O Marinheiro de Gibraltar
Marguerite Duras
Tradução: Isabel
de St. Aubyn
Capa: José
Antunes
Círculo de
Leitores, Lisboa Dezembro de 1989
O Verão angustiava-me. Era certamente o desespero de nunca conseguir viver de acordo com ele.
O Marinheiro de Gibraltar
Marguerite Duras
Tradução: Isabel
de St. Aubyn
Capa: José
Antunes
Círculo de
Leitores, Lisboa Dezembro de 1989
O Verão angustiava-me. Era certamente o desespero de nunca conseguir viver de acordo com ele.
Existe
a velha ideia de que se não fossem os irlandeses não tinham romancistas, nem
poetas, nem músicos, nem realizadores de cinema.
Deixemos
Shakespeare, ou os beatles de fora do eventual exagero da citação.
Van
Morrison é um irlandês, nascido em Belfast, que é da minha idade e de que gosto
muito.
São
dele as canções que entram hoje ma Música desta Manhã.
Tive
a grande oportunidade de o ouvir, em 22 de Julho de 2023, no Cascais Cool Jazz.
Das
citações.
A
opinião de Eduardo Prado Coelho:
«Citas muito, dizem.
Sempre foi assim. Como explicar? Não se trata nem do uso de argumentos de
autoridade nem de exibicionismo cultural. Mas incomoda, eu sei, e permite que
se insinue que se não pensa pela própria cabeça, ou que se vive alimentado
pelas modas «que vêm do estrangeiro».
Gostaria de tornar bem
claro como o gosto da citação tem a ver com um amor intenso das palavras. Por
vezes, citação que excita pela convicção de que alguém encontrou um dia as palavras certas –
isto é, os nomes próprios – para dizer algo que em nós foi
expressão confusa e enrodilhada. Aqui a citação tem um efeito de
evidência. Que é sempre, acreditem, motivo de júbilo.
Por outro lado, a
citação é um incitamento. Porque retirar as palavras de um contexto (a
citação faz um desvio) é criar em torno delas um halo de silêncio, um anel
de referências implícitas, que abre o espaço para dizer mais. O espaço
off de uma citação é um convite para se pensar. A citação condensa, mas
ao mesmo tempo indecide – efeito de descontextualização.»
Por
mim, sempre tive a ideia se há alguém que diz as coisas melhor do que eu digo,
não hesito: cito.
São
diversos os comentários que leitores fazem às muitas citações que Ana Cristina
Leonardo faz nas crónicas que publica no Público.
Na crónica de ontem a autora entendeu que era hora de escrever sobre o assunto.
Deste modo:
«Como alguns leitores terão provavelmente notado, gosto de citações (também
gosto de advérbios de modo, mas isso agora não vem a propósito). As citações
têm várias vantagens. Acima de tudo, poupam-nos trabalho. Além de nos pouparem
trabalho — benefício de monta para quem considera que o trabalho, além de mal
pago, está sobrevalorizado (caso, por exemplo, de Albert Cossery, autor, entre
outros, de Mandriões no Vale Fértil — trad. Júlio Henriques, Antígona,
3ª ed., 2022) —, permitem-nos expressar melhor ideias que, sem a elas
recorrermos, expressaríamos decerto pior.
Dirão alguns, em tom acusatório, que as citações não passam de uma bengala. Não
serei eu a contrariá-los. Faço apenas humildemente notar que, ultrapassada
certa idade, de uma maneira ou de outra, metafórica ou literalmente, uma
bengala dá sempre bastante jeito. Depois, há a síntese. Uma boa citação
permite-nos ir directos ao ponto. Sem palha. Com sorte, com elegância. E a
elegância, ao contrário do trabalho, anda bastante subvalorizada. Porque se é
verdade que Einstein não chegou à elegantíssima síntese E = mc² flanando
apenas, também é verdade que a hipótese (genialmente arrojada: não tenhamos
medo das palavras) de o tempo não ser uma medida fixa lhe ocorreu ia ele a
passar tranquilamente junto à Torre do Relógio em Berna. Por falar nisso, li
algures num livro, já não me lembro qual, que o biólogo e psicólogo Jean
Piaget, inspirado pelo físico, chegaria à conclusão de que as diferentes setas
do tempo em nada parecem estranhas às crianças: para elas, quanto mais depressa
correm, mais devagar o tempo passa. Lembrando Pessoa: “Grande é a poesia, a
bondade e as danças.../ Mas o melhor do mundo são crianças”.
