terça-feira, 18 de junho de 2024

NUM VELHO TEMPLO

num velho templo

nas profundezas de Takano

na província de Ki

passei a noite escutando

as gotas de chuva caindo dos cedros

Ryokan

segunda-feira, 17 de junho de 2024

POSTAIS SEM SELO


Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo.

José Saramago

O OUTRO LADO DAS CAPAS

Os 50 anos do 25 de Abril possibilitaram a saída de numerosos livros. Memórias, fotografias, histórias. Um aspecto interessante está relacionado  com os livros tendo em vista as crianças, muitas delas que ainda não eram um sorriso na cara dos seus pais quando a ditadura caiu.

Um desses livro é Sempre escrito por Rita Taborda Duarte e ilustrado por Madalena Taborna, um muito bonito licro editado pela Assembleia da República.

Rita Taborda Duarte é uma das duas filhas do escritor Mário de Carvalho, a outra é Ana Margarida de Carvalho e pode-se lembrar o provérbio popular de que filhas de peixe sabem nadar.

«Por isso quando nasci, o meu pai viu-me, pela primeira vez, à distância de um vidro baço e grosso que nem por nada se quebrava: a PIDE (Polícia Incrivelmente Destituída e Estúpida) mantinha-o preso no forte de Peniche, em frente ao mar. Tanto mar, tanto mar…»

Um livro bonito e comovente, com histórias que metem pelo meio canções e poemas de Ary dos Santos, José Afonso, José Mário Branco, Lopes Graça, Sérgio Godinho, José Gomes Ferreira, Sérgio Godinho, Chico Buarque, Adriano Correia de Oliveira, Manuel Alegre, Sophia de Mello Breyner, Jorge de Sena, Ruy Belo, António Ramos Rosa, Mário Cesariny, Alexandre O’Neill.

Por fim, dizer que esta maravilha de livro custa 8 euros e pode ser comprado na Livraria da Assembleia da República e, quando o forem comprar podem ter a possibilidade de conhecerem o Palácio de São Bento.

OLHAR AS CAPAS

Sempre

Rita Taborda Duarte

Capa e Ilustrações: Madalena Matoso

Colecção Missão: Democracia-25 de Abril nº 8

Edições Assembleia da República, Lisboa, Abril de 2024

 

                                                                E se em vez de ditar a dor,

                                                                pudéssemos soletrar uma flor?

 

Er a um país infeliz dividido entre o mar e a guerra, entre a bondade e a bruma. Queria-se um país futuro onde fosse a vida possível, mas a cada passo dado regressava-se ao passado. Em suma, nesse tal país, o dia parecia ser noite, ainda que despontasse a manhã. Ao hoje seguia-se o ontem: nunca mais chegava amanhã.

LINDO E SUBTIL TRANÇADO

Lindo e subtil trançado, que ficaste
em penhor do remédio que mereço,
se só contigo, vendo-te, endoideço,
que fora cos cabelos que apertaste?

Aquelas tranças de ouro que ligaste,
que os raios do Sol têm em pouco preço,
não sei se para engano do que peço,
se para me matar, as desataste.

Lindo trançado, em minhas mãos te vejo,
e por satisfação de minhas dores
como quem não tem outra, hei-de tomar-te.

E, se não for contente o meu desejo,
dir-lhe-ei que, nesta regra dos amores,
por o todo também se toma a parte.

Luís de Camões em Sonetos

POSTAIS SEM SELO


O Andy Warhol dizia que não tinha muitos amigos porque os amigos faziam-no perder muito tempo.

Gonçalo M. Tavares

Legenda: fotografia de Rui Ornelas

domingo, 16 de junho de 2024

DOS REBOTALHOS E COISAS ASSIM...


Euro 2024


Quando eu era pequeno e jogava  futebol de manhã à noite, havia uma espécie de jogador odiado por todos: era o dono da bola. O dono da bola era o mais rico de todos mas, invariavelmente, dos que pior jogavam. E, assim, volta e meia, para se vingar da sua falta de jeito, o dono da bola agarrava nela, ia-se embora e acabava o jogo. Ele era o dono da bola e, por, isso, tinha o privilégio de nos poder roubar a a bola e acabar com o jogo. Assim se compensava da sua impotência.

Autor desconhecido

1.

