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terça-feira, 30 de outubro de 2018

SARAMAGUEANDO


«A solidão, Sr. José, declarou com solenidade o conservador (cargo maior na Conservatória), nunca foi boa companhia, as grandes tristezas, as grandes tentações e os grandes erros resultam quase sempre de se estar só na vida, sem um amigo prudente a quem pedir conselho quando algo nos perturba mais do que o normal de todos os dias.»

José Saramago em Todos os Nomes

A génese de “Todos os Nomes” é uma investigação a que Saramago se entregou para saber algo do seu irmão Francisco, que morrera de difteria no Instituo Bacteriológico Câmara Pestana, mas não há registo da sua presença no Instituo, tão pouco, na Conservatória da Golegã se encontra o registo do seu falecimento. A investigação acaba por determinar que o irmão morrera de uma broncopneumonia no dia 22 de Dezembro de 1924 e foi enterrado na véspera de Natal.

No dia 8 de Novembro de 1996 escreve José Saramago no 4º volume de Cadernos de Lanzarote:

«Enfim, decifrou-se o mistério. O Chico – o meu irmão Francisco – faleceu às 18 horas do dia 22 de Dezembro de 1924, no Instituto Bacteriológico Câmara Pestana, e foi enterrado às 16,35 horas do dia 24 de Dezembro, véspera de Natal. Tinha quatro anos e dois meses. Não morreu de difteria, ou garrotilho, como julgara minha mãe, mas de broncopneumonia. Morávamos então na Rua E, ao Alto do Pina.»

Dias depois, a 22 de Novembro:

«… é também de uma busca que se tratará em Todos os Nomes, um romance que com certeza não existiria (caso venha a existir, nunca se sabe…) se, banalmente, burocraticamente, o averbamento da morte do meu irmão constasse dos registos da Conservatória da Golegã. Digamos que o Francisco de Sousa, falecido na idade de quatro anos e dois meses, será co-autor de um livro que começou a ser escrito setenta e dois anos de pois da sua morte…»

José Saramago começou a trabalhar em Todos os Nomes no dia 24 de Outubro de 1997, «um romance onde não haverá nomes. Ter dito todos os nomes seria uma boa razão para não escrever nenhum.»

O protagonista é um homem de meia idade, funcionário inferior do Arquivo do Registo Civil. Este funcionário cultiva a pequena mania de coleccionar notícias de jornais e revistas sobre gente célebre. Um dia reconhece a falta, nas suas colecções, de informações exactas sobre o nascimento (data, naturalidade, nome dos pais, etc.) dessas pessoas. Dedica-se portanto a copiar os respectivos dados das fichas que se encontram no arquivo. Casualmente, a ficha de uma pessoa comum (uma mulher) mistura-se com outras que estás copiando. O súbito contraste entre o que é conhecido e o que é desconhecido faz surgir nele a necessidade de conhecer a vida dessa mulher. Começa assim uma busca, a procura do outro.

«Pessoas assim, como este Sr. José, em toda a parte encontramos, ocupam seu tempo ou o tempo que creem sobejar-lhes a vida a juntar selos, moedas, medalhas, jarrões, bilhetes-postais, caixas de fósforos, livros, relógios, camisolas desportivas, autógrafos, pedras, bonecos de barro, latas vazias de refresco, anjinhos, cactos, programas de ópera, isqueiros, canecas, mochos, caixinhas de música, garrafas, bonsais, pinturas, canecas, cachimbos, obeliscos de cristal, patos de porcelana, brinquedos antigos, máscaras de carnaval, provavelmente fazem-no por algo a que poderíamos chamar angústia metafísica, talvez por não conseguirem suportar a ideia do caos como regedor único do universo, por isso, com as suas fracas forças e sem ajuda divina, vão tentando pôr alguma ordem no mundo, por um pouco de tempo ainda o conseguem, mas só enquanto puderem defender a sua coleção, porque quando chega o dia de ela se dispersar, e sempre chega esse dia, ou seja por morte ou seja por fadiga do colecionador, tudo volta ao princípio, tudo torna a confundir-se.»

O Sr. José fazia tudo com perfeição mas era um homem infeliz e só.

Isso mesmo lhe chamou a atenção o seu chefe: «os grandes erros resultam quase sempre de se estar só na vida.»

Eduardo Lourenço:

«Todos os Nomes é a história de amor mais intensa da literatura portuguesa de todos os tempos.»

Legenda: capa de Todos os Nomes publicado pela Porto Editora. A caligrafia da capa é da autoria de Miguel Gonçalves Mendes.

terça-feira, 13 de julho de 2010

TODOS OS NOMES


Todos Os Nomes

José Saramago
Editorial Caminho, Lisboa Outubro de 1997

No dia 6 de Janeiro de 1997, escreve José Saramago, no 5º volume de Cadernos de “Lanzarote:

«Um romance que se chamará “Todos os Nomes” e onde não haverá nomes… Ter dito todos os nomes seria uma boa razão para não escrever nenhum.»


A génese de Todos os Nomes é uma investigação a que Saramago se entregou para saber algo do seu irmão Francisco, que morrera de difteria no Instituo Bacteriológico Câmara Pestana, mas não há registo da sua presença no Instituo, tão pouco, na Conservatória da Golegã se encontra o registo do seu falecimento. A investigação acaba por determinar que o irmão morrera de uma broncopneumonia no dia 22 de Dezembro de 1924 e foi enterrado na véspera de Natal.


No dia 22 de Novembro de 1996, escreveu José Saramago no 4º volume de Cadernos de Lanzarote:

«… é também de uma busca que se tratará em “Todos os Nomes”, um romance que com certeza não existiria (caso venha a existir, nunca se sabe…) se, banalmente, burocraticamente, o averbamento da morte do meu irmão constasse dos registos da Conservatória da Golegã. Digamos que o Francisco de Sousa, falecido na idade de quatro anos e dois meses, será co-autor de um livro que começou a ser escrito setenta e dois anos de pois da sua morte…»


Eduardo Lourenço:

«Todos os Nomes é a história de amor mais intensa da literatura portuguesa de todos os tempos.»

Quando acabei de falar, ela perguntou-me, E agora, que pensa fazer, Nada disse eu, Vai voltar àquelas suas colecções de pessoas famosas, Não sei, talvez em alguma coisa haverei de ocupar o meu tempo, calei-me um pouco a pensar e respondi, Não, não creio, Porquê, reparando bem, a vida delas é sempre igual, nunca varia, aparecem, falam, mostram-se, sorriem para os fotógrafos, estão constantemente a chegar ou a partir, Como qualquer de nós, Eu, não, Você e eu, e todos, também nos mostramos por aí, também falamos, também saímos de casa e regressamos, às vezes até sorrimos, a diferença é que ninguém nos faz caso, Não poderíamos ser todos famosos, Ainda bem para si, imagine a sua colecção com o tamanho da Conservatória Geral, Teria de ser muito maior, à Conservatória só interessa saber quando nascemos, quando morremos e, pouco mais, Se nos casámos, se nos divorciámos, se ficámos viúvos, se tornámos a casar, à Conservatória é indiferente se, no meio de tudo isso fomos felizes ou infelizes. A felicidade e a infelicidade são como as pessoas famosas, tanto vêm como vão, o pior que tem a conservatória é não querer saber quem somos, para ela não passamos de um papel com uns quantos nomes e umas quantas datas.»

