sábado, 21 de fevereiro de 2026

OLHAR AS CAPAS


O Marinheiro de Gibraltar

Marguerite Duras

Tradução: Isabel de St. Aubyn

Capa: José Antunes

Círculo de Leitores, Lisboa Dezembro de 1989

O Verão angustiava-me. Era certamente o desespero de nunca conseguir viver de acordo com ele. 

MÚSICA PELA MANHÃ


Existe a velha ideia de que se não fossem os irlandeses não tinham romancistas, nem poetas, nem músicos, nem realizadores de cinema.

Deixemos Shakespeare, ou os beatles de fora do eventual exagero da citação.

Van Morrison é um irlandês, nascido em Belfast, que é da minha idade e de que gosto muito.

São dele as canções que entram hoje ma Música desta Manhã.

Tive a grande oportunidade de o ouvir, em 22 de Julho de 2023, no Cascais Cool Jazz.


CONVERSANDO


Das citações.

A opinião de Eduardo Prado Coelho:

«Citas muito, dizem. Sempre foi assim. Como explicar? Não se trata nem do uso de argumentos de autoridade nem de exibicionismo cultural. Mas incomoda, eu sei, e permite que se insinue que se não pensa pela própria cabeça, ou que se vive alimentado pelas modas «que vêm do estrangeiro».

Gostaria de tornar bem claro como o gosto da citação tem a ver com um amor intenso das palavras. Por vezes, citação que excita pela convicção de que alguém encontrou um dia as palavras certas – isto é, os nomes próprios – para dizer algo que em nós foi expressão confusa e enrodilhada. Aqui a citação tem um efeito de evidência. Que é sempre, acreditem, motivo de júbilo.

Por outro lado, a citação é um incitamento. Porque retirar as palavras de um contexto (a citação faz um desvio) é criar em torno delas um halo de silêncio, um anel de referências implícitas, que abre o espaço para dizer mais. O espaço off de uma citação é um convite para se pensar. A citação condensa, mas ao mesmo tempo indecide – efeito de descontextualização.»

Por mim, sempre tive a ideia se há alguém que diz as coisas melhor do que eu digo, não hesito: cito.

São diversos os comentários que leitores fazem às muitas citações que Ana Cristina Leonardo faz nas crónicas que publica no Público.

Na crónica de ontem a autora entendeu que era hora de escrever sobre o assunto.

 Deste modo:

«Como alguns leitores terão provavelmente notado, gosto de citações (também gosto de advérbios de modo, mas isso agora não vem a propósito). As citações têm várias vantagens. Acima de tudo, poupam-nos trabalho. Além de nos pouparem trabalho — benefício de monta para quem considera que o trabalho, além de mal pago, está sobrevalorizado (caso, por exemplo, de Albert Cossery, autor, entre outros, de Mandriões no Vale Fértil — trad. Júlio Henriques, Antígona, 3ª ed., 2022) —, permitem-nos expressar melhor ideias que, sem a elas recorrermos, expressaríamos decerto pior.
Dirão alguns, em tom acusatório, que as citações não passam de uma bengala. Não serei eu a contrariá-los. Faço apenas humildemente notar que, ultrapassada certa idade, de uma maneira ou de outra, metafórica ou literalmente, uma bengala dá sempre bastante jeito. Depois, há a síntese. Uma boa citação permite-nos ir directos ao ponto. Sem palha. Com sorte, com elegância. E a elegância, ao contrário do trabalho, anda bastante subvalorizada. Porque se é verdade que Einstein não chegou à elegantíssima síntese E = mc² flanando apenas, também é verdade que a hipótese (genialmente arrojada: não tenhamos medo das palavras) de o tempo não ser uma medida fixa lhe ocorreu ia ele a passar tranquilamente junto à Torre do Relógio em Berna. Por falar nisso, li algures num livro, já não me lembro qual, que o biólogo e psicólogo Jean Piaget, inspirado pelo físico, chegaria à conclusão de que as diferentes setas do tempo em nada parecem estranhas às crianças: para elas, quanto mais depressa correm, mais devagar o tempo passa. Lembrando Pessoa: “Grande é a poesia, a bondade e as danças.../ Mas o melhor do mundo são crianças”.

Ocasionalmente, flanar e pensar pode ter consequências bizarras: umas vezes cómicas, outras vezes trágicas. Tales de Mileto caiu num buraco, ao que se sabe sem mazelas de maior, enquanto caminhava a observar as estrelas. Já ao filósofo Francis Bacon, terá sido o empirismo a matá-lo. Envolvido em experiências sobre congelação, ao cruzar-se em pleno Inverno com uma galinha, decidiu mandar matá-la e enterrá-la na neve. O destino da ave perdeu-se, mas Francis Bacon acabaria mesmo por morrer de pneumonia.

