gesto banal, ao sentir que tinha
apreendido com um misto de espanto e nostalgia aquele leitor de um jornal
impresso que persistia na lenta maneira de viver as emoções suscitadas pela
actualidade, pelos rumores do dia.
Claro
que a cena me impressionou porque o lugar onde se desenrolava (o metro) a fazia
sobressair com um efeito de contraste: à volta do homem que folheava as páginas
do jornal e que me fazia ver que há expressões gestuais que se perdem com a
mudança de época, toda a gente ia de olhos inclinados para os ecrãs — uma
inclinação, aliás, diferente da do homem que lia o jornal: enquanto este
mantinha uma posição que lhe permitia, por vezes, lançar um olhar à distância,
por cima das páginas do jornal, os passageiros abismados no ecrã do seu smartphone obrigavam a cabeça a uma
inclinação mais acentuada, em direcção ao chão da carruagem, repetindo um gesto
vertical que não tem fim: o scrolling.
A cena trouxe-me à memória as “pequenas totalidades” de que se ocupou um genial
analista (sociólogo? Filósofo? Inventor de uma disciplina sem nome?) das
“manifestações de superfície” da sua época que as ruas da grande metrópole
berlinense lhe tinham proporcionado: Siefried Kracauer(1889-1966). Em O Ornamento da Massa (ou
será que o título original, Das Ornament der Masse, deve antes ser traduzido
por A Massa como Ornamento?), de 1930, Kracauer, um intelectual arquetípico da
civilização do jornal, escreveu: “Quando pego no meu jornal, pela manhã,
sinto-me em companhia de milhões de pessoas que, como eu, lêem nesse mesmo
instante as mesmas notícias”. Este forte sentimento de ser parte de uma
comunidade invisível, de partilhar com desconhecidos uma mesma experiência do
mundo, é um dos fundamentos do espaço público, tal como ele foi criado pela
modernidade. O jornal — e o jornalismo —, tal como ele se “modernizou” e
desenvolveu no século XVIII, foi um órgão de formação de uma opinião pública
racional, de um espaço público.
Jornais e revistas impressos em papel foram, durante cerca de dois séculos, o
centro da vida sensível de milhões de leitores. O jornal-papel, que na história
mediática que atravessamos se tornou quase invisível, era a janela para a vida
cívica, política e cultural.
Esse ciclo chegou ao fim com a entrada em cena, fulgurante, dos artefactos
mediáticos digitais, que transformaram completamente o funcionamento do espaço
público, fundado em ideais que nos parecem hoje anulados, apesar de nos ter
sido prometido que seriam ampliados e fortalecidos: o pluralismo e a
transparência. A lição de McLuhan, segundo a qual “o medium é a mensagem”,
encontra aqui a sua mais eloquente significação: a cultura do jornal nascida no
século XIX desapareceu quando o suporte mudou. A extinção quase completa do
jornal impresso, a substituição do gesto de “abrir o jornal” pelo gesto de
“imersão no smartphone” (não se diz “abrir o smartphone”, na verdade ele
raramente está fechado), implica uma outra relação com o tempo e com o espaço.
E o ambiente digital deixa traços sociais e psíquicos diferentes dos que
caracterizam a cultura impressa. Entrámos numa nova época dos afectos e a
rápida digestão do jornal no ecrã mergulha-nos numa total reconfiguração
daquilo a que Yves Citton chamou médiarchie, “mediarquia”.
É interessante verificar que a sensibilidade mediática que me levou a olhar
para o homem que lia o jornal no metro como se fosse uma raridade não é a mesma
dos chamados “nativos digitais”. Esta sensibilidade de quem atravessou uma
história dos media que na escala do tempo histórico é curtíssima, mas na escala
das transformações visíveis é longuíssima, incita-me à análise das
manifestações de superfície da época, fiel à lição de Kracauer, segundo a qual
essas manifestações ajudam-nos muito mais a determinar o lugar que a época
assume no processo histórico do que todos os juízos e interpretações que ela
constrói de si própria. Uma época, ensinou-nos Kracauer, pode ser interpretada
através dos seus sonhos colectivos, que se desenrolam de olhos abertos. E, no
metro, vi bem que o modo como aquele homem abria os olhos para ler o seu
jornal-papel era muito diferente do modo como os outros passageiros olhavam
para os seus ecrãs. A esses dois olhares correspondem dois sonhos e duas
civilizações diferentes. É muito interessante ter vivido numa época de
transição.»
Recordemos:
«Sempre gostei de Dean Martin, o velho Dino, mesmo quando fazia de canastrão nos filmes com o Jerry Lewis.
Terei comprado este “EP” por volta de 1968.
Para além de “Chapel In The Moonlight, Little Ole Wine Drinker, Me, The Green, Green Grass of Home”, tem “Release Me”.
O meu pai adorava esta canção.
Não há vez alguma que a Aida a ouça, que de imediato não se lembre do meu pai.
Era um excelente contador de histórias e, nas sessões de audição de música, dita ligeira, aproveitava para as contar.
Umas verídicas, outras imaginadas, outras, enfim, não se sabe bem como.
Esta é uma dessas histórias:
O velho morrera.
A família reunida na biblioteca, ouviu o
advogado enumerar a relação dos bens legados.
À medida que a leitura avançava a boca dos familiares ia tomando a aforma e o tamanho de um enorme “Ah!”
- papel e canetas para os que nunca lhe escreveram;
- tesouras de poda e mangueiras de rega
para os que sempre desprezaram as suas rosas e
orquídeas;
- fósforos, cinzeiros e caixas de
charutos para os que se irritavam e ficavam agoniados
cada vez que puxava de um dos seus esplêndidos “Cohiba”;
- o resto, que era tudo, para a
governanta que lhe servia conhaque nas noites de Inverno.»
Comes e Bebes
Quino
Capa:
Fernando Felgueiras
Colecção:
Humor Com Humor se Paga n º 3
Publicações
Dom Quixote, Lisboa, Dezembro de 1982
Ontem, no
colorido Algarve, Luís Montenegro fez a apresentação política futura aos seus
apoiantes, talvez ao país.
Contudo, o
Luís, que exige que o deixem trabalhar, não tinha nada para dizer.
O
trabalho esvaiu-se nas areias do oásis em que Luís Montenegro e os seus
sorridentes comparsas, dizem que se vive.
Que mais nos poderá acontecer?