«Sempre tinham dormido
juntos. Em quartos de hotel, em cabanas perto do mar, em comboios que
atravessavam noites sem fim.»
Ana Teresa Pereira
«Sempre tinham dormido
juntos. Em quartos de hotel, em cabanas perto do mar, em comboios que
atravessavam noites sem fim.»
Ana Teresa Pereira
Claro
que não!
Mas, se assim fosse, é o que aconteceria a este livro de Jorge de Sena.
É
um livro extraordinário, como extraordinária é toda a obra de Jorge de Sena.
Tal
como avisa Mécia de Sena na Nota Prévia sobre o livro:
«Decidi que não desvendaria o nome das pessoas que os poemas não mencionam. Aqueles que viveram esses tempos sabem muito bem quem o maltratou e como e onde; os outros que busquem nos jornais, nas revistas, nas cartas, nas publicações que organizou, está lá tudo e fácil de deduzir.»
A
justiça de se dizer que Mécia de Sena, durante toda a sua vida, exerceu um trabalho
extraordinário para que a obra de Jorge de Sena fosse conhecida em todo o seu
esplendor.
Para
além das Dedicácias, este livro inclui o Discurso que Sena escreveu para
as comemorações, em 1975, do Dia de Camões, o mais notável discurso de todos os
que, até agora, foram feitos para assinalar a data.
Copio
da badana do livro:
«Portugal não soube
conceder-lhe em vida a consagração que a sua obra merecia.»
Seguido de
Discurso da Guarda
Jorge de Sena
Nota Prévia de
Mécia de Sena
Guerra e Paz
Editores, Lisboa, Março de 2010
A César o que é
e César
Se se tem génio, quanto a gente diga
é pretexto para ser-se desprezado:
que mau é tudo (embora sirva sempre
para todos fazerem disso o melhor de si mesmos).
Se se é medíocre e para mais dotado
de partes baixas de que os outros possam servir-se
por procuração (e em Portugal toda a gente sonha
com dar o cu dos outros como se fora o próprio),
tudo é pretexto para ser-se admirado,
respeitado, amado em poluções nocturnas,
e quanto se diga – ou mesmo se não diga –
é maravilhoso até por não dar sombra.
Nem vale a pena pensar duas vezes
e acabar este poema que sei – sem dúvida –
ai muito mau, não é verdade, amigos?
LONDRES, 5 de Fevereiro de 1973
Disse-te adeus e morri
E o cais vazio de ti
Aceitou novas marés.
Gritos de búzios perdidos,
Roubaram dos meus sentidos,
A gaivota que tu és.
Gaivota de asas
paradas,
Que não sente as madrugadas
E acorda à noite a chorar.
Gaivota que faz o ninho
Porque perdeu o caminho
Onde aprendeu a sonhar.
Preso no ventre do mar
O meu triste respirar
Sofre a invenção das horas.
Pois, na ausência que deixaste,
Meu amor, como ficaste?
Meu amor, como demoras!
Preso no ventre do mar
O meu triste respirar
Sofre a invenção das horas.
Pois, na ausência que deixaste,
Meu amor, como ficaste?
Meu amor, como demoras!