Chegado aqui, o leitor terá talvez concluído, e legitimamente, que, além de citações e de advérbios de modo, também admiro muitíssimo uma boa história. Só para dar dois exemplos: o chamado Antigo Testamento ou As Mil e Uma Noites são fontes inesgotáveis. E para voltar às citações e à sua defesa, e dado que me referi às escrituras hebraicas: e se afinal o Livro de Eclesiastes estiver certo e não existir mesmo “nada de novo debaixo do sol”, pelo menos para nós que, como Sísifo, empurramos ciclicamente a mesma pedra, revoltados de quando em vez?
Albert Camus, o autor da célebre abertura de O Mito de Sísifo — “Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio. Julgar se a vida merece ser ou não vivida é responder à questão vital da filosofia” (uma daquelas frases que comprovam sobremaneira que “o começo de um livro é precioso”) —, não escolheu o suicídio ante o absurdo. Morreria prematuramente e de maneira absurda num acidente na estrada, durante uma viagem de automóvel em que decidiu participar apenas ao último minuto. Já cá não está para nos ajudar a decidir sobre a revolta, mas quando se tropeça por acaso em Loretta, as decisões mais recentes do Parlamento Europeu (PE), rasurando a palavra “mulher” só parecem comprovar, senão os trabalhos de Sísifo, decerto a longevidade do absurdo.»

A prosa sobre citações já vai longa, mas não resisto a terminar colocando o comentário de uma leitora na edição do Público de ontem:

«Gosto de citações, remetem- nos para obras que podemos desconhecer e aprendemos e, por outro lado, é uma homenagem. Não vejo nisso qualquer problema. É preciso ter lido muito para as tornar oportunas e nisso a Ana é exemplar.»

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

POSTAIS SEM SELO

A vida hoje é outra, a História segue o seu caminho e muita gente há que corre atrás desse comboio só para arranjar lugar na 1ª classe. Nós preferimos fazer parte daqueles que melhoram a via para que o comboio não descarrile.

Autor desconhecido

SOLTAS


 «A maior parte da sua obra poética foi escrita em Moçambique, ao mesmo tempo que pintava e dava lições gratuitas a alunos locais, no Núcleo de Arte. Foram seus alunos atentos os hoje famosos Malangatana Valente (pintor) e Chissano (escultor). Quadros era um docente notável, esforçado e admiravelmente sensível às dificuldades dos alunos. Era de uma extrema minúcia em tudo o que fazia. Lembro-me, com grande saudade, de noites prolongadas até de madrugada, na nossa casa, em Lourenço Marques, com o António Quadros a desvendar-nos todos os mistérios da vida e percursos das abelhas. Era assim com tudo: um dedicado e autêntico profissional.

Enquanto escrevia o seu longo poema satírico – Quybyrycas, prefaciadas por Jorge de Sena –, mais longo que os Lusíadas, tinha fixado na parede um gráfico em que mostrava o progresso diário do poema, em estrofes concluídas. Tanto o Quadros, pintor, como o Grabato Dias, poeta, se consideravam, orgulhosamente, simples operários. O preço dos quadros que vendia nada tinha a ver com a enorme reputação de que já então desfrutava: era rigorosamente calculado em função do número de horas de trabalho investidas na obra. Preços dignos, mas razoáveis.

Termino com uma passagem da homenagem que lhe prestei nas minhas memórias: 

“Como poeta, como pintor, como fazedor, como criador, como intrépido desvendador de territórios ignotos, António Quadros foi um dos raros génios que tive o privilégio de conhecer, em vida. Não me apetece, neste caso, estar com cuidado a medir as palavras: disse “génio” e disse bem”.»

Eugénio Lisboa, JL, 23 de Setembro de 2020.

1.

Segundo a DECO o preço do cabaz alimentar está a aumentar desde o início de 2026, na semana passada bateu o recorde dos últimos quatro anos e é provável que, em consequência dos prejuízos causados pelas tempestades, o valor ainda suba mais.

2.

Bonito, bonito é preparar a festa

Gratificante, gratificante é nela participar.

Claro que depois há a nostalgia do fim da festa, aquela tristeza cinzenta que fica sempre no fundo das garrafas vazias.

3.

