quarta-feira, 6 de maio de 2015

NOTÍCIAS DO CIRCO


Pedro Passos Coelho diz que, em 2013, Paulo Portas pediu a demissão por SMS.

Paulo Portas desmente Pedro Passos Coelho.

O Pedro e o Paulo continuam a brincar no recreio da escola.

Nunca mais chega Outubro.

Ah! e ainda faltam 261 dias pr'ó Cavaco sair de Belém!

terça-feira, 5 de maio de 2015

POSTAIS SEM SELO


Nenhum homem deveria passar pela vida sem experimentar pelo menos uma vez a saudável e até aborrecida solidão.

Jack Kerouac

Legenda: pintura de Leonid Pasternack

OLHAR AS CAPAS


Véspera da Água

Eugénio de Andrade
Capa de Armando Alves
Editorial Inova, Porto, Setembro de 1973

Cavatina

Obstruído o caminho da transparência
só me resta reunir os fragmentos do sol nos espelhos
e com eles junto ao coração
atravessar indiferente a desordem matinal dos mastros.

Quando mais envelheço mais pueril é a luz
mas essa vai comigo.

È PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS

O QUARTO COR-DE-ROSA


A casa tinha olhos
que nos olhavam
de debaixo da casa.

Por eles se via
para dentro de nós,
uns olhos silenciosos

por onde se via o mundo:
o quarto cor-de-rosa, o guarda-fatos,
o misteriosos mundo das escadas.

Quando mudámos
de casa
os olhos procuraram-nos em vão,

mas tínhamos cegado;
trouxéramos a visão.
os móveis, as coisas vi-

síveis e as invisíveis,
mas o que víamos
tinha lá ficado.

Manuel António Pina em Poesia Reunida

OS TESOUROS DE SINATRA



Convite e cartaz de um show de Frank Sinatra e Dean Martin no Golden Nugget em Atalantic City, Setembro de 1983.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

POSTAIS SEM SELO


Sei que estou a progredir quando começo a não entender nada de nada.

Charles-Ferdinand Ramuz

MARCADORES DE LIVROS


OLHAR AS CAPAS


Os Militares e o Poder

Eduardo Lourenço
Capa: Vítor Santos
Editora Arcádia, Lisboa, Novembro de 1975


Temos de ajustar-nos ao que realmente somos e podemos para  partir daí construirmos um Portugal possível e não uma quimera. O que somos é considerável e nada desprezível, como nos grandes momentos de realismo e unanimismo pátrio provámos. E o que podemos, se soubermos adequar os meios de que dispomos à invenção do país possível, permite a esperança de dominar o desafio incomum que a situação actual e a nossa aposta histórica requerem. Mas é perfeitamente inócuo e nocivo recriar sob outra roupagem novos «orgulhosamente sós» ou exaltar-se com o pavor suposto ou efectivo que inspiramos neste momento a um «certo mundo» como demagogos em delírio o apregoam. Somos um povo nu, mas adulto. Todas as esperanças nos são consentidas se como adultos nos comportarmos. Todas as decepções, se não resistimos ao pendor lusitano de nos supormos já maravilhosamente vestidos com «a palavra» Socialismo.

OS IDOS DE MAIO DE 1975


 4 de Maio de 1975

Ainda tendo como pano de fundo os incidentes verificados no Comício do 1º de Maio, Mário Soares e Salgado Zenha, são recebidos pelo Presidente Costa Gomes, pelo Primeiro-Ministro Vasco Gonçalves e o PS convocou a sua primeira manifestação de rua, em protesto contra os incidentes.
Algumas das palavras de ordem dizem que Central Sindical só por via eleitoral e É preciso respeitar a vontade popular.
Juntam-se à manifestação militantes do PPD, da AOC e do PCP (ml).
A manifestação termina na sede do PS, em S. Pedro de Alcântara, e ao passar pelo edifício do Diário de Notícias na Avenida da Liberdade, ouviram-se apupos e gritos de Informação sim, Aldrabice não, e Socialismo sim, Ditadura não.
O PCP fala em manobras para perturbar o carácter unitário das comemorações do 1º de Maio e pôr em causa a Intersindical Nacional.
A FSP, pelo seu lado diz que o PS arvora-se em vítima dos acontecimentos que provocou, enquanto o MÊS lembra que o PS pode ter tido muitos votos nas urnas burguesas mas nada tem a ver com a luta sindical.
O PPD intervém na polémica lamentado que, apesar de todos os esforços, a Intersindical não tenha convidado o partido a estar presente no comício do 1º de Maio.
Do alto da varanda da sede do PS, Mário Soares gritou à multidão:
É tempo de dizer basta. O Partido Socialista não permitirá que se instale neste país uma nova ditadura, ainda que em nome de revolução-
Devido a um conflito entre redactores e tipógrafos, o jornal República não saiu ontem.
De um artigo de opinião, assinado por Armando Pereira da Silva, no Diário de Lisboa:
A actividade sindical dos trabalhadores deve sere neutra politicamente, mas a sua luta unitária é uma luta política. É a luta pela transformação radical da sociedade portuguesa: A sua vigilância e sentido da história são fundamentais. O objectivo a atingir é claro enão permite divisões. É preciso que os trabalhadores, vanguarda da revolução, saibam segregar os seus inimigos enquanto é tempo. Caso contrário, nunca mais arrancarão o poder de quem os explora.

Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.

Legenda. Mário Soares discursando na varanda da sede no Partido Socialista. Fotografia tirada de Os Dias Loucos do PREC 

MARILYN



de Manuel Machado da Luz, ao filme Marilyn, publicada na Seara Nova nº 1427, Setembro de 1964.
Em cima um anúncio ao filme, em exibição no Max, e tirado do Diário de Notícias de 4 de Dezembro de 1968.

FOI A PÁTRIA QUE AQUI VEIO


Tal como ficou prometido em AH!... AS ABÓBORAS!...

domingo, 3 de maio de 2015

POSTAIS SEM SELO


Escrever, ler ou adquirir um livro é sempre um acto de inteligência. Deve ser por isso que se vendem tão poucos livros.

William Saroyan

NOTÍCIAS DO CIRCO


A função dos sindicatos não é serem capitalistas. É serem solidários e defenderem os interesses dos trabalhadores.

PORQUE HOJE É DOMINGO


Primeiro domingo de maio, Dia da Mãe.
Bom domingo!


DEOLINDA DE JESUS

A minha mãe.
É a mãe mais bonita,
Desculpem, mas é a maior,
Não admira, foi por mim escolhida,
E o meu gosto, é o melhor,
E esta é a canção mais feliz,
Feliz eu que a posso cantar,
É o meu maior grito de vida
Foi o seu grito, o meu despertar,
Canção de mãe é sorrir,
Canção de berço de embalar,
Melodia de dormir,
Mãe ternura a aconchegar,
Canção de mãe é sorrir,
Gosto de ver e ouvir,
Voz imagem de sonhar,
Imagem viva lembrança,
Que faz de mim a criança,
Que gosta de recordar

A minha mãe,
É a mãe mais amiga,
Certeza, com que posso contar,
E nem por isso, sou a imagem que queria,
Mas nem sempre me soube aceitar,
Razão de mãe é dizer,
Mãe cuidado a aconselhar,
Os cuidados que hei-de ter,
As defesas a cuidar,
Saudade mãe é escrever,
Carta que vou receber,
Notícia de me alegrar,
Cartas visitas encontros,
Essa troca que nós somos,
Este prazer de trocar,
Canção de mãe é sorrir,
Gosto de ver e ouvir,
A ternura de cantar.

António Variações

sábado, 2 de maio de 2015

OLHAR AS CAPAS


Poesia Toda
2º Volume

Herberto Helder
Capa: Alda Rosa
Plátano Edotora, Lisboa, Setembro de 1973

BICICLETA

Lá vai a bicicleta do poeta em direcção
ao símbolo, por um dia de verão
exemplar. De pulmões às costas e bico
no ar, o poeta pernalta dá à pata
nos pedais. Uma grande memória, os sinais
dos dias sobrenaturais e a história
secreta da bicicleta. O símbolo é simples.
Os êmbolos do coração ao ritmo dos pedais –
lá vai o poeta em direcção aos seus
sinais. Dá à pata
como os outros animais.


O sol é branco, as flores legítimas, o amor
confuso. A vida é para sempre tenebrosa.
Entre as rimas e o suor, aparece e des
aparece uma rosa. No dia de verão,
violenta, a fantasia esquece. Entre
o nascimento e a morte, o movimento da rosa floresce
sabiamente. E a bicicleta ultrapassa
o milagre. O poeta aperta o volante e derrapa
no instante da graça.


