quinta-feira, 13 de abril de 2023

CONVERSANDO


 O que é uma cidade sem livrarias?

Só os loucos fazem estas perguntas. O resto não se importa com isso, com o que quer que seja,

Sou do tempo em que a cidade tinha livrarias, que havia livreiros que amavam os livros e disso faziam o seu mundo.

Continuo com saudades do José Duarte.

Tão cedo irei largar os livros que nos deixou.

Hoje, recordo um final de texto do «Jazzé e Outras Histórias». Tem por lá uma frase maravilhosa, única:

«… lia-se mais, lia-se melhor…»

O texto está na página 75:

« Agora já se pode escrever (poder-se-á) que naquela esquina nos anos 50 para os 60 havia livreiros com livrarias resistentes. Sempre que entro na «Barata» as recordo: a própria «Barata» pequenina, a cultura, sim a «Cultura» ali ao pé do Liceu Camões. E o medo à saída com os livros embrulhados debaixo do braço e o medo em casa com eles ainda meio-escondidos… Lia-se mais, lia-se melhor, aprendia-se, estava-se na idade.» 

QUOTIDIANOS

Tenho andado por aí, mas, um tanto ou quanto, longe, de todo o tipo de notícias.

Na vaguíssima ilusão que  isso me trouxesse qualquer benefício.

Mas não.

Regresso, dramaticamente triste, desgostoso, sei lá o que mais.

Tenho por aí uma frase pronta para os Ditos & Reditos, que diz: «Todos nós, na nossa vida, temos uma hora de burro.»

Certo.

O que se passa com este meu país?

quarta-feira, 12 de abril de 2023

VELHOS RECORTES


 O Campeonato do Mundo de Futebol de 1962 realizou-se no Chile.

A final foi disputada entre o Brasil e a Checoslováquia com a vitória do Brsail por 3 a 1.

Este é um recorte do «República»  de 17 de Junho de 1962, retirado da secção «Factos e Documentos» da «Seara Nova» nº 1401 de Julho de 1962,

QUOTIDIANOS

Que fazemos ao tempo?

Como se procura o tempo perdido?

Claro, que não é fácil ser-se Proust.

A Páscoa já lá vai.

Mais umas semanas e chegaremos aos Santos Populares e, de repente, estamos com os meses de férias pela frente.

É então que Setembro se apresenta e, começa a cheirar a Natal.

Que fazemos ao tempo?

Escreveu Tenessee Williams que há uma hora de partida mesmo quando não há lugar certo para ir.

terça-feira, 11 de abril de 2023

CONVERSANDO


As pessoas vivem mal entre si, agarrados sistematicamente a um telemóvel, vivem muito pior.

Chegámos ao ponto de nos transportes públicos, por exemplo, termos de ouvir conversas que se cruzam entre telemóveis, algumas de arrasar.

Não foi o caso da que fui ouvindo, hoje, no metro entre São Sebastião e a Alameda, uma moça, sentada a meu lado, dizia a alguém que passou a admirar a pntura de Van Gogh depois de, pela primeira vez, ter ouvido a canção «Vincent» do Don McLean.

Sim, uma lindíssima canção, e faria todo o sentido lembrar à moça que na canção se diz que «eles não ouviram, continuam a não ouvir e talvez nunca ouçam» com ligeiro aviso de que seria bom que as pessoas conseguissem abandonar a constância dos telemóveis e conversassem mais entre si.

domingo, 9 de abril de 2023

OLHARES


 Lisboa no cair da tarde de domingo de Páscoa.

O sol a despedir-se atrás de um dos dois mamarrachos do Instituto Superior Técnico.

sábado, 8 de abril de 2023

CONGRESSOS DE AVEIRO


 Recorte da 1ª página do Diário de Lisboa de 6 de Abril de 1973.

Líamos as notícias, mas sabíamos que os textos, quando publicados, saíam altamente mutilados pela CENSURA.


Fotografia retirada da 1ª página do Diário de Lisboa. mostrando dois GNRs, colocados à entrada,do Parque de Campismo de Aveiro, para dizerem que o parque estava encerrado para obras. Foram muitas as centenas de democratas que se deslocaram a Aveiro para assistir ao Congresso. A cidade tinha os hoteís e pensões esgotados e a polícia decidiu que era uma óptima altura para colocar em obras o Parque de Campismo.