Ocasionalmente, flanar e pensar pode ter consequências bizarras: umas vezes
cómicas, outras vezes trágicas. Tales de Mileto caiu num buraco, ao que se sabe
sem mazelas de maior, enquanto caminhava a observar as estrelas. Já ao filósofo
Francis Bacon, terá sido o empirismo a matá-lo. Envolvido em experiências sobre
congelação, ao cruzar-se em pleno Inverno com uma galinha, decidiu mandar
matá-la e enterrá-la na neve. O destino da ave perdeu-se, mas Francis Bacon
acabaria mesmo por morrer de pneumonia.
Chegado aqui, o leitor terá talvez concluído, e legitimamente, que, além de
citações e de advérbios de modo, também admiro muitíssimo uma boa história. Só
para dar dois exemplos: o chamado Antigo Testamento ou As Mil e
Uma Noites são fontes inesgotáveis. E para voltar às citações e à sua
defesa, e dado que me referi às escrituras hebraicas: e se afinal o Livro de
Eclesiastes estiver certo e não existir mesmo “nada de novo debaixo do sol”,
pelo menos para nós que, como Sísifo, empurramos ciclicamente a mesma pedra, revoltados
de quando em vez?
Albert Camus, o autor da célebre abertura de O Mito de Sísifo — “Só há
um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio. Julgar se a vida
merece ser ou não vivida é responder à questão vital da filosofia” (uma
daquelas frases que comprovam sobremaneira que “o começo de um livro é precioso”)
—, não escolheu o suicídio ante o absurdo. Morreria prematuramente e de maneira
absurda num acidente na estrada, durante uma viagem de automóvel em que decidiu
participar apenas ao último minuto. Já cá não está para nos ajudar a decidir
sobre a revolta, mas quando se tropeça por acaso em Loretta, as decisões mais
recentes do Parlamento Europeu (PE), rasurando a palavra “mulher” só parecem
comprovar, senão os trabalhos de Sísifo, decerto a longevidade do absurdo.»
A prosa sobre citações já vai
longa, mas não resisto a terminar colocando o comentário de uma leitora na
edição do Público de ontem:
«Gosto de citações, remetem- nos para obras que podemos desconhecer e aprendemos e, por outro lado, é uma homenagem. Não vejo nisso qualquer problema. É preciso ter lido muito para as tornar oportunas e nisso a Ana é exemplar.»
A vida hoje é outra, a História segue o
seu caminho e muita gente há que corre atrás desse comboio só para arranjar
lugar na 1ª classe. Nós preferimos fazer parte daqueles que melhoram a via para
que o comboio não descarrile.
Autor desconhecido
Enquanto escrevia o seu
longo poema satírico – Quybyrycas, prefaciadas por Jorge de Sena –, mais
longo que os Lusíadas, tinha fixado na parede um gráfico em que mostrava o
progresso diário do poema, em estrofes concluídas. Tanto o Quadros, pintor,
como o Grabato Dias, poeta, se consideravam, orgulhosamente, simples operários.
O preço dos quadros que vendia nada tinha a ver com a enorme reputação de que
já então desfrutava: era rigorosamente calculado em função do número de horas
de trabalho investidas na obra. Preços dignos, mas razoáveis.
Termino com uma
passagem da homenagem que lhe prestei nas minhas memórias:
“Como poeta, como pintor, como fazedor, como criador, como intrépido desvendador de territórios ignotos, António Quadros foi um dos raros génios que tive o privilégio de conhecer, em vida. Não me apetece, neste caso, estar com cuidado a medir as palavras: disse “génio” e disse bem”.»
Eugénio
Lisboa, JL, 23 de Setembro de 2020.
1.
Segundo a DECO o preço do cabaz alimentar está a aumentar desde o início de
2026, na semana passada bateu o recorde dos últimos quatro anos e é provável
que, em consequência dos prejuízos causados pelas tempestades, o valor ainda
suba mais.
2.
Bonito,
bonito é preparar a festa
Gratificante,
gratificante é nela participar.
Claro
que depois há a nostalgia do fim da festa, aquela tristeza cinzenta que fica
sempre no fundo das garrafas vazias.
