segunda-feira, 5 de outubro de 2026

O MEU AVÔ E O HOMEM DA BANDEIRA


O meu  avô paterno foi uma das referências da minha vida de criança e adolescente.

Sempre que necessário, apresentava-se assim:

«Mário Santos, republicano histórico, benfiquista e anticlerical.»

Todos os anos, pelo 5 de Outubro, subia ao Cemitério do Alto São João, depois à Praça António José de Almeida para uns «Viva à República».

Morreu em 1968, com 93 anos.

Foi um dos muitos que morreu sem saber qual a cor da liberdade.

Estava na Praça António José de Almeida, quando, no 5 de Outubro de 1958, a PIDE prendeu o General Humberto Delgado.

O meu pai dizia-lhe que ele devia deixar-se dessas romagens que não conduziam a nada.

«Dizes tu! Eu e o homem da bandeira nunca falhamos!»

Referia-se a um republicano que, no 5 de Outubro, aparecia com uma grande bandeira portuguesa. Esse chegou a ver a cor da liberdade e, depois de Abril, foi militante do Partido Socialista.

O meu pai morreu em Junho de 1990.

Num 25 de Abril, 1988 (?), o meu pai whiscava, eu gintonicava, Cecília Bartoli, em fundo, cantava Vivaldi, discorríamos sobre os tempos idos, dos que estavam para chegar e ele batia na tecla de que o 25 de Abril acabaria nas mesmas evocações-quase-solitárias do meu avô e dos companheiros republicanos históricos.

Sucedeu nascer um desesperante silêncio, agitei o gelo no copo, olhei a rodela de limão, murmurei para dentro de mim que o meu pai era capaz de ter razão, mas deixei o silêncio escorrer…

Que nada perturbe esse silêncio… ainda estou a ouvi-lo… e numa, difusa, vagamente avermelhada, imagem, admito ver o meu avô e o homem da bandeira…

UMA PEQUENA LUZ, BRUXULEANTE

Uma pequenina luz bruxuleante

 não na distância brilhando no extremo da estrada

 aqui no meio de nós e a multidão em volta

 une toute petite lumière

 just a little light

 una picolla… em todas as línguas do mundo

 uma pequena luz bruxuleante

 brilhando incerta mas brilhando

 aqui no meio de nós

 entre o bafo quente da multidão

 a ventania dos cerros e a brisa dos mares

 e o sopro azedo dos que a não vêem

 só a adivinham e raivosamente assopram.

 Uma pequena luz

 que vacila exacta

 que bruxuleia firme

 que não ilumina apenas brilha.

 Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.

 Muda como a exactidão como a firmeza

 como a justiça.

 Brilhando indeflectível.

 Silenciosa não crepita

 não consome não custa dinheiro.

 Não é ela que custa dinheiro.

 Não aquece também os que de frio se juntam.

 Não ilumina também os rostos que se curvam.

 Apenas brilha bruxuleia ondeia

 indefectível próxima dourada.

 Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.

 Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.

 Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.

 Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.

 Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:

 brilha.

 Uma pequenina luz bruxuleante e muda

 como a exactidão como a firmeza

 como a justiça.

 Apenas como elas.

 Mas brilha.

 Não na distância. Aqui

 no meio de nós.

 Brilha.

Jorge de Sena

domingo, 4 de outubro de 2026

À LUPA


Perplexa a Lupa, lê no Público:

«Morre um golfinho por dia em Portugal. Bruxelas ameaça com tribunal
A Comissão Europeia decidiu avançar para a segunda fase do processo de infracção contra Portugal por alegadas falhas na protecção de golfinhos e outros cetáceos, concluindo que o país continua sem cumprir plenamente as obrigações europeias destinadas a monitorizar e prevenir as capturas acidentais em actividades de pesca.»

NOTÍCIAS DO CIRCO


Ele não é ninguém, mas não aceita que um qualquer humano, que ande aos pontapés numa bola, sela o símbolo do país que o viu nascer e de que gosta muito.

Não! E não, é não mesmo!

Que lhe diriam os escritores – temos um Nobel da Literatura! – os poetas, os homens do teatro e do cinema, os pintores, os cantores, os músicos que o ajudaram a pensar e ser gente?

Claro que se lembra que num qualquer Natal, o primeiro-ministro Luís Montenegro teve a infelicidade de numa mensagem de Natal, ter dito que teremos de ter a «mentalidade de Cristiano Ronaldo» para mudarmos o país.

