sábado, 15 de dezembro de 2018

POSTAIS SEM SELO


No meu bairro existia uma tasca. Lembro-me vagamente dela, escura e esconsa, com o seu bafo enjoativo a álcool a cumprimentar quem lhe passava à porta. Desapareceu já há uns anos, dando lugar a um pequeno restaurante de bairro, já de toalha de pano, cardápio esforçadamente sofisticado.

Catarina Portas

ESCANDALIZAR O MUNDO E A RELIGIÃO


6 de Julho de 1970

Contou-me o Graça que o Padre Mário, agora deportado em Macieira de Lixa, estava anteriormente no Lumiar. Foi o primeiro padre que vestiu «civilmente». Aprendeu um ofício (carpinteiro) e vivia numa barraca de lata como a maioria dos paroquianos do Lumiar. Isto com grave escândalo do Patriarcado que queria que el se instalasse numa casa a valer de pedra e cal. Também dava de comer a todos os que lhe batiam à porta com fome.
Resultado: a vida deste padre-operário era tão escandalosamente cristã que o Patriarcado se viu forçado a mandá-lo para longe para Macieira de Lixa, onde, pelo visto, teima em escandalizar o mundo e a religião.

José Gomes Ferreira em Dias Comuns Volume IX

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

POSTAIS DE NATAL DE BEATRIX POTTER


Numa Feira do Livro, realizada na APISAL, comprei uma lindíssima colecção de postais de Boas Festas de Beatrix Potter.

Este é o último postal da colecção.

O Alfaiate Velhote

«Reza uma lenda muito antiga que, entre a noite da véspera de Natal e a manhã do di de Natal, todos os animais falam (embora muito poucas pessoas consigam ouvi-los ou perceber o que dizem).»

Colaboração de Aida Santos

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Sempre que por ali passo, e são muitas as vezes, recordo que José Saramago a frequentou. Di-lo, muito claramente num texto que vem no 2º volume dos Cadernos de Lanzarote:

«Num artigo de Ângela Caires publicado na Visão, sobre António Champalimaud, leio que o tio Henrique Sommer, em carta com valor testamentário dirigida às manas Albana e Maria Luísa, lhes recomendava que não se esquecessem de distribuir, pelo Natal, dois contos de réis à Sopa dos Pobres da Freguesia dos Anjos, de Lisboa. Naturalmente, o generoso Sommer (que em glória esteja) desejava que não sofresse mudança, depois do seu passamento, a beneficente prática que instituíra.
Quem poderia imaginar que esta informação, escrita ao correr da pena, viria lançar uma luz nova sobre a minha biografia secreta? De facto, não foram poucas as vezes, no tempo da adolescência, que ocupei um envergonhado lugar na fila de aspirantes à sopa e ao quarto de pão que se serviam naquele atarracado e soturno edifício fronteiro à Igreja dos Anjos… Mais ou menos por essa altura devo ter aprendido na aula de Física e Química da Escola Industrial Afonso Domingues o princípio dos vasos comunicantes, mas só hoje é que consegui perceber, sem reservas mentais nem dúvidas formais, como se efectua a transmissão da riqueza e do bem-estar dos que estão em cima para os que estão em baixo, do conto de réis para o quarto de pão, da fartura para falta. Por muitos que fossem os seus pecados, Henrique Sommer nunca ficaria no inferno, sempre haveria uma concha da sopa para o tirar de lá…»

ILUMINAÇÕES DE NATAL


Pormenor das iluminações de Natal na Avenida Almirante Reis.

Fotografia de Aida Santos

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

POSTAIS DE NATAL DE BEATRIX POTTER


Numa Feira do Livro, realizada na APISAL, comprei uma lindíssima colecção de postais de Boas Festas de Beatrix Potter.

Por estes dias vou coloca-los por aqui:

O Alfaiate Velhote

«Reza uma lenda muito antiga que, entre a noite da véspera de Natal e a manhã do di de Natal, todos os animais falam (embora muito poucas pessoas consigam ouvi-los ou perceber o que dizem).»

Colaboração de Aida Santos

DESCOBRI UM LIVRO GIRO...


Ainda a entrevista de Luiz Pacheco a João Pedro George:

O Luiz foi um dos grandes responsáveis pelo sucesso de O Que Diz Molero. Como é que isso se passou?