Cerca de 5 mil profissionais do Serviço Nacional de Saúde deverão aposentar-se este ano, estima a direcção executiva do SNS.

 2.

Paul Auster

Criou um estilo, foi uma estrela e retirou-se quase em silêncio, escreveu o Público na sua 1ª página.

Também no Público, mas a 5 de Maio, Rogério Casanova:
«A morte de Paul Auster teve direito a chamada de capa nos quatro principais jornais diários nacionais, incluindo o Correio da Manhã, apesar de o autor norte-americano ter falecido após doença prolongada na sua casa em Brooklyn e não atropelado por um tractor em Penalva do Castelo.
O fenómeno não é inédito, mas é suficientemente raro (e normalmente reservado para Saramagos ou Garcias Márquez) para tornar insatisfatórias as respostas mais comuns à pergunta: “Porque é que isto é capa de jornal?” (Dia calmo? Voto evangélico? Neoliberalismo?)


3.

Vinte anos depois do Euro 2004, as câmaras que investiram na construção e na requalificação de estádios ainda devem 22 milhões de euros de empréstimos e sentenças judiciais, avança, o Jornal de Notícias. O município de Leiria tem a maior fatia em dívida (10,9 milhões), seguindo-se Coimbra com seis milhões e Braga com cinco milhões de euros ainda por saldar. Neste momento, as câmaras procuram aliar a atividade desportiva à sustentabilidade financeira, com o arrendamento de espaços a empresas e a instituições públicas a ajudar a rentabilizar, mas as situações não são todas iguais.

4.

A segurança social tem 50 inspectores para fiscalizar 2606 lares de idosos registados, e existem para realizar as inspecções 22 viaturas, das quais 17 têm uma média de 24 anos de utilização e nunca estão todas operacionais.

5.

O número de pessoas em casas sobrelotadas aumentou quase 40% em 2023, o maior salto em 20 anos;  a renda mediana das casas fixou-se em 7,71 euros por metro quadrado no último trimestre de 2023, mais 11,6% que no mesmo período de 2022; infiltrações de água, humidade e mau isolamento térmico são problemas que afectam cerca de 30% das casas dos portugueses. 

6.

«O 25 de Abril não é hoje o que sonhávamos? Sem dúvida, mas só as utopias nunca concretizadas é que não nos desiludem, e o que temos é demasiado precioso para não o celebrarmos e, sobretudo, para o defendermos…»

Esther Mucznik

OLHAR AS CAPAS


Stuart

Catálogo da exposição de Stuart realizada no Palácio dos Corucheus

Maio/Junho de 1982

Programa e Organização de Paulo Madeira Rodrigues

Edição da Câmara Municipal de Lisboa, 1982

De dezenas de milhar de originais que Stuart desenhou, descuidadamente, em qualquer papel, em casa sobrea a prancheta, ou em mesas e balcões de café e tabernas de acaso, traçados a caneta, a lápis, a carvão de pau de fósforo queimado ou palito mastigado e molhados em saliva, borra de café ou de vinho, restam realticamente poucos. A maioria perdeu-se no lixo das redacções, nas limpezas negaligentes de arquivos, nos arrumos de estantes e de bibliotecas. REunem-se, agora, pouco mais de três centenas para realizar a «exposição possível» e a homenahem há muito devidas ao artista.

OLHARES

«Não vou aqui me gabar – mas vi Luzes da Cidade mais de vinte vezes. Aliás não seja por isso porque Otávio de Faria viu mais de trinta.»

Vinicius de Moraes

sábado, 15 de junho de 2024

OLHAR AS CAPAS


 Coca-cola Killer

António Victorino de Almeida

Edições O Jornal, Lisboa, Novembro de 1981

                                                                        Qualquer semelhança

                                                                         entre este livro

                                                                         e uma garrafa

                                                                         é pura coincidência.

Ainda que este livro não deva ser, de modod algum, uma daquelas autobiografias grotescas em que o autor relata toda a sua história desde a idade das fraldas, não posso deixar de citar a data triste da minha infância em que – motivado pela circunstância de meu avô dormir de braçaos abertos – pretendi crucifica-lo no colchão, chegando a cravar-lhe uma cavilha na mão esquerda.