domingo, 25 de novembro de 2012

OS MORTOS E OS FÓSFOROS


Era ao cair da tarde – e havia mortos.Todos muito juntos, enlameados, compridos.
Alinhados, distanciados para sempre, ali aguardando o arrumo definitivo. Ali, ali no cimento frio de um quartel de bombeiros, no fim de um domingo de Inverno.
Eu estava ao telefone, um telefone de moedas de cinco tostões, a dar para o jornal o número de mortos, os seus nomes, as suas idades. Ia escurecendo, escurecendo, e eu já não via os nomes escritos à pressa, abreviados, secos. Um bombeiro, uma pilha nas mãos, tentava auxiliar a minha leitura, uma leitura triste, sincopada, hesitante de quando em quando. Eu sabia que tinha os mortos todos atrás de mim, indiferentes, quietos, não se importando absolutamente nada que lhes trocasse os nomes. Mas eu não queria cometer o mínimo erro, o mais pequeno deslize.«Se tu és João” – dizia para mim – és João. E se o teu nome é Mário, o teu nome será Mário. E caso te chames Rosa, não te chamarei Lucília.» E teimava, teimava em ser exacto, pedia, pedia ao bombeiro que mantivesse o foco da pilha sobre o papel em que tinha escrito os nomes dos mortos. E carregava nas moedas de cinco tostões, mantinha a ligação telefónica, identificava-os um a um.
O tempo passava, o tempo passava sem luz eléctrica, e eu estava sempre ali ao telefone, e os familiares dos mortos iam entrando, (que longa bicha!), identificavam os mortos, os nomes dos mortos eram-me dados, e eu dava os nomes dos mortos ao jornal. Ouvia o choro dos vivos, ouvia o silêncio dos cadáveres, ouvia a noite lá fora.

- Depressa! Depressa! – diziam-me do jornal – Depressa que é para a terceira edição!
Iam-me faltando as moedas de cinco tostões, sentia-me aflito, pedia que me trocassem moedas de cinco, dez escudos. E os nomes dos mortos continuavam na minha boca, lidos um a um, o mais exactamente possível. Como um preito de homenagem. Como um choro. Chegavam aos meus ouvidos pormenores da tragédia, da chuva, da lama. Eu carregava nas moedas de cinco tostões, afligia-me com o seu desaparecimento contínuo e, automatizado já, ia lendo os nomes dos mortos à luz da pilha.
Escuridão total.
- Acabou-se a carga! – disse o bombeiro.
O suor tomou-me o corpo todo – e os meus dedos amarfanhavam o papel com os nomes dos mortos ainda não transmitidos. E agora? E agora? Agora que a pilha tinha dado de si – que fazer, que fazer?
- Acendam fósforos! – gritei – Estes fósforos!
E assim foi: à chama tremida do enxofre, dos fósforos, acesos um a um, fui lendo o nome dos mortos que restavam, que estavam ainda no papel, sem o mais pequeno deslize.
“Se tu és João” – dizia para mim – «és João. E se o teu nome é Mário, o teu nome será Mário. E caso te chames Rosa, não te chamarei Lucília. »
Quando, finalmente, abandonei o telefone, ganhei a rua, respirei a noite, apeteceu-me loucamente um cigarro, um cigarro que me turvasse, um cigarro para esquecer aquilo tudo.
Meti, os pulmões ansiosos, um cigarro na boca – mas não pude, não pude fumar, não pude acender o cigarro: os mortos tinham queimado todos os meus fósforos.
Pedro Alvim, crónica publicada no Diário de Lisboa, aquando das trágicas cheias de Novembro de 1967, e incluída na colectânea O Homem Na Cidade, Prelo Editora, Lisboa Julho 1968.
Legenda: imagem do Diário de Notícias.

sábado, 25 de novembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


O Homem na Cidade

Vários autores
Prefácio: Mário Sacramento
Capa: Luís Carrôlo
Colecção O Homem no Mundo nº 5
Prelo Editora, Lisboa, Julho 1968

Era ao cair da tarde – e havia mortos. Todos muito juntos, enlameados, compridos.
Alinhados, distanciados para sempre, ali aguardando o arrumo definitivo. Ali, ali no cimento frio de um quartel de bombeiros, no fim de um domingo de Inverno.
Eu estava ao telefone, um telefone de moedas de cinco tostões, a dar para o jornal o número de mortos, os seus nomes, as suas idades. Ia escurecendo, escurecendo, e eu já não via os nomes escritos à pressa, abreviados, secos. Um bombeiro, uma pilha nas mãos, tentava auxiliar a minha leitura, uma leitura triste, sincopada, hesitante de quando em quando. Eu sabia que tinha os mortos todos atrás de mim, indiferentes, quietos, não se importando absolutamente nada que lhes trocasse os nomes. Mas eu não queria cometer o mínimo erro, o mais pequeno deslize.«Se tu és João” – dizia para mim – és João. E se o teu nome é Mário, o teu nome será Mário. E caso te chames Rosa, não te chamarei Lucília.» E teimava, teimava em ser exacto, pedia, pedia ao bombeiro que mantivesse o foco da pilha sobre o papel em que tinha escrito os nomes dos mortos. E carregava nas moedas de cinco tostões, mantinha a ligação telefónica, identificava-os um a um.
O tempo passava, o tempo passava sem luz eléctrica, e eu estava sempre ali ao telefone, e os familiares dos mortos iam entrando, (que longa bicha!), identificavam os mortos, os nomes dos mortos eram-me dados, e eu dava os nomes dos mortos ao jornal. Ouvia o choro dos vivos, ouvia o silêncio dos cadáveres, ouvia a noite lá fora.
- Depressa! Depressa! – diziam-me do jornal – Depressa que é para a terceira edição!
Iam-me faltando as moedas de cinco tostões, sentia-me aflito, pedia que me trocassem moedas de cinco, dez escudos. E os nomes dos mortos continuavam na minha boca, lidos um a um, o mais exactamente possível. Como um preito de homenagem. Como um choro. Chegavam aos meus ouvidos pormenores da tragédia, da chuva, da lama. Eu carregava nas moedas de cinco tostões, afligia-me com o seu desaparecimento contínuo e, automatizado já, ia lendo os nomes dos mortos à luz da pilha.
Escuridão total.
- Acabou-se a carga! – disse o bombeiro.
O suor tomou-me o corpo todo – e os meus dedos amarfanhavam o papel com os nomes dos mortos ainda não transmitidos. E agora? E agora? Agora que a pilha tinha dado de si – que fazer, que fazer?
- Acendam fósforos! – gritei – Estes fósforos!
E assim foi: à chama tremida do enxofre, dos fósforos, acesos um a um, fui lendo o nome dos mortos que restavam, que estavam ainda no papel, sem o mais pequeno deslize.
“Se tu és João” – dizia para mim – «és João. E se o teu nome é Mário, o teu nome será Mário. E caso te chames Rosa, não te chamarei Lucília. »
Quando, finalmente, abandonei o telefone, ganhei a rua, respirei a noite, apeteceu-me loucamente um cigarro, um cigarro que me turvasse, um cigarro para esquecer aquilo tudo.
Meti, os pulmões ansiosos, um cigarro na boca – mas não pude, não pude fumar, não pude acender o cigarro: os mortos tinham queimado todos os meus fósforos.