Também se lembra que o escritor Claudio Hochman no seu livro Ilhas, deixou o lamento: 

«Quando morreu Herberto Helder, houve quem pensasse que dariam o seu nome ao aeroporto da Madeira, a ilha onde o poeta nasceu. Mas não. Deram-lhe o nome de Cristiano Ronaldo. Mais uma vez, a poesia do futebol ganhou à poesia pura e dura.»

De uma vez por todas acabem com esta palhaçada!

sábado, 3 de outubro de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ


O escriba solicita uma desculpa, pequenina que seja, por o tempo climático, dado que o Verão ainda não saiu do jardim à beira mar plantado, não lhe estar favorável seja ao que for.

Sempre gostou do Outono, da Primavera, talvez alguns dias de Inverno, mas o resto sempre o deixou com vontade de lagartar.

Deste modo foi buscar um textinho feito há longo tempo, mesmo muito longo tempo:

 
«O poeta polaco Zbigniew Herbert teve o cuidado de dizer a si próprio: «deverás ir tranquilo ao teu próprio funeral.»

Razão suficiente para que, quando a dita lhe bater à porta, deixar recado aos amigos e  familiares:

Embarquem no cacilheiro da rota da Trafaria, onde o Tejo se faz ao mar, a meio caminho, despejem as cinzas, de quem muito gostou de andar por aqui, depois almoço na Antiga Casa Marítima: filetes de tamboril, arroz de feijão, salada, não se esqueçam de pedir para a cozinheira lançar uma boa mão cheia de coentros, vinho da casa.

E não se ponham com veleidades, com mariquices, com isto, com aquilo, porque ele está a espreitar dos bastidores.

Também na morte é importante saber dar uma festa, disse aos netos a rainha-mãe, devoradora de gin-tonic, viciada em corridas de cavalos, que também adorava uma boa cachimbada.

»A história dos homens é desde sempre mistério de vida e de morte. Choramos os nossos mortos e outros chorarão a nossa morte. Assim se faz o nosso caminhar sobre a terra.»

Ficou-lhe gravada uma frase do jornalista Victor da Cunha Rego: «uma pessoa preparar-se para a morte é a grande finalidade da vida.».

Foi em Setembro do ano de 1977, na casa que, então, o pai tinha em Almoçageme, que se lembra de ter pensado, pela primeira vez, no assunto.

Tinha despachado o «Alta Fidelidade» do Nick Hornby, num só fôlego.

Há por lá uma passagem em que Hornby escreve:

«Não há propriamente muitas canções pop acerca da morte: pelo menos canções boas. Talvez seja por isso que eu gosto de muita pop e acho a música clássica um bocado tétrica. Havia aquele instrumental do Elton John, “Song for Guy”, mas não passava de umas marteladas no piano que tanto podiam ser ouvidas no aeroporto como no mosso funeral.

- Vamos lá pessoal, as cinco melhores canções pop sobre a morte.


- Genial – diz o Barry. – Uma lista de Homenagem ao pai da Laura. Fixe. “Leader of the Pack”. O tipo morre a andar de mota. E a seguir temos “Dead Man’s Curve” dos Jan e Dean, e “Terry” da Twinkle… e aquela do Bobby Goldsmoro, “ And Honey, I Miss You”…


- E que tal “Tell Laura I Love Her”? Ia ser um êxito.


Ainda bem que a Laura não está aqui para ver como nos divertimos à custa do pai dela.


- Já resolvi que música vou querer no meu. “One Step Beyond”, dos Madness. “You Can’t Always Get What You Want”.»


À noite, debaixo da parreira de uva americana, ou morangueira, sentindo o aroma, ouvindo o silêncio dos ralos e das cigarras, lembra-se de lhe ter contado o episódio e, ao mesmo tempo, perguntado, que música ele escolheria.

Uma pausa muito grande, e depois a resposta:

O Requiem de Mozart.

Passados meses, pensando que a morte é o único destino que temos assegurado, por mera brincadeira, começou a alinhar uma cassette (os CDs eram, ainda, uma miragem) de músicas e canções para serem ouvidas antes de o fogo o devorar.

Ainda nem sequer tinha chegado ao princípio dos princípios e desistiu.

Os amigos não mereciam tal castigo.

Mas algum toque teria que existir.

