sexta-feira, 26 de novembro de 2021

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Dito já que começaram as iniciativas que visam registar o centenário do nascimento de José Saramago, acrescenta-se que irei pegando num qualquer livro de José Saramago e copiarei dele uma frase, um parágrafo, aquilo que constitui os milhares de sublinhados que, ao longo dos muitos anos de leituras, invadiram os livros de José Saramago que habitam a  Biblioteca da Casa.

 

Pego hoje em A Noite, a estreia de José Saramago como dramaturgo:

«Como pude eu escrever uma peça? Aí está uma questão para que ainda não fui capaz de encontrar resposta e que eventualmente a crítica repetirá, não já em todos os tons, mas naqueles só que exprimam decepção, azedume, contrariedade vária ou ironia.»

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de uma entrevista ao semanário Sete, 16 de Maio de 1979.

José Saramago escreveu A Noite para Luzia Maria Martins, que dirigia a Companhia Teatro Estúdio de Lisboa, sedeada no Teatro Vasco Santana, na antiga Feira Popular, em Entrecampos.

Possivelmente, por falta de apoios financeiros, Luzia Maria Martins não conseguiu avançar com o projecto. 

Será Joaquim Benite, com a Companhia do Teatro de Campolide, que em Junho de 1979, no Teatro da Academia Almadense,a levará à cena.

Como primeiro sublinhado fiquemos com as palavras que José Saramago escreveu para a contracapa do livro:

«A noite de que neste livro se fala é a de 24 para 25 de Abril de 1974. Aqui se diz algum pouco do que aconteceu ou podia ter acontecido por trás das janelas iluminadas das redacções e das tipografias, enquanto na rua o regime fascista principiava a cair. Entram jornalistas de alto e baixo, tipógrafos, o director de uns, o administrador de todos. Não há retratos, mas talvez se encontrem retratos. Tal como na vida dos dias todos, uma gente é boa, outra ruim, outra não sabe o que seja nem sabe o que é. Estes são firmes, aqueles são fracos provavelmente porque nunca se lhes pediu a humana ousadia de o não serem. Não será uma história verdadeira, mas é, com certeza, uma história sem mentira.»

O  segundo sublinhado vai para a música que Carlos Paredes escreveu para a peça.

O terceiro sublinhado refere que o cenário é da autoria do pintor  António Alfredo.

Desse cenário escreveu Joaquim Benite;

«António Alfredo inventou um cenário que ocupava todo o teatro e que ligava o balcão (lugar imaginário da tipografia) ao palco (a redacção), através de um passadiço suspenso por fios de aço – lembrança dos meus tempos de “A República”, que inspiraram, de resto, também o gabinete do director, dominando a redacção, idêntico ao que o velho Artur Inês (quem é que se lembra dele?...) ocupava no jornal da Rua da Misericórdia.»

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