3.
A
saúde é um estado transitório que não augura nada de bom.
4.
Em
qualquer parte do mundo há sempre alguém à espera de um livro, de uma canção,
de um filme que cure a violência e a solidão.
5.
Praticamente,
durante largas dezenas de anos, fomos governados pelo PSD e pelo PS.
Sabe-se
que ambos os partidos não estão puto interessados no país. Ambicionam o poder
para poderem dar empregos e mordomias para os jotinhas que vão criando
nas suas sedes.
6.
Uma
idiossincracia dos miúdos é que só os nossos é que prestam, Os dos outros não
passam de pastiches, réplicas ranhosas.
7.
O
mundo, esse continuou a girar em volta do sol, tal como Galileu tinha previsto.
Os sítios onde se guardam os livros, que são, como sabemos, impressos em papel, e que podem ter muitos, muitos anos, centenas alguns, têm todos um cheiro especial, que certas pessoas podem achar pesado, mas que a outras transporta imediatamente para dias e noites de leitura e de pesquisa. Nada se compara a um mergulho num livro, mesmo quando temos a sensação que muitas outras coisas poderíamos estar a fazer em vez de o ler. “Talvez não haja dias da nossa infância mais plenamente vividos que aqueles que julgamos deixar sem os viver, aqueles que passámos com um livro preferido”, diz-nos Proust, uma frase que eventualmente hoje terá uma ressonância muito diferente — quem são as crianças que hoje em dia passam tardes da sua infância a ler? Quem são os adultos que o fazem?
Guta
Moura Guedes de uma crónica no Expresso
dá-me amor
dá-me a folha de árvore
que guardaste na
algibeira
pelo menos
dá-me o descanso de
dormir
no meu próprio corpo
enquanto o pássaro
- qualquer pássaro –
deixa inesperadamente
de cantar
e repousa
enquanto o diálogo
o nosso diálogo
se interrompe para que
passem
as nuvens
nesse momento precisamente nessa ocasião
dá-me o teu silêncio
e perguntas
não me faças não me faças nenhuma
creio que agora é
inútil.
Mário-Henrique
Leiria em Poesia
Estudos Sobre Teatro
Bertolt Brecht
Tradução: Fiama
Hasse Pais Brandão
Colecção
Problemas nº 1
Portugália
Editora, Lisboa Março de 1964
O individuo é cada vez mais fortemente impelido a
comprometer-se nos grandes sucessos que transformam o mundo. Deixa de lhe ser
possível «exprimir-se» apenas. É solicitado a solucionar os problemas comuns e
posto em condições de o fazer. O erro reside, tão sòmente, em as engrenagens
não serem ainda, hoje em dia, da comunidade, em os meios de produção não
pertencerem aos produtores e em se atribuir ao trabalho um carácter mercantil,
sujeitando-o às leis gerais da mervadoria. A arte é, pois, uma mercadoria; sem
meio de produção (engrenagem) não seria possível produzi-la! Uma ópera só pode
ser feita para a ópera.
Gestos,
apenas
gestos. A minuciosa ternura
posta
nas coisas imediatas,
nas
que duram contra a noite,
nas
que acendem lâmpadas precárias
e
contêm o silêncio, o silêncio,
como
se música fossem
e
nela nós viéssemos
perder.
Gestos,
tu
ouves?
Nem
o teu coração pode dar guarida
a
tanto silêncio da terra.
Se
agora mesmo devagar nos anoitecesse
e
se, mergulhados numa aguda nostalgia
ou
na recordação de um rosto,
nos
desencontrássemos do mundo,
só
esse gesto viria resgatar-nos,
a
nós, feridos de amor e de sentido.
Por
isso, hoje só posso dizer
o
que o teu coração abandonou.
Luís Filipe Castro Mendes em Poemas Reunidos
Na
crónica que publicou no Expresso de 29 de Julho de 2022, João Paulo
Martins, no ponto 2 da sua crónica sobre o Verão e os seus vinhos, não quis
deixar de homenagear «a grande senhora da nossa gastronomia»:
1. Em época de canícula as bebidas
frescas são as que nos sabem melhor. Apesar de eu ser grande apreciador de
Espumantes/Champanhes, tenho que reconhecer que o calor excessivo obriga os
enófilos a uma certa contenção no consumo. A primeira razão é que não se
combate a sede com vinho mas sim com água e, no Verão, com muita água mesmo,
para evitar desidratações que, dizem os médicos, nos podem afectar
terrivelmente sem darmos por isso. Por isso, pelo sim pelo não, vamos assumir,
no mínimo, meio litro de manhã e outro tanto à tarde. Não só não custa nada
como nos tira a sede. E é sem sede que podemos melhor apreciar o vinho,
sobretudo a acompanhar a refeição, como é nossa tradição em Portugal.