Foi quando concluiu que bastava uma única canção: «Bye, Bye Love», na versão de Simon and Garfunkel, «bye, bye love, bye, bye happiness.»

Esperança para o futuro: a de aprender a morte serena, a que contemplava a luz no musgo daquela parede da casa de Almoçageme, a parede junto ao celeiro, onde o Marcolino guardava as maçãs reinetas, as batatas, as cebolas, as enxadas, o aroma das uvas americanas, ou morangueiras, o silêncio dos ralos e das cigarras.

Nunca aprendemos tudo sobre despedidas e o grande problema é que o tal dia, dura uma eternidade.

Entrada para uma solicitação do poeta José Gomes Ferreira:

«Enterrem também comigo na cova,
Graças a um novo invento de gravação magnética nas pedras
Música de Bach e de Mozart
É o único ar
Que os mortos podem enigmaticamente respirar»


Outras versões de Bye, Bye, Love:




sexta-feira, 2 de outubro de 2026

POSTAIS SEM SELO


 O impossível, em geral, é o que não se tentou.

Jim Goodwin

OLHAR AS CAPAS


História de Uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar

Luís Sepúlveda

Tradução Pedro Tamen

Asa Editores, Porto Janeiro de 2003

-Estou a voar! Zorbas! Sei voar! Grasnava ela, eufórica, lá da vastidão do céu cinzento.

O humano acariciou o lombo do gato.

- Bem, gato, conseguimos – disse ele suspirando

- Sim, à beira do vazio compreendeu o mais importante – miou Zorbas

- Ah, sim? E o que ela compreendeu? – perguntou o humano.

- Que só voa quem se atreve a fazê-lo – miou Zorbas.

-Suponho que agora te estorva a minha companhia. Espero-te lá em baixo.

NOTÍCIAS DA CRISE

É de todo incompreensível que um pobre país, rodeado de gravíssimos problemas de sobrevivência, assista a horas e horas e horas seguidas de discussão nas televisões, nos jornais, nas rádios, do que se terá passado entre um jogador e um treinador de futebol.

Jorge Jesus terá dito o elementar: «sou eu que mando na equipa!»

Cristiniano Ronaldo não gostou e, em vez de ficar para discutir o que ele pensa ser um problema, chamou o seu jacto particular e regressou a casa, abandonando o estágio da selecção.

Agora enfrentamos uma verdadeira novela mexicana.

Soube-se, entretanto, que o Primeiro-Ministro Luís Montenegro, sempre a trabalhar, já se movimenta nos bastidores da crise da selecção nacional, após a saída de Cristiano Ronaldo.

Facto:

Durante anos e anos, Cristiano Ronaldo jogava sempre. Quando fazia sentido, jogava. Quando não fazia, jogava também.

Opiniões:

«Obrigado, Cristiano, mas agora deixa a Seleção jogar. Deixa Jorge Jesus ser treinador. Deixa os outros jogadores crescerem. E deixa que a tua vida seja aquilo que merece ser: uma história extraordinária, não uma guerra pelo direito a continuar a ser aquilo que já foste.

Porque o futebol não é uma cerimónia de homenagem. É um jogo. E o jogo seguinte nunca se joga ontem.

Talvez tenha sido o dia em que Jesus percebeu isto, que pôs fim ao Cristianismo.»

Nuno Saraiva em A Bola

«Só Ronaldo não quis ver que o tempo do esplendor da glória desportiva era passado e que se iniciara a sua caminhada em direção ao esquecimento.»

Pedro Adão e Silva no Público

Voltar, sempre, ao poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade:

«Bem-aventurados os que não entendem nem aspiram a entender de futebol, pois deles é o reino da tranquilidade.»

A NOSSA VEZ

É o frio que nos tolhe ao domingo
no Inverno, quando mais rareia
a esperança. São certas fixações
da consciência, coisas que andam
pela casa à procura de um lugar

e entram clandestinas no poema.
São os envelopes da companhia
da água, a faca suja de manteiga
na toalha, esse trilho que deixamos
atrás de nós e se decifra sem esforço
nem proveito. É a espera

e a demora. São as ruas sossegadas
à hora do telejornal e os talheres
da vizinhança a retinir. É a deriva
nocturna da memória: é o medo
de termos perdido sem querer

a nossa vez
.