Despacho do governador civil de Aveiro dando conta que estavam proibidos quaiquer actos público durante a realização do Congresso de Aveiro.


Editorial do República de 9 de Abril de 1973, da autoria de Raul Rego.

Crítica de televisão de Mário Castrim publicada no Diário de Lisboa de 10 de Abril de 1973.


Artigo e opinião do jornalista Gonçalves André, publicado no República de 13 de Abril de 1973.

sexta-feira, 7 de abril de 2023

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


 Jesus morre, morre, e já o vai deixando a vida, quando de súbito o céu por cima da sua cabeça se abre de para em par e Deus aparece, vestido como estivera na barca, e a sua voz ressoa por toda a terra, dizendo, Tu és o meu Filho muito amado, em ti pus toda a minha complacência. Então Jesus compreendeu que viera trazido ao engano como se leva o cordeiro ao sacrifício, que a sua vida fora traçada para morrer assim desde o princípio dos princípios, e, subindo-lhe à lembrança o rio de sangue e sofrimento que do seu lado irá nascer e alagar toda a terra, clamou para o céu aberto onde Deus sorria, Homens perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez. Depois, foi morrendo no meio de um sonho, estava em Nazaré e ouvia o pai dizer-lhe, encolhendo os ombros e sorrindo também, Nem eu posso fazer-te todas as perguntas, nem tu podes dar-me todas as respostas. Ainda havia nele um resto de vida quando sentiu que uma esponja embebida em água e vinagre lhe roçava os lábios, e então, olhando para baixo, deu por um homem que se afastava com um balde e uma cana ao ombro. Já não chegou a ver, posta no chão, a tigela negra para onde o seu sangue gotejava.

 

José Saramago em O Evangelho Segundo Jesus Cristo

SEXTA-FEIRA SANTA


 Numa sua crónica, João Bénard da Costa cita uma frase de Romano Guardini:

 «O Cristo na Cruz! Ninguém conseguirá jamais perceber este mistério!»

 Tão pouco sabia Bénard da Costa porque de «há muito longo tempo» reteve a frase.

 E adiantava:

 «Os mistérios só são mistérios porque ninguém os percebe e porque é estulto aquele que os tenta perceber. Cristo na Cruz, para qualquer cristão, é um mistério. Mas Cristo ressuscitado também. E, na esfera do mistério, não cabe o maior nem o menor. Quando não percebo, não posso perceber o tamanho do que não percebo. Se abro a porta para uma escuridão total, nunca poderei saber se essa escuridão é imensa ou atravessável em sete passos. A não ser que me enfie nela, o que não posso fazer pois que não tenho sustentação possível».

 Semana Santa.

 A entrada de Jesus em Jerusalém, a subida ao Monte Calvário, a morte e a ressurreição.

 Vitória, cantam os cristãos católicos.

 Porquê?

 Dizem que é a vitória da vida sobre a morte.

 «Ninguém conseguirá jamais perceber esse mistério.»

 Ninguém!

 Legenda: pintura de Paul Gauguin

NÃO FOI POR MIM

Não foi por mim que deixaste que te pendurassem na cruz 

não foi por mim

que te deixaste matar

Não foi por mim que deixaste que te insultassem e cuspissem

não foi por mim

que morreste

Ninguém se deixa matar assim

para cumprir a vontade do pai

— Pai Pai faça-se a tua vontade! —

Ninguém se deixa matar assim

porque um dia alguém se lembrou de oferecer uma maçã

Não sei quantas maçãs já me ofereceste

sem que um anjo com uma espada de fogo viesse para nos expulsar

do nosso apartamento de três assoalhadas

Não foi por mim que tu morreste

e ressuscitaste ao terceiro dia

É uma herança demasiada pesada

para se deixar a alguém

que só viria a nascer dois mil anos depois

e cujo único pecado foi nascer

Não foi por mim nem por ti nem por ninguém 

que tu morreste

e continuas a morrer todos os dias

Há quem não saiba fazer outra coisa senão morrer 

e voltar a morrer

Nem a vontade do Pai te serve de álibi

Não foi por mim que tu morreste

embora eu seja capaz de morrer por ti 

 

Jorge Sousa Braga

quinta-feira, 6 de abril de 2023

O JORNALISMO É COMO O JAZZ DE JOSÉ DUARTE?