A saúde é um estado transitório que não augura nada de bom.

4.

Em qualquer parte do mundo há sempre alguém à espera de um livro, de uma canção, de um filme que cure a violência e a solidão.

5.

Praticamente, durante largas dezenas de anos, fomos governados pelo PSD e pelo PS.

Sabe-se que ambos os partidos não estão puto interessados no país. Ambicionam o poder para poderem dar empregos e mordomias para os jotinhas que vão criando nas suas sedes.

6.

Uma idiossincracia dos miúdos é que só os nossos é que prestam, Os dos outros não passam de pastiches, réplicas ranhosas.

7.

O mundo, esse continuou a girar em volta do sol, tal como Galileu tinha previsto.

QUEM SÃO OS ADULTOS QUE O FAZEM

Os sítios onde se guardam os livros, que são, como sabemos, impressos em papel, e que podem ter muitos, muitos anos, centenas alguns, têm todos um cheiro especial, que certas pessoas podem achar pesado, mas que a outras transporta imediatamente para dias e noites de leitura e de pesquisa. Nada se compara a um mergulho num livro, mesmo quando temos a sensação que muitas outras coisas poderíamos estar a fazer em vez de o ler. “Talvez não haja dias da nossa infância mais plenamente vividos que aqueles que julgamos deixar sem os viver, aqueles que passámos com um livro preferido”, diz-nos Proust, uma frase que eventualmente hoje terá uma ressonância muito diferente — quem são as crianças que hoje em dia passam tardes da sua infância a ler? Quem são os adultos que o fazem?

Guta Moura Guedes de uma crónica no Expresso

DÁ-ME

dá-me         amor

dá-me a folha de árvore

que guardaste na algibeira

pelo menos

dá-me o descanso de dormir

no meu próprio corpo

enquanto o pássaro

- qualquer pássaro –

deixa inesperadamente de cantar

e repousa

enquanto o diálogo

                  o nosso diálogo

se interrompe para que passem

as nuvens

nesse momento          precisamente nessa ocasião

dá-me o teu silêncio

e perguntas

não me faças        não me faças nenhuma

creio que agora é inútil.

 

Mário-Henrique Leiria em Poesia

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Para viver fora da lei tens de ser honesto.

Bob Dylan

OLHAR AS CAPAS


Estudos Sobre Teatro

Bertolt Brecht

Tradução: Fiama Hasse Pais Brandão

Colecção Problemas nº 1

Portugália Editora, Lisboa Março de 1964

O individuo é cada vez mais fortemente impelido a comprometer-se nos grandes sucessos que transformam o mundo. Deixa de lhe ser possível «exprimir-se» apenas. É solicitado a solucionar os problemas comuns e posto em condições de o fazer. O erro reside, tão sòmente, em as engrenagens não serem ainda, hoje em dia, da comunidade, em os meios de produção não pertencerem aos produtores e em se atribuir ao trabalho um carácter mercantil, sujeitando-o às leis gerais da mervadoria. A arte é, pois, uma mercadoria; sem meio de produção (engrenagem) não seria possível produzi-la! Uma ópera só pode ser feita para a ópera.

GESTOS

Gestos,

apenas gestos. A minuciosa ternura

posta nas coisas imediatas,

nas que duram contra a noite,

nas que acendem lâmpadas precárias

e contêm o silêncio, o silêncio,

como se música fossem

e nela nós viéssemos

perder.


Gestos,

tu ouves?

Nem o teu coração pode dar guarida

a tanto silêncio da terra.

 

Se agora mesmo devagar nos anoitecesse

e se, mergulhados numa aguda nostalgia

ou na recordação de um rosto,

nos desencontrássemos do mundo,

só esse gesto viria resgatar-nos,

a nós, feridos de amor e de sentido.

 

Por isso, hoje só posso dizer

o que o teu coração abandonou.


Luís Filipe Castro Mendes em Poemas Reunidos

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

OLHAR FRIGIDEIRAS, TACHOS, PANELAS


Maria de Lourdes Modesto morreu a 19 de Julho de 2022.