Rui Pires Cabral

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Saboreei o que a vida me ofereceu, tudo o que sinto é só meu, eu nunca renunciei! e vou continuar a estratégia da cigarra, cantando o Inverno a chegar. 

Jorge Palma

APANHADOS DO FACEBOOK


 Colaboração de Aida Santos

CRONICANDO POR AÍ


Jorge Palma, Viale Moutinho e vozes que não se rendem

«Foi uma triste despedida do Verão, a dois dias de começar o Outono. Verão que levou com ele Jorge Palma, que parecia antecipar tal desfecho quando escreveu estas palavras, precisamente em Outono (estratégia da cigarra), a que ele chamou “a minha balada de estimação”: “Saboreei o que a vida me ofereceu/ tudo o que sinto é só meu/ eu nunca renunciei!/ e vou continuar a estratégia da cigarra/ cantando o Inverno a chegar.” Certa se mostrou a família, quando, ainda mal refeita da perda e a começar o luto, sugeriu: preservem-lhe a memória ouvindo as suas criações musicais.


Aquele Outono, ouvimo-lo em Norte (2004), o primeiro álbum que fez sem a pressão do álcool, que andava a atormentar-lhe a vida e a carreira. Reencontrara um Norte, sim, e num período (pós-11 de Setembro) de grandes angústias. Nesse Norte, escreveu em Optimista céptico (título que apanhou de uma frase de Saramago): “A hipocrisia deste novo império/ faz-me vomitar (…) só quero encontrar paz/ sem arrastar atrás nem mestre nem Deus” — e aqui saltava-nos à memória Ni Dieu Ni Maître, jornal anarquista francês fundado em 1880. Extraordinária, a capacidade de Jorge Palma ter um estilo tão próprio e soar como nenhum outro (é fácil perceber quando ouvimos alguém cantar “à Jorge Palma”) e, ao mesmo tempo, misturar na sua produção tantas inspirações e referências, de T. S. Elliot a Saint-Exupéry, de Lévi-Strauss a Tagore, de Prevért a Baudelaire, de Dylan e Cohen a Nino Rotta, de Paul Simon a Jacques Brel, de Van Morrison a Les Chats Sauvages, de Neil Young ou Tom Waits a Sérgio Godinho e José Mário Branco. E, no entanto, sempre Jorge Palma.

No álbum Com Todo o Respeito (2011), Palma enfrentou a morte numa canção, Agora não, ainda não — tal como Kurosawa no seu último filme, Madadayo (1993), filme que Palma desconhecia. Mas foi no seu derradeiro disco, Vida (2023), já depois de celebrar em palco 70 anos de existência (em 2021) e de revisitar os seus 14 álbuns numa maratona de seis concertos em Lisboa (2022), que voltou ao tema com vários cambiantes. Assim: “Vida/ causa de todas as coisas/ princípio de todo o princípio/ final de todos os finais/ nasce em mim.” Afastando, mas não iludindo, a existência da morte: “O futuro vem lá, sinuoso e matreiro/ e o que deixa antever não é convidativo”; ou “Vejo o princípio e o fim abraçados/ numa espécie de altar” (Espécie de altar); “Passos de anjo rumo ao destino final” (Uma estação no inferno); “Mais tarde temos plena consciência/ de que o final é sempre a sós” (Canção de vida); ou, irónico: “Seja lá quem for o meu cangalheiro/ tenha a atenção de me vestir a rigor” (Estróina); e “O fim está próximo, não há nada a fazer” (Plantas na Lua)..

Um dia depois de Jorge Palma, deu-se outra perda assinalável: a do escritor e jornalista José Viale Moutinho (1945-2026). Além das obras literárias e dos prémios que justamente o distinguiram, Viale Moutinho também escreveu sobre o mundo da música, assinando duas obras de referência: a antologia de canções de resistência à ditadura O Nosso Amargo Cancioneiro (Ed. Latitude, 1972, com reedição em 1973 pela Livraria Paisagem), que, muitos anos depois, já em plena democracia, deu origem ao livro Cancioneiro de Abril, editado pela Ulmeiro em 1999; e Memórias do Canto Livre em Portugal (Editorial Futura, 1975), “somatório de notas e cantigas” editado em plena euforia abrilista, com ecos de vozes que não se renderam às perseguições dos censores.


