num velho templo
nas profundezas de
Takano
na província de Ki
passei a noite
escutando
as gotas de chuva caindo dos cedros
Ryokan
num velho templo
nas profundezas de
Takano
na província de Ki
passei a noite
escutando
as gotas de chuva caindo dos cedros
Ryokan
Os 50 anos do 25 de Abril possibilitaram a saída de numerosos livros. Memórias, fotografias, histórias. Um aspecto interessante está relacionado com os livros tendo em vista as crianças, muitas delas que ainda não eram um sorriso na cara dos seus pais quando a ditadura caiu.
Um desses livro é Sempre escrito por Rita Taborda Duarte e ilustrado por Madalena Taborna, um muito bonito licro editado pela Assembleia da República.
Rita Taborda Duarte é uma das duas filhas do escritor Mário de Carvalho, a outra é Ana Margarida de Carvalho e pode-se lembrar o provérbio popular de que filhas de peixe sabem nadar.
«Por isso quando nasci, o meu pai viu-me, pela primeira vez, à distância de um vidro baço e grosso que nem por nada se quebrava: a PIDE (Polícia Incrivelmente Destituída e Estúpida) mantinha-o preso no forte de Peniche, em frente ao mar. Tanto mar, tanto mar…»
Um livro bonito e comovente, com histórias que metem pelo meio canções e poemas de Ary dos Santos, José Afonso, José Mário Branco, Lopes Graça, Sérgio Godinho, José Gomes Ferreira, Sérgio Godinho, Chico Buarque, Adriano Correia de Oliveira, Manuel Alegre, Sophia de Mello Breyner, Jorge de Sena, Ruy Belo, António Ramos Rosa, Mário Cesariny, Alexandre O’Neill.
Por fim, dizer que esta maravilha de livro custa 8 euros e pode ser comprado na Livraria da Assembleia da República e, quando o forem comprar podem ter a possibilidade de conhecerem o Palácio de São Bento.
Sempre
Rita Taborda Duarte
Capa e Ilustrações: Madalena Matoso
Colecção Missão: Democracia-25 de Abril nº 8
Edições Assembleia da República, Lisboa, Abril
de 2024
E se em vez de ditar a
dor,
pudéssemos soletrar uma
flor?
Er a um país infeliz dividido entre o mar e a guerra, entre a bondade e a bruma. Queria-se um país futuro onde fosse a vida possível, mas a cada passo dado regressava-se ao passado. Em suma, nesse tal país, o dia parecia ser noite, ainda que despontasse a manhã. Ao hoje seguia-se o ontem: nunca mais chegava amanhã.
Lindo
e subtil trançado, que ficaste
em penhor do remédio que mereço,
se só contigo, vendo-te, endoideço,
que fora cos cabelos que apertaste?
Aquelas tranças de ouro que ligaste,
que os raios do Sol têm em pouco preço,
não sei se para engano do que peço,
se para me matar, as desataste.
Lindo trançado, em minhas mãos te vejo,
e por satisfação de minhas dores
como quem não tem outra, hei-de tomar-te.
E, se não for contente o meu desejo,
dir-lhe-ei que, nesta regra dos amores,
por o todo também se toma a parte.
Luís de Camões em Sonetos
Gonçalo M. Tavares
Legenda:
fotografia de Rui Ornelas
Euro 2024
Quando eu era pequeno e jogava
futebol de manhã à noite, havia uma espécie de jogador odiado por todos: era o
dono da bola. O dono da bola era o mais rico de todos mas, invariavelmente, dos
que pior jogavam. E, assim, volta e meia, para se vingar da sua falta de jeito,
o dono da bola agarrava nela, ia-se embora e acabava o jogo. Ele era o dono da
bola e, por, isso, tinha o privilégio de nos poder roubar a a bola e acabar com
o jogo. Assim se compensava da sua impotência.
Autor desconhecido
1.
Cerca de 5 mil profissionais do Serviço Nacional de Saúde deverão
aposentar-se este ano, estima a direcção executiva do SNS.