Ao contrário do que se propalou pelas vias da coscuvilhice da vizinhança, a gangrena que o vitimou não derivou do ferro ferrugento da cavilha, mas de um panarício anterior ao atentado – o que não impediu que tanto a acção concreta como a calúnia me marcassem para o resto da vida, com a memória escaldante de uma tragédia

MÚSICA PELA MANHÃ




Está velho e cansado.

De quê?

Não sabe responder.

Repete muitas coisas. No meio das conversas já esquece o que estava a dizer.

No recorte que hoje para aqui trouxe, lembrou uma canção de Brel. Uma canção de que por aqui já falou que é a versão dessa canção na voz de Nina Simone.

Repete muitas coisas, escreveu atrás.

Mas relê agora que nesse texto prometeu que um dia traria a versão da Maysa Matarazzo.

Esqueceu-se. 

Mas fica agora.


VELHOS RECORTES


Este anúncio foi publicado no Diário de Notícias de 30 de Março de 2002.
Hoje, o mundo do pequeno anúncio é, completamente, diferente: apelam a call girls, a carl boys, a massagens a isto, aquilo e aqueloutro.

Um tempo houve que os anúncios, principalmente os do Diário de Notícias revelavam pessoas à procura de outras para convívio, para refazerem uma vida, pessoas invadidas por uma solidão, a que, desesperadamente, queriam fugir.

«Sou divorciada, 36 anos e dois filhos. Procuro companheiro livre, formado e culto para juntos construirmos a felicidade a que temos direito».

«Separado, 48 anos, grande solidão, posição estável, pretende senhora para convívio».

Fugir à solidão, tentar, ainda, uma gota de felicidade, por vezes nem felicidade é, apenas um aconchego…

Que faz correr esta gente cansada? Donde vem esta gente tão só? Que sabemos nós? Que desígnios, situações, circunstâncias os levaram até aqui?

O vazio. A lucidez deste hábito. Nascer é inaugurar a solidão. Será?
Há prédios no centro de Lisboa onde apenas vive um idoso, o resto são escritórios.

Quando a pessoa se dá conta que está sozinha vai para o hospital. Não diz que está sozinho, diz que está doente. Os serviços hospitalares têm destes casos todos os dias.

E estes são os que ainda podem sair de casa. Outros… bom... outros...

Quantos milhares de idosos vivem sozinhos em Lisboa? E ali? E acolá?

Em 2023 estimavam-se 575 mil idosos a viver sozinhos. 

Saber administrar a solidão…

Perguntaram a um pastor se ele não se aborrecia de estar ali, dias e dias, com as ovelhas e mais nada.

«Não, não me aborreço porque as ovelhas às vezes bolem…»

A solidão que não pára de crescer…

Não me deixes
Oferecer-te-ei
Pérolas de chuva
Vindas de países
Onde nunca chove
Não me deixes
Deixa-me ser
A sombra da tua sombra
A sombra da tua mão
A sombra do teu cão
Não me deixes…»
 

sexta-feira, 14 de junho de 2024

POSTAIS SEM SELO


Não nos lembramos de dias, recordamos momentos. A riqueza da vida está nas memórias que esquecemos.

Cesare Pavese

DOS REBOTALHOS E COISAS ASSIM...


Na Alemanha, começou hoje o Mundial de Futebol.

Sejam bem-vindos ao tempo em que todos os dias são domingo.

De, hoje até 14 de Julho e não se falará de mais nada.

 Aliás, já há muitas semanas, que não se fala de outra coisa.

As televisões encharcam-nos as horas, com todas as incidências por que passa a selecção nacional.

Uma verdadeira náusea, um espectáculo absolutamente patético.

É óbvio que o futebol não tem culpa de ser um belo espectáculo.

Hoje, como ontem, sempre foi mais fácil um miúdo encontrar uma bola do que um livro.

Mas nos dias que correm, não há pai que não sonhe que o filho venha a ser: não um médico, um canalizador, um advogado, um carpinteiro, mas sim um Cristiano Ronaldo.

Carlos Drummond de Andrade dizia:

«Bem aventurados os que não entendem nem aspiram a entender de futebol, pois deles é o reino da tranquilidade.»

Ele sabia bem do que falava!

1.

O selecionador Roberto Martínez disse que o grupo está pronto para disputar a fase final da competição, prometendo uma viagem rumo a Fátima em caso de título, embora não a pé, uma vez que "pode ser muito difícil".

2.