Por falar em euforia e em canções: não em Portugal, mas nuns Estados Unidos em efervescência pré-eleitoral, está anunciado para 3 de Outubro, num pavilhão de Columbia, Maryland, o Festival Power To The People, com nomes como Tom Morello, dos Rage Against The Machine (que o organizou), Foo Fighters, Dave Matthews, Joan Baez, Public Enemy, Cypress Hill, Stephen Stills ou Bruce Springsteen, como convidado especial.

Entrevistado por Desi Lydic no The Daily Show de Jon Stewart (o programa faz agora 30 anos), Morello definiu-o assim, como se anunciasse um manifesto político: “É um festival de paz, amor, justiça e música. Em tempos em que a guerra é celebrada, este é um festival de paz; em tempos em que a divisão e o ódio são a norma, este é um festival de amor; em tempos em que a injustiça é infligida todos os dias, aqui e no estrangeiro, este é um festival que celebra a justiça. E num mundo com imensa música má, só teremos bandas espectaculares.”


Jorge Palma concordaria: “Os músicos, tal como os pintores, poetas, artistas de teatro e cinema, já que têm tempo de antena, têm a obrigação de falar dessas coisas, de chamar a atenção para as desigualdades, para as injustiças, tudo”, disse ele ao PÚBLICO em 2007, quando publicou Voo Nocturno».

Nuno Pacheco no Público de 1 de Outubro

Legenda: Imagem do Público

D'APRÈS D. FRANCISCO DE QUEVEDO

Também eu ceei com os doze naquela ceia
em que eles comeram e beberam o décimo terceiro.
A ceia fui eu; e o servo; e o que saiu a meio;
e o que inclinou a cabeça no Meu peito.

E traí e fui traído,
e duvidei, e impacientei-me, e descartei-me;
e pus com Ele a mão no prato e posei para o retrato
(embora nada daquilo fizesse sentido).

Não subi aos céus (nem era caso para isso),
mas desci aos infernos (e pela porta de serviço):
comprei e não paguei, faltei a encontros,
cobicei os carros dos outros e as mulheres dos outros.

Agora, como num filme descolorido,
chegou o terceiro dia e nada aconteceu,
e tenho medo de não ter sido comigo,
de não ter sido comido nem ter sido Eu.

Manuel António Pina de Cuidados Intensivos em Poesia, Saudade da Prosa

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

NOTÍCIAS DO CIRCO


 O futebolista Cristiano Ronaldo, em aparente litígio com o treinador Jorge Jesus, abandonou o estágio da selecção, que decorria em Copenhague, com vista ao jogo com a Dinamarca, a contar para a Taça das Nações.

Mandou vir o seu jacto particular e regressou a casa.

A seu tempo, as partes envolvidas revelarão as suas verdades!...

CR7 é um menino-crescido que pensa que é dono de tudo e algo mais.

Há muito deveria ter acabado a carreira em alta, mas agora arrisca-se a sair pela direita baixa.

No país, continua o aumento do custo de vida, a crise da habitação, os problemas do Serviço Nacional de Saúde, os baixos salários, as baixas reformas.

Legenda: fotografia de José Sena Goulão/Lusa.

OLHAR AS CAPAS


O Caminho Imperfeito

José Luís Peixoto

Ilustrações: Hugo Makarov

Capa: Rui Rodrigues

Quetzal Editores, Lisboa, Setembro de 2017

O distante perde distância quando se vai lá. Os lugares mais longínquos são aqueles onde nunca se esteve. Quando já se foi a um lugar, mesmo que seja preciso atravessar o planeta, fica a saber-se que é possível fazer esse caminho. Deixa de pertencer ao desconhecido sem detalhes, ganha formas imprevistas. Há vida lá como há vida aqui.

Colaboração de Aida Santos

SECRETO APELO

Na floresta silenciosa

Fui encontrar a rosa

Prometida.

 

Na floresta silenciosa

Fui encontrar, generosa,

A minha vida.

Ruy Cinatti

terça-feira, 29 de setembro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Só as casas explicam que exista uma palavra como intimidade.

Ruy Belo

Legenda: pintura de Jakub Schikaneder

SOLTAS


Ao longo dos tempos a Casa onde viveu António Sérgio sempre viveu momentos difíceis, desde ser vendida, ao abandono a que diversas entidades a submeteram.

Há dias lia-se no Público que a Casa António Sérgio, em Lisboa, tem futuro incerto.