Eu estava em Massamá e tive a informação de que a Bertrand me queria editar a Obra Completa. Um dia fui à Bertrand, na Venda Nova, e encontrei o Dinis Machado, que foi gentilíssimo comigo e com o Paulo... encheu-o de álbuns, papel, livros... e deu-me as provas do Molero – portanto a minha crítica saiu no Diário Popular antes de o livro estar à venda. No dia seguinte comecei a ler aquela merda, aquilo são dois gajos a discutir, e eu disse ao gajo onde estava o meu filho Paulo, o Henrique Garcia Pereira: «O pá, eu estou fodido com este gajo, este gajo foi tão simpático comigo e com o meu filho, deu-me tanta merda, e agora isto é uma porcaria, não se percebe nada». Até que de repente entrei na cegada da cena de porrada com os camones no Bairro Alto... aquilo tinha uma coisa, é que era um livro que já não era escrito com medo da censura, via-se que havia ali... o gajo não era nenhum novato, já tinha escrito 3 romances policiais... havia ali de repente uma força, porque estes gajos se tivessem um bocadinho de vergonha não publicavam os livros que publicaram durante o fascismo… bom, então escrevi o artigo «Descobri um Autor». Só na semana seguinte é que o Molero saiu à venda. Estava na feira do livro e apareceu-me o Afonso Praça: «Olha, comprei aquela coisa do Molero por causa da tua crítica, opá julguei que estavas a gozar, mas tinhas razão, aquilo é muito giro…» Depois disse muito mal do Reduto Quase Final, numa entrevista ao B-B. Um gajo também não escreve só obras-primas, há altos e baixos... Se um gajo vai  facilitar, a não pensar, se o gajo não é o leitor mais exigente de si mesmo, está fodido, tem a classificação que merece. Eu de facto não descobri autor nenhum, descobri um livro giro…

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O texto de «Os Piratas» resultou do meu trabalho num projeto mais vasto (entretanto frustrado) ligado a um filme de Raúl Ruiz. Mantive o nome da personagem porque é também o meu nome e porque o conto é narrado na primeira pessoas, embora, pelo menos até onde sei, nada tenha de autobiográfico. O vasto mundo e eu mesmo são as únicas ilhas onde alguma vez vivi.

Nota de Manuel António Pina em Os Piratas.

Legenda: ilustração de José Emídio em Os Piratas

OLHAR AS CAPAS


Os Piratas

Manuel António Pina
Ilustrações: José Emídio
Edições ASA, Porto, Novembro de 2014

Há pessoas que não acreditam em ilhas. Acham que as ilhas são coisas inventadas, em que só se acredita quando se é criança. Por isso, chega um dia em que julgam que já não são crianças e deixam de acreditar em ilhas.
Outras pessoas pensam que uma ilha é uma terra rodeada de mar e de névoa por todos os lados. Todavia, no meio da névoa, dentro da ilha, está-se em muitas mais coisas do que numa terra, pode até estar-se num sítio desconhecido dentro de nós. Chamo-me Manuel e vivo numa ilha, ou uma ilha vive em mim, não tenho a certeza, uma ilha rodeada de mar e de névoa por todos os lados, principalmente pelo lado de dentro.

Colaboração da neta Maria Calisto

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

POSTAIS DE NATAL DE BEATRIX POTTER


Numa Feira do Livro, realizada na APISAL, comprei uma lindíssima colecção de postais de Boas Festas de Beatrix Potter.

Por estes dias vou coloca-los por aqui:

O Alfaiate Velhote

«Reza uma lenda muito antiga que, entre a noite da véspera de Natal e a manhã do di de Natal, todos os animais falam (embora muito poucas pessoas consigam ouvi-los ou perceber o que dizem).»

Colaboração de Aida Santos

ILUMINAÇÕES DE NATAL



Iluminações na Avenida Guerra Junqueiro.

Fotografias de Aida Santos

A COISA MAIS REAL E MAIS BELA


«Creio que chegou a altura de viver um pouco mais atentamente», dizia Atxaga na sua carta. E citava Nazim Himket, que num breve e intenso texto comentava que é preciso levar a sério o viver-se, pois viver não admite brincadeiras. Temos de saber – dizia Himket – que viver é a coisa mais real e mais bela. E não esquecer que viver é a nossa tarefa. Estejamos onde estivermos, temos de viver como se nunca tivéssemos de morrer. Mesmo que, por exemplo, nos restem uns minutos de vida, devemos continuar a rir com a última piada, a olhar pela janela para ver se o tempo continua chuvosos, esperando com impaciência as últimas noticias da imprensa.