Ontem, no interior do hotel durante a cerimónia protocolar de receção à chegada dos jogadores estava prevista a actuação do rancho folclórico das Lavradeiras de Gutersloh  mas a UEFA impediu e mandou retirar os elementos do local por não haver segurança suficiente.

3.

A poucos dias do primeiro jogo no Euro 2024, Portugal estreia-se em terras germânicas, na manhã desta sexta-feira, com um treino no estádio do FC Gutersloh. O momento será seguramente de festa e euforia, mas a distribuição dos convites gratuitos tem provocado polémica na pequena cidade alemã. As cerca de 8200 entradas disponibilizadas para o evento foram alocadas em poucos minutos, com a procura a ultrapassar largamente a oferta. Com uma forte comunidade portuguesa no país anfitrião da competição, muitos dos bilhetes terão sido entregues a alemães, com queixas de responsáveis locais.

Além disso, com o aproximar do tão cobiçado treino, os convites gratuitos têm sido colocados à venda por centenas de euros – com uma publicação entretanto apagada a pedir mil euros pelo ingresso.

OLHAR AS CAPAS


A Funda

2º Volume

Artur Portela Filho

Capa: Mendes de Oliveira

Moraes Editores, Lisboa, Novembro de 1972

«A estes ninguém os meteu em autocarros.

São oitenta mil e foram eles que escreveram os cartazes.»

Provam que a multidão pode ser um acto voluntário.

Provam que o entusiasmo pode ser um acto espontâneo.

A diferença entre a política e a sociologia chama-se Benfica. Um Benfica é o que é – indústria do músculo. Fábrica de chutos, catedaral de taças – e mais aquilo que nada mais consegue unir.

O Benfica foi inventado para substituir a Política.

Agora, que a Polítca quer regressar, encontra o lugar tomado. 80.000 lugares tomados.

REVOLUÇÃO É UMA PALAVRA MUSCULAR

Não contem os dias caros senhores.
Há coisas mais urgentes do que embalar o tempo em plástico
alveolar. É por aí que as horas fogem à palavra já,
esta palavra urgente até ao ínfimo segundo. Cada bolha
seria um ano mais de ditadura. Não vos dói o coração dos outros?
A boca parada da vida obriga-me a palavras como já e nunca mais.
São palavras de andar, têm um corpo muscular de sim,
músculos de acelerar a revolução enquanto os caros senhores
olham as canetas azuis com que se mata a literatura em nome
de qualquer coisa que não é decerto um livro que julgávamos
irremediavelmente publicado. Caros senhores, com abril a revolução
não teve um fim, teve um início que já tinha começado
antes de estiar as nossas vidas.
Não contem dias inúteis. A matemática habita o já
e a liberdade pode perigar no dedo mindinho, ou num capilar
de desatenção. A palavra do agora-sempre é revolução.
A palavra do aqui é já, um já modelado com alteres,
e ainda assim minúsculo para tanto exercício cardiovascular
sem necessidade de aquecimento.
A letra “J” é uma coluna que marcha à procura da letra “à”
e encontram-se numa fonte de cravos onde as gentes
bebem à porta da cidade morena, atravessada a noite
das prisões. Mas há sempre uma mão alheia a trabalhar na sombra
e melhor do que contarem as horas é vigiarmos nós o sol
para que nasçam sempre cravos, sempre o vermelho insanguíneo
da liberdade. A revolução é a única melodia do amanhecer.

Rosa Alice Branco

Nota do Editor:  Este poema de Rosa Alice Branco foi tirado do Público de 23 de Maio de 2004.

Poesia Pública é uma iniciativa do Museu e Bibliotecas do Porto comissariada por Jorge Sobrado e José A. Bragança de Miranda. Ao longo de 50 dias publicaremos 50 poemas de 50 autores sobre revolução. 

quinta-feira, 13 de junho de 2024

OLHAR AS CAPAS

55 Dias de uma Experiência Democrática

Mário Murteira

Colecção Pontos de Vista nº 10

Iniciativas Editoriais, Lisboa Janeiro de 1975

Entrando em férias após a curta – mas intensa – vida do primeiro Governo Provisório, decidi deslocar-me a Sagres passando por Grândola. Esta peregrinação culminou numa caldeirada na praia da Baleeira. Perguntando ao mestre da casa, depois de feitas a honras ao prato do dia, por que não havia sobremesa para oferecer, respondeu-me «que a fruta estava a um que era um roubo». Disse-lhe que as pessoas pagariam, mesmo assim. Retorquiu-me que «não colaborava com ladrões, fosse de que maneira fosse, e preferia continuar a não enganar os seus fregueses». Por isso, não tinha sobremesa. Gente do mar, turistas e um desempregado (eu próprio) ouviram esta lição.