Nunca estive na mesma sala que José Duarte. Falei, algumas vezes, com o autor do programa de rádio Cinco Minutos de Jazz ao telefone por motivos profissionais. E, no entanto, a notícia da morte dele, na passada quinta-feira, enlutou-me.

Se gosto de música (de jazz e de muitas outras), se penso ideologicamente do lado progressista da política, devo isso ao trabalho de muitas pessoas e uma delas, desde os meus 10/11 anos, foi o trabalho de José Duarte: os seus programas na rádio e na televisão, os seus artigos, os seus livros deram-me centenas de horas de prazer, toneladas de saber e possibilidades infinitas de reflexão - uma dívida que nunca agradeci.

Vou tentar retribuir, aqui, citando uma parte da comunicação que José Duarte fez no Congresso dos Jornalistas de 1998.

Há 25 anos, era Bill Clinton presidente da América, José Duarte, em defesa da ideia de que a comunicação social deveria dar mais espaço e relevância às artes e à música, sobretudo às que não são conhecidas da maioria das pessoas, fez um paralelo entre o papel do jazz e o papel dos jornalistas.

Penso que não era mau nós, jornalistas, voltarmos a escutar, nestes tempos de bolhas comunicacionais, pensamentos únicos e orgulhosa intolerância perante a diferença, lermos com atenção o que se segue:

"Um jornalista, qualquer jornalista deve ser uma individualidade culta, com atenção a áreas que ultrapassam a sua área de atuação.

Quem sabe que um penálti é quase golo garantido deve saber que Parker não foi quem inventou as canetas de tinta permanente, mas sim um saxofonista genial.

Tal como quem sabe os solos de Miles Davis de cor deve saber que Clinton toca (saxofone) tenor e pode decidir sobre bombardeamentos.

"Os programas [de José Duarte] na rádio e na televisão, os seus artigos, os seus livros deram-me centenas de horas de prazer, toneladas de saber e possibilidades infinitas de reflexão - uma dívida que nunca agradeci."

Todos lutamos por um povo culto com jornalismo culto e ser culto é reconhecer e conhecer Outras Culturas, Outras Músicas, que são a propósito delas as minhas principais denúncias.

Um especialista - também se sabe - é todo aquele que cada vez sabe mais de cada vez menos.

Um jornalista não deve ser um especialista cego, mudo e surdo em relação a outras áreas essenciais que não a sua.

Quantas vezes deparei e deparo com um certo, quase sempre assumido, hábito de marginalizar informações sobre áreas desconhecidas da maioria, como se alinhar pela maioria fosse condição obrigatória, indispensável ou única sequer.

Apoiar um programa de rádio, a sua programação, um concerto, uma referência a uma gravação de músicas diferentes é atitude profissional sempre a avaliar.

Claro que sei que há jornalistas da especialidade, que sei nada de golfe e de outras tantas atividades; refiro-me, sim, à abolição da atitude de marginalização de áreas de Culturas de minorias, musicais e outras.

(...)

Jornalistas são personalidades com grandes responsabilidades culturais, sejam eles quem forem dentro da organização de uma publicação que serve a informação pura, simples.

Paz e igualdade na informação para Outras Artes, Outras Músicas é uma exigência incontornável.

Respeitar o que se desconhece é outra.

(...)

Jazz quando escrito (coisa rara), é escrito em papel, papel que passa a ser O Papel do Jazz

Por outro lado, o papel do jazz é um papel de permanente criatividade, de constante imprevisibilidade, de incansável imaginação, papel de saudável iconoclastia, investigação e falta de respeito pelo óbvio, papel, pois, da frente, papel progressista.

(...)

O papel do jazz é também o papel de qualquer jornalista."

Se substituir as palavras "música", "artes" ou "cultura" por outras áreas de cobertura jornalística como "política", "internacional" ou "economia", o pensamento que aqui deixo é totalmente replicável.

Vou ser mais específico e glosar a parte final do texto de José Duarte, substituindo a palavra "jazz" por "jornalismo": "O papel do jornalismo é um papel de permanente criatividade, de constante imprevisibilidade, de incansável imaginação, papel de saudável iconoclastia, investigação e falta de respeito pelo óbvio, papel, pois, da frente, papel progressista".