Vasco de Lima Couto
Surda languidez ao pé das palmeiras
Hoje seria Natal
exactamente Natal
A ramagem e o fruto
graxo sobre o galho
verdejam
exércitos de insectos
zunem em círculos eternos
Surda languidez ao pé
das palmeiras
o leque de sombras da
floresta
assusta a
ave-do-paraíso
Penso na pátria e
pensativo fito o chão
se a terra fosse
transparente
daqui poderia enxergar
debaixo de todas as saias da Europa
Pés brilham e deslizam
entre babados
como as dançarinas
de Paris em passos rápidos
sobre folhas de espelho
Penso em seus ombros
nos ombros apenas
nos olhos nos lábios
nos cabelos
e nos seios
principalmente nos seios
Quantas amei quantas
belas e brancas
chuva de rosas dos meus
pés à cabeça
Uma única mulher negra me pertenceu
Surda languidez ao pé
das palmeiras
Caminho aqui de cabeça
para baixo
como se andasse sobre o
tecto
Abaixo de mim
profundeza brilha a voragem celeste
caminho feito Cristo
vergado debaixo do Cruzeiro do Sul
Do outro lado do mundo
os homens
correm correm ao avesso
Só fico pensando em
seus sapatos de sola furada
Seus pequenos passos de
criança
em jardins furta-cor
lançam folhagem
sangrenta para baixo
A terra dos checos
estende-se na outra parte do mundo
terra exótica e
estranha
com rios profundos e
fabulosos
pode-se atravessá-los
de pés secos no dia onomástico de Jesus
temos outono inverno
verão e primavera
As pessoas usam
sobretudo gravatas
e bengalas
talvez esteja nevando
agora
talvez a cerejeira
esteja em flor
Amoras abundantes estão
crescendo
E há água potável
fresca
Konstantin Biebl em Rosa do Mundo
Avenida
da Liberdade em Lisboa.
Por
acaso perto de uma empresa chamada "Feelslikehome" (sinto-me em casa)
que se dedica ao chamado "Alojamento Local"
Texto
e fotografia de Rui Ornelas
Como
não tinha a maioria, pediu ajuda à rapaziada «daquela coisa».
Tempo
de Natal.
O
lixo da cidade não foi recolhido.
Amontuou-se
por todos os passeios, por todos os cantos das ruas de Lisboa.
No
pequeno passeio que dei pelo bairro, em busca dos panos vermelhos estampados de
Meninos Jesus, encontrei montanhas de lixo encontradas na Rua Carvalho Araújo.
Foi
muito mau o trabalho de Carlos Moedas nos últimos quatro anos de mandato, pela
amostra junta, promete ser muito pior nos anos que se vão seguir.
Terá
que se agradecer aos votantes no Carlos Moedas.
É o destino dos povos: não saberem aprender com experiências vividas!
1.
Comboio regional
atropelou e matou 100 ovelhas em Montemor-o-Velho
Um comboio regional de ligação entre Coimbra-B e as Caldas da Rainha atropelou
um rebanho de ovelhas e matou cerca de 100 animais neste domingo de manhã. O
incidente ocorreu no ramal de Alfarelos, em Montemor-o-Velho, disse fonte dos
bombeiros.
Não é conhecido
o montante dos prejuízos.
2.
Equipa presidida
por Cristina Tomé no Metro de Lisboa passa a ter vencimentos alinhados com os
do primeiro-ministro e da CP, e não com o Metro do Porto, após reclassificação
feita pelo Governo.
3.
O número de
pessoas sem-abrigo em Portugal já ultrapassa os 14 mil, o que significa um
crescimento de 10% num ano e a maioria são homens, de nacionalidade portuguesa,
entre os 45 e 64 anos.
4.
«Vivemos num tempo curioso: nunca tivemos tanto e,
ainda assim, raramente celebramos o que temos. Pelo contrário, habituámo-nos a
um discurso permanente de queixa, a uma espécie de vórtice negativo onde tudo é
insuficiente, tudo falha, tudo decepciona. Diminuímos conquistas, relativizamos
direitos, desvalorizamos o que foi ganho com esforço colectivo. A insatisfação
tornou-se um hábito, quase uma identidade e, ao contrário de outros estados de
alma, não parece ter cura, porque se alimenta de si própria.
Queixar-se passou a ser um gesto automático,
socialmente aceite, até incentivado. É mais fácil denunciar do que reconhecer,
mais cómodo destruir do que cuidar, mais sofisticado parecer desencantado do
que assumir alegria. Mas este estado permanente de mal-estar tem custos: corrói
relações, normaliza ambientes de trabalho indignos, legitima pressões que
ultrapassam a decência e cria uma toxicidade quotidiana que se infiltra em
tudo.