«Numa cave de uma moradia na Lapa, na freguesia lisboeta da Estrela, guardam-se à volta de 7500 livros que pertenciam ao pensador e ensaísta António Sérgio (1883-1969). “Aqui há de tudo: desde química até filosofia”, nota a técnica documentalista Sónia Queiroga. “Muitos têm dedicatória ou anotações e vários eram oferecidos.” Uma sala ao lado reveste-se de diversas publicações sobre cooperativismo e economia social ou de obras da autoria do próprio António Sérgio. Neste depósito, há ainda espólios de outros autores.

Com um acervo único, a Casa António Sérgio, em Lisboa, tem um futuro incerto
Neste momento, a Casa António Sérgio tem o seu destino em aberto. Nos últimos anos, este tem sido um espaço gerido pela CASES, cuja dissolução foi recentemente aprovada, após a saída do Estado como seu membro. Funcionários e direcção alertam para um património “único” que se pode perder. Em relação ao seu proprietário, a Câmara de Lisboa, que o tem cedido desde 1982, refere que possíveis mudanças ou desenvolvimentos serão analisados em “momento oportuno”.».

A imagem em cima, mostra um recorte do Diário de Lisboa de 5 de Janeiro de 1980 em que se noticiava que um incêndio,dado o abandono que rodeava o edifício, ocorreu na casa onde viveu António Sérgio. 

1.

«A amizade é uma coisa muito complexa… É-se amigo de alguém, na minha opinião, quando se cria uma exigência em relação a essa pessoa extremamente utópica. Isto é: quando se pretende que essa pessoa seja o próprio em melhor. Eu sou amigo de alguém, exigindo dele coisas que não sei que não sei capaz de fazer.»

José Cardoso Pires

2.

Os cortes orçamentais estão a levar as organizações de apoio aos refugiados ao "ponto de rutura" em áreas cruciais, onde cerca de 8,3 milhões de pessoas arriscam ficar sem ajuda este ano, alertou esta terça-feira a ONU.

"A proteção não pode ser reduzida indefinidamente sem provocar o colapso dos sistemas", disse o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). Abaixo de um determinado limiar, os serviços não se limitam a atingir menos pessoas, alertou.

"Podem deixar de funcionar por completo, deixando os mais vulneráveis sem a proteção de que necessitam", sublinhou Dominique Hyde, diretora de relações externas do ACNUR, por ocasião da publicação de um relatório da organização, sedeada em Genebra, na Suíça.

3.

Desde que os EUA iniciaram a onda de ataques ao Irão, a 28 de fevereiro deste ano, não foram só o preço dos combustíveis e a conta do supermercado que passaram a pesar mais no orçamento das famílias. O Banco Central Europeu aumentou por duas vezes as taxas de juro, a última das quais a 10 de setembro, em 0,25 pontos percentuais. Quem tem crédito à habitação com taxa variável - quase um milhão de famílias, segundo dados oficiais do Banco Portugal -, viu as prestações escalarem, para lá, em alguns casos, dos 100 euros.

4.

«Mussolini era mau, mas fazia chegar os comboios a horas), passaram a servir de inspiração e legitimação sem qualquer pudor, nem rigor.»

José Pacheco Pereira no Público

5.

São mais de 32,5 milhões por ano para pagar as 381 novas reformas acima de cinco mil euros da Função Pública até setembro. Médicos, administradores hospitalares e juízes lideram a lista de reformados e aposentados pela Caixa Geral de Aposentações (CGA) este ano, onde estão nomes como Carmona Rodrigues, Maria de Lurdes Rodrigues, Barradas Leitão ou José João Abrantes.

O número de novas reformas acima de cinco mil euros brutos na Função Pública caiu ligeiramente face a 2025, mas os gastos subiram. As reformas de 381 novos pensionistas dariam para pagar aos 3212 recém-reformados com menos de mil euros.

HERBERTIANAS


Na Biografia do Herberto Helder escrita pelo João Pedro George, também há um capítulo que poderia entrar na secção de Livros Autografados.

Paramos na página 630 e cito:

«Outro amigo a quem Herberto ofereceu Flash foi António Barahona. Dias depois. Disse que o tinha perdido e Herberto ofereceu-lhe outro exemplar. Acontece que, mais tarde, os dois apareceram à venda num alfarrabista, o que enfureceu Herberto: julgava que tinha um amigo mas, afinal, o que tinha era um amigo que o estava a usar. Olga Lima recorda a amarga decepção que Herberto sofreu quando se apercebeu disso: »O Herberto zangou-se com o Barahona porque lhe ofereceu dos exemplares do Flash autografados e o Barahona vendeu-os porque precisava de dinheiro. Depois disso o Herberto nunca mais lhe ofereceu livro nenhum.»