Pedro Alvim, crónica publicada no Diário de Lisboa, aquando das trágicas cheias de Novembro de 1967.

segunda-feira, 29 de abril de 2024

AO MEU PAI, AOS 2626 PRESOS POLÍTICOS DO FORTE DE PENICHE. PELA MEMÓRIA FUTURA

Um dos nossos mais antigos repórteres fotográficos, o Leonardo Negrão, tem por hábito publicar, a preto e branco no Facebook, imagens dos camaradas de redação, atuais e antigos, em momentos de trabalho ou convívio, numa espécie de álbum digital a que chama “Para memória futura”.

Sabemos que as memórias são diferentes de pessoa para pessoa; o que uma acha relevante, outra pode nem ter notado. Sabemos também que um país tem tantas memórias como cada um dos seus cidadãos, e que há memórias coletivas de determinados grupos de pessoas que partilharam experiências comuns. Todas estas, incluindo as das fotografias do Leonardo, constituem a história e reforçam as raízes de uma nação.

Cada vez que há tentativas de desvalorizar, contrariar ou mesmo apagar algumas dessas memórias, quem as guarda reage, naturalmente, com alguma exaltação. Sejam as daqueles que, por exemplo, viveram na ditadura sem sobressaltos, sejam as dos que nunca viveram de outra forma nessa época senão em sobressalto. Ambas merecem respeito e compreensão, mesmo sabendo que todos fizeram escolhas.

Por tudo isto, quando se olha para os 2626 nomes de ex-presos políticos talhados numa pedra à entrada do Forte de Peniche, antiga cadeia do Estado Novo, transformado em Museu da Resistência e Liberdade, inaugurado neste sábado, e se pensa no que sofreu cada um deles e delas (há duas mulheres, cuja história é contada, nesta edição, pela nossa jornalista Alexandra Tavares-Teles) qualquer silêncio que se pretenda impor sobre as memórias destas pessoas, das suas famílias, é, tão-só, indigno.

Não digo isto porque entre esses 2626 nomes está o do meu pai, nem porque só quase adulta me descobri, em memórias escritas num diário, como a menina de 3 anos que acordava todos à noite com os seus gritos de pesadelos e obrigava todos os que com ela compartilhavam uma casa para filhos de presos políticos a procurar, antes de adormecer, “animais maus” debaixo da sua cama.

Nesse diário, escrito por uma mulher que se tornou depois pedagoga e estudiosa destes traumas dos filhos da ditadura, a interpretação é de que os tais bichos simbolizavam os PIDES que eu tinha visto a irem buscar o meu pai a casa.

Não sei. Sei que os pesadelos não me deixaram muitos anos, mas aprendi a enfrentá-los e a vencê-los. Acredito que outros filhos e pais de presos políticos também o tenham conseguido. A maioria dos nomes registados na tal pedra  à entrada da antiga cadeia - que alguém, que não respeita a memória, queria transformar em hotel - são de portugueses comuns, mas também há cerca de uma centena de estrangeiros, espanhóis principalmente, mas também angolanos, moçambicanos, goeses e até alemães. Todos ali estiveram encarcerados pelo seu pensamento, porque escolheram enfrentar os monstros.

É essa resistência que, individual ou coletiva, jamais deverá ser esquecida - mesmo se há quem, como é caso dos representantes da Iniciativa Liberal na manifestação do 25 de Abril na Avenida da Liberdade, não tenha encontrado nada mais apropriado como palavra de ordem, num dia em que se celebra o fim de um regime que perseguiu, torturou e matou comunistas (ou os que eram tidos como tal), e num local onde muitos dos sobreviventes dessa perseguição se reúnem a celebrar, que “comunismo nunca mais”.

Num país no qual uma lei aprovada em 1997 para permitir aos presos políticos da ditadura, e aos que viveram na clandestinidade, pudessem contabilizar esse tempo para efeitos de pensão nunca foi regulamentada, o mínimo de reparação devida a quem gastou anos, por vezes décadas da sua vida, nos calabouços do Estado Novo é respeito pela sua coragem e sacrifício.

Além da sua disruptiva e oportuna declaração sobre o dever de reparação histórica pelos desmandos do Império português, Marcelo Rebelo de Sousa parece ter sentido a necessidade de sublinhar que esse respeito é um fator essencial da preservação da memória coletiva do país.

O Presidente da República podia só ter estado na inauguração oficial do Museu da Resistência, proferido palavras de circunstância. Mas escolheu esperar a inauguração protagonizada pelas centenas de resistentes, ex-presos políticos e respetivas famílias, que decorreu mais tarde.

Quem o viu, de cravo vermelho ao peito, à porta do Forte de Peniche - a mesma porta por onde, 50 anos antes, saíram em liberdade os últimos detidos -, seguindo depois, anónimo (não quis câmaras), na massa anónima que entoava a Grândola Vila Morena, sentiu que também ele, humildemente, queria render homenagem a quem ali tanto sofreu. E cantou com eles a música histórica de Zeca Afonso. Para e pela a memória futura.

Valentina Marcelino, hoje, no Diário de Notícias

Legenda: fotografia da Ordem dos Arquitectos Secção Regional Sul.

O memorial, com 21 metros de largura, 4 metros de altura e com cerca de 40 toneladas, localiza-se na entrada interior da fortaleza e contém a inscrição de 66 mil carateres que escrevem os nomes de 2510 presos políticos.

No topo do memorial, está gravada uma frase do historiador e escritor António Borges Coelho, também ele preso político em Peniche:

"Nomeai um a um todos os nomes
Lutaram e resistiram
A liberdade guarda a sua memória nas muralhas desta fortaleza"

O memorial com o nome de todos os que por ali passaram, foi um projeto desenvolvido pelo Atelier AR4 Arquitetura e executado pela Frademetalúrgica.

sábado, 21 de março de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS

Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram publicados.

A MINHA AMIGA RÁDIO

Agora que a bola voltou a rolar, a sério, nos relvados do Reino, lembro os meus tempos dos relatos de futebol na rádio. Escrevi rádio mas gosto mais de dizer telefonia.

Quando o futebol era jogado apenas nas tardes de domingo, Inverno às três da tarde, Verão às quatro da tarde.

No restaurante que a Aida teve em Almoçageme, não descansámos enquanto não pusemos, na parte da tasca, um velho rádio, que só dava onda média e ondas curtas. E nem sempre!

Assim como uma velha crónica do brasileiro Maurício Neves:

«No princípio era o verbo. O Flamengo era pouco mais do que o burburinho do rádio, composto pelo alvoroço dos locutores e pelo chiado das ondas médias, que meu pai tentava reduzir girando o botão maior, o da sintonia. Pacientemente. Às vezes mexia na antena, mudava o aparelho de lugar alguns milímetros, com o cuidado tenso de quem desarma uma bomba. De repente a voz de bluesman de Jorge Curi enchia a sala: “Anooooteeem... Teeeeempo e placaaaarr no maaiooorrrr do muuuundoooo...” Eu sabia poucas coisas. Mas sabia que maior do mundo era como Jorge Curi chamava o Maracanã, e sabia que logo ele estaria gritando um gol de Zico. Aliás, Zico não. Um gol de Zico, Zicão, Zicaço. Meu pai seguia olhando o rádio, onde estava escrito Philco acima da tela metálica e furadinha. O som enchia a sala de heróis que circulavam ao redor de nós. Uma sucessão de espectros rubro-negros: Zico tocava a Adílio, que driblava um e abria para Júlio César, o entortador, que entortava um, dois, três, e a bola voltava para Zico que então virava Zico, Zicão, Zicaço. Meu pai sorria olhando para o rádio: o Flamengo saía dali.»