Assino por baixo - o jornalismo é como o jazz... e precisa de swing, que anda escasso.

Pedro Tadeu no Diário de Notícias de hoje.

quarta-feira, 5 de abril de 2023

CONGRESSOS DE AVEIRO


 

Congressos de Aveiro é um título genérico.

Realizaram-se três congressos.


Os dois primeiros designados por “Congresso Republicano de Aveiro”, o

terceiro como “ Congresso da Oposição Democrática” e todos tiveram, como cenário, a cidade de Aveiro.

O I Congresso realizou-se em Outubro de 1957, no âmbito das comemorações do 47º aniversário da Implantação da República e teve como secretário efectivo o escritor Mário Sacramento. Existia o propósito de estes congressos se realizarem de dois em dois, mas apenas em 1969 veio a realizar-se o II Congresso. A morte prematura, se bem que anunciada, de Mário Sacramento impediu-o de assistir ao Congresso por que tanto se batera.


Entendo-se que a oposição portuguesa não era apenas republicana, o último congresso veio a ter a designação de “III Congresso da Oposição Democrática”.


No fundo permitiram que, com limitações próprias, e todas as restrições impostas pelo regime ditatorial, fossem, publicamente, discutidos os muitos e diversos problemas que afectavam o país.

Neste III Congresso estiveram presentes alguns dos democratas que integraram, em 1969, as listas da C.D.E, da C.E.U.D. e da C.E.M.


O jornalista A. Villaverde Cabral, na reportagem sobre o 3º Congresso, escrevia no “Diário de Lisboa” de 6 de Abril de 1973:


“Num país onde as formações políticas de Oposição ao regime não têm expressão legal, cada um pode atribuir a cada um a tendência que muito bem entender, mas ninguém pode, num local público, por razões óbvias, afirmar “eu venho aqui em representação de”, “eu represento tantos democratas”.


A realização do III Congresso teve a rodeá-lo diversas incidentes.

Invocando que não autorizara a participação de todos os congressistas, apenas de uma pequena delegação, numa romagem à campa de Mário Sacramento, assim como a concentração junto ao monumento a José Estêvão, a Polícia de Choque carregou, violentamente, sobre congressistas , e não congressistas, ocasionando dezenas de feridos.


Raul Rego no seu “Momento” no “República” de 9 de Abril de 1973 escrevia:


“O Congresso de Aveiro terminou ontem e pode dizer-se, a despeito de todas as limitações, de incidentes, que ele contribuiu para o esclarecimento da nossa vida nacional.”


Por iniativa da “Seara Nova” foram, na altura, publicadas em livro, as teses e comunicações, tanto do "II Congresso Republicano" ,como as do "III Congresso Democrático".

Nos dias que antecederam o III Congresso, o jornal “República”, publicou um inquérito que envolveu as mais variadas gentes das mais variadas profissões.

Retenho o começo do depoimento do tipógrafo António Fradique Caldeira:


“Penso que não será com um Congresso da natureza dos que se têm feito em Aveiro que se poderão resolver os problemas dos trabalhadores portugueses. O Congresso de 1969 esteve pouco ligado às bases populares, foi mais uma reunião de “colarinhos engomados” do que com a participação da “ganga”.

terça-feira, 4 de abril de 2023

CONGRESSOS DE AVEIRO


 Capa da Seara Nova de Abril de 1973 .


3ª página da Seara Nova dando notícia do início do 3º Congresso da Oposição realizado em Aveiro.

segunda-feira, 3 de abril de 2023

O OUTRO LADO DAS CAPAS

Gosto da escrita de Manuel S. Fonseca quando viaja por filmes, realizadores, actrizes e actores. Gosto. Fiquei chateado quando lhe tiraram o tapete no Expresso, (o mesmo fizeram às crónicas de Ana Cristina Leonardo) mas acabei por ser recompensado através do seu Blogue A Página Negra. Escreve agora crónicas para o Correio da Manhã e o Jornal de Negócios, mas não leio jornalismo  de sargeta, caso do CM, e não percebo de negócios e finanças, caso do Negócios.

Este livro regista a Infância, a Adolescência, algo mais, dos seus gratos e saudosos tempos em Luanda e antes de atracar em Lisboa pós 25 de Abril.