No funeral de Herberto Helder, António Barahona resolveu aparecer sem ser convidado. Quando Olga, a viúva do Herberto, o viu, não resistiu e atirou-lhe na cara:

«Tu aqui!!!??? O Herberto dedicava-te livros e depois ias vendê-los aos alfarrabistas.» Gisela Oliveira estava a sair do elevador do piso de casa do pai quando deparou com esta cena, Olga à porta, muito exaltada impedindo Barahona de entrar e dizendo-lhe que estava proibido de ir ao funeral. Porque Olga, diz a filha, associava também «o Barahona ao grupo de críticos que tinham dito muito mal do último livro do meu pai. Lembro-me de ver o Barahona quase em lágrimas, a dizer: “Ola, isso não é verdade, eu amava o Herberto!”».

Legenda: capa de uma 1ª edição de Flash à venda, na internet, por 1200 euros.

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Teresa Martins Marques é uma profunda estudiosa da obra de José Rodrigues Miguéis. Entre 1994/96 dirigiu e prefaciou, para o Círculo de Leitores, os 13 volumes da edição das Obras Completas de José Rodrigues Miguéis.

Com essa enorme bagagem da obra de Miguéis, Teresa Martins escreveu uma biografia do autor como se fosse um romance: Nos Passos de José Rodrigues Miguéis.

Concebido através de diálogos do escritor com a cientista Maria de Sousa, sua grande amiga e confidente, com quem convive, desde 1975, quando Maria de Sousa foi fazer pesquisa científica em Nova Iorque. Numa carta, datada de 1978, dirigida ao amigo e director do Diário Popular, Jacinto Baptista, confessa que é uma investigadora de categoria, também poeta.

Para este longo trabalho foram compulsados e citados numerosos fragmentos, de cartas inéditas de Miguéis a intelectuais e amigos. São igualmente citados excertos de crónicas, paratextos e aforismos, bem como excertos de cariz autobiográfico da sua obra ficcional.

O importante é conhecer a obra de José Rodrigues Miguéis, extraordinário escritor, um dos grandes prosadores do século XX, mas Nos Passos de José Rodrigues Miguéis torna-se uma aventura deliciosa a leitura deste retrato em livro de 698 páginas. 

OLHAR AS CAPAS


Nos Passos de José Rodrigues Miguéis

Uma Biografia Como um Romance

Teresa Martins Marques

Prefácio: Onésimo Teotónio Almeida

Capa: Sofia Travassos

Âncora Editora, Lisboa, Junho de 2025

Bem sei que o António Sérgio escreveu no Diário de Lisboa (5/4/1935) sobre mim: «é um espírito rico, variado, insinuante, fino e o mais admirável dos oradores que jamais ouvi na minha língua.» Confesso que nem sempre terei sido justo com este homem, mas o meu coração pende para o lado de Raul Proença. O que fazer? Devo-lhes a todos eles o encorajamento para começar a escrever e até mesmo a bolsa que tive par ir estudar em Bruxelas.

O SILÊNCIO DAS PLANTAS

O relacionamento unilateral entre mim e vocês
não vai mal de todo.

Sei o que são folhinhas, pétalas, espigas, pinhas, caules
e o que se passa convosco em Abril e Dezembro.

E embora a minha curiosidade não seja correspondida,
inclino-me especialmente sobre umas
e ergo a cabeça para outras.

Para mim, vocês têm nomes:
ácer, bardana, amémona,
urze, zimbro, visgo, miosótis,
já eu, para vocês, nenhum.

Viajamos juntas.
E nas viagens conversa-se.
Trocam-se opiniões, nem que seja sobre o tempo
ou sobre as estações velozmente atravessadas.

Temas não faltariam, pois muito temos em comum.
Estamos ao alcance da mesma estrela.
Fazemos sombra, regidas pelas mesmas leis.
Tentamos saber algo, cada uma à sua maneira
e o que não sabemos também nos assemelha.

Perguntem, tentarei esclarecer-vos:
o que é ver com os olhos,
para que me bate o coração
e porque o meu corpo não cria raízes.