Os relatos do futebol pela rádio.

As perfeitas tardes de domingo de um tempo perdido para sempre, vozes que ainda ouço apesar de já não andarem por aqui.

As tardes de domingo, os jogos a começarem todos à mesma hora, os relatos na Emissora Nacional, as marchas do John Philip de Sousa, enquanto se aguardava a ligação ao estádio, o Artur Agostinho, o Amadeu José de Freitas, o Nuno Brás e era apenas o relato de um jogo, mais tarde passaram a dois: «atenção Nuno, jogada perigosa».

João César Monteiro, em As Recordações da Casa Amarela, deitado na cama do quarto alugado, ouvindo, num rádio de pilhas, o relato da Emissora Nacional. A voz do locutor, de repente, grita: «golo do Benfica», o João César ergue-se, de braços no ar a vitoriar o golo.

Manuel Alegre, no seu livro Alma, recorda essas tardes de relatos de futebol nas tardes de domingo, a voz de Alfredo Quádrios Raposo que eu já não apanhei:

…os jogos de domingo e os relatos de Alfredo Quádrios Raposo, o melhor locutor desportivo de todos os tempos. Nesse tempo não havia transmissões directas e ao fim das tardes de domingo ainda não se sabiam os resultados. Era preciso esperar pelo resumo da primeira parte e o relato da segunda, que eu ouvia no RCA, em companhia dos meus amigos que não tinham rádio. Ouvíamos então a voz inconfundível de Alfredo Quádrios Raposo anunciar os golos do Peyroteu, os tentos do Julinho, as grandes jogadas do Vasques e do Travassos, os cortes de cabeça de Feliciano, os dribles de Mariano Amaro, a recepção de bola com o peito de Francisco Ferreira, capitão do Benfica. E as defesa do Azevedo, do Capela, do Martins, do Barrigana, as intercepções do Guilhar, os remates fulminantes de Araújo. Ou os nomes raros dos jogadores do Sul, como o Abraão e o Grazina, do Olhanense, o Patalino e o Massano, do Elvas. Eram momentos inesquecíveis, sobretudo quando havia jogos entre os grandes. A minha irmã por vezes ia espreitar por detrás do aparelho e nenhum de nós compreendia muito bem como era possível o jogo estar a decorrer nas Salésias, em Alvalade, no Campo Grande ou na Constituição e nós em Alma a ouvir o relato como se estivéssemos a ver. Seguíamos as palavras, as entoações de voz, as mudanças de ritmo, as pausas. E víamos. Era uma forma de ficção, quase sempre mais verdadeira do que a realidade. Nunca ninguém relatou como Alfredo Quádrios Raposo. Ele era a nossa ligação à capital, ao Estádio, ao jogo. Durante muito tempo ele foi a nossa festa, todos os domingos, ao fim da tarde.
Os jogadores viviam na nossa imaginação como figuras de lenda. Conhecíamo-los apenas das fotografias dos jornais, da revista Stadium e dos cromos que comprávamos embrulhados em rebuçados para depois colarmos numa caderneta. Mas era na voz de Alfredo Quádrios Raposo que verdadeiramente víamos os jogadores. Entravam em nossa casa, todos os domingos, ao fim da tarde. Vinham na voz daquele locutor de quem nunca vi o rosto nem faço a mínima ideia de como era, se alto ou baixo, se magro, se gordo, se velho, se novo. Era uma voz, um brado na tarde triste, um drible, um centro cruzado, um remate de cabeça, uma defesa para canto, uma recarga, um golo. Primeiro no RCA, depois no Telefunken trazido da Alemanha por Tiago de Faria, meu tio, que o deu a meu pai, juntamente com uma espingarda, a troco de uma edição rara, senão mesmo a primeira, da Arte de Bem Cavalgar a toda a Sela, de D. Duarte.
Também esses velhos aparelhos, quando aqueciam, tinham um cheiro. Eu guardo comigo o cheiro do RCA e do Telefunken nas tardes de domingo, um cheiro inseparável da voz de Alfredo Quádrios Raposo e da imagem de Peyroteu a marcar, com Feliciano à ilharga, mais um golo do Sporting contra o Belenenses, no Estádio das Salésias.

Texto publicado em 13 de Agosto de 2017

domingo, 13 de agosto de 2017

A MINHA AMIGA RADIO


Agora que a bola voltou a rolar, a sério, nos relvados do Reino, lembro os meus tempos dos relatos de futebol na rádio. Escrevi rádio mas gosto mais de dizer telefonia.

Quando o futebol era jogado apenas nas tardes de domingo, Inverno às três da tarde. Verão às quatro da tarde.

No restaurante que a Aida teve em Almoçageme, não descansámos enquanto não pusemos, na parte da tasca um velho rádio, que só dava onda média e ondas curtas. E nem sempre!

Assim como uma velha crónica do brasileiro Maurício Neves:

«No princípio era o verbo. O Flamengo era pouco mais do que o burburinho do rádio, composto pelo alvoroço dos locutores e pelo chiado das ondas médias, que meu pai tentava reduzir girando o botão maior, o da sintonia. Pacientemente. Às vezes mexia na antena, mudava o aparelho de lugar alguns milímetros, com o cuidado tenso de quem desarma uma bomba. De repente a voz de bluesman de Jorge Curi enchia a sala: “Anooooteeem... Teeeeempo e placaaaarr no maaiooorrrr do muuuundoooo...” Eu sabia poucas coisas. Mas sabia que maior do mundo era como Jorge Curi chamava o Maracanã, e sabia que logo ele estaria gritando um gol de Zico. Aliás, Zico não. Um gol de Zico, Zicão, Zicaço. Meu pai seguia olhando o rádio, onde estava escrito Philco acima da tela metálica e furadinha. O som enchia a sala de heróis que circulavam ao redor de nós. Uma sucessão de espectros rubro-negros: Zico tocava a Adílio, que driblava um e abria para Júlio César, o entortador, que entortava um, dois, três, e a bola voltava para Zico que então virava Zico, Zicão, Zicaço. Meu pai sorria olhando para o rádio: o Flamengo saía dali.»

Os relatos do futebol pela rádio.

As perfeitas tardes de domingo de um tempo perdido para sempre, vozes que ainda ouço apesar de já não andarem por aqui.

As tardes de domingo, os jogos a começarem todos à mesma hora, os relatos na Emissora Nacional, as marchas do John Philip de Sousa, enquanto se aguardava a ligação ao estádio, o Artur Agostinho, o Amadeu José de Freitas, o Nuno Brás e era apenas o relato de um jogo, mais tarde passaram a dois: «atenção Nuno, jogada perigosa».

João César Monteiro, em As Recordações da Casa Amarela, deitado na cama do quarto alugado, ouvindo, num rádio de pilhas, o relato da Emissora Nacional. A voz do locutor, de repente, grita: «golo do Benfica», o João César ergue-se, de braços no ar a vitoriar o golo.