Convenhamos que há outras bebidas refrescantes como a limonada, à qual
deveremos juntar muito pouco (ou nada, mesmo) de açúcar. Se tiver uma Bimby
fará uma limonada em três tempos sem qualquer dificuldade. O Verão é também
associado com long drinks, como o gin tónico. Esta é, por excelência, a bebida
do fim de tarde após regressar da praia. Pode também escolher um Porto tónico
ou um menos falado mas também muito bom, Porto rosé com muita hortelã e água
tónica. O moscatel também se presta a vários cocktails. No caso dos brancos e
rosés é indispensável ter um balde de gelo perto da mesa porque o vinho
aquecerá num instante; use também o mesmo balde de gelo para refrescar o tinto
que isso do tinto à temperatura ambiente já era…E o generoso do final da refeição
também agradece se for servido fresco.
2. Não quero deixar de prestar aqui a minha homenagem a Maria de Lourdes Modesto, uma grande senhora da nossa gastronomia (termo que lhe era caro e ficava muito irritada quando se falava em «gastronomia e vinhos», já que, defendia ela, gastronomia, por si, já inclui os dois temas. Conversadora, sempre muito crítica em relação ao que via, ouvia e provava, sempre a refilar com os menus degustação porque, argumentava, «chego ao fim e não me recordo do que comi, tal foi a quantidade de coisinhas que me serviram…». Gostava de ralhar com os Chefes mas a verdade é que todos tinham por ela um especial carinho. E, em visitas (várias) com direito a chá e bolinhos na sua casa do Estoril, troquei com ela livros e receitas, eu sempre a aprender, claro, e ela sempre muito disponível para conversar e trocar ideias. São pessoas assim que fazem o nosso percurso de cozinheiros amadores, que nos inspiram e nos dão vontade de continuar a eterna descoberta de um novo sabor, uma nova combinação, um ingrediente-surpresa ou um twist, como agora é uso dizer-se. Ela era apreciadora de vinhos e fazia questão de ter os guias que iam saindo, sempre atenta às sugestões que lhe chegavam. E eu, que me recordo dela na televisão nos anos 60, sou um felizardo por ter tido a oportunidade de estar perto de tão ilustre personagem da nossa história recente. Comer bem e saber comer será a melhor homenagem que lhe podemos fazer.
Uma Época no Inferno
Jean-Arthur
Rimbaud
Versão
Portuguesa, prefácio e notas de Mário Cesariny de Vasconcelos
Colecção
Documento Humanos nº 9
Portugália
Editora, Lisboa, Junho de 1960
Outrora, se estou bem lembrado, a minha vida era um
festim em que todos os corações se abriam, em que todos os vinhos cintilavam.
Uma noite, sentei a Beleza nos meus joelhos.
E vi que era amarga. E injuriei-a.
Armei-me contra a justiça.
Fugi. Ó feiticeiras, ó mistério, ó ódio, éreis vós a guarda
do meu tesoiro?
Consegui destruir em mim toda a esperança. Contra toda
a alegria lancei o bote cego da besta feroz. Estranguladas!
E chamei os carrascos para morder, na agonia, a
corunha dos fuzis. Conjurei as pragas para sufocar na areia, mergulhar em
sangue. O infortúnio foi meu vero deus. Estiracei-me na lama. Sequei ao ar do
crime. E preguei boas partidas à loucura.
E a primavera trouxe-me a terrível risada do idiota.
As
imagens publicadas pelos média são fortes.
Os números são ainda mais claros:
Porque isto não é um “acidente isolado”.
É
a demonstração de que crise climática e vulnerabilidade da nossa sociedade
andam de mãos dadas.
Quando centenas de milhares de pessoas ficam sem casa e sem luz, o impacto é económico, social e sistémico.