Na crónica que publicou no Expresso de 29 de Julho de 2022, João Paulo Martins, no ponto 2 da sua crónica sobre o Verão e os seus vinhos, não quis deixar de homenagear «a grande senhora da nossa gastronomia»:

 1. Em época de canícula as bebidas frescas são as que nos sabem melhor. Apesar de eu ser grande apreciador de Espumantes/Champanhes, tenho que reconhecer que o calor excessivo obriga os enófilos a uma certa contenção no consumo. A primeira razão é que não se combate a sede com vinho mas sim com água e, no Verão, com muita água mesmo, para evitar desidratações que, dizem os médicos, nos podem afectar terrivelmente sem darmos por isso. Por isso, pelo sim pelo não, vamos assumir, no mínimo, meio litro de manhã e outro tanto à tarde. Não só não custa nada como nos tira a sede. E é sem sede que podemos melhor apreciar o vinho, sobretudo a acompanhar a refeição, como é nossa tradição em Portugal. Convenhamos que há outras bebidas refrescantes como a limonada, à qual deveremos juntar muito pouco (ou nada, mesmo) de açúcar. Se tiver uma Bimby fará uma limonada em três tempos sem qualquer dificuldade. O Verão é também associado com long drinks, como o gin tónico. Esta é, por excelência, a bebida do fim de tarde após regressar da praia. Pode também escolher um Porto tónico ou um menos falado mas também muito bom, Porto rosé com muita hortelã e água tónica. O moscatel também se presta a vários cocktails. No caso dos brancos e rosés é indispensável ter um balde de gelo perto da mesa porque o vinho aquecerá num instante; use também o mesmo balde de gelo para refrescar o tinto que isso do tinto à temperatura ambiente já era…E o generoso do final da refeição também agradece se for servido fresco.

2. Não quero deixar de prestar aqui a minha homenagem a Maria de Lourdes Modesto, uma grande senhora da nossa gastronomia (termo que lhe era caro e ficava muito irritada quando se falava em «gastronomia e vinhos», já que, defendia ela, gastronomia, por si, já inclui os dois temas. Conversadora, sempre muito crítica em relação ao que via, ouvia e provava, sempre a refilar com os menus degustação porque, argumentava, «chego ao fim e não me recordo do que comi, tal foi a quantidade de coisinhas que me serviram…». Gostava de ralhar com os Chefes mas a verdade é que todos tinham por ela um especial carinho. E, em visitas (várias) com direito a chá e bolinhos na sua casa do Estoril, troquei com ela livros e receitas, eu sempre a aprender, claro, e ela sempre muito disponível para conversar e trocar ideias. São pessoas assim que fazem o nosso percurso de cozinheiros amadores, que nos inspiram e nos dão vontade de continuar a eterna descoberta de um novo sabor, uma nova combinação, um ingrediente-surpresa ou um twist, como agora é uso dizer-se. Ela era apreciadora de vinhos e fazia questão de ter os guias que iam saindo, sempre atenta às sugestões que lhe chegavam. E eu, que me recordo dela na televisão nos anos 60, sou um felizardo por ter tido a oportunidade de estar perto de tão ilustre personagem da nossa história recente. Comer bem e saber comer será a melhor homenagem que lhe podemos fazer.

OLHAR AS CAPAS


Uma Época no Inferno

Jean-Arthur Rimbaud

Versão Portuguesa, prefácio e notas de Mário Cesariny de Vasconcelos

Colecção Documento Humanos nº 9

Portugália Editora, Lisboa, Junho de 1960

Outrora, se estou bem lembrado, a minha vida era um festim em que todos os corações se abriam, em que todos os vinhos cintilavam.

Uma noite, sentei a Beleza nos meus joelhos. — E vi que era amarga. E injuriei-a.

Armei-me contra a justiça.

Fugi. Ó feiticeiras, ó mistério, ó ódio, éreis vós a guarda do meu tesoiro?

Consegui destruir em mim toda a esperança. Contra toda a alegria lancei o bote cego da besta feroz. Estranguladas!

E chamei os carrascos para morder, na agonia, a corunha dos fuzis. Conjurei as pragas para sufocar na areia, mergulhar em sangue. O infortúnio foi meu vero deus. Estiracei-me na lama. Sequei ao ar do crime. E preguei boas partidas à loucura.

E a primavera trouxe-me a terrível risada do idiota.

FRANÇA DEBAIXO DE ÁGUA - A CRISE QUE QUASE NÃO VEMOS EM PORTUGAL


 Enquanto o debate público se centra nas cheias em Portugal, a França atravessa uma situação excecional que devia preocupar toda a Europa.

As imagens publicadas pelos  média são fortes.

Os números são ainda mais claros:

 900.000 casas sem eletricidade na semana passada

 Cheias generalizadas em várias regiões

 Mais instabilidade prevista, aumentando a pressão sobre a rede elétrica

 Porque é que isto nos deve preocupar?

Porque isto não é um “acidente isolado”.