Enrique Vila-Matas em Diário Solúvel

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

OLHAR AS CAPAS


O Santo e a Vendetta

Leslie Charteris
Tradução: Fernanda Pinto Rodrigues
Capa: Lima de Freitas
Colecção Vampiro nº 233
Livros do Brasil, Lisboa s/d

- Mas para onde irei eu? – perguntou a rapariga.
- Para onde o sol brilha e poderá dançar, rir e brincar como devem fazer todas as rapariga, quando são novas. Poderá experimentar St. Tropez, para variara de tudo a quanto está habituada. Ou Copenhaga, ou Nassau, ou a Califórnia, ou qualquer outra terra que tenha sonhado ver. Se quiser, acompanhá-la-ei parte do caminho, para a ajudar.
Os olhos maravilhosos da rapariga ainda estavam fixos nos dele, num êxtase desmoralizador, quando a campainha da porta principal anunciou uma interrupção obrigatória, mas evidentemente parentética.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

POSTAIS DE NATAL DE BEATRIX POTTER


Numa Feira do Livro, realizada na APISAL, comprei uma lindíssima colecção de postais de Boas Festas de Beatrix Potter.

Por estes dias vou coloca-los por aqui:

O Alfaiate Velhote

«Reza uma lenda muito antiga que, entre a noite da véspera de Natal e a manhã do di de Natal, todos os animais falam (embora muito poucas pessoas consigam ouvi-los ou perceber o que dizem).»

Colaboração de Aida Santos

ILUMINAÇÕES DE NATAL





Iluminações na Praça de Londres.

ÚLTIMO CADERNO DE LANZAROTE


Último Caderno de Lanzarote

José Saramago
Capa: fotografia de Sebastião Salgado
Porto Editora, porto, Outubro de 2018


Este é o tempo em que passam vinte anos sobre a atribuição do Prémio Nobel da Literatura a José Saramago.

Por sinal o ano em que, por motivos literopornográficos, o Prémio não foi atribuído.

Voltará a ser?

Dizem-nos que o 6º volume de Cadernos de Lanzarote ficou perdido no disco rígido que Saramago utilizava para escrever os seus livros.

Esse livro O Último Caderno de Lanzarote, que corresponde ao diário de José Saramago em 1998, o ano em que recebeu o Prémio Nobel da Literatura, foi publicado em Outubro.

Contam-nos que a pasta Cadernos de Lanzarote estava no computador de José Saramago, e sempre que Pilar del Río lá entrava pensava que continha apenas os cadernos que já estavam publicados. Mas, no final de Fevereiro - quando estava à procura de uma referência a uma determinada conferência, fez o que nunca tinha feito. Clicou na pasta e deparou-se com: caderno 1, caderno 2, caderno 3, caderno 4, caderno 5 e caderno 6…

Pilar del Río sabia que existiam cinco cadernos e que havia outros textos dispersos que Saramago tinha escrito, mas pensava que estavam por organizar. De repente, ficou surpreendida ao encontrar um caderno completo que nunca tinha sido publicado.

Aceitemos a história tal como nos contaram.

À pergunta de Zeferino Coelho para quando mais um volume dos Cadernos, Saramago terá dito que chegara ao seu fim.

Mas por rotina, o que quer que seja, foi alinhavando palavras, temas, efemérides e ideias.

A publicação deste Último Caderno reflecte o desejo que uma leitora, durante uma sessão de autógrafos na Feira do Livro do ano de 1995, colocou a Saramago:

«Uma leitora na Feira: «Para o ano que vem teremos mais Cadernos?» respondo medievalmente como de costume: «Vida havendo e saúde não faltando…» E ela: É que quero ler neles a notícia do Prémio Nobel…»
Ponho a cara de sempre, sorriso contrafeito, tonto e de pouco caso, agradeço a gentileza do voto, e passo a assinar o livro que o leitor seguinte me apresenta. «Eu também…», diz este, que ouviu a rápida troca de palavras. Desta vez fico sem saber que sorriso pôr. O terceiro leitor, felizmente, é dos calados»

Mas não há muito a ler naquela dia de 8 de Outubro de 1998. Apenas tópicos para futuro desenvolvimento posterior:

«Aeroporto de Frankfurt. Prémio Nobel. A hospedeira. Teresa Cruz. Entrevistas.»