Estamos a investir o suficiente para proteger linhas, postes e subestações contra eventos extremos?
Como é possível uma catástrofe desta dimensão num país vizinho ter tão pouco eco no debate público em Portugal?
A
transição energética já não é só sobre produzir energia limpa.
É, cada vez mais, sobre manter a luz acesa quando o clima testa os limites da engenharia.
Vale
a pena ler o artigo do Le Figaro.
A segurança energética europeia é muito mais frágil do que gostamos de admitir.
Pergunta
para debate
Estamos a preparar a nosso País para o “novo normal” climático — ou continuamos apenas a reagir depois do choque?
Nota: este
texto é de um colega meu.
Pareceu-me
interessante.
Colaboração de Rui Ornelas
Mandar os portugueses entregarem os fogões e aquecedores a gás para os substituir por aparelhos a electricidade, nunca pareceu uma medida acertada.
mas que memória
podemos ter
de nós?
e de qual tempo?
deste tempo exterior
em que
depois de criados
e decifrados
os consensuais alfabetos
da exploração
da vida
chegou o projecto Stardust
com material inalterado
desde o início
do sistema solar,
que não nos diz
se então já havia actos de amor
e portanto
não nos diz nada (?)
é preciso emparedar o
demente
que propõe que podia haver
o que não há.
e outros
como ele.
acham-se todos
cada vez mais
perdidos
no meio do próprio ruído,
carregando
males
e mails
como se a diferença
entre ambos estes termos
não fosse
apenas o espaço
de uma ou outra letra,
e a ressonância
da voz do homem
que treme fora como a terra dentro.
Alberto
Pimenta
Para
preparar um texto sobre os cafés de Lisboa, de que José Gomes Ferreira foi
assíduo frequentador, dei com uma entrada do 4º Volume dos Dias Comuns,
referente ao dia 2 de Maio de 1968, em que o Zé Gomes assinalava o número
especial da Seara Nova que registava os 50 anos da sua actividade
literária, deste modo:
«O
Fafe proclama: «José Gomes Ferreira é o meu maior amigo! José Gomes Ferreira é
o meu maior poeta».
Comoveu-me.
(Sintoma de velhice?)
Por
fim, José Saramago que mal conheço, termina assim o seu depoimento: «Ao lado da
poesia de José Gomes Ferreira está o poeta que ele é: parece um pleonasmo, uma
redundância, talvez um lugar-comum, um dizer-por-dizer. Pois muito se engana
quem o julga.»
O que é curioso é que, àquela data quase se desconheciam («José Saramago que mal conheço»), («José Gomes Ferreira a quem mal conheço, a quem nada devo senão a alegria e o conforto de o admirar»).
José
Gomes Ferreira morreu a 8 de Fevereiro de 1985.
José
Saramago ganhou o prémio Nobel em 1998.
De
certeza garantida o Nobel teria dado uma enorme alegria ao Zé Gomes.
Fica
aqui o depoimento de José Saramago sobre José Gomes Ferreira publicado na Seara
Nova nº 1471, referente a Maio de 1968:
Fomos
em busca do depoimento que José Saramago escreveu para a Fotobiografia
de José Gomes Ferreira, organizada pelo seu filho mais velho, Raúl Hestnes Ferreira
Para a cópia que reproduzimos, servimo-nos do aquivo da Fundação José Saramago:
«Em
Maio de 1973, o suplemento literário do jornal Diário de Lisboa publicou
uma entrevista ao poeta José Gomes Ferreira (Porto, 1900 – 1985). Décadas
depois, José Saramago escreveria um texto contando que fora ele o autor dessa
entrevista que não aparecia assinada. Contou também lembranças e os
ensinamentos que guardava daquela conversa realizada há 50 anos.
José
Saramago no papel de entrevistador
Saber
a idade que José Gomes Ferreira ia cumprindo era facílimo, só tínhamos de
pensar nos algarismos das unidades e das dezenas do ano em que estivéssemos.