Talvez esteja na altura de mudarmos o foco. Não por
ingenuidade, não por negação da realidade, mas por lucidez. Celebrar o que
temos não é desistir de exigir mais; é reconhecer o caminho feito para poder
avançar com mais força. Celebrar a vida, o trabalho digno, os afectos, o espaço
comum, é um acto de responsabilidade cívica.»
Patrícia Reis no
Diário de Notícias
5.
Segundo o Banco
de Portugal a entrada de trabalhadores imigrantes em Portugal caiu 40% na
segunda metade de 2024, depois dos máximos atingidos em 2023, as
inscrições na Segurança Social passaram de cerca de 20 mil por mês para 12 mil
e entre janeiro e outubro deste ano os imigrantes em Portugal pagaram 3,1 mil
milhões à Segurança Social, o quíntuplo do que receberam em apoios.
6.
«No espaço de um ano, apenas no dia do apagão geral da
Península Ibérica, a 28 de Abril, e na véspera de Natal de há um ano, a 24 de
Dezembro de 2024, Portugal experienciou quebras da actividade económica mais
relevantes do que a sentida a 11 de Dezembro de 2025, dia da greve geral que
uniu centrais intersindicais contra a reforma do pacote laboral e que o Governo
considerou ter tido uma adesão “inexpressiva” nos sectores privado e social.
Público, 19 de Dezembro de 2025.
Morreu
Brigitte Bardot.
Tinha
95 anos.
Um
leitor do Público, ao ler o óbito que Vasco da Câmara fez para o jornal,
indignou-se:
«Esta sim, é uma
verdadeira notícia falsa. A fake new completa, acabada e indecente. Não posso
deixar de manifestar a minha indignação a quem ande a espalhar estas notícias,
sem a mínima aderência à realidade. BRIGITTE BARDOT não morreu pela simples
razão que "a mulher" nunca morrerá, que "a beleza" é eterna
e o sonho do homem não tem fim.».
Ainda
no dia 29 de Julho A Lupa lembrava a moça e também uma canção do Zeca Baleiro
que diz:
«A saudade
É brigitte bardot
Acenando com a mão
Num filme muito antigo.»
Os
perto de quarenta anos que trabalhou em shipping, deu-lhe para conhecer
centenas de agentes, principalmente na Europa. Quando visitavam Lisboa
levava-os aos locais obrigatórios e caprichava por outros, os que não estão nos
roteiros. Quando os visitava, eles faziam o mesmo, só que não caprichavam.
Dzintra Vilane, responsável pelo Departamento de Contentores da Latvian
Shipping Company, dizia-lhe que quase conhecia meio mundo, mas que Lisboa
se lhe afigurava das cidades mais difíceis de catalogar. Um gosto estranho que
não sabia explicar, uma paixão de envolvimento fácil.
Quando o visitava
dizia-lhe: poupa-me pormenores e leva-me ao British Bar.
O British Bar foi um local em que ele caprichara. Conhecia alguns bares mas o British era aquele bar, tempo de longas conversas com quem ia aparecendo.
Certa vez Dzintra disse-lhe, que se ela mandasse colocava Strangers In the
Night como audição obrigatória, e consequente aprendizagem e estudo em
todas as escolas.
Achou a ideia bizarra, um exagero, mas a tarde corria mansa, relaxante, o gin
estava a saber-lhe às mil maravilhas, e não quis estragar tudo isso com uma
discussão que, inevitavelmente, conduziria a nada. Até porque Strangers in
the night, diga-se it’s not your cup of tea, gosta de Sinatra mas prefere-o
noutras canções, e de imediato trauteia Love’s been good to me, canção mesmo
canção, mas que poucos referem, ou então aquelas canções, de início de carreira,
cheias de swing, quando Sinatra era solista de big bands , como a de
Tommy Dorsey, um Sinatra com cara de miúdo e de lacinho.