Comprei o livro logo que saiu, cheirava àquele bom velho cheiro das tipografias.

Li-o de uma penada, tenho regressado a algumas páginas.

Não é bem o Saramago que gosto.

Aliás, sempre li os Cadernos de Lanzarote com um pé atrás.

Nunca me entusiasmaram.

Este último caderno começa no dia 1 de Janeiro de 1998 e termina no final desse ano, mas inclui também duas entradas relativas ao primeiro mês do ano seguinte, uma a 9 de Janeiro e outra a 14 de Janeiro.

E encontramos Saramago, no primeiro dia do ano, às voltas com o vento que envolve a casa:

«Durante a noite, o vento andou de cabeça perdida, dando voltas contínuas à casa, servindo-se de quantas saliências e interstícios encontrava para fazer soar a gama completa de instrumentos da sua orquestra particular, sobretudo os gemidos, os silvos e os roncos das cordas, pontuados de vez em quando pelo golpe de uma persiana mal fechada. Nervosos, os cães lançavam-se de rompante pela gateira da porta da cozinha (o ruído é inconfundível) para irem ladrar lá fora ao inimigo invisível que não os deixava dormir. Manhã cedo, antes mesmo do pequeno-almoço, descia ao jardim para ver os estragos, se os houvera. A força da ventania não tinha esmorecido, bem pelo contrário, sacudia com injusta ferocidade os ramos das árvores, sobretudo os da acácia, que com uma simples e bonançosa aragem s e deixam mover. As duas oliveiras e as duas alfarrobeiras, novas ainda, pelejavam bravamente, opondo aos esticões do malvado a elasticidade das suas fibras juvenis. E as palmeiras, essas, já se sabe, nem um tufão as consegue arrancar. Com os catos também não valia a pena preocupar-me, resistem a tudo, chegam a dar a impressão de que o vento faz um rodeio quando os vê, passa por eles de largo, com medo de se espetar nos espinhos.. Ao longo do muro, os pinheiros canários, em fila, mais desgrenhados que de costume, cumpriam o dever de quem foi colocado na linha da frente: aguentar os primeiros choques. Tudo parecia estar em ordem, podia ir preparar o meu pequreno-almoço de sumo de laranja, iogurte, chá verde e torradas com azeite e açúcar»

Viajamos pelo livro para pararmos a 5 de Janeiro quando Saramago regista a morte de Ilda Reis, mãe de sua filha Violante.

Um toque de sensibilidade, de ternura:

«Morreu a Ilda. A Ilda era a Ilda Reis, que nos tempos de rapariga começou a sua vida de trabalho como datilógrafa dos serviços administrativos dos Caminhos de Ferro, e depois, obrigando um corpo demasiadas vezes sofredor, esforçando a tenacidade de um espírito que as adversidades nunca conseguiram dobrar, se entregou à vocação que faria dela um dos mais importantes gravadores portugueses. Gozou dessa felicidade substituta que o êxito costuma vender caro, mas tinha-lhe fugido o simples contentamento de viver, As sua gravuras e as suas pinturas foram em geral dramáticas, cindidas, autorreflexivas, de expressão tendencialmente esquizofrénica (diga-se sem nenhuma certeza), como se teimasse ainda em procurar uma complementaridade para sempre perdida. Fomos casados durante vinte e seis anos. Tivemos uma filha.»

Nova paragem a 19 de Janeiro para registar a morte de Maria Judite de Carvalho:

«Chega-me aqui a notícia da morte de Maria Judite de Carvalho. Nunca li uma página sua em que não pensasse na pessoa que a tinha escrito. E creio que ela o queria assim. Que o leitor compreendesse que do outro lado não havia estado apenas uma escritora, mas sim alguém que, conhecendo como raros a arte do conto e as íntimas ressonâncias de cada palavra, usava essa arte e esse sentido musical para dizer quem era. Com obstinação, mas também com simplicidade e discreta reserva. Como Irene Lisboa, ao lado de quem a história da Literatura lhe guardará lugar, o alcance da sua voz era o espaço do coração. O ser que foi Maria Judite de Carvalho já não pertence ao mundo dos viventes, mas podemos encontrar nos seus livros tudo o que ela quis que da sua pessoa se soubesse.»