O livro é ligeiro, humorado, não deslumbra, mas ganha outros voos na prosa quando fala de filmes, realizadores, actrizes e actores e apenas disto que eu aguardo o livro em Manuel S. Fonseca coloque em livro o que foi escrevendo para a Cinemateca, para jornais e revistas.

OLHAR AS CAPAS


Crónica de África

Manuel S. Fonseca

Prefácio: Pedro Norton

Guerra & Paz Editores, Lisboa, Fevereiro de 2023

 Pobre da adolescência que não teve uma esquina e um muro.

EPITÁFIO

De mim não buscareis, que em vão vivi
de outro mais alto que em mim próprio havia.
Se em meus lugares, porém, me procurardes
o nada que encontrardes
eu sou e minha vida.


Essas palavras que em meu nome passam
nem minhas nem de altura são verdade.
Verdade foi que de alto as desejei
e que de mim só maldições cobriam.
Debaixo delas a traição se esconde,
porque demais me conheci distante
de alturas que de perto não existem.


Fui livre, como as águas, que não sobem.
Pensei ser livre, como as pedras caem.
O nada contemplei sem êxtase nem pasmo,
que o dia a dia
em que me via
ele mesmo apenas era e nada mais.


Por isso fui amado em lágrimas e prantos
do muito amor que ao nada se dedica.
Nada que fui, de mim não fica nada.
E quanto não mereço é o que me fica.


Se em meus lugares, portanto, me buscardes
o nada que encontrardes
eu sou e minha vida

Jorge de Sena de Fidelidade em Poemas Escolhidos

domingo, 2 de abril de 2023

VELHAS CANÇÕES


 «Ne Me Quite Pas»

Não será, como alguns dizem, o grande clássico de Jaques Brel, mas é uma extraordinária canção.

Milhentas são as versões que correm mundo pelos mais variados intérpretes.

Jacques Brel considerou a versão de Nina Simone como algo de extraordinário, fazendo referência ao modo como Nina fazia deslizar o seu francês e José Duarte, na sua crónica a «A fotografia da música»não deixou de salientar que «o sotaque do seu francês é saborosíssimo».

Existe uma outra excelente versão da canção de Brel, uma interpretação da brasileira Maysa Matarazzo. Possivelmente Brel ouviu-a mas não conheço qualquer referência que lhe tenha feito.

Hoje ficamos com a versão de Nina Simone, numa outra ocasião, traremos aqui Maysa.

A FOTOGRAFIA DA MÚSICA


 1 de Setembro de 1989.

Nina Simone actuou no Casino Estoril.

Dela dizem que bebe muito e tem mau feitio. Nina esteve mal, dizem.

Zé Duarte não viu, mas no seu «Jazzé e Outra Histórias», mostra uma fotografia de Nina Simone e trata de a ver, rever, interpretar. Chamou-lhe «A Fotografia da Música»:

«Está sentada.

Como fundo foi escolhido um misterioso motivo muito simples que se repete muito.

Como certa música africana.

Há uma ou duas folhas de planta de clima quente no canto inferior direito.

O pano que a cobra quase toda não tem botões, nem cinto, nem mangas, embrulha-a só em diagonal no tronco, revela a área do ombro que nos está mais próximo.

As tiras estampadas no pano – algodão? – reproduzem flores, plantas.

Como a Fleurette Indienne de Ellington.

O cabelo é curto, afro, sempre o usou assim, às vezes com touca de malha justa, africana.

As sobrancelhas finas desafiam, até porque a direita subiu mais que a esquerda.

Altiva.

A câmara, em contra-plongé, ajuda a pose. O que para o caso, é maneira de ser e estar, mas os olhos não olham para nós, olham de cima para baixo, para a nossa direita.
Rainha nunca cruza os olhos com os súbditos.

Estrela tem lux própria.

Há um brinco só, jóia branca, em forma de quarto crescente pendurado.

Lábios grossos, sensuais, que guardam a voz igual a eles, educada na igreja, na secular pregação de textos religiosos musicados.

O porte é magnífico, dá-o a elegância do pescoço, o aprumo da coluna.

Há raça e majestade, seriedade e mistério, algum orgulho, talvez provocação soberba.

Magnetismo.