Mas era difícil acreditar que em 1973, por exemplo, ele já enchera 73 anos de
vida. Podia-se admitir, sem demasiada discussão, que aquelas rugas, por serem
as cabidas, e aqueles cabelos, por terem branqueado, mais ou menos concordassem
com o registo do calendário, mas isso era só enquanto elas repousassem e eles
esperassem o vento que infalivelmente os haveria de revolver. Então os números,
os da idade e os do ano, desandavam, corriam velozmente para trás, e em menos
tempo do que leva a contá-lo transfigurava-se o José Gomes Ferreira, tornado
outra vez em homem novo, em adolescente entusiasta pronto a correr ao Batalhão
Académico Republicano para realistar-se, em menino a olhar fascinado o deslizar
de uma gota de água na vidraça, e sempre, em todas as circunstâncias, iluminado
por aquele fundo de incorruptível e desconcertante inocência que iria ser, por
toda a vida, a sua mais leal companhia.
Não
foi casualmente que mencionei acima o ano de 1973. Trabalhava então na redação
do Diário de Lisboa, onde, além de exercer a espinhosa e
labiríntica função de opinante em tempos de censura, me esforçava, creio que
com alguma ventura, por coordenar e fazer publicar todas as semanas as
dezasseis páginas de um suplemento literário. Fiquei a dever essa fortuna a
quantos colaboradores, em muitos casos por simples gosto pessoal, ou a câmbio
de remunerações insignificantes que só o mesmo gosto lograva tornar aceitáveis,
generosamente me abasteciam de material obviamente variável na qualidade, mas
sempre empenhado, e por mim agradecido. A par dos habituais artigos e críticas,
a par dos ensaios, dos poemas, dos contos, o suplemento literário daquele desaparecido Diário
de Lisboa foi também palco de algumas das mais suculentas polémicas da
época… E, claro está, havia as entrevistas. Em geral, por falta de tempo,
sobretudo por falta de jeito, não era eu a fazê-las, mas alguma forte razão,
que sou agora incapaz de recordar, me levou a chamar a mim a responsabilidade
de entrevistar o José Gomes Ferreira. Que as minhas artes de entrevistador não
eram de extremos, ficou logo demonstrado na calina questão inicial que hoje me
faz encolher de vergonha: “Tem algum método de trabalho?”, foi a pergunta. À
batida ridiculez da questão quis o poeta responder com paciência exemplar, a
paciência de quem já tinha visto e ouvido muito do mundo. Disse ele: “Com mais
de meio século de vida literária tive, como é óbvio, não um, mas vários métodos
de trabalho. E até um método de preguiça com que construí as linhas
fundamentais do meu trabalho literário. Pois nos anos de 20, de 30, de 40,
etc., trabalhava num ofício que poucos contactos tinha com a literatura,
agarrado a uma moviola de escravo. A minha vocação de escritor, que só à custa
de muitos sacrifícios e teima consegui preservar, exerci-a nos intervalos desse
trabalho, aproveitando a preguiça das horas de descanso para rabiscar papéis,
papelinhos e diários, sempre com a sensação de que estava a roubar tempo e
dinheiro ao meu bem-estar e ao da família. Era, em resumo, um escritor de Horas
Roubadas. Valia-me também o mês de férias anuais em que tentava pôr em ordem os
versos rabiscados durante o ano, ou cumprir alguma encomenda que ousava muitas
vezes aceitar com uma coragem que ainda hoje me deixa pasmado.
Por
exemplo, o prefácio às Folhas Caídas de Garrett escrevi-o em
quinze dias de férias passadas em casa do João Cochofel, no Senhor da Serra”.
“E hoje?”, perguntei, surpreendido por tal abundância de informação em troca da
mais corriqueira das perguntas.
“Bem.
Hoje abandonei a moviola, estou reformado, vivo quase exclusivamente dos livros
e das minhas colaborações nos jornais e fui obrigado a estabelecer um método de
trabalho adaptado à minha idade, sem horários, claro. (Mesmo nos tempos do
trabalho-tortura sempre me defendi dos horários.) Actualmente o meu método
resume-se a evitar escrever de noite, para escapar às insónias. Não tive outro
remédio senão habituar-me a trabalhar de manhã, servindo-me, como já disse, dos
materiais que reuni pacientemente durante os árduos anos de preguiça. À tarde,
leio, converso com os amigos nos cafés, visito os editores e à noite volto a
ler e, às vezes, até a jogar as cartas, para me deitar o mais tarde possível.
Pois contínuo a ser noctívago, embora transpusesse as vagabundagens para o
corredor da minha casa onde ando quilómetros e quilómetros de ruas desertas
imaginárias”..