De pulmões às costas, a vida é para sempre
tenebrosa. A pata do poeta
mal ousa agora pedalar. No meio do ar
distrai-se a flor perdida. A vida é curta.
Puta de vida subdesenvolvida.
O bico do poeta corre os pontos cardeais.
O sol é branco, o campo plano, a morte
certa. Não há sombra de sinais.
E o poeta dá à pata como os outros animais.


Se a noite cai agora sobre a rosa passada,
e o dia de verão se recolhe
ao seu nada, e a única direcção é a própria noite
achada? De pulmões às costas, a vida
é tenebrosa. Morte é transfiguração,
pela imagem de uma rosa. E o poeta pernalta
de rosa interior dá à pata nos pedais
da confusão do amor.
Pela noite secreta dos caminhos iguais,
o poeta dá à pata como os outros animais.


Se o sul é para trás e o norte é para o lado,
é para sempre a morte.
Agarrado ao volante e pulmões às costas
como um pneu furado,
o poeta pedala o coração transfigurado.
Na memória mais antiga a direcção da morte
é a mesma do amor. E o poeta,
afinal mais mortal do que os outros animais,
dá à pata nos pedais para um verão interior.

POSTAIS SEM SELO


Sendo ateia e não acreditando noutra vida, sempre pensei que seria bom ter várias vidas nesta.

Alexandra Lucas Coelho

OUTROS PRIMEIROS DE MAIO




Recortes do Diário de Lisboa de 2 de Maio de 1973.

NOTÍCIAS DO CIRCO



Devia estar de cana há um ror de anos.
Não está e passeia-se por aí.
Nos intervalos dá conselhos políticos ao Pedro.
Esta gente não tem vergonha nenhuma.
Cambada de escroques!

O FINAL DA GUERRA EM LISBOA, 1945


Não houve qualquer meio de impedir os portugueses de, nos primeiros dias de Maio de 1945, virem para as ruas, euforicamente, festejar a vitória dos aliados face à besta nazi.

Tão pouco isso interessava aos propósitos de hipocrisia neutral de Salazar.

Por isso as tolerou.

Sempre esteve com Deus e com o Diabo.

Tinha eu pouco mais de um mês de vida, mas por esses dias por estas ruas, lá andaram o meu avô e o meu pai.

O meu avô contava que, nas ruas, apareceram bandeiras portuguesas, britânicas, norte-americanas, francesas e… bandeiras do Benfica, habilidade, contava ele, utilizada para representarem a bandeira da União Soviética.

Numa entrevista, de que não tenho indicação de nome e data do jornal, José-Augusto França confirma a versão do meu avô:

Mais tarde, soube que por cá os meus amigos tinham andado em grandes festas e que se fizeram manifestações a festejar a vitória dos aliados, apareceram uns paus sem bandeira e até bandeiras do Benfica. Eram, evidentemente, a homenagem aos aliados soviéticos, cujo nome não podia ser mencionado

José Gomes Ferreira, em Intervenção Sonâmbula, também refere o episódio:

No entanto, o povo berrava nas ruas a sua alegria com lágrimas e bandeiras (muitos empunhavam apenas paus nus com imaginárias bandeiras vermelhas da pátria dos sovietes), ainda com alguns ingénuos a quererem convencer-se de que a mágica queda do salazarismo aconteceria no dia seguinte.

Quem não dançou, quem não cantou, quem não soltou vivas e morras nessa noite? Mas entre aqueles milhares e milhares de pessoas, recordo-me sobretudo – é curioso como certas imagens sobrenadam na memória em detrimento de outras – recordo-me do Fernando Lopes Graça então 30 anos mais novo, a mancar, com os pés doridos de tanto marchar pelas pedras de Lisboa


No prédio onde está o British-Bar, em Março de 1945 içaram-se as bandeiras portuguesa, britânica e norte-americana.


Legenda: fotografia da Fundacionmapfre

sexta-feira, 1 de maio de 2015

POSTAIS SEM SELO


… nestes dias em que viver alegre é quase afronta.

Eduardo Guerra Carneiro em Algumas Palavras


Legenda : pintura de John French Sloan

HINO DA INTERSINDICAL


Operários, vanguarda do povo
camponeses que a terra lavrais
libertai-vos do jugo para sempre
é o povo quem vós libertais

Unidade! Unidade! Unidade!
Do trabalho contra o capital!
Camaradas, lutemos unidos
porque é nossa a vitória final.