2.
Paul Auster
Criou um estilo, foi uma estrela e retirou-se quase em silêncio, escreveu
o Público na sua 1ª página.
Também no Público, mas a 5 de Maio, Rogério Casanova:
«A morte de Paul
Auster teve direito a chamada de capa nos quatro principais jornais diários
nacionais, incluindo o Correio da Manhã, apesar de o autor
norte-americano ter falecido após doença prolongada na sua casa em Brooklyn e
não atropelado por um tractor em Penalva do Castelo.
O fenómeno não é inédito, mas é suficientemente raro (e normalmente reservado
para Saramagos ou Garcias Márquez) para tornar insatisfatórias as respostas
mais comuns à pergunta: “Porque é que isto é capa de jornal?” (Dia calmo? Voto
evangélico? Neoliberalismo?)
3.
Vinte anos depois do Euro 2004, as câmaras que investiram na construção e na requalificação de estádios ainda devem 22 milhões de euros de empréstimos e sentenças judiciais, avança, o Jornal de Notícias. O município de Leiria tem a maior fatia em dívida (10,9 milhões), seguindo-se Coimbra com seis milhões e Braga com cinco milhões de euros ainda por saldar. Neste momento, as câmaras procuram aliar a atividade desportiva à sustentabilidade financeira, com o arrendamento de espaços a empresas e a instituições públicas a ajudar a rentabilizar, mas as situações não são todas iguais.
4.
A segurança social tem 50 inspectores para fiscalizar 2606 lares de
idosos registados, e existem para realizar as inspecções 22 viaturas, das quais
17 têm uma média de 24 anos de utilização e nunca estão todas operacionais.
5.
O número de pessoas em casas sobrelotadas aumentou quase 40% em 2023, o
maior salto em 20 anos; a renda mediana das casas fixou-se em 7,71 euros
por metro quadrado no último trimestre de 2023, mais 11,6% que no mesmo período
de 2022; infiltrações de água, humidade e mau isolamento térmico são
problemas que afectam cerca de 30% das casas dos portugueses.
6.
«O 25 de Abril não é hoje o que
sonhávamos? Sem dúvida, mas só as utopias nunca concretizadas é que não nos
desiludem, e o que temos é demasiado precioso para não o celebrarmos e,
sobretudo, para o defendermos…»
Esther Mucznik
Stuart
Catálogo da exposição de Stuart realizada no Palácio dos Corucheus
Maio/Junho de 1982
Programa e Organização de Paulo Madeira Rodrigues
Edição da Câmara Municipal de Lisboa, 1982
De dezenas de milhar de originais
que Stuart desenhou, descuidadamente, em qualquer papel, em casa sobrea a
prancheta, ou em mesas e balcões de café e tabernas de acaso, traçados a caneta,
a lápis, a carvão de pau de fósforo queimado ou palito mastigado e molhados em
saliva, borra de café ou de vinho, restam realticamente poucos. A maioria
perdeu-se no lixo das redacções, nas limpezas negaligentes de arquivos, nos
arrumos de estantes e de bibliotecas. REunem-se, agora, pouco mais de três
centenas para realizar a «exposição possível» e a homenahem há muito devidas ao
artista.
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«Não vou aqui me gabar – mas vi Luzes da Cidade mais de vinte vezes. Aliás não
seja por isso porque Otávio de Faria viu mais de trinta.»
Vinicius de Moraes
António Victorino de Almeida
Edições O Jornal, Lisboa, Novembro de 1981
Qualquer
semelhança
entre este
livro
e uma
garrafa
é pura coincidência.
Ainda que este livro não deva ser,
de modod algum, uma daquelas autobiografias grotescas em que o autor relata
toda a sua história desde a idade das fraldas, não posso deixar de citar a data
triste da minha infância em que – motivado pela circunstância de meu avô dormir
de braçaos abertos – pretendi crucifica-lo no colchão, chegando a cravar-lhe
uma cavilha na mão esquerda.