Lembrou-se de tudo isto porque há dias, leu o pedaço de uma muito antiga
entrevista de Gore Vidal, em que a determinada altura ele dizia que metade da
actual população norte-americana deve ter sido concebida com um disco de Frank
Sinatra a fazer de música de fundo.
Possivelmente quando mandar à Dzintra as saudações do Ano Novo, ela não quer
saber do Natal para nada, mas o começo do novo ano, sim, é mesmo uma grande
festa, dir-lhe-á desta ideia do Gore Vidal, lembrar-lhe-á a conversa sobre Strangers
in The Night e enquanto escreve o postal beberá um grande gin e irá verificar
que o tempo andou terrível e inexorável- mente muito depressa.
Saudades?
Não, antes recordações, um mar enorme, onde cada sussurro tem a beleza de um
silêncio que se repete até mais não o ouvir.
Por este andar, não
tardará muito que já nem se saberá por que razão celebramos o Natal. Teremos as
ruas iluminadas e o corpo de Deus às escuras.
Frei Bento Domingues
Legenda: imagem tirada do site da Câmara Municipal de Lisboa.
Para os Caminhantes Tudo é Caminho
José Tolentino
Mendonça
Capa: Rui
Rodrigues
Quetzal
Editores, Lisboa, Novembro de 2025
Chegará o momento em que compreenderemos que
sabedoria é amar tudo. É saudar os dias sem esquecer a importância das horas;
contemplar as grandes torrentes sem deixar de agradecer cada gota de orvalho;
estimar o pão sem, no entanto, esquecer o sabor das migalhas. Chegará a ocasião
de compreender que o importante não é só contar a viagem, mas testemunhar
também o contributo dos passos; elogiar não só a meta, mas a lição de cada
etapa, sobretudo quando chegámos a duvidar que o caminho conduzisse a alguma
parte. Chegará o tempo em que nos reconheceremos saciados tanto pela frescura
da fonte, como pela sede; iluminados pela experiência dos encontros, mas também
pelo ensurdecedor vazio de certas esperas; maravilhados, de igual maneira, com
o alforge repleto e as mãos sem nada. Chegará a altura de recomendarmos ao
nosso coração que abrace, com idêntico amor, as estações prometedoras e as
dececionantes; a clarividência do discernimento e a prévia confusão dos nossos
impasses; a beleza inaugural da aurora e as feridas sem resposta que nos rasgam
ao aço do crepúsculo. Chegará a idade em que escutaremos com a mesma
naturalidade a passagem de Deus no ondeado da palavra e no atonal silêncio; em
que O reconheceremos com nitidez na inteireza e na vida dispersa que se quebra;
em que sentiremos a Sua vizinhança no máximo da consolação e no extremo da nudez;
no abrigo do jardim e nos desamparos onde nos perdemos.
Há
uns anos, assistimos à quase loucura, de pais natal de plástico a
treparem janelas e varandas.
Generalizaram-se
e constituíram um belo negócio para os chineses.
Por
cansaço, o que quer que seja, já quase desapareceram.
Depois
apareceu uma ideia, importada de Espanha, estandartes de pano vermelho com um
Menino Jesus desenhado, objectivo maior para devolver, aos católicos, o
verdadeiro espírito natalício combate árduo contra o pagão e barbudo Pai Natal
que tem a péssima mania, de, por outros vícios, publicitar a Coca-Cola.
A
Igreja Católica despertava para uma realidade que lhe passou ao lado, como,
aliás, quase tudo o que vai acontecendo no mundo novo. Desesperadamente,
tentaram combater as renas, os trenós, um certo paganismo, dizem, que se
apropriou do Natal. E tentaram recuperar os símbolos cristãos do espírito
natalício.
Não
chegaram a tempo.