É a demonstração de que crise climática e vulnerabilidade da nossa sociedade andam de mãos dadas.

Quando centenas de milhares de pessoas ficam sem casa e sem luz, o impacto é económico, social e sistémico.

 Três pontos para reflexão

 Resiliência das redes

Estamos a investir o suficiente para proteger linhas, postes e subestações contra eventos extremos?

 A invisibilidade do risco

Como é possível uma catástrofe desta dimensão num país vizinho ter tão pouco eco no debate público em Portugal?

 Conclusão:

A transição energética já não é só sobre produzir energia limpa.

É, cada vez mais, sobre manter a luz acesa quando o clima testa os limites da engenharia.

Vale a pena ler o artigo do Le Figaro.

A segurança energética europeia é muito mais frágil do que gostamos de admitir.

Pergunta para debate

Estamos a preparar a nosso País para o “novo normal” climático — ou continuamos apenas a reagir depois do choque?

Nota: este texto é de um colega meu.

Pareceu-me interessante.

Colaboração de Rui Ornelas

À LUPA

Mandar os portugueses entregarem os fogões e aquecedores a gás para os substituir por aparelhos a electricidade, nunca pareceu uma medida acertada.

MAS QUE MEMÓRIA

mas que memória
podemos ter
de nós?
e de qual tempo?

deste tempo exterior
em que
depois de criados
e decifrados
os consensuais alfabetos
da exploração
da vida
chegou o projecto Stardust
com material inalterado
desde o início
do sistema solar,
que não nos diz
se então já havia actos de amor
e portanto
não nos diz nada (?)

é preciso emparedar o demente
que propõe que podia haver
o que não há.
e outros
como ele.

acham-se todos
cada vez mais
perdidos
no meio do próprio ruído,
carregando
males
e mails
como se a diferença
entre ambos estes termos
não fosse
apenas o espaço
de uma ou outra letra,
e a ressonância
da voz do homem
que treme fora como a terra dentro.


Alberto Pimenta


terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

NESTE DIA


Neste dia, estamos no dia 2 de Maio de 1968, no 4º volume dos Dias Comuns de José Gomes Ferreira.

 Dois dos escritores que pertencem ao Panteão Literário da Biblioteca da Casa, encontram-se hoje: José Gomes Ferreira e José Saramago.

Para preparar um texto sobre os cafés de Lisboa, de que José Gomes Ferreira foi assíduo frequentador, dei com uma entrada do 4º Volume dos Dias Comuns, referente ao dia 2 de Maio de 1968, em que o Zé Gomes assinalava o número especial da Seara Nova que registava os 50 anos da sua actividade literária, deste modo:

«O Fafe proclama: «José Gomes Ferreira é o meu maior amigo! José Gomes Ferreira é o meu maior poeta».

Comoveu-me. (Sintoma de velhice?)

Por fim, José Saramago que mal conheço, termina assim o seu depoimento: «Ao lado da poesia de José Gomes Ferreira está o poeta que ele é: parece um pleonasmo, uma redundância, talvez um lugar-comum, um dizer-por-dizer. Pois muito se engana quem o julga.»

O que é curioso é que, àquela data quase se desconheciam («José Saramago que mal conheço»), («José Gomes Ferreira a quem mal conheço, a quem nada devo senão a alegria e o conforto de o admirar»).

José Gomes Ferreira morreu a 8 de Fevereiro de 1985.

José Saramago ganhou o prémio Nobel em 1998.

De certeza garantida o Nobel teria dado uma enorme alegria ao Zé Gomes.

Fica aqui o depoimento de José Saramago sobre José Gomes Ferreira publicado na Seara Nova nº 1471, referente a Maio de 1968:

                   

Fomos em busca do depoimento que José Saramago escreveu para a Fotobiografia de José Gomes Ferreira, organizada pelo seu filho mais velho, Raúl Hestnes Ferreira

Para a cópia que reproduzimos, servimo-nos do aquivo da Fundação José Saramago:

«Em Maio de 1973, o suplemento literário do jornal Diário de Lisboa publicou uma entrevista ao poeta  José Gomes Ferreira (Porto, 1900 – 1985). Décadas depois, José Saramago escreveria um texto contando que fora ele o autor dessa entrevista que não aparecia assinada. Contou também lembranças e os ensinamentos que guardava daquela conversa realizada há 50 anos.