A 26 de Outubro:

Morte de José Cardoso Pires.

Tantos outros acontecimentos espalhados pelo livro que apenas referem propósitos para futura abordagem.

Que não aconteceria.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

POSTAIS DE NATAL DE BEATRIX POTTER



Numa Feira do Livro, realizada na APISAL, comprei uma lindíssima colecção de postais de Boas Festas de Beatrix Potter.

Por estes dias vou coloca-los por aqui:

O Alfaiate Velhote

«Reza uma lenda muito antiga que, entre a noite da véspera de Natal e a manhã do di de Natal, todos os animais falam (embora muito poucas pessoas consigam ouvi-los ou perceber o que dizem).»

Colaboração de Aida Santos

ILUMINAÇÕES DE NATAL





As iluminações na Avenida João XXI.

Fotografias de Aida Santos.

SONNY BOY WILLIAMSON



“He is gone, Sonny Boy is dead and gone
He is gone, Sonny Boy is dead and gone
Can’t nobody play harp the way he done
He is dead, he’s dead, I ain’t crying but I’m sad
He is dead, he’s dead, I ain’t crying but I’m sad
He made you feel good when he played and me feel sad
I’m so glad, I’m so glad, that is music is going on
I’m so glad, I’m so glad thar is music is going on
But I’m so sad, so sad, the greatest one is gone”
(Sonny Boy Williamson - Jack Bruce e Paul Jones)

Aí pelos meus 15/16 anos, quando não tinha aulas passava as tardes em casa do meu amigo João Pedro a jogar às cartas ou aos matraquilhos e a ouvir música.
Por vezes apareciam por lá outros colegas dele da Escola Alemã.  Lembro-me do Eduardo, do Guimarães e até o Herman José por lá passou…

Por essa altura, em que a nossa Religião era a chamada música popular de expressão britânica e a nossa Igreja o “Em Órbita”, o meu amigo João tinha em sua casa algumas preciosidades (Simon & Garfunkel, Tim Buckley,  Leonard Cohen, Tim Hardin, Donovan, Fairport Convention…) que tornavam essas tardes de lazer uma verdadeira delícia.

Mas quando os amigalhaços do João lá estavam, a música era outra e, quase sempre, bastante mais “pesada”… Ten Years After, Canned Heat, Led Zeppelin e outras coisas do mesmo estilo que, na sua generalidade, eu já pouco apreciava.
No final dos anos 60 coincidiram por lá dois discos que eram ouvidos em permanência: “Super Session”, de Mike Bloomfield, Steve Stills e Al Kooper e “The Life Adventures of Mike Bloomfield & Al Kooper”. Que estes dois últimos não eram flor que se cheirasse vim eu a saber mais tarde, porque foram precisamente eles os comparsas de Bob Dylan naquela célebre noite de Newport em Julho de 1965, de que ainda no outro dia vos falei.

Como vos disse, as músicas desses dois discos eram ouvidas em sessões contínuas, sobretudo “Season of the Witch”, do primeiro, que durava mais de 10 minutos e cujos solos de guitarra de Mike Bloomfield e de orgão de Al Kooper me deixavam os cabelos em pé (na altura tinha muitos…). Se “Season” já não fazia parte das minhas músicas favoritas do Donovan, esta versão era pura e simplesmente intragável para os meus ouvidos de então.

Mas o segundo disco tinha uma música com uma batida muito agradável, que se chamava “Sonny Boy Williamson”, de que conseguia gostar.  O problema era que a tal batida era de muito curta duração em comparação com os intermináveis solos a que aqueles dois, mais o Carlinhos Santana, invariavelmente se dedicavam. Em todo o caso, bem melhor do que a versão original de Paul Jones, que só vim a conhecer alguns anos mais tarde.




Durante tardes a fio aqueles “Fritzs” da Escola Alemã estendiam-se ao comprido no sofá, fumavam uma reles imitação de charro com erva plantada na “marquise” das traseiras e fingiam que partiam numa longa viagem…! E por cada três “Season of the Witch” eu só tinha direito a um “Sonny Boy Williamson”, injustiça que aguentei com grande espírito de compreensão e de camaradagem. E quanto a charros, estou como o outro: fumei mas não inalei…!