NOTÍCIAS DO CIRCO


A Seleção Nacional já se encontra na Alemanha, país que acolhe o Euro 2024 entre 14 deste mês e 14 de Julho. O avião que transportou a comitiva aterrou no aeroporto de Munster por volta das 18h30 hora de Lisboa.

Centenas de motards acompanharam a viagem de autocarro desde o aeroporto até ao hotel em Marienfeld, onde a selecção ficará hospedada.

Durante uma boa porção de tempo, cinco canais de televisão portugueses acompanharam a partida de Lisboa e a chegada a Marienfeld da selecção nacional. Quando lhes faltou matéria, inventaram «chouriços».

TOUS LES GARÇONS ET LES FILLES


O devagar depressa dos tempos.

Esta capa de Françoise Hardy está no blogue dos guedelhudos, blogue dos guedelhudos, parvamente desaparecido porque o Luís entendeu que o Facebook é bem mais útil!...

Não nos conseguiu dizer dessa utilidade. Ou por outra, murmurou qualquer coisinha que, pouco ou nada, esclareceu.


DISQUES VOGUE/ARNALDO TRINDADE - VAT 15001 - edição portuguesa

Uma voz fresca, ajustada, moderna, compondo ela mesmo as suas canções, Françoise Hardy agradar-vos-á!

Entendendo Françoise Hardy entende-se a juventude e os seus problemas amorosos.

Sereis transportados a um outro mundo de delicadeza, de ritmo e de juventude.

Viva Françoise Hardy!

(texto apócrifo na contracapa do disco)

Nota do Editor:

Nota do Editor:

O Luís Pinheiro de Almeida adquiriu este disco no dia 21 de Dezembro de 1963 e o Pedro de Freitas Branco comentou: «A minha musa dos anos 60... e "Dis Lui Non" uma das melhores canções da década!!!»

Como nem todos tocam piano e falam francês, alguém, num comentário no Público na notícia da morte de Hardy, colocou uma tradução de Tous les Garçons e les Filles:

«Todos os rapazes e raparigas da minha idade passeiam na rua dois a dois e sabem bem o que significa ser feliz. E de olhos nos olhos e de mãos dadas avançam enamorados e sem receio do dia seguinte. Mas eu vagueio sozinha pelas ruas, triste no meu coração porque ninguém me ama. Os meus dias e as minhas noites são em tudo iguais sem alegrias e cheias de aborrecimento. Ninguém me murmura ao ouvido "Amo-te". Todos os rapazes e as raparigas da minha idade fazem juntos projetos para o futuro. Eles sabem muito bem o que significa amar. Oh, quando é que o sol brilhará para mim? Como eles e elas conhecerei eu em breve o que é o amor? Como eles pergunto-me quando chegará o dia em que o meu coração será feliz sem medo do dia seguinte sem a alma triste, o dia em que também eu terei alguém que me ame.»

COMEÇOS DE LIVROS


Começo de Os Cus De Judas de António Lobo Antunes:

«Do que eu gostava mais no Jardim Zoológico era do ringue de patinagem sob as árvores e do professor preto muito direito a deslizar para trás no cimento em elipses vagarosas sem mover um músculo sequer, rodeado de meninas de saias curtas e botas brancas, que, se falassem, possuíam seguramente vozes tão de gaze como as que nos aeroportos anunciam a partida dos aviões, sílabas de algodão que se dissolvem nos ouvidos à maneira de fins de rebuçado na concha da língua.»

Um começo de livro que coloco no número dos meus preferidos.

É uma imagem que transporto dos meus distantes tempos de menino e quando a li expressa pela prosa de António Lobo Antunes, comovi-me.

Já por diversas vezes aqui expressei a ideia de que os recentes romances de António Lobo Antunes tornaram-se-me de difícil leitura, por vezes, mesmo incompreensível.