José Saramago no papel de entrevistador

Saber a idade que José Gomes Ferreira ia cumprindo era facílimo, só tínhamos de pensar nos algarismos das unidades e das dezenas do ano em que estivéssemos. Mas era difícil acreditar que em 1973, por exemplo, ele já enchera 73 anos de vida. Podia-se admitir, sem demasiada discussão, que aquelas rugas, por serem as cabidas, e aqueles cabelos, por terem branqueado, mais ou menos concordassem com o registo do calendário, mas isso era só enquanto elas repousassem e eles esperassem o vento que infalivelmente os haveria de revolver. Então os números, os da idade e os do ano, desandavam, corriam velozmente para trás, e em menos tempo do que leva a contá-lo transfigurava-se o José Gomes Ferreira, tornado outra vez em homem novo, em adolescente entusiasta pronto a correr ao Batalhão Académico Republicano para realistar-se, em menino a olhar fascinado o deslizar de uma gota de água na vidraça, e sempre, em todas as circunstâncias, iluminado por aquele fundo de incorruptível e desconcertante inocência que iria ser, por toda a vida, a sua mais leal companhia.

Não foi casualmente que mencionei acima o ano de 1973. Trabalhava então na redação do Diário de Lisboa, onde, além de exercer a espinhosa e labiríntica função de opinante em tempos de censura, me esforçava, creio que com alguma ventura, por coordenar e fazer publicar todas as semanas as dezasseis páginas de um suplemento literário. Fiquei a dever essa fortuna a quantos colaboradores, em muitos casos por simples gosto pessoal, ou a câmbio de remunerações insignificantes que só o mesmo gosto lograva tornar aceitáveis, generosamente me abasteciam de material obviamente variável na qualidade, mas sempre empenhado, e por mim agradecido. A par dos habituais artigos e críticas, a par dos ensaios, dos poemas, dos contos, o suplemento literário daquele desaparecido Diário de Lisboa foi também palco de algumas das mais suculentas polémicas da época… E, claro está, havia as entrevistas. Em geral, por falta de tempo, sobretudo por falta de jeito, não era eu a fazê-las, mas alguma forte razão, que sou agora incapaz de recordar, me levou a chamar a mim a responsabilidade de entrevistar o José Gomes Ferreira. Que as minhas artes de entrevistador não eram de extremos, ficou logo demonstrado na calina questão inicial que hoje me faz encolher de vergonha: “Tem algum método de trabalho?”, foi a pergunta. À batida ridiculez da questão quis o poeta responder com paciência exemplar, a paciência de quem já tinha visto e ouvido muito do mundo. Disse ele: “Com mais de meio século de vida literária tive, como é óbvio, não um, mas vários métodos de trabalho. E até um método de preguiça com que construí as linhas fundamentais do meu trabalho literário. Pois nos anos de 20, de 30, de 40, etc., trabalhava num ofício que poucos contactos tinha com a literatura, agarrado a uma moviola de escravo. A minha vocação de escritor, que só à custa de muitos sacrifícios e teima consegui preservar, exerci-a nos intervalos desse trabalho, aproveitando a preguiça das horas de descanso para rabiscar papéis, papelinhos e diários, sempre com a sensação de que estava a roubar tempo e dinheiro ao meu bem-estar e ao da família. Era, em resumo, um escritor de Horas Roubadas. Valia-me também o mês de férias anuais em que tentava pôr em ordem os versos rabiscados durante o ano, ou cumprir alguma encomenda que ousava muitas vezes aceitar com uma coragem que ainda hoje me deixa pasmado.

Por exemplo, o prefácio às Folhas Caídas de Garrett escrevi-o em quinze dias de férias passadas em casa do João Cochofel, no Senhor da Serra”. “E hoje?”, perguntei, surpreendido por tal abundância de informação em troca da mais corriqueira das perguntas.

“Bem. Hoje abandonei a moviola, estou reformado, vivo quase exclusivamente dos livros e das minhas colaborações nos jornais e fui obrigado a estabelecer um método de trabalho adaptado à minha idade, sem horários, claro. (Mesmo nos tempos do trabalho-tortura sempre me defendi dos horários.) Actualmente o meu método resume-se a evitar escrever de noite, para escapar às insónias. Não tive outro remédio senão habituar-me a trabalhar de manhã, servindo-me, como já disse, dos materiais que reuni pacientemente durante os árduos anos de preguiça. À tarde, leio, converso com os amigos nos cafés, visito os editores e à noite volto a ler e, às vezes, até a jogar as cartas, para me deitar o mais tarde possível. Pois contínuo a ser noctívago, embora transpusesse as vagabundagens para o corredor da minha casa onde ando quilómetros e quilómetros de ruas desertas imaginárias”..