Dava para perceber que era um músico, mas eu estava então longe de saber quem era esse tal de Sonny Boy Williamson.

Naquele tempo não havia Net nem livros à mão de semear. O stock das discotecas era muito limitado, e o acesso à informação demorado e complicado. Já se podia mandar vir livros e discos do estrangeiro (a saudosa “Tandy’s Records”…!) mas demorava uma eternidade e, que diabo, conhecer Sonny Boy Williamson não era, para mim, uma prioridade…!

E só muitos anos mais tarde vim a saber quem ele era. E mais: que não havia apenas um, mas dois Sonny Boys Williamsons…

O primeiro, John Lee Williamson de seu nome verdadeiro, era oriundo do Tennessee, fez quase toda a sua carreira em Chicago e era um exímio tocador de harmónica. Morreu assassinado em 1948 e ficou na História por ser o autor de “Good Morning Little School Girl”, que muito anos mais tarde chegaria a ser gravada pelos Grateful Dead e pelos Ten Years After.

O segundo rapinou o nome ao primeiro ainda em vida dele, e era um malandro de Glendora, no Mississippi, de nome Alex “Rice” Miller que aprendeu a tocar harmónica muito cedo e também muito cedo se meteu à estrada, tocando onde calhava e com quem calhava (chegou a tocar com Robert Johnson, Big Joe Williams e Elmore James …..), inicialmente com o nome de “Little Boy Blue”.


A partir de 1941 teve um programa de rádio em Helena, no Arkansas, onde se começou a apresentar sob o nome de Sonny Boy Williamson. No final dessa década viveu em West Memphis com a irmã e o cunhado, o célebre Howlin’ Wolf, que depois acompanhou para Chicago em meados dos anos 50, vindo a alcançar aí grande popularidade como vocalista e tocador de harmónica, junto de uma população maioritariamente negra.  

Mas o seu pico de celebridade teve-o nos anos 60, quando passou largas temporadas na Europa e se tornou, juntamente com Muddy Waters, B. B. King, John Lee Hooker e tantos outros, um dos grandes ídolos da geração de músicos ingleses que haveria de estar na origem do Rock-Blues e que incluía nomes como Eric Clapton, John Mayall, Steve Winwood, Eric Burdon, Jack Bruce, Ginger Baker,  Long John Baldry, Jimmy Page, Jeff Beck, Georgie Fame, Chris Farlowe, Manfred Mann, Paul Jones ou Alexis Korner, para já não falar em Brian Jones, Keith Richards e Mick Jagger, na altura também totalmente devotados ao Blues (como se sabe, o próprio nome “Rolling Stones” foi retirado de uma música de Muddy Waters).

Essa gente veio a estar na origem de bandas famosas (Yardbirds, Spencer Davis Group, Cream, The Blues Incorported, Manfred Mann, The Bluesbreakers, Rolling Stones, Led Zeppelin, etc). E essas bandas não só divulgavam, através de novas interpretações, os velhos blues do antigamente, como convidavam esses bluesmen para tocarem com elas e, muitas vezes, abrirem os concertos onde eram a principal atracção. Ainda hoje Bill Wyman afirma (vd. documentário “The Life of Riley”, sobre B. B. King, que tem vindo a passar nos Telecines) que a tournée que os Stones fizeram com B. B. em 1969 terá sido a melhor de sempre da banda.

Essas bandas britânicas tiveram, por outro lado, um sucesso muito grande no outro lado do Atlântico junto de um público jovem branco (a british invasion não foram apenas os Beatles…), que em grande parte desconhecia a existência dessa música e desses músicos negros.


No documentário de Richard Pearce “The Road to Memphis” (desculpem-me o excesso de citações, mas não posso estar aqui a dar palpites sem citar as minhas fontes…), é comovente ver B.B. King a contar como ele e a sua banda, que raramente tocavam para brancos,  chegaram ao Fillmore (East ou West, já não me lembro…) para dar um espetáculo e viram bichas enormes de malta branca e ficaram a olhar uns para os outros, convencidos que se tinham enganado no local…  


A divida desses velhos bluesmen para com esta geração inglesa é enorme, tal como o próprio B. B. King, uma vez mais, o reconheceu noutra ocasião:


“Se não tivessem sido os músicos britânicos, muitos de nós, músicos negros da América, continuaríamos a passar muito mal, tal como passávamos antes. Graças a eles abriram-se portas que nunca imaginei que se abrissem na minha vida” (B. B. King in documentário “Red, White and Blues”, de Mike Figgis)

Tudo isto faz parte da História do Blues e Sony Boy cavalgou essa onda de popularidade.