Manuel Alegre, no seu livro Alma, recorda essas tarde de relatos de futebol nas tardes de domingo, a voz de Alfredo Quádrios Raposo que eu já não apanhei:

…os jogos de domingo e os relatos de Alfredo Quádrios Raposo, o melhor locutor desportivo de todos os tempos. Nesse tempo não havia transmissões directas e ao fim das tardes de domingo ainda não se sabiam os resultados. Era preciso esperar pelo resumo da primeira parte e o relato da segunda, que eu ouvia no RCA, em companhia dos meus amigos que não tinham rádio. Ouvíamos então a voz inconfundível de Alfredo Quádrios Raposo anunciar os golos do Peyroteu, os tentos do Julinho, as grandes jogadas do Vasques e do Travassos, os cortes de cabeça de Feliciano, os dribles de Mariano Amaro, a recepção de bola com o peito de Francisco Ferreira, capitão do Benfica. E as defesa do Azevedo, do Capela, do Martins, do Barrigana, as intercepções do Guilhar, os remates fulminantes de Araújo. Ou os nomes raros dos jogadores do Sul, como o Abraão e o Grazina, do Olhanense, o Patalino e o Massano, do Elvas. Eram momentos inesquecíveis, sobretudo quando havia jogos entre os grandes. A minha irmã por vezes ia espreitar por detrás do aparelho e nenhum de nós compreendia muito bem como era possível o jogo estar a decorrer nas Salésias, em Alvalade, no Campo Grande ou na Constituição e nós em Alma a ouvir o relato como se estivéssemos a ver. Seguíamos as palavras, as entoações de voz, as mudanças de ritmo, as pausas. E víamos. Era uma forma de ficção, quase sempre mais verdadeira do que a realidade. Nunca ninguém relatou como Alfredo Quádrios Raposo. Ele era a nossa ligação à capital, ao Estádio, ao jogo. Durante muito tempo ele foi a nossa festa, todos os domingos, ao fim da tarde.
Os jogadores viviam na nossa imaginação como figuras de lenda. Conhecíamo-los apenas das fotografias dos jornais, da revista Stadium e dos cromos que comprávamos embrulhados em rebuçados para depois colarmos numa caderneta. Mas era na voz de Alfredo Quádrios Raposo que verdadeiramente víamos os jogadores. Entravam em nossa casa, todos os domingos, ao fim da tarde. Vinham na voz daquele locutor de quem nunca vi o rosto nem faço a mínima ideia de como era, se alto ou baixo, se magro, se gordo, se velho, se novo. Era uma voz, um brado na tarde triste, um drible, um centro cruzado, um remate de cabeça, uma defesa para canto, uma recarga, um golo. Primeiro no RCA, depois no Telefunken trazido da Alemanha por Tiago de Faria, meu tio, que o deu a meu pai, juntamente com uma espingarda, a troco de uma edição rara, senão mesmo a primeira, da Arte de Bem Cavalgar a toda a Sela, de D. Duarte.
Também esses velhos aparelhos, quando aqueciam, tinham um cheiro. Eu guardo comigo o cheiro do RCA e do Telefunken nas tardes de domingo, um cheiro inseparável da voz de Alfredo Quádrios Raposo e da imagem de Peyroteu a marcar, com Feliciano à ilharga, mais um golo do Sporting contra o Belenenses, no Estádio das Salésias.

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ

A triste notícia é esta: Milton Nascimento, aos 82 anos, aconteceu-lhe, após exames médicos, a demência. Não mais escreverá canções, não mais cantará, estende-se o enorme vazio e irá nos deixando aos poucos…

De entre os discos de Milton escolhi esta Missa dos Kilombos, gravado ao vivo na Igreja de Nossa Senhora Mãe dos Homens, Caraça, em Março de 1982.

Não sendo de igrejas nem latinórios, gosto muito deste disco e sempre que o ouço sinto arrepios, arrisco a dizer que por ele se pode chegar aos caminhos do tal Cristo, que, alguns, dizem ter sido o primeiro comunista.

Permito-me citar o começo do texto que Pedro Casaldáliga, arcebispo de São Felix, escreveu para o encarte do disco, e que, juntamente com D. Helder da Camara, arcebispo de Olinda e Recife, D. José Maria Pires Arcebispo de João Pessoa, celebram a missa ao lado dos cantores músicos e dançarinos deste projecto de Milton:

Em nome de um Deus supostamente branco e colonizador, que nações cristãs têm adorado como se fosse o Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, milhões de Negros vem sendo submetidos, durante séculos, à escravidão, ao desespero e a morte. No Brasil, na América, na África mãe, no Mundo.

Deportados, como "peças", da ancestral Aruanda, encheram de mão de obra barato os canaviais e as minas e encheram as senzalas de individuos desaculturados, clandestinos, inviáveis. ( Enchem ainda de sub-gente - para os brancos senhores e as brancas madames e a lei dos brancos - as cozinhas, os cais. os bordéis, as favelas, as baixadas, os xadrezes).

Mas um dia, uma noite, surgiram os Quilombos, e entre todos eles, o Sinai Negro de Palmares, e nasceu, de Palmares, o Moisés Negro, Zumbi. E a liberdade impossível e a identidade proibida floresceram, "em nome de Deus de todos os nomes", "que faz toda carne, a preta e a branca, vermelhas no sangue".

Vindos  "do fundo da terra", "da carne do açoite", "do exilío da vida", os Negros resolveram forçar "os novos Albores" e reconquistar Palmares e voltar a Aruanda.

E estão aí, de pé, quebrando muitos grilhões - em casa, na rua, no trabalho na igreja, fulgurantemente negros ao sol da Luta e da Esperança.

Para escândalo de muitos fariseus e para alívio de muitos arrependidos, a Missa dos Quilombos confessa diante de Deus e da História, esta máxima culpa cristã.

Na música do negro mineiro Milton e de seus cantores e tocadores, oferece ao único Senhor "o trabalho, as lutas, o martírio do Povo Negro de todos os tempos e de todos os lugares."

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

JANELA DO DIA



Uma canção do West Side Story diz, em tradução livre, que com o grupo do bairro tu és rei, sem o grupo não és nada.

A história da UGT é um longo repositório de pequenas e grandes traições para com os trabalhadores portugueses.
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Lembramo-nos de Torres Couto, celebrando a assinatura de um acordo social, a beber calicezinhos de Vinho do Porto com o então primeiro-ministro Cavaco Silva, vimos agora João Proença empoleirado em Pedro Passos Coelho.

A UGT remonta ao tempo em que determinadas figuras públicas portuguesas, verificando a unidade dos trabalhadores na defesa das conquistas de Abril, entenderam que seria imperioso quebrar a espinha à Intersindical.

Os resultados, apesar de todos os avisos ao longo de todos estes anos, estão, hoje, bem à vista.

E ainda a procissão não saiu da igreja.

Manuel Carvalho da Silva, comentando, a assinatura do acordo obtido entre o patronato, o governo e a UGT, denunciou 

Esta jogada da meia hora de trabalho a mais, lançada pelo Governo, é uma das manobras mais ardilosas na história da democracia e algumas entidades mais retrógradas da sociedade viram na proposta de aumento do horário de trabalho diário uma oportunidade para impor a mais violenta reforma da legislação laboral depois do 25 de Abril.