Um
breve passeio pelas ruas do bairro, e o bairro é grandinho, deu para encontrar um único desses
católicos panos de menino exposto e que se vê no topo do texto.
Sim, o Pai Natal é de um outro campeonato!
Pode
e deve.
Mas
não perguntem o porquê.
É
uma canção dos Bee-Gees que faz parte do duplo álbum Odessa de
1969.
Quando
eram pequenos e as árvores de Natal eram altas, foram-se amando, o tempo a
passar até ao tempo em que eles eram altos e as árvores de Natal pequenas.
Falando
de amores e canções de Natal, lembrar que Mário-Henrique Leiria gostava do
Natal, mas um dia deu-lhe a louca de casar com uma alemã que o tratou
pessimamente.
Divórcio
em trânsito e Mário escreve:
«Falando de discos, vão
para um teatro para crianças que se está organizando, segundo penso. E também
empréstimo. Comigo, levo apenas quatro ou cinco de música russa e os dois de
jazz que a Dietlinde me ofereceu uma vez… (Sou tão romântico que até gosto de
conservar recordações. Que bom!) Deixo cá todos os que suponho que ela gostava:
Bach, Mozart, Beethoven, canções de Natal, canções alemãs e, evidentemente os
discos de música brasileira que caí na arara de comprar.».
Mário
Henrique-Leiria escreve a Maria Isabel, advogada da mulher alemã que pretendia
o divórcio. As cartas constam de Depoimentos
Escritos, um livro apaixonante, apaixonado desse louco genial que,
para além do mais, me entranhou, ainda mais, o gosto pelo gin, ao ponto de, num
tempo longínquo, já não saber a quantas andava… quem era...
Pois, a Dietlinde acabou por ficar com os discos de Natal do Mário. Muitas
outras coisas. Algumas irreversíveis. O que depois se sabe, pela leitura do
livro, é que o Mário-Henrique Leiria apaixona-se, loucamente, pela advogada da
mulher. Outro grande amor das muitas suas vidas que acabarão por contribuir
para o fim da sua atormentada, mas bem gozada, vida.
«Agora tenho que sair. A carta acaba aqui. Vou tentar angariar subsistência,
que eu, às vezes, até tenho o vício de comer… calcula, vícios burgueses…
Abraço grande, saudade enorme de tudo que tu és.
Mário-Henrique
Merry Xmas and Very, very Happy New Year for both.»
O
Mário gostava do Natal, de canções de Natal.
Eu
também.
Gosto
também deste First of May dos Bee-Gees que, digam lá o que
disserem, pode ser uma canção de Natal. Outra canção de Natal.
Afonso
Cruz em O Que a Chama Iluminou.
Isto
é mesmo verdade? Mas já chegámos à Madeira?
Os
livros autografados da Biblioteca da Casa, comprados em 2ª mão, não têm só dedicatórias de gente ilustre para outra gente ilustre.
Por 50 Cêntimos, num desses vãos de escada que ainda se podem encontrar nos velhos bairros de Lisboa, vendendo de tudo um pouco, comprei este livro do Carlos Pinhão.
Comprei-o, principalmente, pelo que um avô sportinguista, corria o dia 16 de Maio de 1991, num bonito gesto de ternura, escreveu para o seu neto benfiquista:
«Para o João com um grande “viva ao Benfica campeão”».
Não sabemos se o João leu o livro, pela capa, pelo miolo, podemos concluir que não tem o mínimo sinal de ter sido lido, mas sabemos que o «despachou» e ter-lhe-ão dado uma ridicularia.
Serviu para quê, esse pouco dinheiro?
Nem para uma caixa de «chiclets» terá dado.
E aquele gesto de ternura do avô que tanto me agradara, passou a tristeza, reflexo da insensibilidade do João face ao gosto do avô lhe ter comprado o livro do Carlos Pinhão e que acabou num vão de escada de compra e venda de livros em 2ª mão.