Está velho e cansado.
De quê?
Não sabe responder.
Repete muitas coisas. No meio das
conversas já esquece o que estava a dizer.
No recorte que hoje para aqui trouxe, lembrou uma canção de Brel. Uma canção de que por aqui já falou que é a versão dessa canção na voz de Nina Simone.
Repete muitas coisas, escreveu atrás.
Mas relê agora que nesse texto prometeu que um dia traria a versão da Maysa Matarazzo.
Esqueceu-se.
Mas fica agora.
Este anúncio foi publicado no Diário de Notícias de 30 de Março de
2002.
Hoje, o mundo do pequeno anúncio é, completamente, diferente: apelam a call
girls, a carl boys, a massagens a isto, aquilo e aqueloutro.
Um tempo houve que os anúncios, principalmente os do Diário de Notícias revelavam pessoas à procura de outras para convívio,
para refazerem uma vida, pessoas invadidas por uma solidão, a que,
desesperadamente, queriam fugir.
«Sou divorciada, 36 anos e dois filhos.
Procuro companheiro livre, formado e culto para juntos construirmos a
felicidade a que temos direito».
«Separado, 48 anos, grande solidão, posição estável, pretende senhora para convívio».
Fugir à solidão, tentar, ainda, uma gota de felicidade, por vezes nem
felicidade é, apenas um aconchego…
Que faz correr esta gente cansada? Donde vem esta gente tão só? Que sabemos nós? Que desígnios, situações, circunstâncias os levaram até aqui?
O vazio. A lucidez deste hábito. Nascer é inaugurar a solidão. Será?
Há prédios no centro de Lisboa onde apenas vive um idoso, o resto são
escritórios.
Quando a pessoa se dá conta que está sozinha vai para o hospital. Não diz que está sozinho, diz que está doente. Os serviços hospitalares têm destes casos todos os dias.
E estes são os que ainda podem sair de casa. Outros… bom... outros...
Quantos milhares de idosos vivem sozinhos em Lisboa? E ali? E acolá?
Em 2023 estimavam-se 575 mil idosos a viver sozinhos.
Saber administrar a solidão…
Perguntaram a um pastor se ele não se aborrecia de estar ali, dias e dias, com as ovelhas e mais nada.
«Não, não me aborreço porque as ovelhas às vezes bolem…»
A solidão que não pára de crescer…
Não me deixes
Oferecer-te-ei
Pérolas de chuva
Vindas de países
Onde nunca chove
Não me deixes
Deixa-me ser
A sombra da tua sombra
A sombra da tua mão
A sombra do teu cão
Não me deixes…»
Cesare Pavese
Na Alemanha, começou hoje o Mundial de
Futebol.
Sejam bem-vindos ao tempo em que todos os dias são domingo.
De, hoje até 14 de Julho e não se falará de mais nada.
Aliás, já há muitas semanas, que
não se fala de outra coisa.
As televisões encharcam-nos as horas,
com todas as incidências por que passa a selecção nacional.
Uma verdadeira náusea, um espectáculo absolutamente patético.
É óbvio que o futebol não tem culpa de ser um belo espectáculo.
Hoje, como ontem, sempre foi mais fácil um miúdo encontrar uma bola do que um
livro.
Mas nos dias que correm, não há pai que não sonhe que o filho venha a ser: não
um médico, um canalizador, um advogado, um carpinteiro, mas sim um Cristiano
Ronaldo.
Carlos Drummond de Andrade dizia:
«Bem aventurados os que não entendem nem aspiram a entender de futebol, pois
deles é o reino da tranquilidade.»
Ele sabia bem do que falava!
1.
O selecionador Roberto Martínez disse
que o grupo está pronto para disputar a fase final da competição, prometendo uma
viagem rumo a Fátima em caso de título, embora não a pé, uma vez que "pode
ser muito difícil".
2.