Constança Cunha e Sá, comentarista que, de modo, algum, pode ser rotulada de esquerdisya, ou algo que se pareça, disse ontem na TVI 24  que Portugal estar a efectuar uma desvalorização do trabalho à custa dos trabalhadores e que por isso mesmo «dá razão à CGTP. O que acontece é que de facto é que não tendo Portugal possibilidade de diminuir e desvalorizar a moeda, o que está a acontecer é que estamos a desvalorizar o valor do trabalho. Agora, o problema é que isso é muito feito muito à conta dos trabalhadores e eu aí, tenho de dar razão à CGTP porque é muito feito à conta dos trabalhadores, seja funcionários públicos, seja por trabalhadores à conta de outrem.

O líder da UGT, João Proença, disse que foi incentivado por altos dirigentes da CGTP a negociar o acordo de concertação social com o Governo, e que para esta ultima foi muito importante a anuência da UGT ao documento que ontem subscreveu, conjuntamente com o Governo e as associações patronais representadas na Concertação Social, porque, se não houvesse negociação, não só havia um clima de conflito extremamente perigoso como, sobretudo, estaria em causa a actividade sindical.

Esta notícia, retirada do Público-on line, mereceu, por parte dos seus leitores, diverso tipo de comentários. Alguns deles:

     
     a)      Que lhe assoprasse ao ouvido, um astrólogo, um passarinho, uma libelinha, Nossa Senhora       de Fátima ou um alto dirigente não socialista da CGTP, um acordo destes não se assinava!

b)      Alguém acredita que uma pessoa idónea seja obrigada a fazer o que não quer? Alguém acredita que uma pessoa idónea assine um qualquer documento que vá contra as suas convicções.

c)      A unidade entre as centrais é importante, mas não se pode aguentar todos os desaforos, particularmente este agora de João Proença. Procura justificar o injustificável; afinal o acordo com o governo e patrões é de uma grande violência, não para os patrões, claro. JP procura vários argumentos, quase todos eles estapafúrdios. A CGTP que reaja, mas gostaria que evitasse, se possível, meter-se em tribunais. Não é bom. Já andamos suficientemente maltratados para ver escarrapachada nos tribunais uma luta que em nada beneficia o movimento sindical. (...) Provavelmente, a UGT irá secar com o tempo.

d)     O problema é que toda esta "Gente" já perdeu a vergonha há muito tempo. Quando um primeiro ministro é capaz de dizer que este acordo foi Bom para Todos está tudo dito. Pode ir embora. Quanto ao Sr. João Proença, encostado à parede durante 17 horas e habituado a fazer os 2 papéis (do lado do PS ou de quem mandava nele ou dos trabalhadores!!!) um dia tinha de ser. Atraiçou-os definitivamente. Esta "Gente" não sabe retirar-se a tempo e depois dá isto. Uma coisa é segura. Uma minoria (patrões) não vai nunca conseguir esmigalhar a maioria ( os trabalhadores) Esperem. Quem escreve estas linhas não tem partido politico nem é de direita ou esquerda de cima ou debaixo É só alguém sensato que tenta manter-se lúcido no meio destas palhaçadas todas..... que já ultrapassaram quase todos os limites.

e)      Só mesmo em Portugal é possível que o dirigente duma dada organização diga ter tomado determinada posição, não por vontade dos seus colegas de direcção, mas sim pela pressão ds dirigentes duma organização rival. A desculpa é a anedota do dia. Mas existiu. E bem justitica que, para nossa sanidade mental, seja dirimida em tribunal. Só nos faltava que quem não assinou e sempre denunciou um acordo espúrio e nocivo para os trabalhadores pudesse agora vir a ser penalizado pelo que outros fizeram.

f)       Declarações miseráveis para justificar a assinatura de um acordo miserável. O Proença, que no meu sindicato da UGT é tratado de "Monas", sempre preferiu andar de braço dados com os governos e os patrões, viajando em classe executiva, de copo na mão e calças no chão

g)      .Sou trabalhador hà 23 anos e nunca vi um sindicalista a trabalhar. Não sou sindicalizado.

Vitor Dias no Tempo das Cerejas admira-se de não ouvir nenhum jornalista perguntar:

Ó  homem, mas se você não tem por hábito mentir, então diga lá os nomes dos da CGTP que lhe pediram o que você diz que pediram ?

Bruno Sena Martins no Arrastão escreve:

É uma injustiça o que estão a fazer ao João Proença. Chamarem-lhe sindicalista. Não se faz.

Torres Couto, um dos fundadores da UGT, é de opinião que o acordo assinando pode ser a certidão de óbito da central sindical.

Os Trabalhadores Sociais-Democratas acusaram hoje a CGTP de ultrapassar os limites da decência democrática ao anunciar uma acção judicial contra João Proença, que garantiu ter sido pressionado por dirigentes da CGTP a assinar o acordo de concertação social.

Manuel da Silva Carvalho, ao cair da tarde de hoje,  garantiu aos jornalistas que não existe nenhum problema entre a CGTP e a UGT.

O que há é um disparate dito por uma pessoa e uma encenação deliberada para transformar os problemas gravíssimos num folhetim sobre uma questão entre a UGT e a CGTP.

domingo, 2 de novembro de 2025

CRONICANDO POR AÍ


«Gosto tanto do Cemitério dos Prazeres. E ali estava, de novo. Foi, lembro-me, no funeral do Eduardo Prado Coelho. Há quantos anos? Há dez? O Pedro Bandeira Freire ao meu lado, as cinzas iam ser postas numa das pequenas gavetas-túmulo desse extraordinário cemitério com uma das melhores vistas de Lisboa – a do Alto de São João também não é má, e continuo ainda sem saber qual escolher.

O Eduardo, como foi hedonista o último livro que publicou em vida, comigo, o seu Nacional e Transmissível, teria, a essa sua maneira hedonista, gozado a ironia da situação: uma manhã linda, agradabilíssima essa ala do cemitério, a morte como uma gata a ronronar-nos ao ouvido, e dois amigos a segredar coisas, com o Pedro a ter as despesas da originalidade da conversa. E foi o que ele me disse, lendo os nomes dos mortos inscritos nessa vasta parede: “Eh pá, já tenho mais amigos nestes túmulos do que amigos aqui fora.”

Não sou muito de me agarrar a datas ou de deixar que as datas se me agarrem à fraca pele, nem o 25 de Abril, nem o 25 de Novembro, nem os aniversários, muito menos o 5 de Outubro, talvez o Natal por serem dois dias, mas há os Mortos, Dia de Fiéis Defuntos e esse dia deles, por muito pouco mexicano que eu seja e pouco dado a carnavais de açucarados e míticos dias de enterro, que é mais coisa para D. H. Lawrence e, sobretudo, para Malcolm Lowry, mas eh pá, também já tenho mais amigos nas catacumbas da Senhora Dona Morte do que à luz do dia da Menina Vida.