Norte a sul, vinde trabalhadores,
pescadores não fiqueis para trás
avançai, e sem medo, na luta
pelo pão, p’lo trabalho, pela paz.

Unidade! Unidade! Unidade!
Do trabalho contra o capital!
Camaradas, lutemos unidos
porque é nossa a vitória final.

Todos juntos numa só torrente
na cidade, no campo e no mar
alcancemos com as forças armadas
liberdade, governo popular

Unidade! Unidade! Unidade!
Do trabalho contra o capital!
Camaradas, lutemos unidos
porque é nossa a vitória final!


Música: autor anónimo do século XIX. A música apareceu em 1852, por ocasião das lutas civis da Patuleia e Maria da Fonte.
Arranjo e direcção de coros: Pedro Osório.

OLHAR AS CAPAS


Piso 3, Quarto 313

Fernando Correia
Prefácio: Manuel Sérgio
Capa: Ilídio J.B. Vasco
Guerra e Paz Editores, Lisboa, Março 2015

 Estou sentado numa sala ampla, quase quadrada, com duas janelas rasgadas sobre um quadro de natureza e sobre o nada-reflexo dos olhares dos doentes, e uma porta que comunica com as outras portas que hão- de levar a diferentes corredores e, inevitavelmente, ao quarto 313, cama 29, deste 3.º piso onde a Vera «vive» há cerca de dois anos, depois de ter estado quatro meses na unidade de recuperação, no 4.º piso, sem nenhum resultado prático. Pelo menos, visível.
   Assumindo a frustração do desengano, diria mesmo que foram quatro meses de completa desilusão para mim e para os familiares mais chegados que acreditavam na possibilidade da recuperação.
(…)
Que mundo estranho será esse onde ela está, onde ela habita? Que realidade encerra? Que mistério esconde?
(…)
Que loucura invade o mundo para que as coisas aconteçam deste modo?

Para sofrer o que se é e tudo o que se não é, mais o tudo que não se fez?

OS IDOS DE MAIO DE 1975


1 de Maio de 1975

 O povo voltou a descer às ruas, mas ficou um tanto ou quanto longe do entusiasmo do primeiro 1º de Maio.
Deveria ter sido, mas já muita água correra por debaixo das pontes.
Tal como se lê em Portugal Depois de Abril:


José Luís Judas, na altura era um dos principais dirigentes da Intersindical, assistiu a tudo.
Já afastado das lides políticas e sindicais, já depois de ter aderido ao Partido Socialista, chegando a ser Presidente da Camara de Cascais.
Judas revela aos autores de Os Dias Loucos do PREC:
«Quem deu ordem para não deixar entrar Mário Soares foi o major responsável da segurança da tribuna, ligado aos sectores esquerdistas». O major em causa era Campos Andrada que, segundo um documento da Comissão Política do CR, «se declarou contrário à entrada fosse de quem fosse na tribuna, temendo consequências desagradáveis para o PR». Os socialistas reagem e retiram-se do estádio. José Luís Judas considera que «esse 1º de Maio marca o início da ruptura do PS com o resto da esquerda. O PS percebeu que era um excelente pretexto para começar a separar as águas».
César Oliveira em Os Anos Decisivos:
Penso ter começado aqui, com os incidentes do Primeiro de Maio e com a passividade, perante essas ocorrências, do Conselho da Revolução, um processo de crise política, cada vez mais profunda, que só terminaria no 25 de Novembro.
Mário Soares, numa entrevista a Maria João Avilez em 1995, há-de, cito de memória, que entraram no Estádio lº de Maio para estragar a festa, entrando aos socos e encontrões.


Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.
- Portugal Depois de Abril de Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso.
- Os Anos Decisivos de César Oliveira.  

Legenda: tribuna do comício do 1º de Maio de 1975.


DECRETAVA FERIADO A MIM PRÓPRIO


De repente, recordo-me de que, durante a opressão salazarista, sempre festejei o 1º de Maio à minha maneira. Decretava feriado a mim próprio, punha uma gravata vermelha e marchava em cortejo sozinho por essas ruas empunhando uma encarniçada bandeira mental.

José Gomes Ferreira em Intervenção Sonâmbula

Legenda: capa de O Seculo Ilustrado de 4 de Maio de 1974