Ontem, no interior do hotel durante a
cerimónia protocolar de receção à chegada dos jogadores estava prevista a
actuação do rancho folclórico das Lavradeiras de Gutersloh mas a
UEFA impediu e mandou retirar os elementos do local por não haver segurança suficiente.
3.
A poucos dias do primeiro jogo no Euro
2024, Portugal estreia-se em terras germânicas, na manhã desta sexta-feira, com
um treino no estádio do FC Gutersloh. O momento será seguramente de festa e
euforia, mas a distribuição dos convites gratuitos tem provocado polémica na
pequena cidade alemã. As cerca de 8200 entradas disponibilizadas para o evento
foram alocadas em poucos minutos, com a procura a ultrapassar largamente a
oferta. Com uma forte comunidade portuguesa no país anfitrião da competição,
muitos dos bilhetes terão sido entregues a alemães, com queixas de responsáveis
locais.
Além disso, com o aproximar do tão
cobiçado treino, os convites gratuitos têm sido colocados à venda por centenas
de euros – com uma publicação entretanto apagada a pedir mil euros pelo
ingresso.
A Funda
2º Volume
Artur Portela Filho
Capa: Mendes de Oliveira
Moraes Editores, Lisboa, Novembro de 1972
«A estes ninguém os meteu em
autocarros.
São oitenta mil e foram eles que escreveram os
cartazes.»
Provam que a multidão pode
ser um acto voluntário.
Provam que o entusiasmo pode
ser um acto espontâneo.
A diferença entre a política
e a sociologia chama-se Benfica. Um Benfica é o que é – indústria do músculo. Fábrica
de chutos, catedaral de taças – e mais aquilo que nada mais consegue unir.
O Benfica foi inventado para
substituir a Política.
Agora, que a Polítca quer
regressar, encontra o lugar tomado. 80.000 lugares tomados.
Não contem os dias caros senhores.
Há coisas mais urgentes do que embalar o tempo em plástico
alveolar. É por aí que as horas fogem à palavra já,
esta palavra urgente até ao ínfimo segundo. Cada bolha
seria um ano mais de ditadura. Não vos dói o coração dos outros?
A boca parada da vida obriga-me a palavras como já e nunca mais.
São palavras de andar, têm um corpo muscular de sim,
músculos de acelerar a revolução enquanto os caros senhores
olham as canetas azuis com que se mata a literatura em nome
de qualquer coisa que não é decerto um livro que julgávamos
irremediavelmente publicado. Caros senhores, com abril a revolução
não teve um fim, teve um início que já tinha começado
antes de estiar as nossas vidas.
Não contem dias inúteis. A matemática habita o já
e a liberdade pode perigar no dedo mindinho, ou num capilar
de desatenção. A palavra do agora-sempre é revolução.
A palavra do aqui é já, um já modelado com alteres,
e ainda assim minúsculo para tanto exercício cardiovascular
sem necessidade de aquecimento.
A letra “J” é uma coluna que marcha à procura da letra “à”
e encontram-se numa fonte de cravos onde as gentes
bebem à porta da cidade morena, atravessada a noite
das prisões. Mas há sempre uma mão alheia a trabalhar na sombra
e melhor do que contarem as horas é vigiarmos nós o sol
para que nasçam sempre cravos, sempre o vermelho insanguíneo
da liberdade. A revolução é a única melodia do amanhecer.
Nota do
Editor: Este poema de Rosa Alice Branco foi tirado do Público de 23 de
Maio de 2004.
Poesia Pública é uma iniciativa do Museu e Bibliotecas do Porto comissariada por Jorge Sobrado e José A. Bragança de Miranda. Ao longo de 50 dias publicaremos 50 poemas de 50 autores sobre revolução.