Eu já podia fazer um rosário de nomes, um rosário de amigos. Dividi-lo-ia em mistérios, os dolorosos, os gozosos e os gloriosos, que são exactamente os mistérios do Santo Rosário. É uma ideia que o peculiar catolicismo de João Bénard da Costa, por certo mariano, me aprovaria. Cada um dos meus amigos uma avé-maria. Uma avé-maria é o que era o Chico Grave, falsamente bruto como as casas, um poço de ternura de olhos fechados, que quando aquilo lhe subia do coração tinha mesmo de os fechar. Uma salvé-rainha o Bénard, príncipe cinéfilo, bispo renascentista, amante dos modernos Caravaggio, frequentador das mais escuras salas do século XX. E teria de lembrar, quero dizer, rezar, o Luis de Pina, o Bastos e Silva e mesmo, de tão zangado que foi comigo (e eu com ele) para a Outra Margem, o Emídio Rangel da homérica viagem a Nova Iorque em que até um cenário da Ópera ia tombando sobre o coro de pernas para que te quero, no Lincoln Center.

Os meus mortos. Tu, Pedro Bandeira Freire, com a tua mania de nunca estares sozinho, e que tens ao teu lado o Alface, o Raul Solnado (só agora, passados estes anos voltei à tasca da rua de baixo, desde que, Raul, deixaste de lá vir a um pratinho de caracóis), o Dinis Machado, que para estar bem tinha de estar contigo e a Dulce ali por perto, que deve ser onde ela está agora, a dois passos de vocês, entretida em exercícios de voz. Juntou-se-vos agora o António Escudeiro – que vos vai fazer a fotografia. E ouço uma voz. É a tua voz, bem sei, Manel Cintra Ferreira. Só a voz de um surdo, do mais divertido, musical e cinéfilo dos surdos, se ouve a esta distância. Não te fui acordar, meu Manel, para me vingar do dia em que me deixaste mais de meia hora a bater à tua porta e a atirar cartões de visita pela frincha do chão a ver se tu os vias, por te teres esquecido do jantar que tínhamos com o o Pedro e o Dinis. Vieram  os vizinhos do prédio todo e tu, de costas, na sala, a veres o The Searchers, que não havia cavalo, nem John Wayne que te tirasse dali.

Não sei o que diga aos meus mortos. E lembro-me que houve um Papa, o estranho polaco João Paulo II, que quis acrescentar ao Rosarium Virginis Mariae, novos mistérios, os mistérios luminosos. Eis os meus mortos, derramada luz. Quero que a vossa luz me entre por todos os lados. Que caia sobre mim, quando estou vestido e quando estou nu, quando durmo ou acordado. Só não quero que, mortos omniscientes, me vejam. Não te quero, Pedro, a dizeres coitadinho, desancando na minha elevada forma de vida amorosa, nem o João Bénard a criticar-me por eu escrever crónicas de cinema sem ter pelo menos cinco volumes dos Cahiers du Cinéma ao meu lado. Não quero, e sou capaz de rezar dois rosários seguidos e as salvé-rainhas que forem precisas, para que os mortos não possam ver ou saber o que os vivos fazem. Quero que tenham só saudades, as mesmas saudades que eu tenho deles.

Esclareço. Não quero que sejam cegos os mortos, muito menos os meus mortos. Quero que vejam e que se lhes inundem de luz os olhos, nesse reino de beleza e volúpia onde mortos vivem. E peço aos meus mortos um favor: abram bem esses olhos de luz, João, Pedro, Chico, todos, e vão à procura da Alice e do Artur. Foram, neste vale de risos e lágrimas, os meus pais. Alimentaram a minha boca, deram colo aos meus medos, puxaram lustro às minhas alegrias. Quase ninguém sabe, só os que ainda vivos os amaram, mas a Alice e o Artur fizeram o trabalho de excelência que só o amor incondicional e irretribuível consegue fazer. CEOs da minha alma. Vão encontrá-los à conversa com o Isidoro, meu sogro, ferrenho de tudo o que fosse vermelho. Digam-lhes. Tenho a certeza de que eles sabem, sempre souberam, mas hão-de, executiva e progenitora vaidade, gostar de ouvi-lo, alto e bom som, das vossas bocas amigas.»

Manuel S. Fonseca na sua Página Negra

domingo, 25 de outubro de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS

Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.


DIAS COMUNS

 

Como não compro livros em hipermercados, fnacs e outras variantes, apenas em livrarias, só no sábado tive a possibilidade de comprar o VII Volume dos Dias Comuns do José Gomes Ferreira.

Apercebi-me, então, que ainda não colocara, por aqui, nenhuma capa destes diários.

Apressei-me, no domingo a colocar a do I Volume e ontem a do agora saído VII Volume.

 As restantes irão aparecendo com o passar dos dias.

 Não quer isto dizer que ao longo destes tempos não tenham sido publicado muitos dos textos dos livros, principalmente durante o estertor salazarento colocado no Passar dos Tempos, finais de 1968.

 Segundo se pode constatar pela leitura de Música, Minha Companheira Desde Os Tempos daInfância, os Dias Comuns é um projecto que constará de 20 volumes.

 O último chama-se E A Vida Corre Sem A Elegância de Uma Gazela e percorre os dias de 1 de Outubro de 1979 a 25 de Maio de 1980.

 José Gomes Ferreira morreu a 8 de Fevereiro de 1985.

 A periodicidade da publicação destes diários tem sido de uma leviandade a todos os títulos lamentável.

 Vejamos e, por mera curiosidade, coloco o preço de cada volume, havendo um ou outro de que não tem essa indicação:

 1º Volume, Passos Efémeros, Outubro de 1990, mil novecentos e oitenta escudos.

 2º Volume, A Idade do Malogro, Setembro de 1998, dois mil duzentos e cinquenta escudos.

 3º volume, Ponte Inquieta, Maio de 2000.

 4º volume, Laboratório de Cinzas, Maio de 2004, catorze euros e quarenta cêntimos.

 5º volume, Continuação do Sol, Novembro de 2010, catorze euros.

 6º volume, Memória Possível, Janeiro de 2013.

 7º volume, Rasto Cinzento, Março de 2015, dezassete euros e noventa cêntimos.

 Ou seja: 25 anos para publicar sete volumes.

 Pelo andar da carruagem, muitos de nós, jamais irão ler os Dias Comuns na sua totalidade.

 Hélas!

 Quem é José Gomes Ferreira?

 Alguém lê José Gomes Ferreira?

 O império Leya comprou a Editorial Caminho, as Publicações Dom Quixote, outras editoras e mais não tem feito do que descaracterizar essas, em tempos, estimáveis editoras.

 Não admira que tantos autores já tenham batido com a porta, entre outros, Mário de Carvalho, João Tordo, José Saramago.

 Até António Lobo Antunes tem vindo a ser votado a um silencioso desprezo.

 De livros apenas devia tratar quem lhes sente a importância e os ame.

 José Gomes Ferreira deixou escrito que em todos os volumes destes diários deviam aparecer estas indicações:

 1.

Desejaria que estes meus Diários, pertencentes como as restantes minhas obras à minha mulher e filhos, fossem publicados na íntegra.

Antes da publicação gostaria contudo que consultassem os meus amigos mais íntimos para qualquer amputação ou disfarce (a substituição pelas iniciais de alguns nomes, por exemplo).

Exijo entanto que sejam sempre consultados o Carlos de Oliveira e o Alexandre Pinheiro Torres.

Lisboa, 7 de Março de 1976.

 2.

Imprimam sempre esta sentença no princípio de todos os meus diários:

Àqueles que podendo, por ter sido mal informado, peço que me perdoem e continuem a sorrir para a imagem.