Gravou com os Yardbirds e com os Animals, fez diversas “tournées” pela Europa com os “American Folk Blues Festival”, que era um conjunto de músicos de blues, folk blues e rhythm & blues que punham em cena a sua música em espetáculos ao vivo.
Sonny Boy Williamson II, como agora é conhecido, era um figurão (ou, se preferirem, a “colorfull character”, como lhe chama a placa do “Blues Trail” na sua terra natal…) e pode ser visto  no YouTube, apresentando-se em palco impecavelmente vestido, de chapéu de coco na cabeça e chapéu de chuva na mão, para além da mala onde transportava todos os seus instrumentos. Era um verdadeiro “one man show” e uma das suas especialidades era engolir meia harmónica e tocá-la assim mesmo, sem a ajuda das mãos.

Mas era conflituoso e com tendência para se meter em alhadas, o que terá apressado o seu regresso à Pátria em finais de 1964.  Retomou em Helena, no Arkansas, ao seu antigo trabalho de animador radiofónico, para pouco depois, em 1965, morrer de um ataque cardíaco em pleno sono.

Em Helena não me lembro de ter visto nada que guardasse a sua memória.    
Mas Glendora, sua terra natal, não se esqueceu dele… Acolhe o visitante com um bonito cartaz de boas-vindas em seu nome e dedica um pequeno museu à sua memória, paredes meias com o de Emmett Till.  Bem pobre e feinho, por sinal, como feio é quase tudo o que vi em Glendora, um dos lugares mais miseráveis que visitei em todo o Mississippi.


Saí de Glendora  em direção a Money, localidade onde foi barbaramente assassinado Emmett Till, como vos contarei no próximo texto. Mas tive saudades do meu amigo João e dos nossos  tempos de adolescência, e também muita pena de não ter no carro nem  “Season of the Witch” nem “Sonny Boy Williamson”, que naquele preciso momento me teriam sabido muito bem ir a ouvir pelo caminho…

PS:

Não o disse na altura própria e agora não quero sobrecarregar o texto, mas “Sonny Boy Williamson” foi uma homenagem ao músico por ocasião da sua morte, composta por Jack Bruce e Paul Jones e interpretada por este último em 1967, como B-Side de “I’ve Been a Bad, Bad Boy”, música do filme “Privilege”, de Peter Watkins.
Paul Jones passa, aliás, por ser o maior “otário” da História da Música Rock, porque parece ter recusado ser o vocalista da banda que viria a dar origem aos “Stones”. Mick Jagger agradeceu…

PS2:

Não obstante o meu tom jocoso, Mike Bloomfield e Al Kooper foram figuras muito importantes do blues revival americano dos anos 60/70, na esteia dos seus colegas ingleses. De Kooper guardo um excelente disco na minha coleção: “Easy Does It”, que tem a melhor cover que conheço de “I Got a Woman”, do Ray Charles.   