Se o lesse teria reparado no que o Carlos Pinhão, a dado passo escreveu:
«Jogar é bom, faz bem, mas não é tudo, os jovens devem criar outros hábitos que contribuam para um desenvolvimento harmoniosos do corpo e do espírito… Por exemplo, ler…»
Mas os jovens não lêem.
Lembrar aquela história do petiz a quem o Raul Solnado perguntou se gostava de ler e que lhe respondeu: «Evito!»
José Tolentino Mendonça:
«Conversava com uns amigos preocupados com o filho que anda agora pelos 17 anos. São ambos professores, os corredores de casa parecem uma biblioteca, mas o filho não lê um livro. Às vezes, dão por si a olhá-lo como se olha um estranho cuja língua e hábitos se ignoram. Não sabem como se formou o muro cultural que os separa. Veem-no horas e horas retido no ecrã do telemóvel, obsidiado por aquele retângulo brilhante, aos olhos deles fazendo nada. Lamentam o que lhes parece ser uma dependência, mas sentem-se impotentes. Quando tentam explicar-lhe que o ecrã é uma gaiola de vidro onde se deixa aprisionar, o filho levanta a cabeça, olha-os também sem entendê-los, mas sem intenção de substituir o que o ocupa por um livro qualquer. A primeira coisa de que me recordei — e que lhes disse — foi uma frase do escritor Gianni Rodari: “O verbo ler não suporta o imperativo.” Ler é uma atividade indissociável da curiosidade e do desejo. É preciso aprender a senti-la como uma necessidade interior, um gosto, uma alegria que pode até ser frívola e profunda ao mesmo tempo, um encontro a que nos dispomos sem porquê. Não basta uma ordem ou um conselho repetido. Falta uma iniciação que seja digna desse nome. E, a esse propósito, lembrei-lhes o que dizia Rubem Alves: que era pela cozinha que deveríamos sempre entrar numa sala de aulas, pois ensinar é a arte de despertar a fome em alguém.»
Carlos Pinhão era uma pessoa amável, um competente jornalista desportivo de A Bola e autor de histórias infanto-juvenis.
Devo
ao jornal A Bola ter-me dado a conhecer o poeta Ruy Belo.
Mais lúcido o metal
das espadas coroa
a divina pessoa
que em ti, serena e igual,
espera desde criança,
no país ocupado,
o som claro e doirado
da trombeta da esperança.
Daniel Filipe de Balada Para a Trégua Possível em A Invenção doAmor
«Não, a vida não é uma
festa permanente e imóvel, é uma evolução constante e rude. O Natal é a festa
das lágrimas para todos aqueles para quem ele não é a festa da inexperiência.
E, todavia, pensavam alguns que era útil não deixar de a celebrar. Que importa
que o número ou que o nome dos convivas varie em cada ano? Que importa que
alguns amados velhos faltem ao banquete? Que importa que nós mesmos faltemos
para o ano que vem na festa dos mais novos?
Esta noite de alegria para as crianças será sempre de alguma saudade para os adultos. Assim teremos a esperança terna de sobreviver, por algum tempo, na lembrança dos que amamos — uma boa vez ao menos, de ano a ano.»
Ramalho
Ortigão as Farpas Vol. I
Legenda: presépio do Palácio de Queluz
Por diversas vezes, neste Cais, pode ler-se que não há Natal sem música de Bach.
A
frase é do meu pai, respondendo à pergunta que, amiúde, lhe faziam de que
canção de Natal gostava mais.
Dando asas à ideia, fui buscar a cantata Jesus Alegria dos Homens. BWV 147.
Herodes
Para Miguel Viqueira
Gritam, mijam, cheiram
a leite
azedo. Andam por aí
pelos colos das mães,
montados
em burros poeirentos. E
há um
que aqueles pretos
dizem que há-de um dia
sentar no meu coxim o
cu borrado.