A pele, a cor e a pureza de linhas do ombro, peito e quase nada de um seio.

Fera em repouso.

Pulseira com medalhas variadas no braço, pulseiras simples nos pulsos.

Nos tornozelos?

África.

Mãos grandes descansam nas coxas, dedos compridos e largos, mãos treinadas nas boas escolas de música de Nova Iorque e Filadélfia, mãos de professora de piano, mãos de compositora de melodias para letras de notáveis poetas afro-americanos: Paul Junbar, Langstone Hughes.

«Nova, Dotada e Negra» - como escreveu Hughes e ela canta.

Tem 56 anos.

As linhas olíquas em fundo contrariam a verticalidade da impressionante mulher, destacam a sua imagem de desafio e coragem, símbolo de luta, provas dadas quando compõe, toca e canta as misérias do racismo, da condição feminina, das realidades sociais.

Está-se mesmo a ver, basta olhá-la, que ela não esquece o elogio do Homem, do sexo.

Reportório variado, entre o Homem e o Deus, das alegorias sexuais aos misticismos desbragados, incluindo mesmo uma cantiga onde o sotaque do seu francês é saborosíssimo e outras pobres comerciais antes de por ela terem sido transformadas.

Tão boa pagã como mística, em concerto provoca sempre e quase numa toada média. Música e letras entoadas, um estado de sensualidade sugerida que paira e satura o ar.

Chega a dirigir-se ao público, depende dele.

Um animal de todos os prazeres.

O pano que a cobre deve chegar-lhe aos pés, como ela gosta.

O mistério das pernas sempres ocultas, reverso de Tina, outra fera, mas essa em permanente ataque, enquanto está em permanente ameaça, portanto muito mais inquietante.

Sentada ao piano já dança um pouco, com os ombros, com o tronco, mas quando estica as pernas e se levanta o bailado tem ainda mais magia, embora contido, denso. Só um ou outro requebro discreto, dançar só da cintura para cima, movimentos raros, secos, inesperados sempre em contratempo.

Às vezes bate palmas, poucas em esquema rítmico difícil.

A América africana.

A grande música negra.

Cuidado quando, logo à noite no Casino, Nina Simone se levantar…»

Numa entrevista ao Expresso, 6 de Fevereiro de 2016 (06.02.2016), por ocasião dos 50 anos dos« Cinco Minutos de Jazz», perguntaram-lhe por um episódio destes longuíssimos minutos de jazz.

José Duarte lembrou-se de um, deliciosos mesmo, que, por acaso. mete Nina Simone:

«Fui a uma rádio em Los Angeles, que passa jazz 24 horas por dia. O edifício era lindo, alto, todo em vidro. Era o início dos anos 70, o João ainda era vivo. Eu tinha levado comigo uma cassete da Nina Simone a tocar piano. O apresentador fez-me perguntas, estranhou onde era Portugal, expliquei-lhe que se nadasse sempre em frente chegaria a Lisboa. E quando lhe contei que tinha um programa de cinco minutos fechou o microfone, pensava que eu me tinha enganado no inglês! No fim, pôs a minha cassete da Nina Simone e ia caindo da cadeira: nunca a tinha ouvido só a tocar o piano. Saí daquela rádio orgulhoso.»

Um orgulho tão grande, tão grande que, certamente, na chegada à Portela, obrigaram o José Duarte a pagar excesso de bagagem.

sábado, 1 de abril de 2023

CINQUENTENÁRIO DO III CONGRESSO DE AVEIRO


A União de Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP) realiza, hoje Abril, em Aveiro, onde ocorreu o 3.º Congresso da Oposição Democrática, uma sessão evocativa. 

 Às 14.30 horas, sessão pública de evocação no Auditório do Centro Cultural e de Congressos de Aveiro.

Às 17.00 horas: desfile até ao cemitério local para homenagem aos democratas aveirenses (é a romagem que há 50 anos foi proibida e reprimida pela PIDE e pela polícia de choque).

Dia 4 de Abril irei publicar aqui no Cais, alguns textos sobre os Congressos de Aveiro que se encontram nos arquivos, nos livros da Biblioteca da Casa. 

MÚSICA PELA MANHÃ


Aos sábados é hábito colocarem-se por aqui músicas e canções.