Texto e fotografias de Luís Miguel Mira

DISCURSOS DE ESTOCOLMO


Discursos de Estocolmo

José Saramago
Fundação José Saramago, Lisboa s/d

Cumpriram-se hoje exactamente 50 anos sobre a assinatura da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Não têm faltado comemorações à efeméride. Sabendo-se, porém, como a atenção se cansa quando as circunstâncias lhe pedem que se ocupe de assuntos sérios, não é arriscado prever que o interesse público por esta questão comece a diminuir já a partir de amanhã. Nada tenho contra esses actos comemorativos, eu próprio contribuí para eles, modestamente, com algumas palavras. E uma vez que a data o pede e a ocasião não o desaconselha, permita-se-me que diga aqui umas quantas mais.
Neste meio século não parece que os governos tenham feito pelos direitos humanos tudo aquilo a que moralmente estavam obrigados. As injustiças multiplicam-se, as desigualdades agravam-se, a ignorância cresce, a miséria alastra. A mesma esquizofrénica humanidade capaz de enviar instrumentos a um planeta para estudar a composição das suas rochas, assiste indiferente à morte de milhões de pessoas pela fome. Chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso próprio semelhante.
Alguém não anda a cumprir o seu dever. Não andam a cumpri-lo os governos, porque não sabem, porque não podem, ou porque não querem. Ou porque não lho permitem aquelas que efectivamente governam o mundo, as empresas multinacionais e pluricontinentais cujo poder, absolutamente não democrático, reduziu a quase nada o que ainda restava do ideal da democracia. Mas também não estão a cumprir o seu dever os cidadãos que somos. Pensamos que nenhuns direitos humanos poderão subsistir sem a simetria dos deveres que lhes correspondem e que não é de esperar que os governos façam nos próximos 50 anos o que não fizeram nestes que comemoramos. Tomemos então, nós, cidadãos comuns, a palavra. Com a mesma veemência com que reivindicamos direitos, reivindiquemos também o dever dos nossos deveres. Talvez o mundo possa tornar-se um pouco melhor.
Não esqueci os agradecimentos. Em Frankfurt, no dia 8 de Outubro, as primeiras palavras que pronunciei foram para agradecer à Academia Sueca a atribuição do Prémio Nobel da Literatura. Agradeci igualmente aos meus editores, aos meus tradutores e aos meus leitores. A todos torno a agradecer. E agora também aos escritores portugueses e de língua portuguesa, aos do passado e aos de hoje: é por eles que as nossas literaturas existem, eu sou apenas mais um que a eles se veio juntar. Disse naquele dia que não nasci para isto, mas isto foi-me dado. Bem hajam portanto.

domingo, 9 de dezembro de 2018

POSTAIS DE NATAL DE BEATRIX POTTER


Numa Feira do Livro, realizada na APISAL, comprei uma lindíssima colecção de postais de Boas Festas de Beatrix Potter.

Por estes dias vou coloca-los por aqui:

O Alfaiate Velhote

«Reza uma lenda muito antiga que, entre a noite da véspera de Natal e a manhã do di de Natal, todos os animais falam (embora muito poucas pessoas consigam ouvi-los ou perceber o que dizem).»

ILUMINAÇÕES DE NATAL





Cada vez há menos ruas com iluminações de Natal. 
Em cada ano se nota a diferença..
É pena.
O comércio tradicional tem vindo a sofrer alterações e os proprietários chineses, paquistaneses, nepaleses, outros povos, não entendem que as juntas de freguesia e a própria Câmara não podem chegar a tudo, e necessitavam do seu apoio, algo que os comerciantes portugueses percebem mas cada vez são menos.

NO NOSSO NADA


25 de Março de 1950

Ninguém se mata pelo amor de uma mulher. Matamo-nos porque um amor, não importa qual, nos revela a nós mesmos na nossa nudez, na nossa miséria, no nosso estado inerme, no nosso nada.

Cesare Pavese em Ofício de Viver

DITOS & REDITOS


Quanto mais se olha menos se vê.

Manda quem pode.

O material tem sempre razão.

Só se procura o que se conhece.

O que se passa quando não se passa nada.

Dança do saber.

Cozinhar não é uma forma de estar, é uma forma de amar.

Disto, daquilo, daqueloutro.

sábado, 8 de dezembro de 2018

OLHAR AS CAPAS


A Linguagem dos Pássaros

Ana Teresa Pereira
Capa: Fernando Mateus sobre quadro de Mark Rothko
Colecção Crime Perfeito nº 14
Relógio D’Água, Lisboa, Novembro de 2001

Foi num mês de Abril, há muitos anos, éramos ainda crianças. Estamos de novo em Abril, o mês mais doce, aquele de que Miguel mais gosta, o mês azul, a nossa casa fica mergulhada em lilases, que escorrem pelo jardim, sobem as árvores, por vezes chegam ao muro que dá para as rochas. É também o mês dos jacarandás, os jacarandás ao longo da rua estão cobertos de flores violetas, que vemos da janela do nosso quarto, da varanda da torre, de um lado do mar até ao infinito, do outro o mar de flores. E o sim dos pássaros, desde Fevereiro que acordo a meio da noite com os pássaros, e deixo-me ficar imóvel, ouvindo-os até adormecer de novo e despertar de manhã, para mais pássaros, e para ele,