Não sabem nada, uns e
outros,
soltam vagidos que
ninguém entende.
Dou-lhes na mona a uns
e os outros que
passeiem.
Detesto gente parva.
Pedro
Tamén em Natal…
Natais
LADAÍNHA
DOS PRÓXIMOS NATAIS
Há-de
vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o
meu lugar vazio
Há-de vir um Natal e
será o primeiro
em que hão-de me
lembrar de modo menos nítido
Há-de vir um Natal e
será o primeiro
em que só uma voz me
evoque a sós consigo
Há-de vir um Natal e
será o primeiro
em que não viva já
ninguém meu conhecido
Há-de vir um Natal e
será o primeiro
em que nem vivo esteja
um verso deste livro
Há-de vir um Natal e
será o primeiro
em que terei de novo o
Nada a sós comigo
Há-de vir um Natal e
será o primeiro
em que nem o Natal terá
qualquer sentido
Há-de vir um Natal e
será o primeiro
em que o Nada retome a
cor do Infinito
David Mourão-Ferreira
de Cancioneiro de Natal em Obra Poética
José
Saramago não gostava do Natal. Tão pouco de festas de aniversário.
Talvez
reflexo de uma infância e de uma adolescência muito difíceis o Natal, para
Saramago, não foi um toque de mágica.
Deixou escrito numa crónica; para incréus empedernidos como eu, o caso
não tem assim tanta importância: é mais uma das trezentas mil datas assinaladas
de que se servem inteligentemente as religiões para aferventar crenças que no
passar do tempo se tornariam letra morta e água chilra.
De uma maneira seca, quase definitiva, finalizou um poema: É dia de
Natal. Nada acontece.
Podia
ser Natal e não ser farsa, como escreveu António Manuel Ribeiro numa canção dos
“UHF”.
Na
obra lida de José Saramago, encontrei três abordagens ao Natal.
O
poema Natal em Os Poemas Possíveis, a
crónica A Neve Preta em Deste Mundo e do Outro e
outra crónica em A Bagagem do Viajante que, precisamente,
intitulou Natalmente crónica.
Tenho
conhecimento que na revista “Colóquio/Letras” nº 151/152,
Fevereiro 2000, totalmente dedicada a José Saramago, está publicado um conto
inédito: Natal.
Fica
aqui o excerto de A Neve Preta que consta do livro de crónicas Deste
Mundo e do Outro:
«Estes pequenos filhos
dos homens têm andado pelas minhas crónicas. Mas de crianças tenho falado como
quem as conhece bem, só porque também por lá passou. E agora pergunto: que são
as crianças? Dez mil pedagogos se preparam para me responder. Afasto de antemão
as respostas, umas que já conheço, outras que adivinho, e torno a perguntar:
que são crianças?
Que seres estranhos são
esses que viram para nós os seus rostos frescos, que nos perturbam às vezes com
um olhar subitamente profundo e sábio, que são irónicos e gentis, débeis e
implacáveis, e sempre tão alheios? Temos pressa de os ver crescer, de os
admitir no clã dos adultos sem surpresas. Somos impacientes, nervosos, porque
estamos diante de uma espécie desconhecida... Quando passam a ser nossos
iguais, falamos-lhes da infância que tiveram (a que recordamos, como
observadores do lado de fora) e sentimo-nos quase ofendidos porque eles não
gostam de ouvir lembrar uma situação em que já não se reconhecem. São adultos,
agora: outra espécie humana, portanto.
Nessa infância está, por exemplo, a história que vou contar e que devo a um
desses tais encontros de acaso. E depois de eu a reproduzir aqui, dir-me-ão se
não tenho razões para insistir: é preciso cuidado com as crianças... Não o
cuidado comum, que tende a prevenir acidentes, aqueles que aparecem sob esta
rubrica nas notícias dos jornais, mas um outro cuidado, mais melindroso e
subtil. Eu explico.