Mas como responder às perguntas não colocadas,
ainda por cima, sendo eu para vocês assim,
tão ninguém.

Moitas, pinhas, prados e juncais,
tudo o que vos digo é um monólogo,
mas não são vocês que o ouvem.

Uma conversa com vocês é imprescindível e impossível.
Urgente nesta vida apressada
e adiada para nunca.

Wislawa Szymborska em Instante

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Os homens são fáceis de afastar: basta não nos aproximarmos.

Fernando Pessoa

SOLTAS


O Papa Leão XIV visitou a França e não esqueceu as vitimas de abusos sexuais cometidos por membros do clero e pediu aos bispos franceses que continuem a trabalhar mantendo “a máxima vigilância” face ao flagelo dos abusos, durante uma reunião em Lourdes.

«Nos últimos anos, vocês enfrentaram com firmeza o doloroso flagelo do abuso de menores cometido por membros do clero ou no seio da Igreja. Tomaram medidas corajosas para a combater, através da escuta ativa, da busca da verdade, da justiça, do perdão, da reparação e de um firme compromisso com uma cultura de prevenção e proteção contra estes crimes.»

Em França, foram identificados aproximadamente 330.000 casos de abusos cometidos por membros do clero entre 1950 e 2020, de acordo com uma investigação de 2021, e pouco menos de 2.000 vítimas receberam uma indemnização por esses crimes.

Assim vai o clero, frouxo quase indiferente, face aos crimes praticados, seja onde for, pelos seus membros.

A atitude do clero português, face a este flagelo, nem é frouxa, nem indiferente:

É MISERÁVEL!

1.

 

Não esquecer nunca que a União Europeia, os Estados Unidos, outros mais, são cúmplices do genocídio que Netanyahu está a realizar em Gaza.

2.

Alguém terá que dizer a Cristiano Ronaldo, e Jorge Jesus não é rapaz indicado para isso, que está a aproximar-se de um fim de carreira sem ponta de glória.

Diz um leitor do Público:

« Ronaldo está a envelhecer muito mal. É preciso saber sair, é preciso saber carregar todos os records.Fazer figura de malcriado, reles, mimado e burgesso não é compatível com a sua ambição.Ronaldo precisa de contratar um gestor de carreira e de liderança para conseguir não estragar tudo o que alcançou. Pode cobrir-se de ouro, diamantes, pedras preciosas, jactos privados,iates, carros desportivos bimbos, tudo o que o dinheiro pode comprar, mas isso não esconde a ignorância, a soberba e falta de visão. Mais dignidade, gravitas e sabedoria, acorda Ronaldo, já bateste contra a parede.»

3.

Um estudo recente da Fundação Francisco Manuel dos Santos faz um levantamento  dos 507 ministros da democracia portuguesa, concluindo que quem  tem governado Portugal em democracia são sobretudo homens, com mais de 50 anos, que  pertencem a “elites políticas altamente profissionalizadas, nas quais a experiência partidária e a competência técnica se entrelaçam de forma estrutural; de acordo com o estudo, os governos portugueses estão a ficar mais velhos, mais qualificados e mais partidários e para entrarem no círculo do poder as mulheres precisam de mais estudos; outro dado: ser ministro em Portugal não é um emprego estável já que  a duração média no cargo é de um ano e meio, 19% dos membros do governo  não completam o mandato e quatro em cada dez saem devido a escândalos, pressões dos jornais ou contestação social.

4.

Portugal é o país da União Europeia (UE) onde mais pessoas bebem álcool diariamente. Quase um quinto da população (16%) ingere estas bebidas todos os dias, três vezes mais do que a média europeia. Os homens portugueses consomem o triplo das mulheres e 15,4% desta população está em risco de pobreza ou exclusão social.

À LUPA

Lido no jornal A Bola:

11 filhos, 7 mulheres e 160 milhões perdidos: a vida 'louca' do ex-jogador Roberto Carlos

O antigo internacional brasileiro Roberto Carlos revelou ter perdido a totalidade dos ganhos acumulados ao longo da sua carreira desportiva, uma fortuna estimada em cerca de 160 milhões de euros. Aos 53 anos, o antigo lateral-esquerdo confessou ter ficado sem dinheiro na sequência de manobras de falsos amigos, agentes desonestos e familiares, que lhe esvaziaram por completo as contas bancárias.

Revelação feita durante o Portugal Football Summit.