A pergunta que lancei a seguir – “Obedece ou cumpre conscientemente qualquer ritual que considere propiciatório do trabalho?” – continha a menos original de todas as curiosidades possíveis, certas e prováveis, mas foi tão generosamente atendida como a primeira: “Rodeio-me de livros, de pastas, de apontamentos, de Diários, de cadernos, de improvisos e todo esse caos de papel de que lhe falei e donde arranco, ou tento arrancar, as linhas harmónicas da criação do meu mundo. Porque, como sabe, o que é difícil é criar o caos. Aliás, nos últimos tempos, ensaiei um novo método de criá-lo. É o que eu chamo, no calão íntimo do meu laboratório-oficina, a planificação da cabeça. Assim: estendo na mesa uma folha de papel de máquina e começo a cobri-la, ora em linha recta, ora obliquamente, umas vezes em baixo, outras ao lado, palavras, frases, desenhos mal feitos, pensamentos, ideias, tudo o que me acode à cabeça, que ligo, desligo, formo, deformo e risco, até apurar não sei o quê, quase sempre coisa nenhuma. Porque o que este jogo tem de mais fascinante é o parecer que não serve para nada, pelo menos imediatamente. Só mais tarde, quando junto esses mapas e os analiso, descubro coisas extraordinárias que me sugerem ideias importantes. Flores incríveis enrodilhadas num silvado de teias de aranha incoerentes que depois simplifico em frases e versos aparentemente fáceis. Planificar o cérebro – eis a minha última descoberta”.

Percebia que para José Gomes Ferreira as questões propostas lhe eram de certa maneira indiferentes, que poderiam ser repetitivas, aventureiras, ingénuas, mesmo absurdas, ele se ocuparia de que as respostas lhes dessem sentido. “Emenda, reescreve, ou fixa-se na forma original? Por outras palavras: é um elaborador, ou um impulsivo?” perguntei. E ele respondeu: “Como se subentende do que já disse, sou ao mesmo tempo um impulsivo e um elaborador.

Improviso em rajadas, nos tais papelinhos. E depois trabalho-os com afinco paciente e teimoso, às vezes durante anos. Sim. Corto, emendo, reescrevo, copio, recopio. E até às vezes conservo religiosamente a forma inicial. Sem tocar na mínima palavra para não desmoronar o poema. Gosto também de trabalhar em coisas diversas na mesma ocasião. Agora, por exemplo, publicada a Poesia-V, em que o século vinte continua a viajar em mim, preparo quatro livros. A Poesia-VI, que encerrará porventura o meu ciclo poético, O Sabor das Trevas, longa narrativa alegórica, Gaveta de Nuvens, compilação dos meus escritos de aparência crítica, e Face em espelho torto, biografia inexacta de um homem exacto. O Sabor das Trevas já vai na segunda versão. É um livro difícil. Uma espécie de João Sem Medo nocturno numa atmosfera insólita de realismo fantástico”.

Para não variar, a pergunta seguinte – “Considera que progrediu desde que começou a escrever?’» também viria a ser salva pela resposta: “Como é natural, a experiência da vida enriqueceu-me (a outros empobrece) e, sentindo-me mais rico, a minha linguagem de raiz barroca simplificou-se, embora cada vez escreva com mais dificuldade e suor. Mas (em arte não há progresso, há às vezes traição) continuo basicamente o mesmo de sempre, a cantar o que me apetece, ou o que possa apetecer-me cantar, cada vez mais livre e ajustado à minha sinceridade”. “Mas há quem o considere sectário…”, insinuei, e logo a resposta: “Nunca o fui nem sou. A não ser que se queira chamar sectarismo à intransigência e fidelidade visceral ao que há de mais profundo em mim mesmo: ao que penso, ao que sonho, ao que desejo, ao que não acredito…”.

Continuou a ser assim, sempre, na Revolução, depois dela, até aos últimos dias de vida. Numa carta datada de 23 de Abril daquele ano e referindo-se a esta entrevista, pedia-me insistentemente que recomendasse aos revisores do jornal que não lhe tirasse o não das palavras finais. Ele lá sabia porquê…»

HORAS DE IR PARA O EMPREGO

Deixei em casa

a palavra lua, a palavra flor, a palavra pássaro

e desci as escadas

já com o emperro dos dias

de máquina vã

 

No patamar

uma garrafa de leite

- pequeno monstro branco de sentinela

o mau hálito luminoso da manhã


José Gomes Ferreira em Poeta Militante, 3º volume

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

POSTAIS SEM SELO

Flores e livros, as consolações da tristeza.