 A abrir a nota que Maria Teresa Horta escreveu, em Dezembro de 2000 no Diário de Notícias, para os três primeiros volumes dos Dias Comuns, pode ler-se:

 Enchem-se-me os olhos teimosamente de lágrimas sempre que recebo mais um livro de José Gomes Ferreira, querido amigo desaparecido, que me ensinou a conservar o sorriso ao longo dos dias que vamos vivendo, e a esperança no mundo, apesar de tudo, e até nos outros, que nos levam a desconfiar de tanta coisa.

 E ainda:

Textos inestimáveis a trazer-nos de volta a memória de um Portugal amordaçado, amesquinhado. Pobre País no qual, apesar de tudo, José Gomes Ferreira acreditava.

 

Texto publicado em 14 de Abril de 2015

sábado, 27 de junho de 2015

SARAMAGUEANDO


As paixões acontecem, não se explicam.

Jorge Amado no seu livro memorialista, Navegação de Cabotagem:

As reedições de meus livros saem iguais às primeiras, apenas as gralhas vão em constante aumento, Paloma, que os andou relendo para saber o que os personagens comem, me informa que os erros gráficos se contam aos milhares. Tampouco jamais buli nas dedicatórias, também elas datadas – mesmo em se tratando de pessoas a quem deixei de estimar nem assim lhes retirei o nome da oferenda mesmo se retirei o indivíduo do meu bem-querer. Refiro-me, é claro, às edições brasileiras, as traduções fogem ao meu controlo. Lá estão os nomes todos, um a um – quando escrevi o livro estimava os admirava fulano a quem o dediquei, se depois ele se revelou calhorda, o nome permanece na dedicatória datando a escrita e a ingenuidade do autor.

José Saramago não teve este entendimento.

Desde que conheceu Pilar, as novas edições dos livros, antes dedicados a Isabel da Nóbrega, passam a não ter essa indicação.

Num lamento, Isabel da Nóbrega disse que foi uma atitude que não era preciso tomar.

Segundo o jornalista Luís Leal Miranda (jornal I  de 26 de Junho de 2010), Saramago pronunciou-se por várias vezes sobre o assunto, garantindo que as dedicatórias fizeram sentido na altura em que essas edições foram publicadas. E essas edições, já esgotadas, permanecem em sintonia com as inclinações amorosas da altura.

Num outro registo, Saramago salientou que as dedicatórias permanecem nas edições correspondentes ao tempo em que os livros foram escritos.

A história é conhecida.


Depois de ler livros de José Saramago, principalmente O Ano da Morte de Ricardo Reis, a jornalista espanhola Maria del Pilar ficou como que encantada.

Senti que tinha de agradecer ao autor os livros que me tinha dado a ler. E sobretudo dizer que tinha tratado os seus leitores como seres inteligentes. Tinha-me sentido respeitada como leitora e quis agradecer-lhe.

Veio até Lisboa e conseguiu uma conversa com Saramago.

Tal como na sinfonia de Beethoven, ambos terão sentido o destino a bater-lhes à porta.

Sabe-se o que aconteceu.

Desde então, os livros de José Saramago deixaram de ser dedicados à Isabel para passarem a ser dedicados a Pilar.

Os dois primeiros livros de José Saramago, Terra do Pecado (1947), Os Poemas Possíveis (1966), não têm qualquer dedicatória.

Mas em Provàvelmente Alegria já se revela uma leve indicação do que serão as dedicatórias futuras:

«Para tão grande amor tão curta a vida.»
Cheguei tarde ao encontro deste verso,
Outro o escreveu por mim, mas dele tomo,
Como rosa colhida que te ofereço.

Em Deste Mundo e do Outro (1971), algo um pouco mais especifico:

Não se dirá aqui o nome. Mas da sua exaltação nasceu este poema, do seu rigor esta autobiografia, da sua verdade esta meditação e basta.

Mas é com o livro seguinte, A Bagagem do Viajante (1973) que o nome finalmente surge e que, por diversos livros, José Saramago manterá: 

Dir-se-á desta vez aqui o nome. Pelas mesmas razões da exaltação, do seu rigor e da sua verdade. E porque estes dias são mais exaltantes ainda, mais rigorosos e de uma verdade que já é unidade inultrapassável. Isabel.

Seguem-se:

As Opiniões que o DL Teve (1974):

Para a Isabel e para os meus amigos.

O Ano de 1993 (1975):

Para a Isabel. Este livro, o antes e o depois dele, todos os passos e todos os gestos, todas as palavras ditas e as que estão por dizer. Assim. Mesmo que o tempo não entenda já de coisas como esta.

Os Apontamentos (1976):

À Isabel, este livro e todos.
Aos trabalhadores do «Diário de Notícias» que foram o meu apoio e a primeira justificação de quanto escrevi.

Manual de Pintura e Caligrafia (1976):

Para a Isabel, tão inseparável deste livro como da minha vida.

Objecto Quase (1977):

Para a Isabel, porque me disse de que lado está a vida.

A Noite (1979)

À Luzia Maria Martins, que me achou capaz de escrever esta peça.

À Isabel



Levantado do Chão (1980):

À Isabel sempre.

A João Domingos Serra e João Besuga, e também a Mariana Amália Besuga, Elvira Besuga, Herculano António Redondo, António Joaquim Cabecinha, Maria João Mogarro, João Machado, Manuel Joaquim Pereira Abelha, Joaquim Augusto Badalinho, Silvestre António catarro, José Francisco Curraleira, Maria saraiva, António Vinagre, Bernardino barbas Pires, Ernesto Pinto Ângelo – sem eles não teria sido escrito este livro.
À memória de Germano Vidigal e José Adelino dos Santos, assassinados.

Que Farei Com Este Livro? (1980):

À Isabel cada vez mais.

Viagem a Portugal (1981)

A quem me abriu portas e mostrou caminhos, à companheira constante que tantas vezes disse. «Repara» - e também em lembrança de Almeida Garrett, mestre de viajantes.

Memorial do Convento (1982):

À Isabel, porque nada perde ou repete, porque tudo cria e renova.

O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984):

À Isabel, outro livro, o mesmo sinal.

A Jangada de Pedra (1986)

Sem dedicatória

A Segunda Vida de Francisco de Assis (1987):

Sem dedicatória.

A História do Cerco de Lisboa (1989) é o primeiro livro em que aparece Pilar:

A Pilar

A partir daqui todos os livros serão dedicados a Pilar.

Em As Pequenas Memórias (2006), pode ler-se:

A Pilar, que ainda não havia nascido e tanto tardou a chegar.

Todo o ser humano é falível.

Felizmente!

Em 1944, José Saramago casa com a pintora Ilda Reis.
Entre 1954 e 1964, Isabel da Nóbrega viveu com o crítico João Gaspar Simões, que nunca perdoou ter sido trocado por um obscuro jornalista e tradutor.

A relação com Saramago durará de 1970 a 1976.

Pelo próprio Saramago fica a saber-se que Isabel da Nóbrega lhe abriu portas e novos caminhos.

Completamente despropositado e idiota existir quem defenda que foi Isabel da Nóbrega quem ensinou José Saramago a escrever.

Antes de Isabel, Saramago já era escritor.


Nota do editor: não foi possível encontrar uma fotografi de José saramago com Isabel da Nóbrega.

Legenda:
a) José Saramago, a mulher Ilda Reis, a filha Violante.
b) Isabel da Nóbrega.
c) José Saramago e Pilar.