55 Dias de uma Experiência Democrática
Mário Murteira
Colecção Pontos
de Vista nº 10
Iniciativas Editoriais,
Lisboa Janeiro de 1975
Entrando em férias após a curta – mas intensa – vida do primeiro Governo Provisório, decidi deslocar-me a Sagres passando por Grândola. Esta peregrinação culminou numa caldeirada na praia da Baleeira. Perguntando ao mestre da casa, depois de feitas a honras ao prato do dia, por que não havia sobremesa para oferecer, respondeu-me «que a fruta estava a um que era um roubo». Disse-lhe que as pessoas pagariam, mesmo assim. Retorquiu-me que «não colaborava com ladrões, fosse de que maneira fosse, e preferia continuar a não enganar os seus fregueses». Por isso, não tinha sobremesa. Gente do mar, turistas e um desempregado (eu próprio) ouviram esta lição.
A Seleção Nacional já se encontra na
Alemanha, país que acolhe o Euro 2024 entre 14 deste mês e 14 de Julho. O avião
que transportou a comitiva aterrou no aeroporto de Munster por volta das 18h30
hora de Lisboa.
Centenas de motards acompanharam a viagem de autocarro
desde o aeroporto até ao hotel em Marienfeld, onde a selecção ficará hospedada.
Durante uma boa porção de tempo, cinco canais de televisão portugueses acompanharam a partida de Lisboa e a chegada a Marienfeld da selecção nacional. Quando lhes faltou matéria, inventaram «chouriços».
Esta capa de Françoise
Hardy está no blogue dos guedelhudos, blogue dos guedelhudos, parvamente desaparecido porque o Luís
entendeu que o Facebook é bem mais útil!...
Não nos conseguiu dizer
dessa utilidade. Ou por outra, murmurou qualquer coisinha que, pouco ou nada,
esclareceu.
DISQUES VOGUE/ARNALDO TRINDADE - VAT 15001 - edição portuguesa
Uma voz fresca, ajustada, moderna,
compondo ela mesmo as suas canções, Françoise Hardy agradar-vos-á!
Entendendo Françoise Hardy entende-se a juventude e os seus problemas amorosos.
Sereis transportados a um outro mundo de delicadeza, de ritmo e de juventude.
Viva Françoise Hardy!
(texto apócrifo na contracapa do disco)
Nota do Editor:
Nota do Editor:
O Luís Pinheiro de Almeida
adquiriu este disco no dia 21 de Dezembro de 1963 e o Pedro de Freitas Branco
comentou: «A minha musa dos anos 60... e
"Dis Lui Non" uma das melhores canções da década!!!»
Como nem todos tocam piano e falam francês, alguém, num comentário no Público na notícia da morte de Hardy, colocou uma tradução de Tous les Garçons e les Filles:
«Todos os rapazes e raparigas da minha idade passeiam
na rua dois a dois e sabem bem o que significa ser feliz. E de olhos nos olhos
e de mãos dadas avançam enamorados e sem receio do dia seguinte. Mas eu vagueio
sozinha pelas ruas, triste no meu coração porque ninguém me ama. Os meus dias e
as minhas noites são em tudo iguais sem alegrias e cheias de aborrecimento.
Ninguém me murmura ao ouvido "Amo-te". Todos os rapazes e as
raparigas da minha idade fazem juntos projetos para o futuro. Eles sabem muito
bem o que significa amar. Oh, quando é que o sol brilhará para mim? Como eles e
elas conhecerei eu em breve o que é o amor? Como eles pergunto-me quando
chegará o dia em que o meu coração será feliz sem medo do dia seguinte sem a
alma triste, o dia em que também eu terei alguém que me ame.»
Começo de Os Cus De Judas
de António Lobo Antunes:
«Do que eu gostava mais no Jardim Zoológico era do
ringue de patinagem sob as árvores e do professor preto muito direito a
deslizar para trás no cimento em elipses vagarosas sem mover um músculo sequer,
rodeado de meninas de saias curtas e botas brancas, que, se falassem, possuíam
seguramente vozes tão de gaze como as que nos aeroportos anunciam a partida dos
aviões, sílabas de algodão que se dissolvem nos ouvidos à maneira de fins de
rebuçado na concha da língua.»
Um começo de livro que coloco no número dos meus
preferidos.