Emily Dickinson

POSTAIS

 

Colaboração de Aida Santos.

NOTÍCIAS DO CIRCO

Um Governo enrolado na tempestade

As próprias medidas iniciais anunciadas pelo Governo no célebre Conselho de Ministros extraordinário, que ocorreu cinco dias depois da tempestade Kristin ter varrido a zona centro, não são exactamente como Montenegro as comunicou ao país.
O prometido Lay-off pago a 100% não existe: o Estado, afinal, só irá pagar dois terços do salário.

O pagamento imediato de dez mil euros para a reconstrução de telhados mediante provas fotográficas não é bem assim: até cinco mil euros o pagamento é facilitado, mas entre cinco a dez mil euros exige vistorias e o dinheiro poderá demorar duas semanas a ser entregue.


Lê-se no editorial, de hoje, do Público, assinado por Helena Pereira

OLHAR AS CAPAS


Servidão e Grandeza dos Franceses

Louis Aragon

Tradução e nota Preliminar: João José Cochofel

Colecção das Três Abelhas

Publicações Europa-América, Lisboa, Março de 1966

Nada nesta vida é exactamente como se imagina. Não sei, na verdade, se Deus dispõe quando o homem põe. De todo o coração gostaria de me tranquilizar, a capacitar-me de que assim é. Mas, então Deus dispõe de modo bastante estranho…

REOLHARES


O QU’É QUE VAI NO PIOLHO?

(Publicado em 18 de Abril de 2011)


Numa das cenas mais fortes – e elas são tantas -  de "Apocalypse Now", esse extraordinário filme de Francis Ford Coppola, (1979), sobre a intervenção norte-americana no Vietnam, um coronel de cavalaria (espantoso Robert Duvall) diz para os soldados que o rodeiam:

“Adoro o cheiro a napalm pela manhã. Tem o cheiro da vitória.

 Enquanto monologa com os soldados que o rodeiam, os helicópteros atacam e destroem uma aldeia vietnamita ao som  da “Cavalgada das Valquírias” de Wagner.

De cócoras, em tronco nu, para além do cheiro a “napalm”, o coronel louco, disserta  sobre a onda perfeita para praticar “surf”.

A loucura, os ensandecidos personagens de uma guerra cruel, exemplarmente caracterizados e denunciados por Coppola.

Como é que um povo de anões conseguiu derrotar o poderio bélico dos Estados Unidos.?

“Empenhamos, nesta guerra, o nosso poderio e a nossa honra nacional, o Presidente Johnson em 1965.

Em Março de 2002, centenas de horas de conversas, gravadas na Casa Branca, foram tornadas públicas. Como esta de Richard Nixon com Henry Kissinger, seu secretário de Estado:

“Nixon: Mais valia usar a bomba atómica no Vietname.

Kissinger: Isso, julgo, seria ir longe demais.

Nixon: A bomba atómica perturba-o? A única coisa em que nós discordamos é sobre os bombardeamentos. Você está tão preocupado com os civis e eu estou-me bem nas tintas. Não me interessa isso.

Kissinger: Preocupo-me com os civis porque não quero que o mundo se mobilize a acusá-lo de ser um carniceiro. Podemos ganhar a guerra sem matar civis.”

Cerca de três milhões de vietcongs mortos, incluindo dois milhões de civis.

Cerca de 60 militares norte-americanos mortos, grande parte negros e latino-americanos. Foram gastos 220 mil milhões de dólares. Calcula-se que, para matar um vietcong, os Estados Unidos gastaram 675 mil dólares.

Foram transportados 10 milhões de americanos em aviões comerciais.

Foram utilizadas 15,35 milhões de toneladas de bombas.

Ainda hoje morrem vietnamitas, vítimas de minas e bombas não deflagradas. Desconhecem-se quantas minas, bombas e obuzes continuam por explodir.

ROBERT DUVALL (1931-2026)


 Aos 95 anos, morre Robert Duvall.

VELHOS RECORTES


 Público, 2 de Julho de 2021

POEMA

Um sábio

não sabia fumar cachimbo

mas a mulher do sábio sabia

quando o sábio chorava
por não saber fumar cachimbo
a mulher do sábio sorria

e assim durante meses e anos

até que
no dia em que o sábio sabia que morria
não disse à mulher que sabia

por isso quando ele chorava
a mulher do sábio sorria

 

António José Forte