A
pergunta que lancei a seguir – “Obedece ou cumpre conscientemente qualquer
ritual que considere propiciatório do trabalho?” – continha a menos original de
todas as curiosidades possíveis, certas e prováveis, mas foi tão generosamente
atendida como a primeira: “Rodeio-me de livros, de pastas, de apontamentos, de
Diários, de cadernos, de improvisos e todo esse caos de papel de que lhe falei
e donde arranco, ou tento arrancar, as linhas harmónicas da criação do meu
mundo. Porque, como sabe, o que é difícil é criar o caos. Aliás, nos últimos
tempos, ensaiei um novo método de criá-lo. É o que eu chamo, no calão íntimo do
meu laboratório-oficina, a planificação da cabeça. Assim: estendo na mesa uma
folha de papel de máquina e começo a cobri-la, ora em linha recta, ora
obliquamente, umas vezes em baixo, outras ao lado, palavras, frases, desenhos
mal feitos, pensamentos, ideias, tudo o que me acode à cabeça, que ligo,
desligo, formo, deformo e risco, até apurar não sei o quê, quase sempre coisa
nenhuma. Porque o que este jogo tem de mais fascinante é o parecer que não
serve para nada, pelo menos imediatamente. Só mais tarde, quando junto esses
mapas e os analiso, descubro coisas extraordinárias que me sugerem ideias
importantes. Flores incríveis enrodilhadas num silvado de teias de aranha
incoerentes que depois simplifico em frases e versos aparentemente fáceis.
Planificar o cérebro – eis a minha última descoberta”.
Percebia
que para José Gomes Ferreira as questões propostas lhe eram de certa maneira
indiferentes, que poderiam ser repetitivas, aventureiras, ingénuas, mesmo
absurdas, ele se ocuparia de que as respostas lhes dessem sentido. “Emenda,
reescreve, ou fixa-se na forma original? Por outras palavras: é um elaborador,
ou um impulsivo?” perguntei. E ele respondeu: “Como se subentende do que já
disse, sou ao mesmo tempo um impulsivo e um elaborador.
Improviso
em rajadas, nos tais papelinhos. E depois trabalho-os com afinco paciente e
teimoso, às vezes durante anos. Sim. Corto, emendo, reescrevo, copio, recopio.
E até às vezes conservo religiosamente a forma inicial. Sem tocar na mínima
palavra para não desmoronar o poema. Gosto também de trabalhar em coisas
diversas na mesma ocasião. Agora, por exemplo, publicada a Poesia-V, em que o
século vinte continua a viajar em mim, preparo quatro livros. A Poesia-VI, que
encerrará porventura o meu ciclo poético, O Sabor das Trevas, longa narrativa
alegórica, Gaveta de Nuvens, compilação dos meus escritos de aparência crítica,
e Face em espelho torto, biografia inexacta de um homem exacto. O Sabor das
Trevas já vai na segunda versão. É um livro difícil. Uma espécie de João Sem
Medo nocturno numa atmosfera insólita de realismo fantástico”.
Para
não variar, a pergunta seguinte – “Considera que progrediu desde que começou a
escrever?’» também viria a ser salva pela resposta: “Como é natural, a experiência
da vida enriqueceu-me (a outros empobrece) e, sentindo-me mais rico, a minha
linguagem de raiz barroca simplificou-se, embora cada vez escreva com mais
dificuldade e suor. Mas (em arte não há progresso, há às vezes traição)
continuo basicamente o mesmo de sempre, a cantar o que me apetece, ou o que
possa apetecer-me cantar, cada vez mais livre e ajustado à minha sinceridade”.
“Mas há quem o considere sectário…”, insinuei, e logo a resposta: “Nunca o fui
nem sou. A não ser que se queira chamar sectarismo à intransigência e
fidelidade visceral ao que há de mais profundo em mim mesmo: ao que penso, ao
que sonho, ao que desejo, ao que não acredito…”.