Na semana em que José Duarte nos deixou, e pegando no seu livro «Jazzé e Outras Músicas», temos por lá músicos e cantores que o Zé viu em espectáculos e alguns entrevistou.

De tanta gente que por lá se fala, acabei por ficar na página 100, em que aparece Tony Bennett quando pela primeira vez esteve em Lisboa.

Reportando para o DL, José Duarte tinha para Tony uma pergunta pertinente que metia Nossa Senhora de Fátima.

Assim:

«Como, depois de Boulevard of Broken Dreams, sua primeira gravação, e de Because of You, seu primeiro milhão vendido, e no meio da lista de sucessos dos anos 50 até I Left My Heart in S. Francisco em 62, que foi pico da carreira, aparece o tema Our Lady Of Fatima?!!...

Nesse tempo, disse ele, quem escolhia as cantigas para gravar não era ele, eram os outros. Preço para uma carreira que começava. Hoje é diferente, claro. E Fátima seria que Bennett sabia o que é? Não. Expliquei-lhe, devoto. A CBS, multinacional atenta, deu-me um toque no cotovelo e corrigiu-me. O milagre não é dos anos 40, é de 1917! Repórter envergonhado, ainda tentei convencer a estrela a cantar Fátima no Casino, alegando o grande sentimento religioso de nós, os latinos…

Que não, que já não se lembra do poema, nem da melodia, nem sequer quem são os autores. Mas que lá cantar, cantou e que foi um êxito, foi. Bennett cantou Fátima, pronto, pont.

É verdade.»

Sim, realmente, Tony Bennett gravou «Our Lady  of Fatima» em 1950.

Uma página da Rádio Renascença na net. conta-nos:

 “Our Lady of Fatima”, uma canção composta pela irlandesa Gladys Gollahon, uma pianista amadora que vivia em Cincinnati, Estados Unidos, tornou-se rapidamente um êxito naquela cidade. Quando a WSAI, uma rádio local, passou a canção pela primeira vez, o telefone não parou de tocar, com ouvintes a pedir que a repetissem uma e outra vez.

A música foi comprada, em 1950, pela editora Robbins e gravada, nos meses seguintes, na voz de vários artistas famosos na época, como Red Foley, Kitty Kallen e Ricard Hayes, Andy Williams e Bill Kenny.

Na sua autobiografia “The Good Life: The Autobiography Of Tony Bennett”, Tony Bennett recorda que quando entrou em estúdio, em Julho de 1950, os seus produtores aconselharam-no a fazer uma versão desta canção, já que era um “êxito provado”.

O cantor descreve a música como “melodramática”, mas diz ter sido uma gravação importante na sua carreira, já que foi a primeira vez que trabalhou com o orquestrador Percy Faith.

Nesse ano, canção atingiu o sexto lugar na “hit parade”, um "ranking" de músicas da revista Billboard - um feito pouco comum para uma música religiosa.

A mesma página da Rádio Renascença, também informa que Elvis Presley gravou uma canção sobre Fátima:

«No dia 15 de Maio de 1971, o rei do rock gravou uma canção sobre o milagre de Fátima. A música seria divulgada no ano seguinte, a 20 de Fevereiro, no álbum "Elvis Now!".

Permanece um mistério a razão pela qual Elvis Presley, criado na Igreja Evangélica Assembleia de Deus, quis gravar uma canção dedicada ao rosário, uma oração tipicamente católica.

Chama-se "The Miracle of the Rosary" e foi escrita pelo homem que ensinou Elvis a tocar guitarra aos 13 anos: Lee Denson, um amigo da família Presley, casado com uma católica devota de Nossa Senhora de Fátima.

A canção foi escrita em 1960, quando Denson se aproximou também do catolicismo. Algum tempo depois, o Papa Paulo VI chegou mesmo a abençoar a canção.»




Deixando Fátima de lado, a função fecha-se com duas canções dos primeiros tempos de Tony Bennett: Because of You e Boulevard of Broken Dreams.


sexta-feira, 31 de março de 2023

POSTAIS SEM SELO


O jazz apenas é. Quem gosta, gosta, e quem não gosta, não gosta.

José Duarte

NOTÍCIAS DO CIRCO

A despenalização da morte medicamente assistida foi hoje novamente aprovada na Assembleia da República.