É uma imagem que transporto dos meus distantes tempos de
menino e quando a li expressa pela prosa de António Lobo Antunes, comovi-me.
Já por diversas vezes aqui expressei a ideia de que os recentes
romances de António Lobo Antunes tornaram-se-me de difícil leitura, por vezes,
mesmo incompreensível.
De um só fôlego li Memória de Elefante, Os Cus de
Judas, Explicação dos Pássaros e disse para comigo que tinha ali um autor
para a vida.
Acontece até que os títulos que Lobo Antunes arranja para
os seus romances, são uns excelentes achados. Mas já são livros que não li, ou
deixei-os nas primeiras 50 páginas, que é a medida que coloquei a mim mesmo
para que um livro me leve até ao fim.
Exemplos:
Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura,
Que farei quando tudo arde?,
Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo,
Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?,
Não É Meia Noite Quem Quer,
Caminho Como Uma Casa Em Chamas,
Para Aquela que Está Sentada no Escuro à Minha
Espera
Até Que as Pedras Se Tornem Mais Leves Que a Água
A Última Porta antes da Noite.
Sou, pois, um desistente leitor de António Lobo Antunes.
Hélas!
Já nem as crónicas, que sempre gostei de ler, o autor deixou
de as escrever para os jornais e revistas que antes as publicavam. A editora
que o suporta consentiu na patetice do autor, ou teve receios, dado o seu
conhecido mau feitio, que saísse porta fora a caminho sabe-se lá de quê.
Legenda: contra capa da 1ª edição de Os Cus deJudas.
Com que voz chorarei
meu triste fado,
que em tão dura paixão me sepultou.
Que mor não seja a dor que me deixou
o tempo, de meu bem desenganado.
Mas chorar não estima neste estado
aonde suspirar nunca aproveitou.
Triste quero viver, pois se mudou
em tristeza a alegria do passado.
Assim a vida passo descontente,
ao som nesta prisão do grilhão duro
que lastima ao pé que a sofre e sente.
De tanto mal, a causa é amor puro,
devido a quem de mim tenho ausente,
por quem a vida e bens dele aventuro.
Luís de Camões
Sermão de Santo
António aos Peixes
Padre António Vieira
Prefácio e Notas de Rodrigues Lapa
Colecção Textos Literários
Editora Seara Nova, Lisboa 1940
Vós, diz Cristo, sois o sal da terra; e chama-lhe sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra não se deixa salgar, e os ouvintes, senso verdadeira a doutrina que lhe dão, a não querem receber.
Andam nisto há uma eternidade!
Há muito que já poderiam ter chegado a esta, triste,
comemoração, mas por diversos factores não o quiseram.
Durante todo um tempo já planearam não sei quantas
manifestações para comemorarem ESSE DIA NÃO!, mas faltam-lhes dedos para
tocarem a guitarra e a pseudo exaltação acaba, quando acaba, em jantares
manhosos, tristes, cheirando a naftalinas.
Agora, um gang de deputados semi-analfabetos, ignorantes
da História, e do que foi o 25 de Abril, puxaram dos galões, abanaram os panos
esfarrapados do lá vamos, cantando e rindo
levados, levados, sim pela voz de som tremendo das tubas, clamor sem fim.
O 25 de Novembro de 1975 foi apenas um episódio dos
longos caminhos de Abril, como o 28 de Setembro de 1974, como o 11 de Março de
1975.
Abril 25 há apenas um.
Sempre!
E acabamos por voltar a José Saramago, Cadernos de
Lanzarote V volume, quando um dia Vasco Lourenço disse:
«Exemplar e oportuno, Vasco Lourenço acaba de produzir uma importantíssima declaração, contribuindo, como só ele poderia, para as alegrais deste dia fasto: «Se fosse preciso, faria outro 25 de Abril…» Dá vontade de lhe dizer que teria podido consegui-lo facilmente se não tivesse ajudado tanto a fazer o 25 de Novembro…»