Uma professora mandou um dia aos seus alunos que fizessem uma composição
plástica sobre o Natal. Não falou assim, claro. Disse uma frase como esta:
«Façam um desenho sobre o Natal. Usem lápis de cores, ou aguarelas, ou papel de
lustro, o que quiserem. E tragam na segunda-feira.» Assim ou não assim, os
alunos fizeram o trabalho. Apareceu tudo quanto é costume aparecer nestes
casos: o presépio, os Reis Magos, os pastores, S. José, a Virgem e o Menino
Jesus. Mal feitos, bem feitos, toscos ou apuradinhos, os desenhos caíram na
segunda-feira em cima da secretária da professora. Ali mesmo ela os viu e
apreciou. Ia marcando «bom», «mau», «suficiente», enfim, os transes por que
todos nós passámos. De repente... Ah, mas é preciso muito cuidado com as
crianças! A professora segura um desenho nas mãos, e esse desenho não é melhor
nem pior que os outros. Mas ela tem os olhos fixos, está perturbada; o desenho
mostra o inevitável presépio, a vaca e o burrinho, e toda a restante figuração.
Sobre esta cena sem mistério cai a neve, e esta neve é preta. Porquê?
«Porquê?», pergunta a professora, em voz alta, à criança. O rapazinho não
responde. Talvez mais nervosa do que quer mostrar, a professora insiste. Há na
sala os cruéis risos e murmúrios de rigor nestas situações. A criança está de
pé, muito séria, um pouco trémula. E, por fim, responde: «Fiz a neve preta
porque foi nesse Natal que a minha mãe morreu...»
Daqui por um mês chegaremos à Lua. Mas quando e como chegaremos nós ao espírito
de uma criança que pinta a neve preta porque a mãe lhe morreu?»
José Saramago em Deste Mundo e do Outro, página 189.
Chris Rea morreu ontem aos 74 anos.
Foi
um dos cantores que participou, em 1980, no single de beneficência Do TheyKnow it’s Christmas do super grupo Band Aid.
Como
homenagem, é essa a canção desta manhã.
Um
Rosto no Natal
Caiu sobre o país uma
cortina de silêncio
a voz distingue o homem mas há homens que
não querem que os demais se elevem sobre os animais
e o que aos outros falta têm eles a mais
no dia de natal eu caminhava
e vi que em certo rosto havia a paz que não havia
era na multidão o rosto da justiça
um rosto que chegava até junto de mim de nicarágua
um rosto que me vinha de qualquer das indochinas
num mundo onde o homem é um lobo para o homem
e o brilho dos olhos o embacia a água
Caminhava no dia de natal
e entre muitos ombros eu pensava em quanto homem morreu por um deus que nasceu
A minha oração fora a leitura do jornal
e por ele soubera que o deus que cria
consentia em seu dia o terramoto de manágua
e que sobre os escombros inda havia
as ornamentações da quadra de natal
Olhava aquele rosto e nesse rosto via
a gente do dinheiro que fugia em aviões fretados
e os pés gretados de homens humilhados
de pé sobre os seus pés se ainda tinham pés
ao longo de desertos descampados
Morrera nesse rosto toda uma cidade
talvez pra que às mulheres de ministros e banqueiros
se permita exercitar melhor a caridade
A aparente paz que nesse rosto havia
como que prometia a paz da indochina a paz na alma
Eu caminhava e como que dizia
àquele homem de guerra oculta pela calma:
se cais pela justiça alguém pela justiça
há-se erguer-se no sítio exacto onde caíste
e há-de levar mais longe o incontido lume
visível nesse teu olhar molhado e triste
Não temas nem sequer o não poder falar
porque fala por ti o teu olhar
Olhei mais uma vez aquele rosto era natal
é certo que o silêncio entristecia
mas não fazia mal pensei pois me bastara olhar
tal rosto para ver que alguém nascia.
Ruy Belo em Todos os Poemas