O diploma segue, pela quarta vez, para as mãos do Presidente da República que tratará de o enviar para o Tribunal Constitucional que, por sua vez, se inclinará sobre vírgulas e mais vírgulas do texto.

Assim os que querem ser donos da sua morte, vão perdendo sucessivas esperanças de que a eutanásia seja lei.

SAUDADES DA RÁDIO

A rádio está associada à minha vida.

Quando havia programas de autor e a ditadura das «play-list» não tinha entrado portas adentro.

Nos primeiros meses de 1980, João David Nunes ainda podia dizer:

«Acho que alguma da Rádio que já se vai fazendo, neste momento, em Portugal, não nos deixa muito envergonhados em relação à Rádio que se faz lá fora.»

Há dias, morreu Jaime Fernandes, um dos homens dessa rádio de autor.

Numa entrevista ao Jornal de Notícias, Janeiro de 2011, José Duarte falava de um dos seus programas de assinalável êxito na rádio: «A Menina Dança?»

Fui convidado por Jaime Fernandes. Trabalhávamos na Rádio Comercial. Tinha eu escrito um texto para "O Jornal" sobre Irving Berlin, grande compositor norte-americano". Jaime Fernandes gostou e ficou admirado de meu saber sobre aquela música. Convidou-me para fazer um programa sobre "standards". Inventei então "a menina dança?" que é um programa semanal dedicado a grandes nomes vocais da música norte-americana e a grandes compositores do "American Song Book".»

O texto que se segue julgo pertencer a uma qualquer crítica ou sinopse do programa:

«Tudo acontece num salão de uma sociedade recreativa. É um baile ao som de canções. Como as canções devem ser: cheias de «swing», a puxar o pé para a dança. Ouvem-se os «crooners» ou  - Bing Crosby, Dean Martin, Tony Bennett – uns mais apaixonados, outros menos, ouvem-se outras vozes que fizeram as músicas da América. Ouve-se Sinatra e as suas histórias. Aos domingos à noite, quando a Menina encontra o seu par, são as grandes orquestras que se vocam, num qualquer baile de despedida; e são as histórias à margem do tempo que se relatam. O programa realizado por José Duarte podia ser o cenário para os «Dias da Rádio» de Woody Allen. Mas não é. No que diz respeito a rádio, vai mais longe.

«A Menina Dança» oferece um dos mais eficazes exercícios do uso da linguagem radiofónica: diálogos a uma voz definem cenários; afastam e atraem. Informam. E fzem com que a menina, de facto, exista. Ela é a personagem que ganha forma, a cada instante. Do desconhecimento da música passa ao espanto; e deste, ao saborear da descoberta. Mas isso não lhe basta: a Menina «trova s voltas», comanda o jogo e, às vezes, transforma num inferno a vida do seu par: a Menina torce um pé, a Menina pinta o cabelo de louro. A Menina é a Gata Borralheira que parte à meia-noite, abandonando o seu par.»

A menina, mais as suas danças, deixaram-nos a 30 de Dezembro de 2012.

Não vivíamos para ouvir rádio. Somente para melhorar essa vida.

 

quinta-feira, 30 de março de 2023

POSTAIS SEM SELO


 Aprender jazz é como aprender a falar.

Aprende-se vai-se aprendendo.

Balbucia-se, imita-se, copia-se.

O vocabulário vai chegando, a gramática também.

 José Duarte em Cinco Minutos de Jazz

 Legenda: pintura de Robert McGinnis

SÃO SINATRA


 José Duarte gostava de Frank Sinatra.

Com a menina, nas noites de baile da Antena 1, só dançava canções do Sinatra, aquele swing, dito único.

Entendia-o como a sua «alienação favorita», chamava-lhe São Sinatra.

Chegou a escrever:

«São raros se é que existem os ouvintes que sabem ouvir e que não gostam de ouvir Sinatra quer homens até mulheres como se justificarão os escassos contras? Que ele era da Mafia – por ser italo-americano não comento eu nasci no Bairro Alto.»

Lembrando o Zé Duarte, escolha caseira, ficam três canções do Sinatra.






Mas fica também «The One I Love Belongs To Somebody Else» que José Duarte, numa carta que possivelmente Sinatra nunca leu, considerou ser esta canção «uma definitiva, perfeita obra-prima.»