Continuou a ser assim, sempre, na Revolução, depois dela, até aos últimos dias de vida. Numa carta datada de 23 de Abril daquele ano e referindo-se a esta entrevista, pedia-me insistentemente que recomendasse aos revisores do jornal que não lhe tirasse o não das palavras finais. Ele lá sabia porquê…»
Deixei em casa
a palavra lua, a
palavra flor, a palavra pássaro
e desci as escadas
já com o emperro dos
dias
de máquina vã
No patamar
uma garrafa de leite
- pequeno monstro
branco de sentinela
o mau hálito luminoso
da manhã
José
Gomes Ferreira em Poeta Militante, 3º volume
Um Governo enrolado na tempestade
As próprias medidas iniciais anunciadas pelo Governo no célebre Conselho de
Ministros extraordinário, que ocorreu cinco dias depois da tempestade Kristin ter
varrido a zona centro, não são exactamente como Montenegro as comunicou ao
país.
O prometido Lay-off pago a 100% não existe: o Estado, afinal, só irá pagar dois
terços do salário.
O pagamento imediato de dez mil euros para a reconstrução de telhados mediante provas fotográficas não é bem assim: até cinco mil euros o pagamento é facilitado, mas entre cinco a dez mil euros exige vistorias e o dinheiro poderá demorar duas semanas a ser entregue.
Lê-se no editorial, de hoje, do Público, assinado por Helena Pereira
Louis Aragon
Tradução e nota
Preliminar: João José Cochofel
Colecção das
Três Abelhas
Publicações
Europa-América, Lisboa, Março de 1966
Nada nesta vida
é exactamente como se imagina. Não sei, na verdade, se Deus dispõe quando o
homem põe. De todo o coração gostaria de me tranquilizar, a capacitar-me de que
assim é. Mas, então Deus dispõe de modo bastante estranho…
O
QU’É QUE VAI NO PIOLHO?
(Publicado em 18 de Abril de 2011)
Numa das cenas mais fortes – e elas são tantas - de "Apocalypse Now", esse extraordinário filme de Francis Ford Coppola, (1979), sobre a intervenção norte-americana no Vietnam, um coronel de cavalaria (espantoso Robert Duvall) diz para os soldados que o rodeiam:
“Adoro o cheiro a napalm pela manhã. Tem o cheiro da vitória.
Enquanto
monologa com os soldados que o rodeiam, os helicópteros atacam e destroem uma
aldeia vietnamita ao som da “Cavalgada das Valquírias” de
Wagner.
De
cócoras, em tronco nu, para além do cheiro a “napalm”, o coronel louco,
disserta sobre a onda perfeita para praticar “surf”.
A loucura, os ensandecidos personagens de uma guerra cruel, exemplarmente caracterizados e denunciados por Coppola.
Como é que um povo de anões conseguiu derrotar o poderio bélico dos Estados Unidos.?
“Empenhamos, nesta guerra, o nosso poderio e a nossa honra nacional, o Presidente Johnson em 1965.
Em Março de 2002, centenas de horas de conversas, gravadas na Casa Branca, foram tornadas públicas. Como esta de Richard Nixon com Henry Kissinger, seu secretário de Estado:
“Nixon: Mais valia usar
a bomba atómica no Vietname.
Kissinger: Isso, julgo,
seria ir longe demais.
Nixon: A bomba atómica
perturba-o? A única coisa em que nós discordamos é sobre os bombardeamentos.
Você está tão preocupado com os civis e eu estou-me bem nas tintas. Não me
interessa isso.
Kissinger: Preocupo-me com os civis porque não quero que o mundo se mobilize a acusá-lo de ser um carniceiro. Podemos ganhar a guerra sem matar civis.”
Cerca
de três milhões de vietcongs mortos, incluindo dois milhões de civis.
Cerca
de 60 militares norte-americanos mortos, grande parte negros e latino-americanos.
Foram gastos 220 mil milhões de dólares. Calcula-se que, para matar um
vietcong, os Estados Unidos gastaram 675 mil dólares.
Foram
transportados 10 milhões de americanos em aviões comerciais.
Foram
utilizadas 15,35 milhões de toneladas de bombas.
Ainda
hoje morrem vietnamitas, vítimas de minas e bombas não deflagradas.
Desconhecem-se quantas minas, bombas e obuzes continuam por explodir.
Um sábio
não sabia fumar cachimbo
mas a mulher do sábio
sabia
quando o sábio chorava
por não saber fumar cachimbo
a mulher do sábio sorria
e assim durante meses e
anos
até que
no dia em que o sábio sabia que morria
não disse à mulher que sabia
por isso quando ele
chorava
a mulher do sábio sorria
António
José Forte