De um só fôlego li Memória de Elefante, Os Cus de Judas, Explicação dos Pássaros e disse para comigo que tinha ali um autor para a vida.

Acontece até que os títulos que Lobo Antunes arranja para os seus romances, são uns excelentes achados. Mas já são livros que não li, ou deixei-os nas primeiras 50 páginas, que é a medida que coloquei a mim mesmo para que um livro me leve até ao fim.

Exemplos:

Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura,

Que farei quando tudo arde?,

Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo,

Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?,

Não É Meia Noite Quem Quer,

Caminho Como Uma Casa Em Chamas,

Para Aquela que Está Sentada no Escuro à Minha Espera 

Até Que as Pedras Se Tornem Mais Leves Que a Água

A Última Porta antes da Noite.

Sou, pois, um desistente leitor de António Lobo Antunes.

Hélas!

Já nem as crónicas, que sempre gostei de ler, o autor deixou de as escrever para os jornais e revistas que antes as publicavam. A editora que o suporta consentiu na patetice do autor, ou teve receios, dado o seu conhecido mau feitio, que saísse porta fora a caminho sabe-se lá de quê.

Legenda: contra capa da 1ª edição de Os Cus deJudas.

MÚSICA PELA MANHÃ


 Hoje, Dia de Santo António, talvez ficasse a propósito uma Marcha Popular, mas a conclusão foi trazer Amália, nesse lindíssimo, genial num melhor dizer, LP «Com que Voz» em que Alain Oulman arranjou músicas para que nossa Diva cantasse poetas portugueses.

COM QUE VOZ

Com que voz chorarei meu triste fado,
que em tão dura paixão me sepultou.
Que mor não seja a dor que me deixou
o tempo, de meu bem desenganado.

Mas chorar não estima neste estado
aonde suspirar nunca aproveitou.
Triste quero viver, pois se mudou
em tristeza a alegria do passado.

Assim a vida passo descontente,
ao som nesta prisão do grilhão duro
que lastima ao pé que a sofre e sente.

De tanto mal, a causa é amor puro,
devido a quem de mim tenho ausente,
por quem a vida e bens dele aventuro.

 

Luís de Camões

quarta-feira, 12 de junho de 2024

POSTAIS SEM SELO


A alegria é a coisa mais séria da vida.

José de Almada Negreiros

Desenho pintado por Aida Santos

OLHAR AS CAPAS

Sermão de Santo António aos Peixes

Padre António Vieira

Prefácio e Notas de Rodrigues Lapa

Colecção Textos Literários

Editora Seara Nova, Lisboa 1940

Vós, diz Cristo, sois o sal da terra; e chama-lhe sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra não se deixa salgar, e os ouvintes, senso verdadeira a doutrina que lhe dão, a não querem receber.

NOTÍCIAS DO CIRCO


Os saudosos do salazarismo, os saudosos da Fé e do Império, conseguiram espaço para que o 25 de Novembro seja comemorado na Assembleia da República.

Andam nisto há uma eternidade!

Há muito que já poderiam ter chegado a esta, triste, comemoração, mas por diversos factores não o quiseram.

Durante todo um tempo já planearam não sei quantas manifestações para comemorarem ESSE DIA NÃO!, mas faltam-lhes dedos para tocarem a guitarra e a pseudo exaltação acaba, quando acaba, em jantares manhosos, tristes, cheirando a naftalinas.

Agora, um gang de deputados semi-analfabetos, ignorantes da História, e do que foi o 25 de Abril, puxaram dos galões, abanaram os panos esfarrapados do  lá vamos, cantando e rindo levados, levados, sim pela voz de som tremendo das tubas, clamor sem fim.

O 25 de Novembro de 1975 foi apenas um episódio dos longos caminhos de Abril, como o 28 de Setembro de 1974, como o 11 de Março de 1975.

Abril 25 há apenas um.

Sempre!

E acabamos por voltar a José Saramago, Cadernos de Lanzarote V volume, quando um dia Vasco Lourenço disse:

«Exemplar e oportuno, Vasco Lourenço acaba de produzir uma importantíssima declaração, contribuindo, como só ele poderia, para as alegrais deste dia fasto: «Se fosse preciso, faria outro 25 de Abril…» Dá vontade de lhe dizer que teria podido consegui-lo facilmente se não tivesse ajudado tanto a fazer o 25 de Novembro…»